Assassinato da memória nacional

A Folha publicou hoje uma nota de repúdio, de minha autoria, a um artigo de Olavo de Carvalho. Abaixo, o original e, em seguida, a versão publicada:

“Lamentável a publicação, na seção Opinião da edição de hoje, 17-6-2014, do artigo ‘Assassinos da inteligência’, do jornalista Olavo de Carvalho. Esse autor defende a tese negacionista da ‘ditabranda’, que fere o senso comum e os direitos humanos. Afirma com todas as letras que o regime militar matou ‘400 terroristas’, ‘a maioria deles de armas na mão’, uma inverdade histórica que ofende os familiares das vítimas da ditadura, em particular, e os cidadão de bem, em geral. Não vejo como um artigo desses possa estimular o debate, e acho muito duvidoso que reflita alguma tendência do pensamento contemporâneo. A não ser que o anticomunismo raivoso, que confunde esquerda, esquerdismo, marxismo e comunismo, entre outras coisas, possa ser considerado pensamento.”

“Olavo de Carvalho defende a tese negacionista da ditadura, que fere o senso comum e os direitos humanos. Afirma com todas as letras que o regime militar matou ‘400 terroristas’, ‘a maioria deles de armas na mão’, uma inverdade que ofende os familiares das vítimas da ditadura, em particular, e os cidadãos de bem, em geral. Não vejo como um texto desses possa estimular o debate e acho muito duvidoso que reflita alguma tendência do pensamento contemporâneo.”

Velhas e aparentes

Em sua coluna (“Superar divisões“) na Folha de S.Paulo de hoje, 25-2, Vladimir Safatle começa falando das divisões internas à(s) esquerda(s). Mas termina, ao que parece, extrapolando a esquerda, ao comparar a esquerda progressista com a direita liberal.

Com efeito, Safatle acha irônico que, no Brasil, os liberais sejam contra as liberdades individuais. Diz ele:

[…] o Brasil, com suas idiossincrasias, é um país no qual os liberais são, no fundo, contra as liberdades individuais.
Por aqui, ser liberal é, via de regra, ser contra o aborto, criticar o casamento homossexual, desconfiar das discussões sobre o Estado radicalmente laico, ridicularizar o embate contra a destruição da vida privada na esteira do “combate ao terrorismo” e ser contra a legalização das drogas. Por essas ironias do destino, quem defende liberdade individual no cenário político-partidário brasileiro é a esquerda.

E eu, modestamente, acho irônico que o Safatle ache irônico essa conduta. Sim, porque, para o liberalismo, trata-se única e exclusivamente da “liberdade” econômica. O liberalismo, em geral, só defende a liberdade individual enquanto esta for compatível com a liberdade econômica, ou seja, com o livre funcionamento do mercado.

A “nova” direita brasileira mostra bem isso: seus membros são hiperliberais em termos econômicos e ultraconservadores em termos culturais, éticos e políticos. Quando se refere à liberdade individual, o liberal tem em mente a “liberdade” de escolher entre uma calça Lee e uma Levi’s, entre Coca e Pepsi, Globo e Record, Corinthians e Palmeiras, FHC ou Lula… já entendeu, não é, raro leitor?

Mas a ironia é maior ainda quando se considera que esse estado de coisas não é, de maneira alguma, uma “idiossincrasia” do Brasil, como alega Safatle. O conservadorismo dos liberais brasileiros é tão superficial e hipócrita quanto o progressismo da esquerda europeia, p.ex. Todos as liberdades mencionadas pelo professor da USP são compatíveis com a sociedade centrada no mercado, ou seja, com o capitalismo.

Não é por acaso, pois, que liberais conservadores se digam cristãos ao mesmo tempo que defendem a usura (os juros bancários brasileiros só podem ser justificados pelo risco… de morte!), e que esquerdistas progressistas defendam o aborto ao mesmo tempo que se dizem cristãos (como a dona Marta Suplicy, p.ex.).

O buraco é bem mais embaixo. Precisamos ir além dessas diferenças aparentes para encontrar a verdadeira raiz do problema. Safatle parece intuir essa necessidade quando conclui que tais

elementos do cenário nacional demonstram como há um rearranjo possível do espectro político, à condição de superar velhas dicotomias.

