Um lógico na ilha da fantasia

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O Estado de São Paulo: VIDA&

Domingo, 10 fevereiro de 2008

Um lógico na ilha da fantasia

Pensador brasileiro com mais reconhecimento no exterior, Newton da Costa tem seus livros reeditados

por DANIEL PIZA

No final dos anos 50, Newton da Costa já era formado em Engenharia e Matemática e colaborador de publicações francesas quando procurou o reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com uma proposta. Queria trazer professores estrangeiros, como seu mentor Marcel Guillaume, para ajudar a montar um centro de pesquisa de lógica e matemática em Curitiba. O reitor vetou o projeto e justificou: “Pode citar qualquer especialista estrangeiro em qualquer assunto, e lhe dou o nome de alguém aqui melhor do que ele.” Newton pensou em replicar: “Einstein?” Preferiu ficar quieto.

Em 2002, o respeitado jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung publicou uma matéria sobre ele. Título: “Newton ist brasilianer.” Era um trocadilho com o nome de Isaac Newton, o físico inglês: “Newton é brasileiro.”

As duas histórias mostram uma constante na vida de Newton da Costa, hoje aposentado, prestes a completar 79 anos, vivendo em Florianópolis “como se vivesse numa ilha da fantasia”. Ele é o pensador brasileiro mais respeitado mundialmente, reconhecido pelo desenvolvimento da lógica paraconsistente, hoje utilizada em diversos sistemas computadorizados. Mas é pouco conhecido no Brasil, onde há quem diga que nem sequer existe um filósofo brasileiro (ou então se chama de filósofo qualquer professor de filosofia).

Isso, no entanto, começa a mudar. Em março, a editora Hucitec lança as reedições de três de seus livros: Introdução aos Fundamentos da Matemática, de 1961, revisado em 1976; Ensaio sobre os Fundamentos da Lógica, de 1979, considerado seu livro mais importante; e Lógica Indutiva e Probabilidade, de 1990. Newton da Costa, em entrevista ao Estado, também diz ter ficado contente com a citação de seu nome pelo cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e engenheiro de formação, como uma das personalidades mais influentes do Brasil em enquete da revista Época.

O curioso é que Newton Carneiro Affonso da Costa nunca precisou deixar o País para desenvolver uma teoria de fama mundial. Nascido em Curitiba em 16 de setembro de 1929, ele, “mau aluno”, atribui ao ambiente familiar sua curiosidade e independência. A mãe era professora de literatura francesa; a tia, de literatura inglesa; outra tia, de literatura portuguesa. Um tio, Milton Carneiro, dava aulas de filosofia. O pai, funcionário público, gostava de matemática e do positivista francês Auguste Comte. O irmão mais velho de Newton, Haroldo, se tornaria geômetra.

“Na hora da refeição, só falávamos sobre esses assuntos”, lembra Newton. “Minha mãe proibia usar a primeira pessoa, ficar falando o que tinha feito durante o dia. Ela queria que se falasse sobre idéias, sobre política, filosofia, literatura.” Foi numa conversa com o tio que surgiu a dúvida que embasaria toda sua carreira: o que é o conhecimento – em especial, o conhecimento científico? A conversa era sobre a impossibilidade de uma pessoa provar que existe e que a existência não passa de ilusão dos sentidos. E um livro logo daria impulso a essas questões: Discurso do Método, de Descartes, que Newton leu aos 15 anos. “Li, reli, li e reli de novo.”

Autores
Brotava ali o filósofo da lógica, um caso raro entre intelectuais brasileiros de pensador metódico, sistemático. Ainda na adolescência, Newton descobriu os cinco autores que até hoje diz que mais o influenciaram: W.V. Quine, Rudolf Carnap, Karl Popper, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein. São todos da escola conhecida como “filosofia analítica”, que nas primeiras décadas do século 20 se dedicou a abordar questões filosóficas com auxílio da matemática. No Brasil, poucos foram os seguidores dessa linha de pensamento. O maior de todos é, sem dúvida, Newton da Costa, professor da Universidade de São Paulo por 30 anos.

Mas foi para a Universidade Estadual de Campinas que ele doou quase toda sua biblioteca de lógica e matemática, incluindo documentos importantes de sua carreira. Num cômodo – “meu cubículo”, como chama – de seu apartamento no centro de Florianópolis, onde vive há cinco anos, restam apenas os livros dos autores que mais o marcaram. Lá está o quinteto analítico, com destaque em número de volumes para Russell. Numa prateleira, vê-se uma montagem feita por alunos de uma foto de Newton diante de Russell – um encontro que nunca houve na realidade, embora fosse um dos maiores sonhos do brasileiro. “Russell foi, de longe, o autor que mais li, mesmo sem concordar com tudo. Era um gênio e escrevia como ninguém.”

Com quem, então, mais concordou? “Com Wittgenstein, sem dúvida. O Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus (1921), não dos outros livros.” Isso porque o pensador austríaco vislumbrava uma lógica com contradições, diferente da versão ortodoxa – e essa foi uma abertura fundamental para o conceito de “paraconsistência”. Russell, quando leu o tratado de Wittgenstein, decretou: “Ou você é um louco ou um gênio.” Wittgenstein também teve discussões agudas com Popper, outro autor a quem Newton deve muito, não só por uma filosofia da ciência que diz que “nenhuma explicação é suficiente”, mas também por livros como A Sociedade Aberta e seus Inimigos, uma crítica liberal ao marxismo.

