Karl-Otto Apel

hqdefaultSó hoje soube da morte, ocorrida no domingo, 15-5-2017, de um dos mais importantes filósofos do século XX: o alemão Karl-Otto Apel, de 95 anos.

Apel desenvolveu uma ética filosófica no seio da chamada reviravolta linguístico-pragmática da filosofia transcendental (Manfredo Araújo de Oliveira). Para ele, a linguagem, enquanto meio de toda comunicação, constitui condição ineliminável de possibilidade e validade da argumentação sensata e portadora de normas morais consensuais (comunidade ilimitada de comunicação).

Com o fim de fundar racionalmente uma ética universal –a Ética do Discurso– para o mundo contemporâneo, percorreu um longo caminho de discussão e superação com os mais tradicionais sistemas da filosofia ocidental. Esse percurso é documentado na sua obra-prima Transformação da filosofia (1973-6)*.

Claramente de orientação kantiana, Apel dialoga especialmente com a hermenêutica fenomenológica de Heidegger e Gadamer e com a semiótica de Peirce. E é justamente desse diálogo que resulta a transformação pragmático-transcendental da filosofia: a filosofia consiste na reflexão transcendental de todo pensar dialógico, e a Ética do Discurso, numa ética intersubjetiva de caráter a priori pragmático-transcendental, solidária e universal, portadora de consenso, verdade e responsabilidade.

A foto acima foi tirada durante uma entrevista concedida pelo filósofo em 2004 a Nicole Holzenthal. Esta e outras entrevistas estão disponíveis no Youtube. Uma das coisas que mais chamam a atenção é a humildade intelectual e a serenidade de Apel.

Sem dúvida, uma grande e inestimável perda para a filosofia!

Clique AQUI para assistir à mencionada entrevista.

E clicando AQUI você pode ler uma pequena entrevista concedida por Apel a Maurício Guilherme Silva Júnior quando esteve na UFMG.

O importante jornal alemão Die Zeit, ao noticiar a sua morte, refere-se a Karl-Otto Apel como “representante da Escola de Frankfurt” e considera que ele tenha influenciado a Ética do Discurso.  Isso se deve, decerto, ao trabalho desenvolvido por Apel em parceria (dialógica!) com seu amigo, outro grande filósofo, Juergen Habermas. Mas se este último pode sim ser considerado como um membro da citada Escola, o mesmo não se pode dizer sem mais de Apel, que sempre manteve uma posição de independência em relação ao neomarxismo e às demais correntes filosóficas contemporâneas.

* Tradução brasileira: Transformação da filosofia. Vol. 1: Filosofia analítica, semiótica, hermenêutica; vol. 2: O a priori da comunidade de comunicação. São Paulo: Loyola, 2000.

GRUPO DE PESQUISA

“Discurso à Nação Alemã”, proferido por Fichte em Berlim no inverno de 1807/8


Filosofia Transcendental e Religião

Prof. EDSON GIL

1.Introdução
A filosofia nasceu no Ocidente como um novo modo de questionamento da realidade. Não perguntava mais por alguma realidade determinada (ente), mas pela realidade como tal (ser). A filosofia nasceu, portanto, como metafísica.

Mas perguntar pela realidade como tal implica perguntar pela realidade em sua totalidade. E perguntar pela totalidade implica, por sua vez, perguntar pela possibilidade de tal totalidade, ou seja, por sua unidade, princípio ou fundamento. Numa palavra, pelo Absoluto ou por Deus. Em sua origem, portanto, a filosofia ocidental era metafísica e teológica: “ontoteologia”.

A filosofia grega, dos pré-socráticos aos estóicos, concebia a totalidade do real como cosmos. Assim, a pergunta pelo Absoluto ou pelo fundamento divino do mundo recebeu, entre os gregos, respostas cosmológicas, tais como: apeiron (Anaximandro), ser imutável (Parmênides), logos (Heráclito), nous (Anaxágoras), primeiro motor imóvel (Aristóteles) etc. Na filosofia grega, portanto, o questionamento metafísico (ser) era indissociável de concepções cosmológicas (cosmos) e recebia respostas de ordem teológica (teologia filosófica).

Na filosofia medieval, cristã, o Absoluto revela-se como Deus transcendente, pessoal e criador: verdade que ilumina a mente humana (Agostinho), causa sui (Anselmo), ato de ser em que coincidem essência e existência (Tomás) etc. Enfim, como ente absolutamente necessário (ipsum esse subsistens, actus purus) e, por conseguinte, apenas cognoscível de modo analógico.

Em suma, tanto a filosofia antiga quanto a medieval eram determinadas pelo mesmo paradigma metafísico. Ocupavam-se sobretudo do problema do ser ou da realidade como tais. A diferença é que, enquanto a metafísica grega era cosmocêntrica, a cristã era teocêntrica.

