Filosofia e Senso Comum

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«Mas é isso, dir-se-á, que faz a razão pura quando abre perspectivas para além dos limites da experiência? Nada mais do que dois artigos de fé? O senso comum também poderia fazer outro tanto | sem necessidade de consultar os filósofos!

Não quero aqui exaltar o serviço prestado pela filosofia à razão humana com o esforço penoso da sua crítica, embora o resultado devesse ser apenas negativo […]. Mas exigis, pois, que um conhecimento que interessa a todos os homens ultrapasse o senso comum e só vos seja revelado pelos filósofos? Precisamente isso que censurais é a melhor confirmação da verdade das afirmações até aqui feitas, porque descobre o que no início não se podia prever, ou seja, que a natureza, naquilo que interessa a todos os homens sem distinção, não pode ser acusada de ter distribuído com parcialidade os seus dons e que, em relação aos fins essenciais da natureza humana, a mais alta filosofia não pode levar mais longe do que o faz a direção que a natureza confiou ao senso comum.» (Immanuel Kant. Crítica da razão pura, B 858-9; negrito meu, EDG)

Filosofia Antiga

COMEÇA hoje a primeira turma do curso de Iniciação à História da Filosofia Ocidental. Ainda há tempo para inscrever-se. Há três opções de horário. (Na impossibilidade de comparecer à primeira aula, introdutória, o aluno poderá acessar o respectivo áudio.)
Módulo 1

INICIAÇÃO À HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA

Sábios em reunião

PROGRAMA
1. Introdução geral
– Filosofia x história
– Esquema geral da história da filosofia ocidental
2. Parmênides
3. Heráclito
4. Sócrates
5. Platão
6. Aristóteles
7. Estoicismo
8. Neoplatonismo

*Outros filósofos serão mencionados na contextualização do pensamento do autor principal

BIBLIOGRAFIA*
ALVIRA, T.; CLAVELL, L.; MELENDO, T. Metafísica. São Paulo: IBFCRL, 2014.
MELENDO, T. Iniciação à filosofia. São Paulo: IBFCRL, 2016.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia. São Paulo: Paulus, 2003-6. 7 v.

*Os textos dos filósofos serão enviados aos alunos por e-mail com antecedência.

DATAS E HORÁRIOS
8 encontros semanais de 2 horas-aula (2 x 50 min)

1ª Opção – MANHÃ
2ª Opção – TARDE
3ª Opção – NOITE
Horário: 10h às 11h40 Horário: 14h às 15h40 Horário: 18h30 às 20h10
terças: 2,9,16,23,30/8 e 6,13,20/9 quartas: 3,10,17,24,31/8 e 14,21,28/9 quintas: 4,11,18,25/8 e 1,8,15,22/9

LOCAL Praça da Sé, 21 | Edifício São Marcos, 10º And./Sl. 1006 – São Paulo/SP

INSCRIÇÕES Informe seu nome completo e telefone ao Sr. Marco Antonio pelos telefones 11-3101-6785, 95134-6626 ou pelo e-mail lulio1232@gmail.com

Vagas limitadas. Curso condicionado à formação de turmas!

Desonestidade intelectual sem fim

Comento, a seguir, artigo de Olavo de Carvalho (OC), publicado no Diário do Comércio em 15 de agosto de 2005, intitulado “Miséria intelectual sem fim”. O texto do autor vai em negrito; os meus comentários seguem no formato de citação (com avanço). Trata-se de comentários despretensiosos, que fiz a um ex-aluno, forte candidato a olavette.


Há quase meio século o mercado editorial brasileiro, e em conseqüência os debates jornalísticos e universitários, cujo alimento de base são os livros,

Isso não é mais verdade, depois da Internet (e os e-books etc.), e, na verdade, nem o era antes, pois a discussão acadêmica se baseia muito mais em obras não traduzidas do que nas publicadas no Brasil.

não refletem em nada o movimento das idéias no mundo, mas apenas o apego atávico da intelectualidade local a mitos e caoetes fabricados pela militância esquerdista para seu consumo interno e satisfação gremial.