Superar as velhas e, embora violentas, aparentes dicotomias entre esquerda política (focada na luta de classes) e esquerda libertária (centrada na ecologia), bem como entre a esquerda e a direita.

Voltarei ao assunto, mas, na minha opinião, a superação dessas divisões não pode ser encontrada num meio termo, ou seja, no caso do conflito entre esquerda e direita, a solução não está no centro.

É isso que se chama Quarta Via: nem um nem outro nem a mistura dos dois –nem esquerda nem direita nem centro. Utopia?

Rex fallaciae

No post O que há de velho na “nova” direita [1], referi-me ao pseudo-jornalista Reinaldo Azevedo (doravante, RA). De lá para cá, notei que vários amigos do Feicebuque seguem esse senhor. Seguem-no não só no sentido da rede social, mas no sentido ideológico. O que, como professor de filosofia, preocupa-me deveras.

Para inteirar-me do que estava sendo dito, fui ler a coluna em questão (Assim não dá, Vladimir!, na Folha de S.Paulo de 21-2-14). A seguir, comento alguns trechos.

O alvo do senhor Azevedo, pois que ele sempre tem um alvo, é, desta feita, o filósofo Vladimir Safatle (doravante, VS), professor da USP. Mais especificamente, a coluna que este escreveu (Os vivos e os mortos) para o mesmo jornal em 18-2-14.

A primeira coisa que devemos perguntar é por que Safatle foi escolhido como alvo da semana? E o senhor Reinaldo não nos deixa esperando; logo na primeira linha, declara o motivo:

Vladimir Safatle, possível candidato do PSOL ao governo de São Paulo […]

Trata-se, raro leitor, não se engane, de uma autêntica declaração de guerra. RA não tem escrúpulos em dizer que, para ele, o que importa é a política, mais especificamente, o que ele chama de economia política. Chega a recriminar políticos da oposição (anteriormente ao governo do PT, da situação) por reconhecerem os acertos de políticos da situação (antes, da oposição) e de fazer alianças com estes. No seu blogue só são aceitos comentários concordantes, jamais críticas; atualmente, só oposicionistas podem postar seus comentários lá. Como ele diz: o nome dessa atitude é política.

Ocorre que de um jornalista não se espera política, mas a verdade dos fatos. Quem está disposto a esconder ou a distorcer a verdade com vistas a um fim supostamente maior, no caso, a luta político-partidária, não merece a confiança do leitor nem a do eleitor. Para não falar (desculpe o vício de linguagem) do maquiavelismo consistente em santificar os meios pelos fins.

Conheço RA desde os tempos da revista República, depois Primeira Leitura, da qual, aliás, fui assinante. Revistas bem editadas, com uma linha editorial –neoliberal– bem definida, ou seja, uma publicação acima da média. Financiada pelo banqueiro “Mendonção”, teve a publicação suspensa em 2006. Vejamos o que nos conta a Wikipedia sobre essas revistas:

Primeira Leitura era uma revista mensal brasileira de política, economia e cultura que sucedeu a antiga Revista República. Sua última edição circulou em junho de 2006.O períodico era caracterizado pelo viés assumidamente liberal de seu editor-chefe Reinaldo Azevedo e por trazer informações importantes sobre assuntos politicamente relevantes tanto no plano nacional como internacional. O períodico, além disso, pautou sua atuação jornalística por críticas contundentes ao Partido dos Trabalhadores e a Lula entre os anos de 2003 e 2006.
Em razão de ser chefiado e editado, até setembro de 2004, pelo ex-ministro das Comunicações da gestão FHC (Luiz Carlos Mendonça de Barros), o periódico era tido como sendo ligado aoPSDB e por ele controlado. Seus editores se defendiam veementemente de tal acusação, alegando terem independência editorial e alegando a transferência do controle da revista para novos proprietários, sem qualquer ligação jurídica ou econômica com a sigla.
Em março de 2006, irrompeu o chamado escândalo da Nossa Caixa, que consistiria num suposto esquema de manipulação de verbas publicitárias do Banco Nossa Caixa em favor de deputados da base aliada do governador Geraldo Alckmin.[carece de fontes] Alegou-se que a revista Primeira Leitura era uma das beneficiadas, embora isso seja negado pelo editor da publicação, Reinaldo Azevedo.[carece de fontes]O encerramento da publicação, em junho de 2006 (em razão da alegada ausência de anunciantes) foi tido como problemático por seus leitores e por segmentos conservadores e liberais do Brasil(que alegam estar o ambiente jornalístico brasileiro dominado por veículos que, implícita ou explicitamente, apóiam o Partido dos Trabalhadores e a gestão Lula).