Além do quinteto, estão ali autores como Kurt Gödel, o austríaco naturalizado americano cuja “teoria da incompletude” abalou os alicerces da matemática clássica em 1931, ao mostrar que um sistema de valores não pode ser consistente se se pretender completo. Sem ele, como sem outros grandes matemáticos como Henri Poincaré e F. Enriques, a lógica paraconsistente não existiria. As demais estantes do escritório trazem algumas centenas de livros que tratam justamente das idéias de Newton, além das traduções dos dez volumes que escreveu até agora. São livros em chinês, russo, romeno, alemão… Não há Mangabeira Unger que possa disputar com ele em termos de referência no exterior.

Complexo
Mas não são apenas livros de filosofia que Newton conserva. Edições de Shakespeare e do Dom Quixote de Cervantes estão em destaque. A grande literatura e a música clássica – “Sou dos três Bs, Bach, Beethoven e Brahms” – são os prazeres culturais de Newton, que nas horas de folga também gosta de escrever poemas com o sobrenome dinamarquês da mãe, Eriksen. Ao lado, vê-se um livro em espanhol sobre as campanhas militares de Napoleão. “Leio tudo sobre Napoleão desde criança”, conta Newton. “Como toda pessoa com complexo de inferioridade, sou fã de Napoleão. Ele foi um gênio da estratégia.”

Como assim, complexo de inferioridade? Um pensador que construiu uma obra sólida num país periférico e ganhou reputação mundial, da qual não hesita em demonstrar orgulho, tem complexo de inferioridade? “Pois é, eu tenho. É como unha encravada, você tem e pronto. Uma vez conversei com um amigo psicanalista sobre isso e perguntei a ele: ‘Se eu não tivesse esse complexo, teria feito a minha obra?’ Ele respondeu: ‘Isso não dá para dizer.’ Então, se é assim, não posso fazer nada.” E tome livros sobre Napoleão.

Engenheiro formado, Newton começou a trabalhar na construtora do sogro, que lhe disse que em dez anos ele garantiria sua independência financeira. Newton não suportou ficar mais de um ano. “Dinheiro não importa para mim; nunca importou.” O desprendimento material não impediu esse professor com aparência de professor – que passa os dias dentro de casa lendo e escrevendo e dá uma palestra por semana – de ter uma vida confortável, de ter criado dois filhos, um economista e uma química, e de ser um avô carinhoso, que apresenta sorridente uma das netas, Isabela. Um pedestre que cruze por Newton da Costa numa dessas ruas do centro de Florianópolis com nomes de matemáticos (Praça Benjamin Constant, Rua Trompowski, etc.) não imagina que esse afável senhor de camisa social e calça de elástico seja um dos maiores lógicos do mundo.

O que tira Newton do sério é o atraso do Brasil, especialmente o desprezo ao trabalho intelectual. “Hoje você liga a rádio ou a TV e só ouve debilóides”, diz. Crítico do governo Lula, que acha que tem sorte de acontecer num período de prosperidade mundial, ele discorda em especial do pensamento socialista, citando Popper e economistas como Ludwig von Mises. “Só o capitalismo permite mobilidade social. Se a economia for impulsionada, tudo o mais se ajeita”, diz. “Mas agora o Lula é de centro-direita…”, ironiza, declarando-se de “centro-esquerda” e afirmando que votaria democrata nos EUA.

Em 1957, Newton se licenciou em Matemática pela UFPR; em 1960, se doutorou. Nessa época começou a se propor o desafio de desenvolver um sistema formal que levasse em conta as contradições, embora o nome “paraconsistência” só fosse surgir em 1974. O termo até então era “inconsistência”, e desde Gödel uma série de matemáticos mundo afora tentava chegar a essa teoria. Foi quando Newton tomou contato com a “lógica fuzzy”, também chamada de “difusa” ou “booleana”, que da mesma forma lida com estados intermediários entre o verdadeiro e o falso. Ela foi estruturada em 1965 por um professor da Universidade da Califórnia, Lofti Zadeh, cujos trabalhos Newton resenhou para publicações alemãs e brasileiras.

Nomes
“A fuzzy pode ser vista como uma versão mais específica da lógica paraconsistente”, afirma Newton. “Eu já provei isso.” O que ele alega é que sua teoria vai além de um modelo matemático; é um sistema filosófico, que discute conceitos a fundo e tenta, por exemplo, resolver problemas da dialética de Hegel. Newton também diz ter sido inspirado pela leitura de Marx e Freud. O termo “paraconsistência” foi sugerido por um amigo peruano, também filósofo da lógica, Francisco Miró Quesada. Significa “ao lado da consistência”, algo como “quase-consistência”. Na visão de Newton, a razão não pode provar nenhuma verdade absoluta, mas pode demonstrar a existência de uma “quase-verdade”, uma descrição mais próxima aos fatos. “Se explodir uma bomba atômica no prédio vizinho”, exemplifica, “é muito provável que você seja varrido para longe.”

Mas esse pragmatismo não significa que nosso conhecimento possa determinar muitas coisas com precisão. “Nem mesmo o contorno do seu corpo é definido. Alguém a anos-luz daqui só vê uma mancha no lugar onde você está. Você é uma mancha de elétrons, e há elétrons escapando de você o tempo todo.” Newton faz um gesto rápido com a mão. “Viu, acabei de pegar um elétron seu.” E solta outra de suas risadas, tão velozes quanto sua fala. Se você acha que um lógico deve ser uma pessoa fria ou impassível, é porque não conheceu Newton da Costa.