Duvido muito que o OC possa falar com conhecimento de causa: que ideias circulam na Alemanha, nos países nórdicos, na Rússia, no Japão, África do sul etc.? O mundo, pra ele, são os países de fala inglesa.

Sem a menor dificuldade posso listar mais de quinhentos livros importantes, que suscitaram discussões intensas e estudos sérios nos EUA e na Europa,

Duvido muito. Que eu saiba, o OC não tem memória fotográfica; quinhentos livros relevantes é uma enormidade. Isso não existe. Desafio-o a mostrar o livro e a respectiva discussão (por estudiosos relevantes em órgãos relevantes)! 

e que permanecem totalmente desconhecidos do nosso público, pelo simples fato de que sua leitura arriscaria furar o balão da autolatria esquerdista e varrer para o lixo do esquecimento inumeráveis prestígios acadêmicos e literários consagrados neste país ao longo das últimas décadas.

E desconhecidos do próprio OC até pouco tempo, não é? Por quê? Ele não lia em inglês? Não tinha Internet? Além disso, o que ele não diz é que o mercado editorial esquerdopata tupiniquim também está muito atrasado em relação ao estrangeiro. Por quê? Isso não aumentaria o prestígio dos acadêmicos?

Esses livros dividem-se em sete categorias principais:
1. Obras essenciais de filosofia e ciências humanas que oferecem alternativas à ortodoxia marxista-desconstrucionista-multiculturalista dominante

Queria ver como OC demonstra o parentesco essencial entre essas três correntes ideológicas! E como se pode falar de ortodoxia com respeito a uma ideologia no mínimo complexa, ou mesmo eclética, como essa? Castoriadis e Badiou, p.ex., são marxistas, o último continua sendo comunista, e ambos não são desconstrucionistas nem relativistas etc.

(por exemplo, os livros de Eric Voegelin, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan, Eugen Rosenstock-Huessy, Thomas Molnar, David Stove, Roger Scruton).

Um dos luminares da teologia da libertação, ou seja, da teologia marxista-desconstrucionista-multiculturalista, o jesuíta Ignácio Ellacuría, foi um pupilo do Zubiri. Mas é claro que OC não leu Ellacuría e não gostou.
2. Análises críticas dessa ortodoxia (Hilton Kramer, Roger Kimball, Keith Windschuttle, John M. Ellis, Mary Lefkowitz, Judith Reisman).
3. Pesquisas históricas sobre o movimento esquerdista internacional, baseadas nos documentos dos Arquivos de Moscou e outras fontes recém-abertas, (John Lewis Gaddis, John Earl Haynes, Stephen Koch, Harvey Klehr, R. J. Rummel, Christopher Andrew, Herb Romerstein, Ronald Radosh, Arthur Herman).

Como se todas as esquerdas do mundo fizessem parte de um único movimento! Nem as tais internacionais socialistas eram homogêneas. E como se a Rússia fosse a matriz de todos os movimentos esquerdistas do mundo!
4. Livros sobre o esquerdismo hoje em dia, com a descrição dos laços abrangentes que unem ao terrorismo e ao narcotráfico a esquerda chique da grande mídia, das fundações bilionárias e dos organismos dirigentes internacionais ( Unholy Alliance , de David Horowitz, Countdowmn to Terror , de Curt Weldon, Treachery , de Bill Gertz, Through the Eyes of the Enemy , de Stanislav Lunev).

OC fala como se a mera existência de livros fosse já uma prova de alguma coisa. E como se a direita não tivesse laços abrangentes com o crime! Você conhece alguma fundação bilionária de esquerda, raro leitor? Algum banqueiro esquerdista? E é difícil encontrar um criminoso maior do que um banqueiro…

5. Livros sobre a perseguição anti-religiosa no mundo e o fenômeno concomitante da expansão acelerada do cristianismo na Ásia e na África ( The Criminalization of Christianity , de Janet L. Folger, Persecution, de David Limbaugh, Megashift , de James Rutz, Jesus in Beijing , de David Aikman etc. etc.).

E o que isso tem que ver com o assunto? Entre os cristãos tem de tudo, esquerdistas e direitistas, corintianos e marcianos.