Note, raro leitor, que mantive as ressalvas [carece de fontes]. Se fosse um pseudo-jornalista, eu daria como fonte a Veja, a Globo ou coisa parecida. Mas se trata aqui apenas de situar o leitor; tendo interesse, é fácil aprofundar a pesquisa.

Voltando à coluna, RA chama VS de mentiroso, afirmando que os políciais não mataram ninguém nos protestos citados pelo último. Começa esclarecendo o caso de Cleonice, uma gari, que teria morrido em Belém de infarto:

Varria rua quando houve um confronto entre manifestantes e a PM. Inalou alguma quantidade de gás lacrimogêneo e teve infarto depois disso, mas não por causa disso. O filósofo deve conhecer a falácia lógica já apontada pelos escolásticos: “post hoc ergo propter hoc” -“depois disso, logo por causa disso”. Nem tudo o que vem antes é causa do que vem depois. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Tudo se dá depois da chegada da loura, mas a loura é inocente, Vladimir! A notícia sobre a morte está aqui (is.gd/6QWqQM).

De vez em quando, RA arrisca-se nas águas da filosofia, tendo como recurso apenas a boia dos manuais do ensino médio. Acusa pois VS de ter incorrido em falácia, mais especificamente, na falácia da correlação coincidente. Segundo o pseudo-filósofo, a gari não teria morrido por causa do gás lacrimogênio, mas sim… por que mesmo? Ele não o diz. Limita-se a dizer que tudo não passou de uma infeliz correlação coincidente –aquilo que na linguagem coloquial chamamos simplesmente de coincidência.

Ora, quem, em tese, está mais perto da verdade, VS –que estabelece uma relação causal entre o gás lacrimogênio e o infarto da senhora Cleonica– ou RA –que simplesmente nega a causalidade, apelando, sem justificação, para a simples coincidência? O raro leitor provavelmente concordará comigo que, se tivéssemos de apostar em um dos dois, sem mais informações, o primeiro receberia a maioria das fichas. O mais lógico –e ético– seria porém concluir pela maior probabilidade da causação e não da coincidência.

Como disse, “sem mais informações”. E aí voltamos ao que disse mais acima. RA cita como fonte de informação o portal G1, ou seja, as Organizações Globo.

Wait a moment! Um jornalista não deveria recorrer a uma fonte primária em vez de a um jornal, aliás, a um grande jornal, reconhecidamente comprometido com a oposição? Mas, ainda assim, parece que RA não leu a sua “fonte”… Uma vez que nela se declara explicitamente que o secretário de saneamento do município, Luiz Otávio Mota Pereira, informou ainda que:

a morte [da senhora Cleonice] pode ter sido provocada pelo susto com o tumulto na manifestação.

O secretário, segundo o jornal, baseou-se em relatórios médicos. Ué, então, quem estabeleceu a relação causal entre a ação policial e a morte da gari não foi VS mas… os médicos! Não é incrível? E isso segundo o portal da Globo…

RA prossegue tratando dos demais casos de morte, um a um, com a mesma estratégia manipuladora –citando jornais como fonte etc.

Depois, RA volta o seu arsenal para outro ponto do artigo de VS. Cito a passagem (da coluna de VS) em questão:

não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha ‘lei de antiterrorismo’ no Brasil. Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram ‘acidentais’ […]. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido […]

Fuzila, então, RA:

“Não consta que tiveram” é um coquetel molotov na língua pátria. Isso é com ele. A morte de Andrade não foi um acidente. O destino do artefato eram os policiais. Vladimir parece achar que a farda cassa dos PMs a sua condição de humanos. Indignação seletiva é a dele. Segundo acusa, estão usando a “morte infeliz de alguém” para “criminalizar a revolta da sociedade brasileira”. O PSOL e os “black blocs” não são “a sociedade brasileira”. De resto, na ordem democrática, é uma tolice afirmar que a “revolta” está sendo criminalizada. Se ela incidir em práticas puníveis pelo Código Penal, os crimes se definem pelos atos, não pelas vontades.

