Civilização capitalista

Em seu artigo de hoje, 8-2, na Folha de S.Paulo (Tediosa reiteração), Luiz Gonzaga Belluzzo defende a tese de que a economia frágil no Brasil resulta do cenário externo. Embora, logo na primeira linha, ele afirme que a dicotomia ‘fatores externos vs. fatores internos’ “não parece adequada para avaliar o ambiente econômico em que tentamos sobreviver”.
Bom, não é preciso ser economista para saber que o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo José Sarney) –e ex-presidente do Palmeiras– tem razão. Há muito que toda economia minimamente desenvolvida não pode mais ser compreendida separadamente da economia global. Não é isso que se entende por ‘globalização’? (Na verdade, não se trata de um processo meramente econômico; todo processo sistêmico, como a economia ou a própria vida, é holístico. Mas essa é outra história.)
O diretor da Fecamp –e ex-presidente do Palmeiras– desenvolve a sua argumentação a partir da seguinte visão econômico-civilizatória:
O mundo de hoje foi construído pela relação entre quatro processos complementares: 1) a liberalização financeira que, desde os anos 80, submeteu os países às peripécias da movimentação desimpedida do capital-dinheiro; 2) o movimento da grande empresa manufatureira transnacional para ocupar espaços “competitivos”; 3) a centralização do controle do capital financeiro e produtivo à escala global; 4) as políticas dos Estados soberanos que buscavam empreender estratégias de desenvolvimento.
Esse parágrafo tão elucidativo quanto ambicioso é o que me interessa aqui. O professor titular da Unicamp –e ex-presidente do Palmeiras– caracteriza precisamente o processo civilizatório mais recente –a chamada globalização– como um processo eminentemente econômico. Acho que podemos concluir sem medo que a a civilização contemporânea é centrada na economia, mais precisamente, no acúmulo do capital.
A nossa civilização é o –capitalismo.
Talvez o nosso renomado economista não concorde com essa conclusão, que, de resto, é muito bem desenvolvida por Fábio Konder Comparato em A civilização capitalista (S.Paulo: Saraiva, 2013); mas, nesse caso, Luiz Gonzaga Belluzzo estaria apenas sendo inconsequente. Tal como o foi à frente do Palmeiras, o clube de futebol que ele levou à beira da falência e à segunda divisão.

Jornalista pira na batatinha

O jornalista Juca Kfouri publicou ontem, dia 5, no seu blog um comentário (O Rei pirou) sobre algumas frases que o Rei Pelé teria acabado de pronunciar. O texto do jornalista segue em negrito, e logo depois os meus comentários.

Pelé disse agora há pouco que “nós jogadores temos direito à segurança”.
Verdade: todo jogador tem direito à segurança, como todo cidadão; as “trucidas” organizadas acham que não, que jogadores não são trabalhadores nem cidadãos, mas alguma espécie de cruzado ou gladiador ou talvez mercenário. E os clubes milionários também não estão muito preocupados com a segurança de seus funcionários.
Mas ele deixou de ser jogador desde 1977, lá se vão 37 anos!
E daí? O Juca só está tratando do Pelé porque ele continua falando como (um eterno) jogador.
Tudo bem, digamos que é uma licença poética aceitável, para quem, calado, segundo Romário, é isso mesmo, poeta.
Licença poética é outra coisa. A hipérbole é perfeitamente compreensível.
Ele disse, também, que, no entanto, “não é hora de greve, é hora de faturar com a Copa” e que trabalhou “durante quatro anos pedindo votos para o Brasil” recebê-la.
Futebol é show business, e, como bom empresário, que, aliás, aprendeu apanhando, o Pelé sabe que o show não pode parar.
Pelé não trabalhou nem quatro segundos para tanto: o Brasil foi candidato único.
Como se fosse tão simples assim receber uma copa do mundo! O Juca devia explicar então por que o Brasil foi o único candidato. E por que um e outro país se prontificou a substituir o Brasil, caso este falhasse.
O pior ainda nem foi nada disso.
O pior foi ele dizer que não cabe protestar durante a Copa “porque o futebol não tem nada a ver com a corrupção no país”.
Ora, bolas! O Rei pirou de vez!
Onde andam João Havelange e Ricardo Teixeira, os dois maiores símbolos do poder de nosso futebol fora dos gramados? Por que estão escondidos?
Pois não foram as acusações do próprio Pelé, nos anos 90, que acabaram por ajudar a instalação das CPIs da CBF e do Futebol, na Câmara dos Deputados e no Senado?
O Pelé não disse que o futebol não é corrupto. Claro que é, e claro que ele sabe muito bem disso. Ele disse a verdade: o futebol não tem nada que ver com a corrupção endêmica deste país, contra a qual o povo tem protestado. A corrupção não de cartolas, mas de governantes, que não devolvem ao povo aquilo que lhe tiram a título de impostos e taxas destinados justamente a financiar as políticas públicas, que incluem sim o futebol entre outros esportes e lazeres.
Verdade que depois, no começo deste século, ele participou do infame “Pacto da Bola”, com alguns que acusou, Havelange e Teixeira entre eles.
Hum… por que te preocupas com o cisco no olho do outro, cara-pálida, e não com se tens uma trave no teu? Qual é o empresário que já não trabalhou com corrupto? O Juca não trabalhou na Abril, aquele bastião da moralidade nacional? E na Playboy e na Veja… pfui!

