ciência da alma?


















O Cogito perde força

por CORNELIA DEAN

Em 1950, em uma carta aos bispos, o papa Pio 12 abordou a questão da evolução. “A Igreja Católica Romana não faz necessariamente objeções ao estudo da evolução, contanto que este diga respeito aos atributos físicos”, escreveu o papa na encíclica Humani Generis. Mas ele acrescentou: “A fé católica nos obriga a afirmar que as almas são imediatamente criadas por Deus”.

O papa João Paulo 2° afirmou praticamente a mesma coisa em 1996, em uma mensagem à Academia Pontifícia de Ciências, um grupo de assessoria do Vaticano. Embora tenha observado que nos anos anteriores a evolução se tornou “mais do que uma hipótese”, ele acrescentou que a idéia de a mente emergir de um mero fenômeno físico era “incompatível com a verdade sobre o homem”.

Mas à medida que os biólogos evolucionários e os cientistas especializados nas neurociências cognitivas perscrutam o cérebro de forma cada vez mais profunda, eles descobrem mais e mais genes, estruturas cerebrais e outros fatores físicos relacionados a sentimentos como empatia, desgosto e alegria. Ou seja, eles estão descobrindo as bases físicas para os sentimentos dos quais emerge a sensação de moral – não só em pessoas, mas também em animais.

O resultado talvez seja o desafio mais poderoso à visão de mundo resumida por Descartes, o filósofo do século 17 que dividiu as criaturas do mundo entre a humanidade e o resto. Conforme os biólogos vão apresentando evidências de que os animais são capazes de exibir emoção e padrões de cognição que outrora se acreditava serem estritamente humanos, o enunciado de Descartes, “Penso, logo existo”, perde a sua força.

Para muitos cientistas, a descoberta de que a reflexão moral é um resultado de atributos físicos que evoluem como tudo mais é apenas mais uma evidência contra a existência da alma, ou de um Deus que dota os humanos de almas. Para muitos crentes, especialmente nos Estados Unidos, essas descobertas demonstram o erro, ou até mesmo a perversidade, que é encarar o mundo em termos estritamente materiais. E elas provocam nos teólogos um ímpeto crescente para reconciliar a existência da alma com a crescente evidência de que os humanos não são, nem física nem mentalmente, uma classe em si.

A idéia de que as mentes humanas são o produto da evolução é “um fato incontestável”, afirma o periódico “Nature” na edição deste mês, em um editorial a respeito das novas descobertas sobre a base física do pensamento moral. Um cabeçalho no editorial vai direto ao assunto: “Com todo o respeito às sensibilidades das pessoas religiosas, a idéia de que o homem foi criado à imagem de Deus pode, com toda certeza, ser descartada”.

Ou, conforme V.S. Ramachandran, pesquisador do cérebro e professor da Universidade da Califórnia em San Diego, afirmou em uma entrevista, pode haver alma no sentido do “espírito universal do cosmo”, mas aquele conceito de alma do qual freqüentemente se fala, “um espírito imaterial que ocupa cérebros individuais e que só evoluiu nos humanos – não passa de uma tolice completa”. “A crença em tal tipo de alma é basicamente uma superstição”, disse ele.

Para pessoas como o biólogo evolucionário Richard Dawkins, falar sobre alma é parte do discurso da fé religiosa, que ele compara a uma doença. E entre os psicólogos evolucionários, a fé religiosa não passa de um artefato evolucionário, uma predileção que evoluiu porque as crenças compartilhadas aumentam a solidariedade grupal e outras características que contribuem para a sobrevivência e a reprodução.

Não obstante, a idéia de uma alma divinamente inspirada não será descartada. Para citar apenas um exemplo, quando perguntaram aos dez candidatos presidenciais republicanos em um debate no mês passado se algum deles não acreditava na evolução, três ergueram a mão. Um deles, o senador Sam Brownback, do Estado do Kansas, explicou mais tarde em um artigo na página editorial deste jornal que não rejeita toda a teoria evolucionária. Mas ele acrescentou: “O homem não foi um acidente, e ele reflete uma imagem e um semblante únicos na ordem criada”.