6. Livros sobre questões políticas em discussão aberta nos EUA, com repercussões mundiais mais que previsíveis (Men in Black , de Mark R. Levin, So Help Me God , de Roy Moore, Deliver Us From Evil , de Sean Hannity, Liberalism Is a Mental Disorder , de Michael Savage e, evidentemente, todos os livros de Ann Coulter).

Eu me divirto quando leio locuções jornalísticas como “mais que previsíveis” e “evidentemente”, sobretudo quando ocorrem na mesma frase. Os olavettes repetem essas coisas sem antes verificar do que se trata. Será mesmo coisa relevante? Relevante pra quem? O que se discute abertamente nos EUA é mesmo relevante para todos? E o que significa abertamente, na Fox?

7. Obras essenciais que deram novo impulso ao pensamento político conservador americano e europeu desde os anos 40, como as de Ludwig von Mises, Marcel de Corte, Willmore Kendall, Russel Kirk, Erik von Kuenhelt-Leddin, William F. Buckley Jr., M. Stanton Evans, Irving Babbit, Paul Elmer More e muitos outros. Neste ponto a ignorância dos nossos professores universitários chega a ser criminosa, como se viu na fraude coletiva do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita” (detalhes em www.olavodecarvalho.org/textos/naosabendo.htm).

Volto ao ponto inicial: a falta de tradução não implica desconhecimento nem desinteresse. E duvido muito que tudo o que OC considera importante seja mesmo importante de um ponto de vista mais geral. Aposto até que entre esses mesmos autores há quem menospreze outros da mesma lista. Como está fora da academia, OC não parece fazer ideia de como as coisas se passam nela. Aliás, digo mais, duvido que ele sequer conheça os periódicos acadêmicos mais relevantes da área!

Todos esses exemplos são de livros e autores bem conhecidos, amplamente debatidos na mídia americana e alguns na européia.

Isso não lembra alguma coisa? Aquele complexo de vira-lata típico de povos subdesenvolvidos? Se é americano, se é inglês, então é importante?

Cada uma das sete classes comportaria mais de cem outros títulos igualmente importantes. Não é exagerado concluir que, se o debate nacional ignora todas essas obras, das duas uma: ou ele é tão rico que pode prescindir delas, fartando-se numa pletora de produtos locais mais substanciosos, ou está tão abaixo do nível delas que não chega nem a suspeitar que devam ser lidas ou mesmo que existam.

Velha tática de manipulação (que deve ser conhecida por quem publicou obra de erística): redução a uma disjunção (ou/ou). Os vendedores também a usam: — você quer em verde ou em azul? — quando o sujeito não quer é nada. Eu acho até que algumas dessas obras sejam conhecidas pelos brasileiros; que algumas sejam consideradas importantes e outras não; que até deve ter havido alguma discussão em torno de uma ou de outra — das tais quinhentas (será que OC lê todos os periódicos acadêmicos brasileiros pertinentes?) –; há várias possibilidades, não apenas duas exclusivas.

Não é preciso perguntar qual das duas hipóteses é verdadeira.

Hehehe…

Qualquer estudante universitário afirmará resolutamente que se trata de autores desconhecidos no meio acadêmico brasileiro, portanto irrelevantes para quem já encheu seu pé-de-meia cultural com a moeda forte de Eduardo Galeano, Rigoberta Menchú e Emir Sader (sem contar, é claro, a ração diária de Foucaults e Derridas, invariável há cinqüenta anos).

Aí os olavetTes repetem o mesmo achincalhamento sem ler. Duvido que o Galeano possa ser considerado como uma bosta completa. E que Foucault e Derrida sejam também uns bostas completos. Não gostar deles é uma coisa, menosprezá-los é outra. Pra isso são necessários argumentos.

