Drops de filosofia [5]

Idealismo e realismo
Do ponto de vista da gnosiologia (teoria do conhecimento ou epistemologia geral), o idealismo consiste naquela posição teórica ou tese segundo a qual o sujeito cognoscente constitui (determina ou condiciona) o seu objeto, enquanto o realismo consiste na posição teórica ou tese contrária, ou seja, naquela segundo a qual o objeto determina ou condiciona o sujeito. No primeiro caso, o sujeito é considerado ativo e espontâneo; no segundo, passivo e receptivo.
Do ponto de vista metafísico, idealismo e realismo são sinônimos. Assim, o idealismo platônico, por exemplo, consiste num realismo das ideias ou dos universais (universalia ante res).
§  Idealismo vs. Realismo
o   Metafísica/ontologia/lógica
§  Idealismo = realismo das idéias ou dos universais
·         Algum universal é real: Platão; Frege
§  Nominalismo
·         Os universais não são reais: Occam
o   Gnosiologia/epistemologia
§  Realismo
·         O objeto determina ou condiciona o sujeito
o   Sujeito passivo [receptivo]
§  Idealismo
·         O sujeito constitui [determina (realmente) ou condiciona (formalmente)] o objeto
o   Sujeito ativo [espontâneo]

função, conceito, sentido e referência

por THOMAS BLOMMAERTS

Esta breve introdução tem por objetivo apresentar a filosofia da linguagem de Gottlob Frege como apresentada nos papers ‘Funktion und Begriff’ (‘Função e Conceito’) e ‘Über Sinn und Bedeutung’ (‘Sentido e Referência’).

Enquanto dedicava-se a investigações em matemática e lógica, e talvez para fundamentar tais investigações, Frege desenvolveu uma filosofia da linguagem. Sua filosofia da linguagem teve tanto impacto, se não mais, quanto suas contribuições nos campos da matemática e da lógica. Seu paper seminal ‘Sentido e Referência’ tornou-se um clássico. Neste texto, Frege considerou dois grandes problemas de linguagem e notou, em cada caso, que não podemos dar conta do significado ou comportamento lógico de certas sentenças simplesmente com base na denotação dos termos (nomes ou descrições) na sentença. Um problema dizia respeito a asserções de identidade e o outro dizia respeito a sentenças subordinadas a outras sentenças, como em notícias proposicionais de atitudes (e.g. ‘Pedro disse que Thiago acredita na Santíssima Trindade’).

Para resolver tais problemas, Frege sugeriu que termos da linguagem deveriam ter tanto um sentido (Sinn) quanto uma referência (Bedeutung) ou denotação, como Bertrand Russell viria a chamar tal característica. Isso significa que ao menos duas relações semânticas são necessárias para explicar o significado dos termos da linguagem. Esta idéia inspirou pesquisa no campo por mais de um século e o sistema de Frege é considerado por muitos o último grande sistema filosófico a chegar a nós.

A motivação de Frege para escrever ‘Função e Conceito’ e devolver as noções de função (Funktion), conceito (Begriff), objeto (Gegenstand), sentido e referência etc. foi estabelecer um novo sistema de metafísica e filosofia da linguagem para clarificar seu trabalho anterior em Die Grundlagen der Arithmetik (As Fundações da Artimética), onde ele se devotou a refutar o formalismo na matemática e desenvolver uma teoria formal da aritmética, derivando-a da lógica (posição que tornou-se conhecida pelo nome logicismo).

‘Função e Conceito’ possui como papel primeiro esclarecer a definição obscura de função que figura no seu primeiro trabalho Begriffschrift (Conceitografia), e apontar que conceitos são um tipo especial de função. Criticando a definição de função usada por matemáticos por estar aberta à confusão quanto ao que significa e o que é significado, Frege chama à atenção o fato de que o argumento de uma função não é parte dela, mas combina-se com ela a fim de completá-la; a função é em si insaturada.

Tendo apresentado as noções revisadas de função e argumento, Frege passa a fazer um esforço com objetivo a apresentar uma noção mais inequívoca de valor. Ele define o ‘valor de uma função para um argumento’ como o resultado da completação de uma função com o argumento em questão. O paralelo entre o que significa e o que é significado é, neste caso, exato.

Frege passa então ao conceito muito importante de curso de valores (Wertverlauf); comparando duas funções como ‘x²’ e ‘x(x)’, ele atribui o mesmo curso de valores para ambas, já que qualquer argumento produzirá resultados idênticos para as duas funções. Isso não significa que as funções elas mesmas são idênticas, e é neste fato que a relevância do conceito está: ele introduz uma nova noção metafísica, que Frege considera ser indemonstrável (i.e. um princípio fundamental desta nova lógica).

