Novos Cursos

Car@s,

Estão sendo oferecidos pelo Instituto Raimundo Lúlio 2 novos cursos e mais a continuação do curso, em módulos, de história da filosofia.

O curso em 4 módulos vocês já conhecem.

Os novos são os seguintes: Introdução à filosofia da linguagem & Introdução à história da filosofia contemporânea da ciência.

Agora todos os cursos têm a mesma duração: 6 semanas.

Mais informações podem ser obtidas no blog do Instituto:

http://ocafedosfilosofos.blogspot.com.br/2017/05/cursos-iniciacao-historia-da-filosofia.html

http://ocafedosfilosofos.blogspot.com.br/2017/05/curso-filosofia-da-linguagem.html

http://ocafedosfilosofos.blogspot.com.br/2017/05/historia-da-filosofia-da-ciencia-idade.html

Abraço,

Prof.EDGil

Ciência e filosofia

No post Violência e ideologia, de hoje, afirmei, entre parênteses, que o argumento

“evolucionista” é no mínimo problemático, pois, embora não seja científico, deixa de fora o próprio sujeito do conhecimento pretensamente científico …

Gostaria de esclarecer um pouco essa minha afirmação, embora pretenda voltar ao assunto mais tarde.

O que está em questão é a diferença entre a filosofia e a ciência, ou melhor, as ciências ditas positivas. Essa diferença vem sendo cada vez mais esquecida e encoberta pela filosofia acadêmica dominante mundo afora. Isso se deve à influência cada vez mais forte, determinante mesmo, que as ciências duras e as novas disciplinas científicas, como as neurociências, vêm exercendo sobre a filosofia, ou melhor, sobre os professores de filosofia.

Essa situação não deixa de ser curiosa. Veja, raro leitor: o pai da filosofia e do racionalismo modernos, Descartes, aquele pensador que ambicionava criar e estabelecer uma scientia filosófica abrangente, com as raízes fincadas na metafísica, elevando-se através da física e alcançando todas as demais ciências pelos ramos da mecânica, da medicina e da moral, esse mesmo pensador jamais confundiu a reflexão propriamente filosófica com o conhecimento científico da natureza.

Mas, hoje, é comum entre os professores de filosofia (penso em escala internacional) a concepção segundo a qual o desenvolvimento da ciência tende a eliminar a filosofia. Nesse sentido, um problema só seria “filosófico” enquanto não encontrasse uma solução científica. A filosofia não passaria, por conseguinte, de uma espécie de fonte de problemas ou de “programas de pesquisa” para os verdadeiros pensadores, os cientistas.

Bom, vou deixar essa tese a meu ver esdrúxula de lado e voltar à questão da diferença entre filosofia e ciência.

Toda ciência possui um objeto próprio, e, mais importante, é determinada por este. A física não tem o mesmo objeto que a biologia. A física aplicada à biologia não é biologia, mas justamente física aplicada. Ocorre que a determinação objetiva da ciência implica a exclusão do sujeito. No fazer científico, o sujeito, ou seja, o cientista, esquece-se de si mesmo. Noutras palavras, o sujeito da ciência extroverte-se no objeto.

Heidegger, quando trata dessa questão, faz afirmações polêmicas como a de que a ciência não pensa. Ele quer dizer que a ciência não pensa… filosoficamente, ou seja, não re-flete, mas apenas se “flete” para fora, para o objeto. Esse fletir-se adiante se chama tradicionalmente intentio recta. Além disso, o pensador da Floresta Negra quer dizer que a ciência não pensa… o ser, mas apenas o ente, a coisa. (É o que Heidegger chama de esquecimento do ser ou esquecimento da diferença ontológica entre ser e ente.) E, por fim, quer ele dizer também que a ciência não pensa… o nada, uma vez que pressupõe o ente sem se fazer a pergunta decisiva: mas, afinal, por que o ser e não antes o nada?

Uma objeção que comumente se levanta contra esse tipo de concepção é que há ciências que não só não se esquecem do sujeito como o têm por objeto, como a psicologia. E que mesmo uma ciência dura como a física teria há muito identificado, com Heisenberg (Heisenbergsche Unschärferelation ou Unbestimmtheitsrelation: al., Relação imprecisa ou de indeterminação de Heisenberg, mais conhecida como princípio da incerteza) o problema da interferência do sujeito sobre o objeto.

Esses contra-argumentos, infelizmente, não colhem. Quando estuda o homem, o psicólogo toma-o como objeto e não como sujeito. É como se ele se contemplasse num espelho. O sujeito contemplado não contempla, ou seja, não exerce a função de sujeito, reduzindo-se à condição de objeto entre objetos, de coisa entre coisas.

Do mesmo modo, quando identifica a influência do próprio ato de investigação sobre o objeto investigado, o físico quântico não está refletindo sobre o seu papel como sujeito epistemológico, mas apenas como sujeito empírico. Trata-se da interferência física da luz projetada pelo microscópio sobre o movimento e a posição das partículas subatômicas.

Obviamente, não há nada que impeça tanto o psicólogo quanto o físico de pensar… filosoficamente, ou seja, de re-fletir sobre o próprio papel como sujeito no processo de investigação científica do objeto. É o que se chama tradicionalmente intentio obliqua. Mas, quando o fazem, quando pensam filosoficamente, eles não estão mais fazendo ciência e sim justamente –filosofia!