Esse é o ponto central da questão, segundo Nancey Murphy, filósofa do Seminário Teológico Fuller, que escreveu profusamente a respeito de ciência, religião e alma. Os desafios à unicidade da humanidade na criação são tão alarmantes quando a afirmação copernicana de que a Terra não é o centro do Universo, escreve ela no seu livro “Bodies and Souls of Spirited Bodies?” (“Corpos e Almas de Corpos Animados?”), publicado em 2006 pela Editora Cambridge. Murphy argumenta que assim como Copérnico derrubou a Terra do seu pedestal celeste, as novas descobertas feitas em pesquisas sobre a cognição retiraram os seres humanos da sua “localização estratégica” na criação.

Outro teólogo que escreveu bastante sobre o assunto, John F. Haught, da Universidade Georgetown, disse em uma entrevista: “Para muitos norte-americanos a única maneira de preservar a descontinuidade implícita na idéia de alma, de uma alma distinta, é negar a evolução, e vejo isso como algo infeliz”.

Não existe nenhum desafio científico verossímil à teoria da evolução como uma explicação para a diversidade e a complexidade da vida na Terra.

Para Murphy e Haught, porém, as pessoas cometem um erro quando assumem que os humanos só podem ser dotados de uma alma se as demais criaturas não possuírem alma.

“A biologia evolucionária demonstra que a transição do animal para o humano é muito gradual para que faça sentido a idéia de que os humanos possuem almas e os animais não”, escreveu Murphy, que é pastora da igreja Church of the Brethen (Igreja da Irmandade). “Todas as capacidades humanas atribuídas antigamente à mente ou à alma estão sendo agora estudadas com sucesso como processos cerebrais – ou, mais acuradamente, eu deveria dizer, como processos envolvendo o cérebro, o resto do sistema nervoso e outros sistemas corporais, todos interagindo com o mundo sócio-cultural. Portanto, trata-se de um raciocínio ‘falho’ querer distinguir os seres humanos do restante da criação”.

Ela e Haught citam as idéias de Thomas de Aquino, o filósofo e teólogo do século 13 que, segundo Haught, “falou da existência de uma alma vegetal e de uma alma animal, assim como da alma humana”. Haught, que falou perante a União Americana de Liberdades Civis ao contestar com sucesso os ensinamentos da teoria do design inteligente, uma prima ideológica do criacionismo, nas aulas de ciência de Dover, no Estado da Pensilvânia, afirma: “Da forma como vejo a questão, em vez de eliminar a idéia de alma a fim de fazer com que os humanos se encaixem mais harmoniosamente no restante da natureza, seria mais razoável reconhecer que existe algo de análogo à alma em todos os seres vivos”.

Mas isso significa, digamos, que o Australopithecus afarensis, o proto-humano famosamente exemplificado pelo esqueleto fossilizado conhecido como Lucy, tinha uma alma? Haught faz uma pausa e, a seguir, diz: “Creio que sim. Acho que todos os nossos ancestrais hominídeos tinham, de alguma forma, uma alma, mas isso não exclui a possibilidade de que, à medida que
a evolução continua, o formato da alma possa variar, assim como ocorre de um indivíduo para outro”. [The New York Times 26/6/07]

argumento ontológico 1

BLACKBURN, S. Dicionário de filosofia

O CÉLEBRE argumento favorável à existência de Deus, proposto pela primeira vez por Anselmo em seu Proslogion, cap.2. O argumento é notável por ser puramente a priori, e em geral é interpretado como uma tentativa de demonstrar a existência de Deus sem usar premissas contingentes. Anselmo segue Boécio, definindo Deus como “algo maior que qualquer coisa que possa ser concebida” (id quo maius cogitare nequit). Assim, Deus existe no nosso entendimento, uma vez que compreendemos esse conceito. Mas se Ele existisse unicamente no entendimento, poderíamos conceber uma coisa maior, uma vez que um ser que existe na realidade é maior que um que existe somente no entendimento. Mas então podemos conceber algo maior do que aquilo maior que qualquer coisa que possa ser concebida, o que é contraditório. Logo, Deus não pode existir unicamente no entendimento, existindo assim também na realidade. O argumento foi criticado na época do próprio Anselmo por um monge chamado Gaunilo, que contrapôs que o mesmo padrão de raciocínio provaria a existência de uma ilha perfeita (pois uma ilha perfeita que existe somente na imaginação não é obviamente tão boa como uma que exista de fato). O argumento não foi aceito por Tomás de Aquino, mas foi retomado por Descartes, que tornou claro o requisito de conceber a existência como parte da definição ou essência de um ser sumamente perfeito. Isso, por sua vez, abriu caminho às críticas de Hume e em especial de Kant, segundo as quais a existência não é uma propriedade idêntica às outras, não podendo ser adicionada ou subtraída ad libitum. Essa crítica tem sido, de uma maneira geral, sustentada pela lógica moderna (ver quantificador; variável).