Resta ainda o fenômeno, mórbido em último grau, da polêmica de mão única. Sua fórmula é a seguinte: uma discussão qualquer aparece na mídia americana, conservadores e esquerdistas produzem dezenas de livros a respeito e a parte esquerdista é publicada no Brasil sem suas respostas conservadoras, simulando consenso universal em questões que, no mínimo, permanecem em disputa. O establishment cultural brasileiro materializa assim o koan budista de bater palmas com uma mão só. Isso é a norma, sobretudo, nas polêmicas anticristãs. Uma fajutice barata como O Papa de Hitler , de John Cornwell, teve várias edições e toda a atenção da mídia. Os muitos livros sérios que desmantelaram a farsa (sobretudo o do rabino David Dalin, The Myth of the Hitler Pope , e o do eminente filósofo Ralph McInnerny, The Defamation of Pius XII ) continuam inacessíveis e não foram nem mesmo mencionados na mídia soi-disant cultural.

A onisciência do OC é mesmo impressionante. Talvez o sr. McInnerny seja tão eminente quanto o próprio OC, vai saber. O que OC não parece perceber é que o mercado cultural e livreiro é um… mercado! Quem não publica aquilo que vende, simplesmente (se) quebra. Um “papa do Hitler” é coisa que vende, Assim como tudo que contiver fofoca, sexo, sangue etc. (Entrando um pouco no mérito da coisa: a questão não é que o papa tenha apoiado o nazismo e sim que ele não o tenha combatido com todas as forças. E ele efetivamente não o fez, ora. Isso é admitido até por defensores de Pio XII, ou seja, que ele não fez mais porque o enfrentamento poderia desencadear uma reação desproporcional de Hitler, o que poria mais vidas em risco. Esse argumento é meio esquisito, não? O mesmo vale, em minha opinião, para os últimos papas que acobertaram, sim senhor, os escândalos sexuais dos padres safados.)

Ninguém sequer noticiou que o próprio Cornwell, surpreendido de calças na mão, retirou muitas das acusações que fizera a Pio XII. No Brasil elas ainda são repetidas como verdades provadas.

Verdades provadas? Então prove! E daí que meia dúzia de manés apresente alguma tese como verdade provada? Será que todos os interessados têm de engolir a tese ou de responder a ela? Quer dizer que no Brasil todo mundo acredita na tese do Papa nazista?

Do mesmo modo, os filmes Farenhype 9/11 (www.fahrenhype911.com) e Michael Moore Hates America (www.michaelmoorehatesamerica.com), respostas devastadoras à empulhação fabricada por Michael Moore em Farenheit 9/11 , permanecem fora do alcance do público e não mereceram nem uma notinha nos jornais.

OC lê todos os jornais; impressionante! Duvido muito que os filmes do Moore sejam apenas empulhação. O cara é marqueteiro, quer vender, e por isso exagera mesmo, até distorce, inventa, mas diz também verdades. Mais ou menos como o faz o próprio OC. A diferença é que ao último não cabe nenhuma licença poética.

Resultado: o mais notório charlatão cinematográfico de todos os tempos, que nos EUA tem fama apenas de mentiroso criativo,

Muito provavelmente, isso também é uma mentira. Talvez entre os fascistas, os festeiros do chá etc., isso seja verdade. Mas isso é uma questão de preferência ideológica!

é citado como fonte respeitável até nas universidades.

Onde? Por quem? Na Anhanguera? Na Castelo Branco? Por quem, pelo nogueirinha? Existe algum artigo científico ou alguma tese que refira filme do Moore como fonte de informação na bibliografia?

É patético. Também cada nova intrujice anti-americana ou anti-israelense de Noam Chomsky é recebida como mensagem dos céus, mas ninguém pensa em publicar a coletânea The Anti-Chomsky Reader , de Peter Collier e David Horowitz, porque é impossível lê-la sem concluir que nem mesmo o Chomsky lingüista, anterior à sua transfiguração em pop star da esquerda, era digno de crédito.

Taí uma boa pedida: queria ver OC a uma mesa com Chomsky. Não sobre linguística, pois disso o OC não sabe nada. Mas sobre aquilo que ele acha que sabe. Chomsky tem o hábito de apresentar dados e fontes, um hábito que faria muito bem a OC. Veja o que ele faz neste artigo: cita autores e livros como se isso constituísse uma prova. Não passa de um argumento de autoridade, que, no caso, é apenas uma falácia.