A palavra “paraconsistência”, assim como “fuzzy”, começou a ganhar vida própria de uns tempos para cá. É o destino de muitas teorias, como a Relatividade de Einstein – não raro explicada como “tudo é relativo”, o que o físico alemão jamais afirmou. No caso da paraconsistência, passou a ser utilizada como uma espécie de afirmação da irracionalidade, da rejeição ao método, da impossibilidade de qualquer forma de conhecimento. “Uma vez recebi abraços efusivos de um italiano, que disse que minha teoria tinha mudado a vida dele. Depois li o livro do sujeito e aquilo não tinha nada a ver com o que penso.”

Sistemas
Newton da Costa, afinal, é um defensor da razão, que define como união da faculdade lógica com o senso crítico; e diz que sua lógica complementa a clássica. “Em situações de comportamento padrão, a paraconsistente se reduz à lógica clássica.” É por isso que decisões – em computadores de robôs e sistemas de controle de vôo, para citar duas áreas que já utilizam lógica difusa e/ou paraconsistente – podem de fato ser tomadas.

Os processadores trabalham com um sistema binário, 0 (desativado) ou 1 (ativado), mas, graças a esses modelos matemáticos mais complexos, seguem funcionando mesmo quando recebem “inputs” opostos (“pare” e “avance”, por exemplo). A lógica paraconsistente não elimina a opção entre duas alternativas, mas possibilita que mais variáveis sejam avaliadas no processo de decisão, trabalhando com o que Newton chama de “probabilidade pragmática”. A experiência é que põe a razão à prova.

Newton critica os que usam a palavra lógica numa acepção falsa, como “Futebol não tem lógica” – significando que não é previsível. Para ele, a razão trabalha com a lógica ao menos para sistematizar as experiências. “O chato da irracionalidade é que ela não tem critérios”, resume, acentuando que seu trabalho é voltado para o conhecimento científico. Diz até que a indução faz parte da racionalidade: “Sem a indução não seríamos nada. Na pré-história, depois que o tigre-de-dente-de-sabre atacou um homem pela terceira vez, eles concluíram: tigres-de-dente-de-sabre são perigosos. E saíram correndo (risos). Sem isso não haveria racionalidade.”

Isso não significa que Newton não reconheça que haja eventos além da racionalidade. Por isso, diz não ser ateu e acreditar, “como Einstein, numa força da natureza”; e gosta de citar uma frase de Gabriel Marcel: “Filosofar é antes participar de um mistério do que resolver um problema.” Nem a ciência escapa. “Os resultados científicos são sempre aproximados”, escreve no livro Lógica Indutiva e Probabilidade. “A verdade é sempre parcial e provisória.” Mas a razão pode funcionar, sim; o conhecimento existe. “Nem eu mesmo imaginava que a lógica paraconsistente pudesse ter tanta aplicação no mundo real.” Hoje, nada parece mais lógico.

Sobre macacos, ratos e homens

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ESTADO DE SÃO PAULO

Domingo, 20 de janeiro de 2008, 00:00 | Versão Impressa

Sobre macacos, ratos e homens

O que aconteceu com o papa em La Sapienza nada tem a ver com a defesa da ciência contra o obscurantismo da fé

por LUIZ FELIPE PONDÉ

SÃO PAULO – Há alguns meses ONGs de gays e lésbicas protestaram contra certa pesquisa que cientistas na Inglaterra estariam fazendo com o intuito de identificar genes causadores do comportamento homossexual em algum tipo de animal comum no Reino Unido. Segundo os protestos, se bem me lembro, a pesquisa era acusada (com razão) de tornar possível uma futura manipulação gênica que eliminaria o fenótipo homossexual entre os animais em questão. A ciência é perigosa mesmo, tal como a religião, e sua violência potencial não é menor: já experimentamos a violência da sua “técnica da verdade” várias vezes. Assim, essas ONGs se viram no direito de pedir a suspensão do apoio à pesquisa, identificando nela riscos para o futuro de sua tribo: hoje carneiros gays e vacas lésbicas, amanhã, humanos. Não sei o fim da história, pouco importa. Ela descreve um fato comum: nunca há neutralidade em relação ao que se teme na ciência. Por isso, quem normalmente se diz pleno defensor dessa neutralidade está na realidade mentindo.

Neste caso, não houve manifestações em defesa da liberdade da ciência. Por que não? É certo proibir a pesquisa das causas genéticas dos comportamentos sexuais? Talvez não, mas a sociedade intelectual e científica do século 21 não é menos refém da “falsa santidade” do que era o século 17. A ciência, afora ser um método que existe em sua pureza talvez somente no mundo platônico das idéias (onde habitam boas e raras almas sinceras) e em alguns lugares onde a pressão de interesses financeiros está a favor dessa pureza (onde habitam almas objetivas endurecidas pela sobrevivência), é uma das entidades mais submetidas a falsas virtudes, principalmente depois que a universidade se transformou num celeiro de “políticas do bem”. O homem moderno peca porque se acha melhor que seu antepassado, quando na realidade combate traços de caráter que o une ao seu ancestral pré-histórico: ser interesseiro, mentiroso, aproveitador, violento e covarde. Ninguém precisa da espada da lei nem de educação para aprender a agir assim, a natureza se encarrega do curso monótono e repetitivo dessas qualidades tristes. Além desse vício, a superficialidade parece ser sua segunda natureza. Aqueles que fazem protestos não são necessariamente os “santos da objetividade”. Como Kafka descreveria esse mundo: quem seriam os macacos que fariam os relatórios acadêmicos? Quem seriam os ratos que carregariam os cartazes de indignação?