Eita, Edson, ainda bem que aquilo que Pelé fez em campo é impossível de ser manchado.
Eita Juca, por que você não vai aprender a escrever parágrafos de mais de duas linhas, antes de se meter em assunto de gente grande? Sim, a reputação de Rei do Futebol não pode ser manchada, mas a reputação de um jornalista qualquer é facilmente manchada. Para ser manchada, porém, é preciso antes que exista.
Por estas e por outras é que me afastei do futebol!

o poderoso chefão

Técnicos sofrem pressão de todos os lados, para vencer e pactuar com promiscuidade, disfarçada de modernismo

por TOSTÃO

NO FUTEBOL, a estratégia de marcação é mais importante que o desenho tático. Ela pode ser feita da faixa central à área adversária, do meio-campo até a própria área e de uma intermediária a outra. Se necessário, uma boa equipe deveria ser capaz de realizar os três tipos de marcação em uma mesma partida.

Como escreveu Paulo Emílio no seu livro “Futebol, dos Alicerces ao Telhado”, para fazer uma boa marcação, a distância entre o atleta mais avançado e o último da defesa não pode ser maior que a metade de todo o campo.

A marcação no campo do outro time é realizada geralmente pelas equipes que estão perdendo, quando o adversário tem um jogador a menos, é inferior ou não sai lá de trás. A marcação no próprio campo costuma ser feita pelas equipes inferiores ou quando o time está vencendo e passa a priorizar os rápidos contra-ataques.

A mais correta marcação é a de uma intermediária a outra. O time se torna mais compacto, não fica longe do outro gol e diminui os espaços para o adversário tocar a bola no meio-campo. Ela deve ser associada à marcação por pressão. O jogador não pode assistir ao outro dominar a bola a poucos metros de distância.
O time que pressiona e toma mais a bola se torna mais vibrante.

Futebol é uma união de emoção e de técnica. Times muito científicos e planejados se tornam frios, chatos e ineficientes.

Fazer uma boa marcação parece óbvio, simples e de conhecimento de quase todos os treinadores, mas não é o que se vê com freqüência na prática.

No Brasil, os zagueiros atuam normalmente muito atrás, e os atacantes, muito na frente, deixando um grande espaço no meio-de-campo para o outro time organizar as jogadas.

Os técnicos europeus são melhores do que os brasileiros para organizar uma equipe em campo, e os brasileiros são superiores para criar variações, observar, substituir e improvisar.

Assim como há brilhantes treinadores que sabem unir conhecimentos técnicos com a observação e a intuição, existem os que não se preparam cientificamente, como alguns ex-atletas, e outros, pseudocientíficos, que decoram fórmulas de estratégia, aprendem alguns chavões e saem por aí ditando normas e dando palestras.