Como esse estado anormal de privação de alimentos intelectuais essenciais vem se prolongando por mais de uma geração, o resultado aparece não só na degradação completa da produção cultural, hoje reduzida a show business e propaganda comunista, mas também nos indivíduos, notavelmente mais embotados e burros a cada ano que passa, quaisquer que fossem antes seus talentos e aptidões.

Como professor de olavettes, eu que o diga! Uma coisa que precisa ser explicada por OC é por que diabos toda a cultura, toda a educação têm de ser reduzidas à disjunção esquerda-direita… Há muita merda sendo publicada neste país, e no resto do mundo (os EUA devem ser os campeões da merdice!), mas há coisas boas também. E coisas que nada têm que ver com ideologia política.

Não hesito em declarar que, pela minha experiência pessoal, qualquer menino educado pela via do home schooling nos EUA está intelectualmente mais equipado do que a maioria dos “formadores de opinião” no Brasil, incluindo os luminares da grande mídia, os acadêmicos e os escritores de maior vendagem no mercado (imagino um debate entre qualquer deles e Kyle Williams, menino gordinho de quinze anos que, sem jamais ter freqüentado escola, faz sucesso como colunista político desde os doze – seria um massacre).

Boa parte das famílias americanas que optam por educar seus filhos em casa é religiosamente fundamentalista e/ou mórmon. Um exemplo apenas (do menino prodígio) não passa de caso anedótico; não prova nada.

Não é preciso dizer que a essas mesmas criaturas, aliás, incumbe a culpa pelo presente estado de coisas. A instrumentalização – ou prostituição – completa da cultura no leito da “revolução cultural” gramsciana não poderia ter outro resultado, exatamente como anunciei no meu livro de 1993, A Nova Era e a Revolução Cultural.

OC, o profeta! Li muito pouco do Gramsci. Pergunto-me se os olavettes o lerão ou simplesmente o jogarão no lixo. — veja: se Gramsci é um bosta, deve ser fácil refutá-lo, não? Se não é, mas é um cara perigoso, então não deve ser muito fácil refutá-lo. Nesse caso, porém, ele deveria ser refutado, não é? E o que os olavettes fazem diante dessa situação? Estudam Gramsci e se empenham em refutá-lo? Claro que não. Já o dão por refutado –pelo mestre–, e de uma vez por todas. Isso só demonstra que não entendem nada de filosofia. Não existe refutação definitiva em filosofia. Um olavette famoso, o jornalista Reinaldo Azevedo, escreveu certa vez que achava despropositada a discussão acerca da existência de Deus, uma vez que Tomás de Aquino já tinha resolvido a parada (!!!).

Por orgulho, vaidade, ressentimento, desonestidade, covardia, sem contar a inépcia pura e simples e a ambição insana de poder absoluto sobre a mente popular, a liderança intelectual esquerdista fechou o Brasil num isolamento provinciano e incapacitante,

Tenho 52 anos e nunca sofri nenhum constrangimento esquerdista em lugar algum. Será que tive apenas sorte, ou será que sou um imbecil completo, incapaz de perceber a própria lavagem cerebral? Não existe isolamento nenhum. Não existe monopólio nenhum. Existem panelinhas. A miséria existente, e a ditadura recente, explicam em parte a preponderância de panelinhas esquerdistas em certas áreas. O resto é manipulação (de OC). — Uma técnica muito eficaz de manipulação consiste justamente em transformar o medo (de coisas concretas) em angústia (medo indefinido). É o que o governo estadunidense fez depois do 11/9, e continua fazendo (todo mundo tem medo mas não sabe bem de quê), e é o que OC não se cansa de fazer: a esquerda é um poder maligno que está por toda parte, e pode engoli-lo a qualquer momento. Cuidado, talvez você esteja dormindo com ela! Faça um curso comigo, leia meu site, compre meus livros, e aprenda a identificar o inimigo íntimo. Saiba como não se deixar transformar num imbecil ou num idiota: saiba como se tornar um olavette!

sem o qual jamais teria sido possível esse paroxismo de inconsciência, essa apoteose da credulidade beócia, sem precedentes em toda a história universal, que foi a aposta maciça do eleitorado brasileiro na idoneidade do PT e na sabedoria infusa de um semi-analfabeto presunçoso.