Sabemos que as ciências sociais e a filosofia lançaram sobre a ciência uma sombra de dúvida científica: entre outros, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Theodor Adorno, Paul Feyerabend nos ensinaram, respectivamente, que não há racionalidade empírica acumulativa entre os paradigmas sob os quais trabalham os cientistas e que muitos desses paradigmas são vinculados a dados não científicos, que os instrumentos da ciência são sempre discursos de poder e opressão, que a ciência é a mercadoria chique da burguesia, enfim, que devemos ser contra a ilusão do método objetivo na ciência. Tudo isso faz parte das controvérsias em epistemologia contemporânea (teoria da ciência) e qualquer pessoa treinada na área sabe que dizer que pessoas em diferentes épocas podem operar em racionalidades distintas é uma afirmação razoável e não puro obscurantismo: no século 17 não havia diferença clara entre ciência, filosofia e teologia. Galileu pensava assim, seus amigos padres-cientistas pensavam assim, a Inquisição pensava assim. O debate ao redor do risco da autonomia e supremacia da ciência experimental como filosofia que redefiniria a teologia, passando a ser a “rainha de todos os saberes”, inclusive da moral, (objeto implícito da tese filosófico-teológica de Galileu) por acaso acabou?

Por que o “papa obscurantista” une defensores da versão simplificada do processo de Galileu, ONGs em favor do casamento gay e do aborto? Qual é a objetividade científica que os une? Nenhuma. O que aconteceu na Universidade La Sapienza em Roma nada tem a ver com a defesa da ciência e da luz da razão contra o obscurantismo da fé. Esse fato é o sinal de como, mesmo a universidade (infelizmente) capitulou ao fascismo sutil da politização de tudo, risco típico da democracia, apontado desde finais do século 18 (perceber isso não significa ser obscurantista, significa defender o mundo real). A intenção é inviabilizar idéias que possam ir contra os lobbies que tendem a dominar o espaço da cultura contemporânea, idéias essas que têm na figura de Bento XVI um representante institucional e intelectual de peso. Não há nada de evidentemente científico na pura afirmação da santidade metodológica dos realizadores da ciência (a “ciência real” da qual faço parte), nem na defesa da criação de crianças por gays, nem na defesa do aborto. Há, sim, conflitos de interesses. A verdade omitida é que a exclusão do intelecto religioso não garante a pureza metodológica de nada. Política não é ciência. Científica é a percepção de como esmagamos a diferença no mundo acadêmico sob a afirmação de que defendemos a democracia. Científico é o medo que devemos ter de nós mesmos.

A inquisição em La Sapienza evidencia que a universidade esta ameaçada constantemente pelo fascismo daqueles que usam do mundo cientifico e intelectual para, mentindo, se dizerem oráculos da verdade e da liberdade, quando na realidade defendem suas idéias fixas, seus interesses institucionais e suas verbas. Ainda bem que não somos todos assim. A esperança acaba sendo da ordem da timidez contra a hipocrisia: quem se achar puro, que atire a primeira pedra.

Luiz Felipe Pondé é professor da pós-graduação em ciências da religião e do departamento de teologia da PUC-SP. Leciona também na FAAP e na Escola Paulista de Medicina. É autor de , entre outros, Do Pensamento no Deserto (Edusp)

multiculturalismo 2

Os limites da diversidade cultural

O direito à diversidade cultural tem que ser o direito à experimentação em arte, filosofia e ciência

por ANTONIO CICERO

A DECLARAÇÃO Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO define a cultura como “o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as maneiras de conviver, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.

Quanto a artes e letras, é claro que tudo o que a humanidade já fez constitui um patrimônio a ser preservado e disponibilizado à fruição da presente e das futuras gerações.

Quanto a modos de vida, maneiras de conviver, sistemas de valores, crenças e tradições, porém, a situação é outra. Alguns são admiráveis e devem ser preservados; outros são abomináveis -etnocêntricos, racistas, sexistas, intolerantes- e devem ser combatidos.

Apropriadamente, o artigo 4 da Declaração Universal sobre Diversidade Cultural, intitulado “Os Direitos Humanos, Garantias da Diversidade Cultural” afirma, com razão, que “a defesa da diversidade cultural […] implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais, em particular os direitos das pessoas que pertencem a minorias e os dos povos autóctones. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional, nem para limitar seu alcance”.

Infelizmente, porém, desde antropólogos até obscurantistas religiosos têm, em nossos dias, invocado a ideologia do relativismo cultural para justificar todo tipo de violação dos direitos humanos. Segundo eles, tais direitos pertencem à cultura ocidental, onde surgiram, de modo que tentar exportá-los para culturas que não os reconhecem violaria o direito destas à diversidade.

Assim, foi com base no relativismo cultural que neste ano, na Alemanha, uma juíza -citando o Alcorão, que reserva ao homem a prerrogativa de castigar a esposa em certos casos- recusou-se a conceder o direito à antecipação do divórcio a uma mulher que era regularmente surrada pelo marido muçulmano. Ou seja, em nome do direito à diversidade cultural, desrespeitaram-se os direitos humanos dessa mulher.

Ora, os direitos humanos não são um produto da cultura ocidental. Na Europa, o reconhecimento deles foi uma vitória da razão -que só o mais tacanho etnocentrista classificaria de “ocidental”- exatamente sobre as tradições culturais bárbaras do Ocidente medieval.