O uso da noção de função por Frege apresenta outras extensões fundamentais. No Begriffschrift ele já usa os sinais ‘+’ e ‘-‘, e agora em ‘Função e Conceito’ Frege dá um passo ainda mais importante para uma transição do uso puramente matemático de função para um uso universal, incorporando os sinais ‘=’, ‘>=’ e ‘==2) = (5=<7)’ é verdadeira, pois os valores de ambos os lados da equação são idênticos.

Para validar uma equação tão curiosa, Frege sente a necessidade de introduzir as noções de sentido e referência de uma expressão. Colocado de forma simples, ‘2³’ e ‘4+4’ possuem a mesma referência, mas diferem em sentido, da mesma maneira que ‘2²=4’ e ‘2+2=4’ expressam pensamentos diferentes.

Para explorar melhor estas noções, Frege explica que o sentido de uma sentença (i.e. uma expressão que afirma algo) é o pensamento que é seu conteúdo e que é em si determinado pelos sentidos das partes constituintes da sentença. A referência de uma sentença, por sua vez, é seu valor de verdade; assim a referência de todas as sentenças verdadeiras é o Verdadeiro e a referência de todas as sentenças falsas é o Falso.

Finalmente, a conexão que Frege estabelece entre as noções de função e conceito é a seguinte: o valor de uma função como ‘x²=1’ é sempre um valor de verdade; para o argumento ‘-1‘ seu valor será o Verdadeiro, por exemplo. Portanto, Frege diz que podemos propor que ‘1’ cai sob o conceito de ‘quadrado de -1’. Assim, ele define conceito como uma função (e.g. ‘x é quadrado de –1’) cujo valor quando saturada por um argumento é um valor de verdade. A extensão de um conceito será então o conjunto de todos os objetos que caírem sob tal conceito.

Ao comparar a noção de extensão de um conceito com a noção anteriormente apresentada de curso de valores, percebemos a vantagem que a primeira possui de atribuir uma extensão a todos os conceitos possíveis, mesmo ‘unicórnio’ ou ‘maior número primo’: sua extensão é o conjunto vazio. Ao usar funções para designar a que a parte insaturada de uma sentença faz referência, Frege implica que os argumentos destas funções não são meramente nomes, mas objetos. O que são, então, objetos? Frege nos diz ser esta uma noção simples demais para poder ser explicada, mas conclui que objetos são simplesmente aquelas coisas que não são funções, já que uma expressão de um objeto não é insaturada.

Prosseguimos agora para ‘Sentido e Referência’, que apresentarei demasiado brevemente, ignorando boa parte da longa discussão sobre sentenças subordinadas a qual Frege dedica a maior parte da conclusão de seu paper, mas simplesmente a apontarei. Aqui, a motivação de Frege é apresentar em maior detalhe as noções de sentido e referência que figuraram no texto ‘Função e Conceito’ acima apresentado, além de responder a objeções as suas teses apresentadas anteriormente apenas en passant sobre estas noções.

Em ‘Sentido e Referência’, Frege diz que uma proposição de identidade pode ser informativa apenas se a diferença entre os sinais de cada lado da identidade corresponde ao modo de apresentação daquilo que é designado. Este modo de apresentação constitui o sentido do símbolo, e em uma identidade ambos os sentidos diferentes (e.g. ‘2³’ e ‘4+4’) apontam para a mesma referência (neste caso, ‘8’).

Por conseguinte, há três níveis na teoria da significação de Frege: símbolos, seus sentidos e suas referências. Usando símbolos nós expressamos um sentido e denotamos uma referência. Em uma linguagem ideal cada símbolo teria apenas uma referência, extinguindo toda a ambigüidade. Em nossa linguagem, porém, há até mesmo sentidos sem referência, ou seja, que se referem ao conjunto vazio (e.g. ‘unicórnio’). Frege classificou este último caso em uma nota de rodapé com o termo representação (Bild).

O sentido de uma palavra é o que entendemos por tal palavra, logo o sentido de ‘bucéfalo’ é o mesmo para todos aqueles que a compreenderem. M
as ao ouvir a palavra ‘bucéfalo’ há um processo de associação de imagens mentais que é essencialmente subjetivo. Frege chama esta imagem associada de idéia (Vorstellung), e é ela que difere quando proferimos a palavra ‘bucéfalo’ para um zoólogo, um historiador e um cavaleiro, por exemplo.

Como apresentado anteriormente, a explicação de Frege acerca da referência de uma sentença nos leva a concluir que esta é seu valor de verdade, já que este valor de verdade é a única coisa que pode nos preocupar acerca da sentença. Podemos tomar prazer em um poema épico apenas pelos seus sentidos e idéias que o mesmo engendra nas nossas mentes, mas a natureza científica da investigação nos faz procurar as referências.

Quando falamos de julgamentos (i.e. proposições, sentenças, asserções etc.), Frege explica que o passo do nível do pensamento (i.e. do sentido) para o nível do objetivo (i.e. da referência) já foi tomado. Um julgamento não é apenas a mera compreensão de um pensamento, mas sua aceitação (Anerkennung).