É essa a explicação filosófica ociana da vitória do PT com o Lula? Uau, que profundidade! Que o Lula seja semianalfabeto e presunçoso, isso é lá verdade. Mas disso não se segue muita coisa, não é? Eu mesmo pensava coisas semelhantes. Depois tive de engolir o fato de que esse semianalfabeto fez coisas pelos miseráveis e pobres que ninguém antes fez. É um fato que o governo do PT tirou e está tirando milhões de pessoas da miséria absoluta. Mas para quem defende o trabalho escravo de crianças, como OC (na China, p.ex.), isso não deve significar muita coisa.

Mas a consciência, ao contrário do dinheiro, parece fazer tanto menos falta quanto mais escasseia.

Disso eu gosto nele, essas tiradas engraçadas, tipo Zé Simão…

Convocados quase que simultaneamente pelos dois house organs do esquerdismo brasileiro, que são os cadernos Mais! da Folha de S. Paulo e Prosa & Verso do Globo,

O Globo, um jornal de esquerda?! Putsgrila!!!

para analisar o fenômeno do descalabro petista, os representantes mais badalados daquela liderança, os mesmos que há trinta anos dominam o palco dos debates públicos no país, lançam as culpas em tudo, exceto, é claro, na hegemonia esquerdista e no seu próprio trabalho incansável de carcereiros da inteligência.
No Mais! , César Benjamin tem ao menos o mérito de reconhecer que a corrupção petista não vem de hoje, não é súbito desvio de uma linha de conduta honesta e sim um mal antigo, de raízes profundas. Mas, na hora de explicar suas causas, apela, sem notar que se contradiz, ao subterfúgio usual de acusar a estratégia de acomodação com o “neoliberalismo”, supostamente adotada pelo governo Lula.

Quer dizer que o descalabro do partido que está prestes a reeleger a presidenta é de ordem moral? Êita análise filosófica profunda, sô! Alguém poderia recomendar Max Weber ao OC? Não, não recomende não, pois não quero me responsabilizar por atos de violência descontrolada.

Reinaldo Gonçalves, economista da UFRJ, acha que o PT estaria melhor sem Lula, José Dirceu et caterva — intriga de família que, sinceramente, não é da nossa conta.
Paul Singer só se preocupa em recordar os bons tempos e tentar salvar a fé socialista. Sempre tive aliás a impressão de que os socialistas saem direto do pediatra para o geriatra. 
O Prosa & Verso não se contenta em ouvir os gurus de sempre. Anuncia mais um ciclo de conferências da série “O Olhar”, “Os Sentidos da Pauxão” etc. – organizado pelo indefectível Adauto Novaes – no qual esses campeões de tagarelice comentarão, desta vez, “O Silêncio dos Intelectuais”, sugerindo que o Brasil está mal porque eles têm falado muito pouco.

Participei de um desses ciclos e achei interessante. Bem diversificado, aliás.

Francisco de Oliveira explicita esse pensamento ao proclamar que a esquerda vem errando porque não trata com suficiente deferência os seus intelectuais – ele próprio, suponho, em primeiro lugar –, usando-os apenas como ornamentos em vez de se curvar às suas sábias lições.
O poeta Antônio Cícero divaga pelo passado histórico, exibindo sua incapacidade de discernir entre a Idade Média e o Renascimento e, quando vai chegando perto do assunto proposto, já acabou o artigo.

Hum… agora fiquei mesmo com vontade de ir ao original… Sou leitor do Cícero, e esse cara é sério e não é nada bobo. E não é esquerdista, muito menos irracionalista.

Sérgio Paulo Rouanet apela ao dever de “universalidade” dos intelectuais, que ele define como “pensar e agir em nome de todos”, como se a universalidade da verdade dependesse do apoio unânime das multidões e como se aquele dever não consistisse, com freqüência, em defender aquilo que todos rejeitam.