De todo modo, a menos que seja tomada como uma aplicação particular dos direitos humanos, a Declaração Universal sobre Diversidade Cultural não pode ser levada a sério. Por quê? Porque cada unidade cultural ampla contém ou é capaz de conter minorias, isto é, unidades culturais menores. A proteção da diversidade cultural falhará, a menos que proteja também o direito à diversidade de cada uma dessas unidades menores.

Pois bem, a menor unidade concebível é o indivíduo. Por exemplo, um único judeu -ou ateu, ou budista- que viva entre evangélicos constitui uma unidade cultural minoritária. Embora, portanto, a declaração em questão tenha em vista proteger a diversidade cultural de unidades culturais maiores do que a de um indivíduo, essa proteção será em última análise deficiente, a menos que se estenda ao indivíduo; e este é o sujeito dos direitos humanos. Portanto, para ser consistente, o direito à diversidade cultural tem que ser pensado como um direito humano: o direito de cada indivíduo humano à diversidade.

Esse direito me traz de volta à definição de cultura da UNESCO. Eu disse que tudo o que já se fez em matéria de artes e letras constitui um patrimônio a ser preservado e disponibilizado à apreciação da presente e das futuras gerações. No entanto, é preciso não esquecer que tudo o que já se fez, conquanto importante, é apenas um conjunto de possibilidades que se realizaram. Há, porém, infinitas outras possibilidades a se realizarem, algumas das quais só se manifestam historicamente, a partir do desenvolvimento tecnológico. O direito à diversidade cultural tem que ser, portanto, o direito à experimentação e ousadia em arte, filosofia, ciência, tecnologia etc.

E aqui penso que é preciso ir além e afirmar que o direito à diversidade cultural, estendido até o indivíduo e tendo como fundamento último e intransponível os direitos humanos, deve garantir a liberdade de experimentação também no que diz respeito a novos -para usar as palavras da mesma definição- modos de vida, maneiras de conviver, sistemas de valores e maneiras de lidar com a tradição e as crenças. [FOLHA 15/12/07]

o que é ditadura

Democracia: formal ou profunda?

O regime político que ameace a democracia formal deve receber o nome de ditadura

por ANTONIO CICERO

N O DIA 7 do corrente, em Caracas, no campus da Universidade Central da Venezuela, um grupo armado abriu fogo contra estudantes que regressavam de uma manifestação pelo adiamento do referendo sobre a reforma constitucional que, entre outras coisas, institucionalizaria a reeleição ilimitada do presidente Chávez, além de lhe ampliar os poderes. No dia 9, esses mesmos estudantes foram chamados por Chávez de fascistas.

No dia seguinte, em reunião da Cúpula Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, em Santiago, Chávez acusou de fascista o ex-premiê espanhol Aznar, obrigando o atual premiê, o socialista Zapatero, a lhe pedir que respeitasse outros chefes de Estado, apesar de suas diferenças políticas. Atropelando grosseiramente a fala de Zapatero, Chávez, como se sabe, acabou por provocar o rei Juan Carlos, da Espanha, a convidá-lo a se calar.

Não pode ter escapado a ninguém capaz de pensar por conta própria que a acusação de Chávez saiu pela culatra. O que realmente evoca o fascismo é, em primeiro lugar, o conteúdo da reforma constitucional por ele proposta; em segundo, o método plebiscitário com que pretende legitimá-la (lembremo-nos de que referendos e plebiscitos eram o método favorito de Hitler para “legitimar” os seus atos ilegais); em terceiro, o fato de que não somente o seu governo já cassou a concessão para transmissão em sinal aberto de uma emissora de televisão da oposição (a RCTV), mas pretende cassar a concessão de outra (a Globovisión); em quarto, a violência dos grupos armados dos partidários do líder bolivarianista ao atacar os estudantes; em quinto, o cinismo com que ele acusou de fascistas justamente as vítimas dessa violência; e, em sexto, a histrionice e a truculência verbal com que viola as regras da discussão racional.

Para mim, porém, o que mais causa preocupação é que, depois de tudo, o presidente Lula tenha declarado que não falta democracia na Venezuela, pois ela já passou por “três referendos, três eleições não sei para quê, quatro plebiscitos”. Essa é a “democracia direta” (leia-se a “ditadura plebiscitária”) de Chávez: o povo aprova o que o governo propõe.

E é essa a “democracia direta” que pretendem os petistas que defendem a modificação da Constituição para permitir a terceira reeleição do presidente, a ampliação dos seus poderes, a diminuição dos poderes do Congresso etc.

A verdade é que as únicas democracias que se conhecem são as que se baseiam no equilíbrio dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O fortalecimento de qualquer um desses poderes em detrimento dos outros (ou o enfraquecimento de qualquer um deles em proveito dos outros) é muito perigoso.

A experiência latino-americana tem sido a da hipertrofia do Executivo. O resultado é, inevitavelmente, a ditadura. Exatamente isso é o que está a ocorrer na Venezuela e ocorrerá também aqui no Brasil, caso se enfraqueça o Legislativo usando o artifício -que sabemos caro aos regimes populistas e totalitários- de transferir suas atribuições a referendos e plebiscitos.

Grande parte da esquerda, nada tendo aprendido com as terríveis experiências das ditaduras de Stálin, Mao ou Pol-Pot, continua a desvalorizar o que qualifica de “democracia formal” em nome de -como se dizia, semana passada, no seminário da Academia da Latinidade, que teve lugar em Lima- uma “democracia profunda”.
Pois bem, a verdadeira democracia não pode deixar de ser formal, porque não pode se prender a nenhum objetivo, programa, partido político ou líder particular, uma vez que, não podendo pressupor que este ou aquele seja dono da verdade absoluta, deve estar aberta a todos, exceto aos que atentem contra ela.