Não é fácil ser um bom e correto treinador. Além de ter conhecimentos técnicos e táticos, ser um bom observador e saber comandar um grupo heterogêneo de atletas, os treinadores sofrem pressão de torcedores, da imprensa, dos clubes e de empresários, que tentam aliciá-los e empurrar seus atletas. Isso começa nas categorias de base.

Há um tipo de pressão, pouco falada, explícita ou não, que é a de dirigentes para o técnico escalar jogadores que podem dar lucro aos clubes. Os treinadores são hoje mais avaliados pelos lucros que dão do que pelos títulos.

Alguns técnicos entram nesse jogo dos dirigentes e ainda acham que isso faz parte do negócio futebol e do modernismo. Já existe até técnico-empresário. Luxemburgo quer ser treinador, gerente, participar de negociações de atletas, ter a chave do cofre e ser dono de tudo, o poderoso chefão. [FOLHA 12/12/07]

futebol e política

por REINALDO AZEVEDO


Tá, tá… Eu sei. O Corinthians perdeu. Havia muitos sãopaulinos na festa em que eu estava. Já conheço todas as piadas — embora o Tricolor tenha feito a sua parte para nos afastar da segundona. Fazer o quê? É literalmente do jogo. É claro que o primeiro responsável é o time mesmo, que é, convenham, sofrível. E há a barafunda que colheu a diretoria. Dizer o quê? Tenho alguma tentação de me sentir oprimido para saber como é esse prazer. Mas a vontade logo passa. Só penso em vitória e vingança… Os oprimidos querem compensações morais. Eu quero é ganhar.

Moro quase ao lado do Pacaembu. Passei por ali rumo à festa nos 15 primeiros minutos de jogo. O “nosso” povo — ou “meu povo” — ainda lotava as cercanias do estádio. Por que se torce e se resiste mesmo quando a vaca insiste em ir para o brejo? Por que eu me mantive corintiano se vi o time vencer um campeonato, pela primeira vez, só aos 16 anos, em 13 de outubro de 1977, depois de longos 22 anos, mesmo suportando a troça dos colegas, especialmente os palmeirenses? E, vá lá, até hoje, aquela expulsão de Rui Rei, da Ponte Preta, na final…

A primeira tentação é associar tal paixão à religião. Mas não é. Não se trata de nenhuma compensação mística ou entendimento superior da natureza humana. Nada. Reitero: ainda que perdendo, o que se quer é ganhar. Não há um compromisso com o insucesso. Talvez seja o mais perto que consigamos, os brasileiros, chegar de uma forma de convicção: “Eu sou isto; escolhi este caminho”. Sem acomodações, zonas cinzentas, áreas de acostamento. E, não obstante, o futebol brasileiro está dominado por uma estrutura ainda coronelista — que pode ser, como vimos, assassina. Nem isso leva um “crente” à apostasia.

É claro que nos ocorre a todos o óbvio: e se os brasileiros tivessem, em relação à política e à vida pública, essa mesma paixão convicta? Ocorre que, por mais canalha e politiqueira que seja a estrutura do futebol; por mais que a bandidagem também aí se mobilize para interferir no resultado, no mais das vezes, o jogo é pra valer. O que desmoraliza a política é a permanente marmelada. A torcida aceita até um time meio mequetrefe, mixuruca — desde que seja esforçado.

Lula, vocês fazem o desfavor de me lembrar o tempo todo, é corintiano. E, como sabemos, não é alheio ao futebol. É um traço de esperteza. E ele aprende com isso. Dando ou não show, um time tem de, em primeiro lugar, jogar para a sua torcida. E, vamos admitir, isso o Apedeuta faz muito bem. Não decepciona as suas bases. Qual é a base dos partidos de oposição? Quem não pode ser decepcionado? Qual é a torcida? Presumo que eles ainda não tenham essa resposta. E, sem ela, a chance de perder o jogo, mesmo para um time fraco, é bastante grande.