Um caminhão de falácias e impropriedades de várias ordens em um único parágrafo! Em primeiro lugar, a morte do cinegrafista foi sim um acidente, infeliz e trágico, mas um acidente (ou um incidente, se quiserem). O próprio RA, sem se dar conta, admite-o ao dizer que o alvo eram os policiais. Ora, se o cinegrafista não era o alvo, então, logicamente, ele foi atingido acidentalmente.

Em segundo, em parte alguma de sua coluna, VS subtraiu aos policiais a dignidade humana. Apenas postulou que a farda dos policiais estaria sendo usada pela mídia para tratar os manifestantes com menos dignidade, ou seja, como se fossem todos criminosos e –como se mesmo os criminosos não fossem seres humanos!

Em terceiro, para desgosto de RA, o PSOL e os black blocs são sim a sociedade brasileira, assim como ele, VS, eu e você, raro leitor: nós todos somos a sociedade brasileira! Mas na cabeça de RA, do astrólogo Olavo de Carvalho, dos olavetes e da “nova” direita, não, a sociedade não somos todos, mas apenas alguns. (Não é preciso dizer, creio, que a esquerda não “pensa” muito diferente disso.) Não é necessário ser filósofo nem lógico para perceber a contradição entre o discurso pretensamente democrático e essa tese elitista.

Em quarto e último lugar, os crimes se definem sim pelas vontades, a saber, pelas vontades dos juízes. As leis precisam ser aplicadas, e, para isso, elas são interpretadas –em cada caso. Basta ver o que se passa no julgamento do chamado mensalão.

Nos últimos dois parágrafos de sua catastrófica coluna, RA perde-se totalmente:

Sim, eu sei: malho em ferro frio ao cobrar que esquerdistas façam um debate ao menos factualmente honesto. Eu nunca me esqueço de um emblema desse modo que eles têm de argumentar. Até havia pouco, em defesa da legalização do aborto no Brasil, sustentavam que 200 mil mulheres morriam a cada ano vítimas de tal procedimento. Em fevereiro de 2012, a ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, levou tais números mentirosos à ONU (is.gd/qHYt5S). Um dia me enchi e peguei os dados do Ministério da Saúde sobre mortes de mulheres e suas causas e fiz as contas. Os abortistas haviam multiplicado por 200 o numero de óbitos em decorrência do aborto (is.gd/6Iu4EJ).

Começa com outra falácia, desta vez, ad hominem, afirmando que, por serem de esquerda, certas pessoas são intelectualmente incapazes e desonestas. Incrível.

Em seguida, recorre não à lógica mas à matemática (dos manuais do ensino fundamental), para refutar a tese segundo a qual 200 mil mulheres morreriam anualmente, no Brasil, em consequência da prática ilegal do aborto. E sabe qual é a fonte do nosso Oswald de Souza? O Ministério da Saúde! Mas como é que esse ministério, ou qualquer outro, poderia saber quantas mulheres morrem de tal procedimento? Se é ilegal, quem é que se sujeitaria a confessar o real motivo da morte? Mutatis mutandis, dá-se como nos casos de estrupo, que com certeza devem ocorrer em número bem maior do que o oficial.

Mas o pior nem é isso. O pior é que RA canta vitória concluindo que as mortes em decorrência de aborto não passariam de mil. Acho que o raro leitor concordará comigo que uma morte por aborto ilegal já seria demais, não? Mas mil?!

Não estou aqui discutindo o mérito dessa –espinhosa– questão bioética, mas apenas mostrando o absurdo da argumentação reinaldiana.

Por fim, RA conclui com uma piada:

A mentira é mais útil às causas das esquerdas do que a verdade. Não fosse assim, homicidas como Lênin, Stálin, Trótski ou Mao Tse-tung não seriam cultuados ainda hoje. Isso tudo é um pouco constrangedor, mas, como escreve Janio de Freitas, continuarei tentando.

Depois da Guerra do Iraque, aquela que foi perpetrada sob a mentirosa alegação de que Saddam Hussein possuía um enorme arsenal de armas de destruição em massa, e depois das revelações do Snowden, isso só pode ser mesmo uma piada.

Vou recomendá-la ao Zé Simão!