Que seja eleito este ou aquele candidato ou partido é inteiramente contingente à verdadeira democracia. Necessária é a garantia de que candidatos ou partidos diferentes tenham a possibilidade real de alcançar o poder.

Nunca é demais repetir que absolutamente nada pode justificar qualquer atentado contra o Estado de direito, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual, a coexistência de uma multiplicidade de culturas e formas de vida, a autonomia da ciência, a autonomia da arte etc.: em suma, nada pode justificar qualquer atentado contra a preservação da sociedade aberta.

O regime político que ameace a verdadeira democracia, que é a democracia formal, deve ser chamado, não de democracia -profunda ou rasa-, mas de ditadura. [FOLHA 17/11/07]

um convite à falsificação

A filosofia, hoje apenas uma disciplina universitária, foi a arte do universal ou da universalização possível da vida humana, ao mesmo tempo necessária e impossível

por BENTO PRADO JR.

Todas as vezes que o filósofo profissional (todos nós, professores de filosofia) ouve falar da proximidade entre vida e filosofia, espontaneamente dá de ombros ou franze as sobrancelhas. Um mal-estar se apodera dele, diante do que lhe parece mero infantilismo ou ignorância do caráter técnico e essencialmente abstrato da obra filosófica. O que é tolerável no aluno do secundário (a quem se poderá até mesmo recomendar a leitura de “O Mito de Sísifo” de Camus com a esperança de levá-lo imperceptivelmente até outro tipo de leitura: “O Sofista” de Platão ou a “Monadologia” de Leibniz) já não o será no universitário, de quem se espera maior compostura e “seriedade”. A filosofia, decididamente, nada tem a ver com as inquietações mais ou menos narcísicas do adolescente. É certo que essa pedagogia é indispensável e que o aprendizado da filosofia exige uma ascese intelectual e pessoal. Mas lendo, recentemente, um livro de um historiador notável, especialista em filosofia antiga e medieval, fui obrigado a algumas reflexões que estavam distantes de mim. Falo de Pierre Hadot, professor no Collège de France, que vim a conhecer, de maneira curiosamente oblíqua, por meu colega Julian Cass, da pós-graduação em filosofia da Universidade Federal São Carlos, por meio da tradução americana de alguns de seus escritos. Livro que me veio recomendado por meu amigo com uma ênfase tanto maior quanto mais avesso ao estilo do livro em questão era o estilo de sua própria formação filosófica na Inglaterra, toda centrada na lógica e na epistemologia.

Invisíveis
Mas o que poderiam oferecer de surpreendente ou de inquietante esses escritos tão clássicos (no tema como no método), que, no entanto, provocaram vivo interesse em Michel Foucault (cfe. a introdução de Davidson)? Não é, com efeito, especialmente revolucionário tratar os textos antigos com os cuidados da filologia, fazendo com que a interpretação filosófica venha depois da identificação dos códigos estritos que presidiram a sua produção. Tais códigos, certamente claros para os leitores contemporâneos dos autores, não estão visíveis para nós na superfície dos textos. É preciso, previamente, escavar “as regras, as formas, os modelos de discurso” que dão o horizonte do pensamento do autor. Regras, formas e modelos de discurso que sofrem fundas modificações devido à longa duração. Tomemos apenas um exemplo, retirado dos tempos modernos. Podemos, e o fazemos constantemente, ler em continuidade os “Ensaios” de Montaigne, as “Meditações” de Descartes e os “Devaneios” de Rousseau, perseguindo as transformações do moderno Sujeito pensante. Mas só podemos fazê-lo corretamente reconhecendo que cada um desses textos ou inventa um novo gênero (Montaigne e Rousseau são inventores de um gênero novo, como Platão com o “Diálogo”) ou o redefine (como Descartes). A cada gênero, seu “sujeito”. Como não somos capazes, às vezes, de decifrar de imediato a figura escondida numa tapeçaria (uma paisagem que se revela, de certo ângulo, um rosto humano), frequentemente “temos a impressão, ao ler autores antigos, que escrevem mal, que a sequência das idéias carece de coerência e de conexão. Mas é exatamente porque a verdadeira figura nos escapa que não percebemos a forma que torna todos os detalhes necessários…”.

Ordem a desordem
Diante dessa dificuldade (finalmente o bom senso nos indica: eles não podem escrever tão mal assim!), somos tentados a recorrer a instrumentos como a psicologia ou a psicanálise para dar ordem a essa desordem, vendo no texto a expressão de uma alma (atribulada ou desesperada, supomos então “ad hoc”, como a de Marco Aurélio em suas “Meditações”, que poderíamos imaginar, no entanto, estoicamente conformado a sua dura condição de imperador romano) e deixando de ver sua estrutura digamos retórica ou didática, os mecanismos da composição literária antiga. Grave, com efeito, é a confusão entre expressão involuntária e composição refletida segundo regras.

Mas a distância que nos separa desses textos é maior ainda do que a agora sugerida. Pois esse código ou essa retórica (a “gramática”, digamos, da escrita teórica na Antiguidade) só são compreensíveis no seio das práticas e das instituições sociais que as sustentam: um regime de articulação entre prática e teoria que não é exatamente o que teorizamos e praticamos hoje. Voltando a nosso ponto de partida, o próprio ensino da filosofia não tem, nesses tempos diferentes, o mesmo sentido. E aqui caminhamos numa direção diferente da apontada por Derrida: o próprio estatuto do texto modificou-se desde a Antiguidade, e Platão deve ser (aqui sim) tomado ao pé da letra quando aponta a deficiência da escrita: ela é muda, não responde a perguntas do leitor.