Aceitando a sugestão de Hegel, o argumento tem sido tratado por teólogos modernos, tais como Barth, não tanto como uma demonstração com a qual podemos confrontar os descrentes, mas como uma exploração do significado profundo da crença religiosa. Collingwood encara o argumento não como uma prova da existência de Deus a partir do id quo maius cogitare nequit, mas como uma demonstração de que estamos comprometidos com a crença na existência de Deus porque o concebemos dessa maneira: sua existência é um postulado metafísico, ou um pressuposto absoluto de certas formas de pensamento.

No século XX, os filósofos americanos Charles Hartshorne, Norman Malcolm e Alvin Plantinga propuseram versões modais do argumento ontológico. Uma das versões é a seguinte: definamos algo como insuperavelmente grande se existe e perfeito em todos os mundos possíveis. Admitamos agora que é pelo menos possível que exista um ser insuperavelmente grande. Isso significa que existe um mundo possível no qual esse ser existe. Mas se existe num mundo, existe em todos (pois do fato de tal ser existir num mundo deriva-se que ele existe e é perfeito em todos os mundos). Logo, existe necessariamente. A resposta correta a esse argumento é não permitir a concessão aparentemente razoável de que a existência de tal ser seja possível. Essa concessão é muito mais perigosa do que parece, uma vez que na lógica modal envolvida podemos derivar necessariamente p a partir de possivelmente necessariamente p.

argumento ontológico 2

S. ANSELMO [1033/4 (Aosta) – 1109 (Canterbury)]. Proslogion

Depois de insistentes pedidos de alguns coirmãos, escrevi um opúsculo como exemplo de meditação sobre as razões da fé, como alguém que, raciocinando consigo mesmo, indaga o que ignora; mas depois, considerando que o escrito é constituído pelo encadeamento de muitos argumentos, comecei a me perguntar se não podia encontrar um argumento único que demonstrasse por si só, sem necessidade de outro qualquer, que Deus existe e que é o bem supremo, que não precisa de nada e de quem todo o resto necessita para ser e para ter valor, e que também bastasse para demonstrar as outras verdades em que acreditamos acerca da substância divina.

Concede-me Senhor, tu que dás inteligência à fé, concede-me nos limites do conveniente entender que tu és como acreditamos. Na verdade, nós acreditamos que tu és algo maior do que tudo que se poderia pensar.

Mas talvez não exista uma tal natureza, posto que o insipiente disse em seu coração: Deus não existe. Sem dúvida, porém, o próprio insipiente, quando ouve o que eu digo (algo maior do que tudo que se pode pensar), entende o que está escutando e o compreende em seu intelecto, mesmo sem entender que aquela coisa sobre a qual escuta existe. De fato, entender uma coisa com o intelecto é distinto de entender que aquela coisa existe.

Quando um pintor imagina o que está para pintar, tem-no no intelecto; mas não acredita que exista aquilo que ainda não pintou. Quando ao contrário já o pintou, tem o que pintou no intelecto e acredita que ele existe.

Portanto, o insipiente também está convencido de que existe, ao menos no intelecto, alguma coisa da qual não se pode pensar nada maior. Ao escutar isso, de fato, entende-o, e quando se entende alguma coisa quer dizer que já se tem essa alguma coisa no intelecto. Ora, aquele do qual não se pode pensar nada maior não pode existir somente no intelecto.