Violência e ideologia

Gostaria de chamar a atenção do raro leitor para as colunas do filósofo e jornalista Hélio Schwartsman na Folha de S.Paulo. Usei o plural porque ele escreve (colunas, artigos e, provavelmente, até editoriais) para esse jornal quase todos os dias da semana, salvo engano, menos segundas e quintas. Além disso, mantém uma coluna semanal, às quintas (temporariamente suspensa), no site da Folha.

Os textos do Hélio destoam do restante da Folha e das publicações jornalísticas em geral. Embora curtos, podem ser caracterizados como artigos de fundo, nos quais informação de qualidade vem acompanhada por análise cuidada. Somos informados sobre diferentes áreas do conhecimento, das neurociências à filosofia da mente, passando pelo direito e pela medicina, p.ex. Mas sempre de um modo prático, ou melhor, “aplicado” a casos concretos do cotidiano –da política, da economia etc.

Não concordo com mais da metade do que o Hélio diz, mas acho tudo muito estimulante. Ele tende a supervalorizar a ciência, e, naturalmente, tem mais afinidade com a chamada filosofia analítica. Na minha opinião, não consegue escapar do cientificismo nem do relativismo –o que representa um grande problema. Mas, enfim, vamos ao que interessa.

Na sua coluna de 16-2, “Especulação precoce“, Hélio Schwartsman tece considerações sobre a polêmica em torno da “justiça pelas próprias mãos” por parte de cidadãos brasileiros, como no caso do garoto que foi amarrado a um poste no Rio (já houve outro caso). Começa observando tratar-se de uma disputa ideológica. E, para caracterizar esse tipo de contenda, dispara uma frase certeira:

… as pessoas já sacam suas respostas antes mesmo de formularmos uma pergunta.

Em seguida, o nosso colunista caracteriza também as duas posições-padrão dos políticos em relação à criminalidade:

Para a esquerda, condições socioeconômicas como pobreza, desemprego, desigualdade e educação são os principais fatores a explicar a criminalidade. Já para a direita, delinquência se resolve é com polícia.

É uma caracterização esquemática, mas igualmente correta. No parágrafo seguinte, então, o Hélio avança um argumento típico dele, nessa sua nova fase “cientificista” a que me referi acima:

Precisamos nos conformar que o cérebro abusa mesmo dos automatismos heurísticos. O problema surge quando se considera que muitas questões relativas à criminalidade têm respostas empíricas estabelecidas, mas nossas convicções políticas fazem com que não as enxerguemos.

Com automatismos heurísticos, o filósofo-jornalista quer significar aqueles hábitos, quase instintivos, que nossa espécie foi desenvolvendo ao longo de milhares de anos de evolução, relativos a estratégias de solução de problemas (de sobrevivência). Isso quer dizer, então, que, em nossas posições políticas, nós tendemos a nos deixar enganar por esquemas evolucionários inconscientes. A ponto de ter nossa visão obnubilada para os dados empíricos disponíveis.

(Na minha opinião, esse tipo de argumento “evolucionista” é no mínimo problemático, pois, embora não seja científico, deixa de fora o próprio sujeito do conhecimento pretensamente científico: por que essa tese valeria para os políticos mas não para os cientistas? Que mágica permitiria a estes últimos escapar do autoengano evolucionário?)

Nosso autor aponta, em seguida, os respectivos pontos fracos das duas posições-padrão. Para desgosto da esquerda,

é fraco o elo entre economia e violência, como mostra Steven Pinker em “Melhores Anjos”. Dados de EUA, Canadá e Europa Ocidental revelam que melhoras econômicas quase não têm efeito sobre as taxas de homicídios. Há, isto sim, uma correlação bem modesta entre os índices desemprego e os crimes contra o patrimônio.

(Uma candidata melhor do que a pobreza seria a desigualdade social.) Mas a solução da direita

também traz problemas. É claro que, em algum nível, melhorar o policiamento reduz crimes. Mas isso só funciona até certo ponto. Se você o excede, desperdiça dinheiro público e estraga inutilmente a vida de um monte de gente.

Enfim, segundo Hélio Schwartsman, a dura realidade dos fatos, da empiria, refutaria nossas intuições mais primitivas acerca das causas da criminalidade bem como as posições ideológicas nelas direta ou indiretamente fundadas.

Voltarei ao assunto –de que, aliás, já tratei– em outros posts. Aqui apenas pretendi apresentar ao raro leitor um trabalho jornalístico diferenciado.