Assim, durante a vigência do paradigma metafísico, ou seja, do nascimento da filosofia até o fim da escolástica (nominalismo), a totalidade do real era concebida com base em alguma instância objetiva, cósmica e/ou divina. A posição epistemológica segundo a qual a realidade exterior está pronta, dada, bastando ao sujeito recebê-la passivamente no seu interior se chama realismo.

A passagem da Idade Média para a Moderna representou também uma mudança de paradigma filosófico: do metafísico para o epistemológico. E, por conseguinte, uma mudança de problema: do ser ou da realidade para o conhecer ou a verdade. A atenção dos filósofos volta-se, agora, para o sujeito do conhecimento – o próprio homem. A filosofia moderna é antropocêntrica.

O paradigma moderno, epistemológico e antropocêntrico, culmina na filosofia transcendental, principalmente com Descartes (cogito), Kant (Ich denke) e Fichte (Tathandlung). Em certo sentido, portanto, a filosofia moderna – e européia – é filosofia transcendental.

Do ponto de vista do novo paradigma, pode-se dizer que os filósofos realistas são ingênuos, uma vez que, perdendo-se nos objetos, esquecem-se de si mesmos como sujeitos. O programa da filosofia transcendental consistirá, então, justamente na tematização do sujeito como condição de possibilidade do saber objetivo, tanto teórico quanto prático. A realidade, para os modernos, não está mais pronta, dada, precisando antes ser constituída – em alguma medida – pelo sujeito. Essa posição epistemológica se chama idealismo.

A mudança de paradigma ocorrida na passagem da Idade Média para a Moderna – da metafísica para a epistemologia, do teocentrismo para o antropocentrismo – teria de implicar necessariamente também uma mudança radical no que se refere ao problema propriamente filosófico-teológico do Absoluto ou de Deus. Afinal agora o próprio sujeito humano, e não mais o cosmos, passou a ser o lugar do aparecimento da transcendência. – Transcendental é, por assim dizer, a transcendência imanente.

2. Objetivo
O objetivo do Grupo de Pesquisa de Filosofia Transcendental é investigar o sentido filosófico da revolução antropocêntrica moderna no que se refere ao problema da fundamentação última, ou seja, do Absoluto ou de Deus, e, por extensão, da religiosidade.

3. Justificativa
Escolheu-se Johann Gottlieb Fichte como objeto central de pesquisa porque esse filósofo alemão, partindo de Kant, desenvolveu um método de reflexão transcendental, portanto autenticamente moderno – a Doutrina da Ciência –, por meio do qual pretende aceder ao Absoluto – ou, como ele mesmo diz, “conceber o inconcebível” –, de modo racional sem recair no paradigma metafísico, tal como ocorreria com as filosofias do absoluto dos idealistas alemães Hegel e Schelling.

4. Método
Estudar a filosofia transcendental dos pontos de vista histórico – idealismo alemão – e sistemático – fundamentação última, religião –, por meio da leitura aprofundada de textos originais dessa tradição moderna, com destaque para a obra de Fichte.

5. Resultados Esperados
Ao fim do primeiro ano de estudos, o participante do grupo deverá ter um conhecimento básico dos princípios da filosofia transcendental, em geral, bem como da filosofia transcendental da religião – tal como esta foi desenvolvida por Fichte – , em particular.

6. Interação com outros projetos
O pensamento transcendental não se restringe à filosofia teórica (epistemologia e ontologia), nem, na filosofia prática, restringe-se à ética e à estética, mas tem dado importantes contribuições à Filosofia da Religião (p.ex, com Rahner e Muck) e da Educação (p.ex., com Heitger e Dickopp).


BIBLIOGRAFIA BÁSICA


Primária

FICHTE, J. G. La exhortación a la vida bienaventurada o la Doctrina de la Religião. Madri: Tecnos, 1995.

________. A doutrina-da-ciência e o saber absoluto. In: ________. A doutrina-da-ciência e outros escritos. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 253-94. (Os pensadores)


Secundária

ALLISON, H. E. El idealismo transcendental de Kant. México: UAM, 1992.

AQUINO, Marcelo F. de. O conceito de religião em Hegel. São Paulo: Loyola, 1989.

GREUEL, Marcelo da V. Experiência, pensar e intuição. São Paulo: UNIUBE, 1998.

GUSDORF, Georges. Tratado de metafísica. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1960.

HICK, John. Filosofia da religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.

LAUTH, R. Concepto, fundamentos y justificación de la filosofia. Madri: Rialp, 1975.

OLIVEIRA, Manfredo A. de. Filosofia transcendental e religião. São Paulo: Loyola, 1984.

RABUSKE, Edvino. Filosofia da linguagem e religião. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1994.

REALE, M. Experiência e cultura. São Paulo: EDUSP, 1977.

TORRETTI. Manuel Kant: estudio sobre los fundamentos de la filosofía crítica. Santiago: UDP, 2005.

ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. São Paulo: Paulus, 1991.