Tendo aceitado a suposição de que o valor de verdade de uma sentença é sua referência, e o fato de que o valor de verdade de uma sentença permanece o mesmo quando uma expressão nesta sentença é substituída por outra com a mesma referência (isso é atestado por um simples teste), Frege considera o caso no qual tal expressão contida em uma sentença é substituída por uma sentença inteira. Ele diz que o teste para a substituição de expressões vale o mesmo neste caso. A relevância desta situação onde sentenças subordinadas estão presentes é a questão das suas referências: é ela também, e sempre, um valor de verdade?

Frege dedica o resto de seu texto para demonstrar que, contrariamente à “regra” apresentada através do teste mencionado, a referência de uma sentença subordinada não é sempre um dos valores de verdade. Ele reconhece três categorias principais nas quais a regra não se aplica neste caso: 1) citações diretas; 2) citações indiretas; e 3) descrições definidas. Delinearei brevemente as duas primeiras e deixarei a terceira, que necessita maior discussão para demonstrar, ao leitor verdadeiramente instigado.

No primeiro caso reconhecido, de citações diretas, a referência da sentença subordinada não é seu valor de verdade, mas as palavras citadas. Por exemplo, em ‘Copérnico disse: “As órbitas planetárias são circulares”’, a referência de ‘As órbitas planetárias são circulares’ são estas palavras (i.e. símbolos), não seu sentido, nem sua referência.

No segundo caso, de citações indiretas, a referência da sentença subordinada é o que normalmente (i.e. se a sentença não fosse subordinada) seria considerado o seu sentido; Frege chama este caso de referência indireta. Um exemplo é: ‘Copérnico disse que as órbitas planetárias são circulares’. Ao ouvirmos alguém proferir uma sentença assim, o que entendemos é o pensamento segundo o qual as órbitas planetárias serem circulares, não as órbitas em si nem meramente as palavras que Copérnico articulou. Outros exemplos de referências indiretas são notícias de pensamentos, inferências, esperanças e outras atitudes similares, como foi esboçado na introdução desta apresentação.

Tanto ‘Função e Conceito’ quanto ‘Sentido e Referência’, embora principalmente o segundo texto, desde suas publicações em 1891 e 1892 respectivamente, vieram a ser tomados como dois dos textos mais importantes da moderna filosofia analítica. Juntamente com o resto da obra lógica de Frege, os textos aqui apresentados marcaram o nascimento de um novo campo de investigação filosófica, ou ao menos de uma nova maneira de aproximar problemas estes problemas.

Obras citadas
• Begriffsschrift, eine der arithmetischen nachgebildete Formelsprache des reinen Denkens, Halle a. S.: Louis Nebert. Traduzido para o inglês como Concept Script, a formal language of pure thought modelled upon that of arithmetic, por S. Bauer-Mengelberg em J. Van Heijenoort (ed.), From Frege to Gödel: A Source Book in Mathematical Logic, 1879-1931, Cambridge: Harvard University Press, 1967. Traduzido para o português como Sobre a Justificação Científica de uma Conceitografia, por Luís Henrique dos Santos em . Coleção Os Pensadores: Frege, São Paulo: Abril Cultural, 1980.
• Die Grundlagen der Arithmetik: eine logisch-mathematische Untersuchung über den Begriff der Zahl, Breslau: W. Koebner. Traduzido para o inglês como The Foundations of Arithmetic: A logico-mathematical enquiry into the concept of number, por J.L. Austin, Oxford: Blackwell, 1974. Traduzido para o português como Os Fundamentos da Aritmética, por Luís Henrique dos Santos em . Coleção Os Pensadores: Frege, São Paulo: Abril Cultural, 1980.
• ‘Funktion und Begriff’, Vortrag, gehalten in der Sitzung vom 9. Januar 1891 der Jenaischen Gesellschaft für Medizin und Naturwissenschaft, Jena: Hermann Pohle. Traduzido para o inglês como ‘Function and Concept’ por P. Geach em Translations from the Philosophical Writings of Gottlob Frege, P. Geach and M. Black (eds. and trads.), Oxford: Blackwell, 1980.
• ‘Über Sinn und Bedeutung’, em Zeitschrift für Philosophie und philosophische Kritik, 100: 25-50. Traduzido para o inglês como ‘On Sense and Reference’ por M. Black em Translations from the Philosophical Writings of Gottlob Frege, P. Geach and M. Black (eds. and trads.), Oxford: Blackwell, 1980. Para ler esta tradução on-line, cf. link: http://en.wikisource.org/wiki/On_Sense_and_Reference

Referências
•Michael Dummett, Frege: Philosophy of Language, London: Duckworth, 1973.
•Anthony Kenny, Frege: An Introduction to the Founder of Modern Analytic Philosophy, Oxford: Blackwell, 2000. [Speculum 21/9/05]