“Acabou a baderna”

Da crônica homônima na Folha de hoje, 17-2, do jovem humorista e poeta Gregorio Duvivier:

A legislação vai mudar, graças a Deus (e à Dilma). Não vamos mais tolerar baderna. A ex-guerrilheira, quem diria, vai baixar o AI-5. O Brasil finalmente está virando um país sério: bandido preso no poste, Polícia Militar ameaçando Porta dos Fundos, leis antiterrorismo. O caminho se abriu. Este é o ano em que Bolsonaro vai assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos. Chegou o momento, Capitão! Em abril, nossa revolução faz 50 anos.

Estragar uma piada é fácil, basta explicá-la. Mas, como outra coluna do autor já “causou” (confusão), é melhor mesmo explicar que se trata de ironia. Vale lembrar o que se passou.

Na sua coluna na Folha de 2-12-13, intitulada “Partido novo do Estado mínimo“, Duvivier assume –ironicamente– o papel de representante da “nova” direita e do partido Novo, fundado por seus membros, e defende –cinicamente– as teses básicas dessa corrente política. Começa assim:

A gente não é a nova direita, até porque a gente não acredita nessa coisa de esquerda e direita. As pessoas dizem isso só porque a gente defende o Estado mínimo. É claro que a gente defende: tudo o que é privado funciona. Tudo o que é público é uma droga.

E, de fato, o leitor menos atento levou o humorista a sério… A crônica fora motivada justamente por polêmica entre Duvivier e integrantes da “nova” direita; e a polêmica só fez aumentar depois dela. Talvez o melhor trecho seja o último parágrafo, que transcrevo –e, por favor, não explico:

Bom mesmo era entregar o país nas mãos de um puta empresário. Tipo o Eike. Ou o presidente da Gol. Esse daí é um gênio. “Acabou essa festa de todo mundo ganhar barrinha de cereal. Agora você tem que pagar por ela. E caro.” É disso que o Brasil precisa: de um bom CEO, com MBA no exterior, que manje de marketing, “people management” e Excel. Vou ligar para o Eike. Vai que ele topa. Acho que hoje em dia ele topa.

Não gosto do Porta dos Fundos, acho-o, em geral, muito escrachado, para dizer pouco. E o Gregorio Duvivier não parece ser um ator talentoso. Dizem que ele um bom poeta. Sinceramente, não parece. Tem imaginação, mas ainda lhe falta o domínio da escrita. E da gramática.

Para concluir, observo que, na coluna mais antiga, o cronista critica a direita, e, na mais recente, a esquerda, ou melhor, o partido-no-poder, que, pelo menos para a direita, nova ou velha, continua sendo de esquerda. Isso dá o que pensar: voltarei ao tema.

País estranho

Deliciosa a crônica de hoje, 16-2, do Pratinha (Antonio Prata) –filho do Pratão (Mário Prata)– na Folha (“Estiagem“). Em poucos parágrafos, o moço passeia com tranquilidade por temas espinhosos como civilização ou barbárie e esperança ou cinismo. Selecionei apenas dois, esperando com isso não ferir os direitos autorais de ninguém:

De amor eu não sofro, mas trago o peito apertado. Nosso país está estranho, minha amiga. Coisas horrendas andam acontecendo e, em vez de as pessoas pensarem em como impedir que coisas horrendas aconteçam de novo, querem é infligir coisas horrendas a quem as infligiu. No fundo, o que exigem não é justiça nem mesmo vingança, mas o direito ao seu quinhãozinho de barbárie, como crianças que reclamam: “Por que ele pode brincar na gangorra e eu não?”; “Por que ele pode brincar de Gomorra e eu não?”. Mais dia, menos dia, vou abrir o jornal e ver alguém defendendo o linchamento como uma forma de democracia direta.

Acho que você ia se sentir bem deslocada por aqui. Na atual estiagem, só o cinismo cresce, como os cactos. Faz sentido: a esperança não tem lugar nessa época que preza tanto a eficiência. A esperança é deficitária. Não é verdade que seja a última a morrer: morre todo dia, toda hora, em toda parte (para renascer, depois, noutro lugar), feito o amor de Paulo Mendes Campos. Já o cinismo é investimento seguro. Como pode se frustrar quem não deseja? O cínico está em paz –como os mortos.