O ensino da filosofia é essencialmente oral, e a escrita, apenas um aparelho auxiliar. E isso ainda é dizer pouco: a própria aula, de viva voz, não é nada, se não ensinar a “mudar a vida” do discípulo (não se pensa, é claro, antes da modernidade, em “transformar o mundo”).

Um pensador antigo (pouco importa qual, aí todos são iguais) adverte que será mau o marceneiro que apenas ensinar os princípios da marcenaria. Pois o que se pede ao marceneiro é que exerça sua “techné”. Uma aula de marcenaria não me ajuda a edificar minha casa, como uma aula de filosofia, transmissão, digamos, de um saber ou de um conhecimento “in abstracto”, não modifica minha vida, tornando-a boa, justa, feliz, isto é, humana e racional.

Hoje uma disciplina apenas universitária, de duvidosa cientificidade (ou de segura não-cientificidade), a Filosofia foi a técnica ou a arte do universal ou da universalização possível da vida humana, ao mesmo tempo necessária e impossível, já que irremediavelmente vinculada ao singular ou à idiotia.

Tomemos a possível distância histórica no presente. Nascido em 1922, P. Hadot foi exposto às influências do marxismo, do existencialismo e da filosofia de Wittgenstein (foi o primeiro francês a escrever sobre o pensador de Viena); influências que deveriam torná-lo sensível ao sentido real da prática filosófica. Isso não impede que essa situação do autor (ou seja, a maneira muito particular pela qual sua perspectiva teórica foi formada pela cultura e pela sociedade presente) tenha sido ocasião de um olhar objetivante sobre uma cultura e uma sociedade outra e distante. Um pouco ao avesso da carreira do antropólogo, descrita por Lévi-Strauss, para quem a compreensão do outro implica uma dessolidarização consigo mesmo.

Confessemos, nós professores de filosofia, que nossa arte é bem pouco refletida no presente. Toda minha simpatia ainda vai para gente como Nietzsche e Wittgenstein, que consideravam nossa profissão um terrível perigo e nossa situação institucional, um convite à falsificação. O que tem o ensino da filosofia, hoje, com o esforço de tornar-se digno de viver? Haveria de comum, entre nosso discurso e o dos antigos, mais do que mera homonímia?

Como o leitor, continuo desconfiando do “pathos” que anima essa retórica que acabo de exibir, especialmente no jargão da autenticidade. Mas não posso dormir sem desconfiar que vai aí algo de Verdade. [(19/12/1999) FOLHA Online – Brasil 500]

de platão a mangabeira

por OLAVO SCHOPENHAUER DE CARVALHO

Depois que os brasileiros tiraram o último lugar entre estudantes secundários de 32 nacionalidades, os progressos da ignorância pátria não cessaram de assombrar o mundo. O “Índice Global de Talentos” da consultorias Economist Intelligence Unit e Heidrick & Struggles mostra que o Brasil é um dos países com menor capacidade de criar ou atrair mentes brilhantes. Num total de trinta concorrentes, estamos em 23º lugar.

Não me venham com as explicações econômicas de sempre. “Nêfte paíf”, recordista mundial de professores universitários per capita (um para cada oito alunos), a classe dos intelectuais subsidiados prospera dia-a-dia desde que a USP chegou ao poder com Fernando Henrique e nunca mais saiu de cima de nós. Os dois fatores estão interligados. À progressiva míngua de talentos corresponde o vigoroso crescimento da máfia intelectual ativista. “Ativista” não quer dizer mentalmente ativo, mas “politicamente participante”, isto é, o sujeito que tem a generosidade de ocupar quantos cargos públicos lhe ofereçam, de embolsar todas as verbas estatais disponíveis e de assinar todos os manifestos que se publiquem em favor de pessoas envolvidas solidariamente nas duas tarefas anteriores.

Desde o tempo de O Imbecil Coletivo, já documentei tão amplamente a inépcia grotesca das figuras mais badaladas da intelectualidade nacional, que oferecer novas provas seria redundância. Mas não resisto a apontar o exemplo do prof. Roberto Mangabeira Unger, que de certo modo condensa na sua desengonçada pessoa todo esse fenômeno sociológico.

Outro dia, rememorando Platão, escrevi que filósofo é o indivíduo que tenta encontrar um princípio de ordem na sua própria alma e então – só então – diagnosticar ou mesmo tentar curar a desordem do mundo. Com essa idéia na cabeça, tomei um susto quando li a declaração do supracitado Mangabeira: “Para ajudar a transformar o Brasil, em primeiro lugar tenho que transformar a mim mesmo.”

Será que o Mangabeira virou filósofo após tê-lo parecido tão bem?, perguntei. Na continuação, porém, o iluminado esclarecia o sentido da transformação interior a que almejava: “Sou um homem sem charme num país de charmosos. Isso é uma séria complicação. Eu preciso aprender a ter charme.”

Platão, logo após seu fracasso político juvenil, descobriu que não estaria apto a orientar governantes enquanto não encontrasse dentro de si a raiz que o ligava ao fundamento último da existência. Tal foi a meta a que dirigiu seus esforços de uma vida inteira. O guru presidencial, em contraste, sente que para o desempenho de suas altas responsabilidades não lhe falta senão o que pode haver de mais exterior e efêmero. Sem querer, ele enuncia aí o princípio supremo da pedagogia filosófica nacional, que Machado de Assis já havia resumido na “Teoria do Medalhão”: o ser é nada, o parecer é tudo. Tal é a distância que separa Atenas de Brasília.