Concordo em termos, mas é preciso saber se ele entendeu direito o Rouanet. “Em nome de todos”, pelo menos assim fora de contexto, pode muito bem ser entendido como um imperativo categórico, ou seja, não em nome de todos os existentes em dado lugar e tempo, mas de absolutamente todos os seres racionais.

Renato Janine Ribeiro medita um pouquinho sobre “O que é ser intelectual de esquerda?” – decerto a mais interessante das perguntas para uma classe cuja principal tarefa é a contemplação extática do próprio umbigo.
Querem mais? Essas amostras bastam. A vacuidade, a falta de garra para apreender a substância dos fatos, a obscenidade espontânea e quase inocente com que esses sujeitos lambem em público o próprio ego grupal — tudo isso ilustra, ao mesmo tempo, a causa remota e o seu efeito presente: a total irresponsabilidade intelectual de ativistas ambiciosos desembocou, a longo prazo, numa degradação tamanha, que eles próprios, mergulhados nela, já não conseguem lembrar que a produziram fazendo exatamente o que estão fazendo agora.

Mas que desfecho mixuruca! Obscena foi a estratégia ociana para desqualificar vários intelectuais, resumindo papers inteiros em uma frase. Uma coisa que aprendi com um professor de filosofia, muito simples mas muito poderosa, foi perguntar-me, depois de ler alguma coisa, o seguinte: o que aprendi com isso? Sinceramente, eu não aprendi nada com esse artigo!

E você, raro leitor?

Carta a um futuro olavette [5]: postscriptum

— Sempre, desde que era astrólogo, OC [Olavo de Carvalho] fez listas de autores e livros e naquele estilo jornalístico: singularizando para elogiar, como em “um Jung” (sim, ele elogiava Jung), “um Guénon”; ou pluralizando para menosprezar, “os Fulanos” etc. A pergunta é: qual lista está valendo, apenas a última? Outra: todos os listados concordam entre si acerca do assunto em tela (p.ex., Zubiri com Weil, Lonergan com Strauss etc.)?

— Vários dos autores listados e recomendados por OC não são pouco conhecidos apenas no Brasil mas em todo o mundo. O curioso é que o OC não diz isso dos EUA, o país mais ignorante de todos os “desenvolvidos”. Duvido que lá se conheçam, proporcionalmente, esses autores mais do que nos outros (países desenvolvidos).

— Alguns desses autores já eram conhecidos no Brasil antes de serem referidos pelo OC, como Weil e o próprio Zubiri.

— Outra coisa que OC não diz é que nos EUA e nos países de língua inglesa em geral se pratica, de modo predominante, a chamada filosofia analítica, ou seja, um “estilo” de filosofia totalmente avesso aos filósofos que ele indica e que não tem o menor interesse por eles.

— “Kant é um burro”, teria dito OC. Não duvido nada que ele o tenha. Mas… Zubiri, Lonergan, Weil, Scruton, e provavelmente ainda outros autores que ele recomenda foram e são estudiosos de Kant. Que raio de idiota ou de imbecil perde tempo com um burro?

— OC alega poder relacionar 500 livros relevantes e desconhecidos no Brasil etc. Ele fala isso como se conhecesse toda a produção científica e filosófica disponível em todo o mundo e em todas as línguas. Aposto como ele desconhece completamente grande parte da produção filosófica em inglês mesmo e nos próprios EUA! Pergunte-lhe, p.ex., se ele leu Moral and Politics, de Vittorio Hoesle. E acho que posso eu mesmo relacionar vários livros importantes de que ele nem sequer ouviu falar.

Carta a um futuro olavette [4]

Caro P.,

Não, ódio não, meu caro. Graças a Deus não odeio ninguém. Digamos que o fato de alguns alunos* meus terem sido aliciados pela seita ociana [de OC, ou seja, Olavo de Carvalho] me tenha começado a incomodar… Incômodo é bem diferente de ódio, não é? (Eu não perderia o meu tempo com o OC se não fosse por um aluno ou um amigo, creia-me.)

Quanto aos livros dele, na verdade não tenho certeza de que me desfiz de todos. Devo ter uns 4 mil livros, e preciso mesmo selecionar o que vale ou não a pena guardar. Quando ele escrever uma obra de filosofia, talvez a compre e guarde. Vamos ver.