De fato, se existisse somente no intelecto, poderíamos pensar que existisse uma outra também na realidade, e assim esta segunda seria maior que a primeira. Conseqüentemente, se aquilo do qual nada maior se pode pensar existe só no intelecto, daí resultaria que aquilo do qual o maior não se pode pensar e aquilo do qual o maior se pode pensar seriam a mesma e idêntica coisa. Isso, porém, não se pode certamente admitir.

Logo, existe sem dúvida alguma coisa da qual nada maior se pode pensar, seja no intelecto, seja na realidade. Não se pode pensar que Deus não exista. O que se pode pensar e que não existe não é Deus.

Ele existe de modo tão veraz que não se pode nem mesmo pensar que não exista. De fato, é possível pensar que exista alguma coisa que não se pode pensar que não exista; esta alguma coisa é exatamente maior do que aquilo que se pode pensar que não exista.

Por isso, “o ser do qual não é possível pensar nada maior” não pode ser pensado como não existente, pois isso seria contraditório. Existe, portanto, verdadeiramente, “o ser do qual não é possível pensar nada maior”; e existe de tal forma que nem sequer é admitido pensá-lo como não existente. E esse ser és tu, Senhor nosso Deus.

Logo, Senhor meu Deus, tu és: não se pode nem mesmo pensar que tu não existas. Se de fato uma mente pudesse pensar alguma coisa melhor do que tu, então a criatura seria superior ao Criador e estaria julgando-o, o que é absurdo.

Entre todos, somente tu existes do modo mais veraz e entre todos possuis o ser de modo absoluto, porque qualquer outra coisa existente não existe de modo igualmente veraz.

Mas então por que o insipiente diz em seu coração: Deus não existe, quando é tão evidente para quem quer que possua uma mente que raciocine que tu existes mais do que todas as outras coisas? Exatamente porque é estúpido e insipiente. Mas vejamos como o insipiente pôde dizer em seu coração aquilo que não se pode nem mesmo pensar.
Uma coisa pode ser pensada de duas maneiras: ou quando se pensa a palavra que a significa, ou quando se pensa a própria coisa que é significada. Ora, atendo-nos à palavra podemos pensar que Deus não existe, mas atendo-nos à coisa isso não é possível.

E todavia como pode o insipiente dizer em seu coração aquilo que não se pode nem mesmo pensar, se dizer no coração e pensar são a mesma coisa? De fato, se é verdade que o disse no coração, é verdade que também o pensou. Então, posto que não pôde pensá-lo, não é verdade que o disse em seu coração.

Contudo, não existe somente um modo de pensar. Um modo é pensar uma coisa pensando somente na palavra que a indica; um outro é aquele em que se entende exatamente o que a coisa é. No primeiro modo pode-se pensar que Deus não exista, no segundo modo absolutamente não.

Efetivamente, ninguém que entenda o que são o fogo e a água pode pensar realmente que o fogo seja água; de uma certa maneira pode pensá-lo, mas somente segundo as palavras. Igualmente, ninguém que entenda o que é Deus pode pensar que Deus não exista, mesmo pronunciando essas palavras em seu coração, ou como palavras sem significado, ou segundo um significado impróprio.

De fato, Deus é aquilo de que não se pode pensar nada maior. Quem entende isso de modo correto entende também que Ele é tal de modo a não se poder afirmar que não exista nem mesmo no pensamento. Quem, portanto, entende como é Deus não pode pensar que não exista.

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ars luliana

“Um aspecto especial da modernidade da Ars luliana reside na matematização e mecanização das relações conceituais. Lúlio apresentou graficamente as relações das dignidades e de outros conceitos fundamentais, tais como filosófico-naturais e psicológicos, e inventou métodos para decidir sobre a verdade e a falsidade de proposições, com auxílio de triângulos e quadrados giratórios. Não o fez por mera brincadeira; via nisso um instrumento para sua idéia filosófico-missionária: a verdade da Trindade e da Encarnação devia ser apresentada aos sarracenos com auxílio de pequenas máquinas de pensar.” [Kurt Flasch]