Guiada por tipos que não são nem mesmo o Mangabeira Unger mas aspiram a sê-lo quando crescerem, a inteligência brasileira entrou em parafuso, veio ao solo e, rompendo-lhe a superfície, mergulhou na treva infernal da estupidez auto-satisfeita. Desde então nossas universidades, sustentadas pelo dinheiro público, despejam anualmente no mercado milhões de imbecis qualificados para a devoção ao Che, o consumo de drogas e o culto emocionado da sua própria superioridade moral, medida pela raiva assassina que sentem do restante da espécie humana. Nessas condições, a educação nacional, hoje em dia, só se distingue do crime organizado porque o crime é organizado. [Jornal do Brasil, 4/10/07]

neutralidade e ortodoxia

[Jornal da Tarde, 17 de setembro de 1998]

por OLAVO DE CARVALHO

As novas diretrizes para a educação primária, emanadas do MEC em elegantes volumezinhos coloridos sob o imponente rótulo Parâmetros Curriculares Nacionais , sugerem que, em matéria de instrução sexual, os professores devem assumir uma atitude de neutralidade moral verdadeiramente weberiana. Sem dizer uma palavra contra ou a favor, devem descrever diante da classe, com sublime indiferença científica, “as orientações sexuais existentes”, para que as criancinhas, livres de pressões autoritárias, “façam suas próprias opções”. Não sei o que é aí mais comovente: o respeito devoto pela liberdade dos infantes ou o rigor da isenção científica que inspira as diretrizes do ministério. Pergunto-me, apenas, quais e quantas seriam as orientações sexuais que viriam a merecer inclusão no currículo – um ponto de magna importância pedagógica sobre o qual o MEC nada nos informa. À luz da neutralidade axiológica e do rigor científico, porém, não haveria a menor justificativa para reduzi-las às três mais vulgares (hetero, homo e bi), excluindo as variedades minoritárias como o sadomasoquismo, a pedofilia, a coprofilia e a bestialidade (termo pejorativo que busca cobrir de preconceituosa infâmia a prática do amor com vacas, jumentas e outras dignas criaturas do reino animal). A exclusão dessas práticas, além de ser cientificamente indefensável, resultaria numa autoritária limitação do leque de opções que a educação deve oferecer aos pimpolhos, que afinal são, porca miséria!, o futuro da Pátria. Diante da omissão dos livretos, e para não alimentar na opinião pública suspeitas de que haja nas concepções sexológicas do ministério algum resíduo de moralismo preconceituoso, o ministro Paulo Renato faria bem em divulgar a lista completa e explícita das opções sexuais atualmente reconhecidas pela ciência, sem esquecer, é claro, aquelas jamais vistas e só conhecidas em estado de hipóteses. Somente assim a tranqüilidade voltará a reinar no seio e demais partes erógenas da família brasileira.

Mas, em contraste com a neutralidade e frieza que devem imperar na escolha dos objetos de desejo, o MEC não julga que idêntica objetividade científica deva prevalecer em outros domínios do conhecimento, como por exemplo a História e as ciências sociais. Aqui, não apenas é desnecessário examinar com imparcialidade as várias escolas, estilos e teorias explicativas, mas, bem ao contrário, a escolha pode ser dada por pressuposta sem que seja preciso sequer informar às crianças que houve alguma escolha. A interpretação marxista da História deve ser ensinada não como uma teoria entre outras, mas como a única teoria possível, a ortodoxia suprema jamais contestada. É o que se vê em vários textos aprovados pelo ministério para o ensino dessas disciplinas, como por exemplo a Nova História Crítica, de Mário Schmidt, para o 2.º grau (Editora Nova Geração), Iniciação à Sociologia , de Nelson Dacio Tomazzi, e outros (Atual Editora), Estudando as Paisagens , de Oswaldo Piffer, para a 7.ª série (Ibep) e dezenas de outras obras do mesmo teor. Nessas cartilhas sacramentadas pelo aval mequiano, o predomínio absoluto dos fatores econômicos, a luta de classes, a conveniência de uma aliança operário-camponesa para liquidar os malditos capitalistas, bem como outros itens do cardápio marxista tradicional, não são ensinados como opiniões de uma determinada corrente ideológica contestadíssima por muitas outras, mas como verdades universais primeiras e últimas que jamais foram ou serão objeto de dúvida.

Nos casos em que não tenha sido possível evitar toda menção a escolas e teorias divergentes, como por exemplo as de Weber e Pareto, Ortega e Croce, Jouvenel e Voegelin, estas são cuidadosamente reduzidas a meros instrumentos de dominação ideológica a serviço da execrável classe capitalista, de modo a que, neutralizadas pela vacina marxista, não possam fazer mal às mentes juvenis dando-lhes a impressão de que nesses campos do conhecimento exista algo a discutir.

Educada desde pequena na linha justa do materialismo dialético, a alma infantil é assim poupada de dúvidas e perplexidades intelectuais, podendo resguardar o melhor das suas energias para dedicá-las a questões mais puramente teóricas e científicas, como por exemplo a da escolha de um objeto de desejo erótico numa gama de opções que abrange imparcialmente loiras, morenas, estivadores, soldados da PM, cães, bebês, chicotes e vibradores.