Eu sei o que o OC pensa do Gramsci. Em parte, até concordo com ele; em parte, acho um exagero paranoico. Mas não é isso que me interessa, e sim se os olavettes terão a liberdade e a coragem de fazer o próprio juízo sobre Gramsci. Para isso, teriam de ir ao original, ora.

Achei ótimo que os olavettes tenham se assumido como tais (“Olavettes”), pois assim não preciso me sentir constrangido.

Em filosofia, como em tudo, é muito mais fácil destruir do que construir. O que é a filosofia sem argumentos consistentes? Sem ideias claras e distintas? Não digo teoria no sentido de doutrina, sistema (embora nem todo sistema seja fechado). Que direito tem alguém de criticar os argumentos de seu interlocutor se não oferece nenhuma alternativa consistente?

Tenho a impressão de que OC tem muitas ideias preconcebidas, que em parte herdou de sua passagem pela astrologia, pelo perenialismo, sufismo etc., nas quais ele ainda crê firmemente, mas que não sabe como traduzi-las num discurso racional, comunicável.

O que vai contra essas ideias, ele critica, “destrói”, “reduz a nada”. Mas no lugar, não põe nada, limitando-se a fazer alusões a intuições profundas –que um dia desenvolverá, ou que só transmite oralmente a seus discípulos, ao modo da doutrina não escrita de Platão…

Enfim, como dizia um filósofo de Indiaquera, digo, Itaquera City: cada um com seus probrema!

Abraço,

e.

* Você acredita que um deles defendeu que o cigarro não faz mal, que essa ideia não passa de uma armação contra a indústria tabagista? Sabe por quê ele fez isso? Porque é o que OC ensina… Como ele fuma como uma chaminé e não consegue parar de fumar de jeito nenhum, começou a inventar histórias para se justificar. Primeiro, que o cigarro só fazia mal para magros (assim resolveu outro problema dele, a obesidade), depois, que tudo não passava de uma campanha mentirosa etc. Sem comentários!

Carta a um futuro olavette [3]

Caro P.,

Não esperava que você fosse defender OC. Pretendi apenas chamar a sua atenção para alguns pontos problemáticos da “obra” do OC.

OC usa a argumentação ad hominem como método, não no sentido falacioso mas no daquilo que ele chama de “paralaxe cognitiva”, o que, na verdade, não é nada mais que a velha conhecida “contradição pragmática”: identificar se o discurso contradiz a própria posição ou atitude do sujeito do discurso. P.ex., quando digo “eu não sei nada de português”, no ato mesmo de fazer essa afirmação eu a estou contradizendo, pois a faço em português.

O que lhe tenho sugerido é que aplique esse “método” ao próprio OC e a seus seguidores.

Reparei, p.ex., que entre seus discípulos há muitos que se dizem católicos tradicionalistas ou conservadores e, ao mesmo tempo, partidários do liberalismo político-econômico. Ora, meu caro, isso é uma contradição evidente, porque o magistério da Igreja CAR há muito condenou o liberalismo. (O distributivismo do Chesterton, baseado no princípio de subsidiariedade da doutrina social da Igreja, é algo bem diferente do liberalismo!)

Para mim, não só o liberalismo é anticatólico, mas anticristão. E não apenas isso: é imoral, como são imorais o capitalismo e o comunismo (sabendo embora que estes dois são fatos, enquanto o primeiro é uma ideologia). Mas não estou discutindo o tema, e sim chamando a atenção para um tipo de contradição muito comum na obra do OC e nos textos de seus alunos: um autointitulado X que nega X toda vez que abre a boca.

Eu havia decidido não ligar mais para o OC e a sua seita, mas, refletindo melhor, dei-me conta de que, como conhecedor das estratégias dessa “organização” e como professor, eu tenho o dever moral de alertar os (ex)alunos, (ex)colegas e amigos para o problema.

Mas não faço nenhuma questão de ficar discutindo o assunto. Só entro nele quando chamado a isso.

Abraço,

e.