O autor refere-se, claro, à (in)justiça com as própria mãos perpetrada por alguns cidadãos brasileiros e pela respectiva apologia por parte da “nova” direita. Nosso país está estranho; nosso país é estranho. Precisamos urgentemente meditar sobre o que somos, como viemos a ser o que somos e o que queremos para as futuras gerações. Tudo indica que a eficiência capitalista não se confunde com democracia, república e estado de direito. Voltarei ao tema (liberalismo econômico versus democracia) mais tarde; por assim dizer, não gostaria de jogar um balde d’água na estiagem poética do Antonio Prata.

Ato incomensurável

O editorial “Vaticano na berlinda“, da Folha de S.Paulo de hoje, 8-2, conclui com um pequeno parágrafo cujo tópico frasal diz o seguinte:
Obviamente, a pedofilia inspira tanta –ou maior– repulsa nas pessoas de fé quanto na opinião secular.
Essa frase me fez lembrar da fala do monsenhor Silvano Tomasi, representante do Vaticano, na primeira reunião do Comitê da ONU para os Direitos da Criança sobre abuso infantil com participação de membros da Santa Sé, ocorrida em 16-1.
O encontro ocorreu em meio à investigação das Nações Unidas sobre a suspeita de violação da Declaração Universal dos Direitos da Criança pelo clero. O Vaticano está sendo acusado de encobrir o escândalo de abuso sexual por padres, que teria acontecido nos Estados Unidos, na  Irlanda e no México, entre outros países.
Nessa ocasião, o monsenhor Tomasi disse que existem abusadores em todas as profissões do mundo, inclusive no clero:
Encontram-se abusadores nas profissões mais respeitadas do mundo e, mais lamentavelmente, entre membros do clero e profissionais da igreja.
Essa fala chama atenção por pelo menos duas razões. Em primeiro lugar, porque considera o sacerdócio como uma profissão. Ora, por mais que os padres estejam cada vez mais integrados à vida cotidiana, assinem contratos de trabalho e recebam um salário (essa relação varia conforme o status e a pertença do sacerdote), o sacerdócio, como tal, não é uma profissão como as outras, mas antes uma profissão de fé fundada num sacramento.
Em segundo, porque, como se fora um descuido, um lapso, o monsenhor emprega o advérbio ‘mais’ para enfatizar o modo pelo qual os abusadores se encontram entre as profissões: lamentável.
Esse ‘mais” do monsenhor Tomasi é funcionalmente semelhante ao ‘maior’ do editorial da Folha. E é a isso que queria chegar.
Tomasi (afinal, o título de monsenhor não foi abolido pelo papa Francisco?) podia ter dito várias outras coisas. Podia ter alegado, p.ex., que a proporção de casos de pedofilia no clero é menor do que em outras profissões e organizações (embora, como disse, o sacerdócio não seja uma profissão, e nem a Igreja seja uma ONG, como disse o papa). Podia ter esclarecido, ainda, que pedofilia é um termo equívoco que pode levar a mal-entendidos, pois, no caso do clérigos, o abuso sexual teve (e tem) como objeto preferencial a adolescentes (pederastia) e não a púberes e crianças pequenas.
Mas não, o representante do Vaticano acabou optando por simplesmente comparar o que se passou (e se passa) no clero católico com o que ocorre também em outras profissões. Fez, assim, uma péssima escolha. Explico por quê.
O argumento avançado por Tomasi é mau justamente porque compara o incomparável. Não se encontra em NENHUMA outra profissão a mesma relação, o mesmo vínculo que há entre o padre e o fiel, o devoto. Este nutre para com aquele uma espécie de amor filial, de respeito –sim– sagrado. O sacerdote é o vigário de Cristo, seu representante. E, diante de Deus, o fiel simplesmente se postra obedientemente.
O médico, o psicólogo ou o professor que se aproveita de sua posição profissional para tirar proveito pessoal de seu paciente ou de seu aluno é –antiético. (Se, além de antiético, é também criminoso, isso vai depender da legislação do país ou do estado em que trabalha.) Mas o pastor que se aproveita de sua ovelha é mesmo muito MAIS que antiético, e seu ato ignóbil deve mesmo inspirar repulsa muito MAIOR do que em outros casos.
A torpeza do abuso infantil ou juvenil cometido por um sacerdote é tamanha que qualquer que seja a resposta do Vaticano, ela será necessariamente precária e insuficiente.