um convite à falsificação

A filosofia, hoje apenas uma disciplina universitária, foi a arte do universal ou da universalização possível da vida humana, ao mesmo tempo necessária e impossível

por BENTO PRADO JR.

Todas as vezes que o filósofo profissional (todos nós, professores de filosofia) ouve falar da proximidade entre vida e filosofia, espontaneamente dá de ombros ou franze as sobrancelhas. Um mal-estar se apodera dele, diante do que lhe parece mero infantilismo ou ignorância do caráter técnico e essencialmente abstrato da obra filosófica. O que é tolerável no aluno do secundário (a quem se poderá até mesmo recomendar a leitura de “O Mito de Sísifo” de Camus com a esperança de levá-lo imperceptivelmente até outro tipo de leitura: “O Sofista” de Platão ou a “Monadologia” de Leibniz) já não o será no universitário, de quem se espera maior compostura e “seriedade”. A filosofia, decididamente, nada tem a ver com as inquietações mais ou menos narcísicas do adolescente. É certo que essa pedagogia é indispensável e que o aprendizado da filosofia exige uma ascese intelectual e pessoal. Mas lendo, recentemente, um livro de um historiador notável, especialista em filosofia antiga e medieval, fui obrigado a algumas reflexões que estavam distantes de mim. Falo de Pierre Hadot, professor no Collège de France, que vim a conhecer, de maneira curiosamente oblíqua, por meu colega Julian Cass, da pós-graduação em filosofia da Universidade Federal São Carlos, por meio da tradução americana de alguns de seus escritos. Livro que me veio recomendado por meu amigo com uma ênfase tanto maior quanto mais avesso ao estilo do livro em questão era o estilo de sua própria formação filosófica na Inglaterra, toda centrada na lógica e na epistemologia.

Invisíveis
Mas o que poderiam oferecer de surpreendente ou de inquietante esses escritos tão clássicos (no tema como no método), que, no entanto, provocaram vivo interesse em Michel Foucault (cfe. a introdução de Davidson)? Não é, com efeito, especialmente revolucionário tratar os textos antigos com os cuidados da filologia, fazendo com que a interpretação filosófica venha depois da identificação dos códigos estritos que presidiram a sua produção. Tais códigos, certamente claros para os leitores contemporâneos dos autores, não estão visíveis para nós na superfície dos textos. É preciso, previamente, escavar “as regras, as formas, os modelos de discurso” que dão o horizonte do pensamento do autor. Regras, formas e modelos de discurso que sofrem fundas modificações devido à longa duração. Tomemos apenas um exemplo, retirado dos tempos modernos. Podemos, e o fazemos constantemente, ler em continuidade os “Ensaios” de Montaigne, as “Meditações” de Descartes e os “Devaneios” de Rousseau, perseguindo as transformações do moderno Sujeito pensante. Mas só podemos fazê-lo corretamente reconhecendo que cada um desses textos ou inventa um novo gênero (Montaigne e Rousseau são inventores de um gênero novo, como Platão com o “Diálogo”) ou o redefine (como Descartes). A cada gênero, seu “sujeito”. Como não somos capazes, às vezes, de decifrar de imediato a figura escondida numa tapeçaria (uma paisagem que se revela, de certo ângulo, um rosto humano), frequentemente “temos a impressão, ao ler autores antigos, que escrevem mal, que a sequência das idéias carece de coerência e de conexão. Mas é exatamente porque a verdadeira figura nos escapa que não percebemos a forma que torna todos os detalhes necessários…”.

Ordem a desordem
Diante dessa dificuldade (finalmente o bom senso nos indica: eles não podem escrever tão mal assim!), somos tentados a recorrer a instrumentos como a psicologia ou a psicanálise para dar ordem a essa desordem, vendo no texto a expressão de uma alma (atribulada ou desesperada, supomos então “ad hoc”, como a de Marco Aurélio em suas “Meditações”, que poderíamos imaginar, no entanto, estoicamente conformado a sua dura condição de imperador romano) e deixando de ver sua estrutura digamos retórica ou didática, os mecanismos da composição literária antiga. Grave, com efeito, é a confusão entre expressão involuntária e composição refletida segundo regras.

Mas a distância que nos separa desses textos é maior ainda do que a agora sugerida. Pois esse código ou essa retórica (a “gramática”, digamos, da escrita teórica na Antiguidade) só são compreensíveis no seio das práticas e das instituições sociais que as sustentam: um regime de articulação entre prática e teoria que não é exatamente o que teorizamos e praticamos hoje. Voltando a nosso ponto de partida, o próprio ensino da filosofia não tem, nesses tempos diferentes, o mesmo sentido. E aqui caminhamos numa direção diferente da apontada por Derrida: o próprio estatuto do texto modificou-se desde a Antiguidade, e Platão deve ser (aqui sim) tomado ao pé da letra quando aponta a deficiência da escrita: ela é muda, não responde a perguntas do leitor.

O ensino da filosofia é essencialmente oral, e a escrita, apenas um aparelho auxiliar. E isso ainda é dizer pouco: a própria aula, de viva voz, não é nada, se não ensinar a “mudar a vida” do discípulo (não se pensa, é claro, antes da modernidade, em “transformar o mundo”).

Um pensador antigo (pouco importa qual, aí todos são iguais) adverte que será mau o marceneiro que apenas ensinar os princípios da marcenaria. Pois o que se pede ao marceneiro é que exerça sua “techné”. Uma aula de marcenaria não me ajuda a edificar minha casa, como uma aula de filosofia, transmissão, digamos, de um saber ou de um conhecimento “in abstracto”, não modifica minha vida, tornando-a boa, justa, feliz, isto é, humana e racional.

Hoje uma disciplina apenas universitária, de duvidosa cientificidade (ou de segura não-cientificidade), a Filosofia foi a técnica ou a arte do universal ou da universalização possível da vida humana, ao mesmo tempo necessária e impossível, já que irremediavelmente vinculada ao singular ou à idiotia.

Tomemos a possível distância histórica no presente. Nascido em 1922, P. Hadot foi exposto às influências do marxismo, do existencialismo e da filosofia de Wittgenstein (foi o primeiro francês a escrever sobre o pensador de Viena); influências que deveriam torná-lo sensível ao sentido real da prática filosófica. Isso não impede que essa situação do autor (ou seja, a maneira muito particular pela qual sua perspectiva teórica foi formada pela cultura e pela sociedade presente) tenha sido ocasião de um olhar objetivante sobre uma cultura e uma sociedade outra e distante. Um pouco ao avesso da carreira do antropólogo, descrita por Lévi-Strauss, para quem a compreensão do outro implica uma dessolidarização consigo mesmo.

Confessemos, nós professores de filosofia, que nossa arte é bem pouco refletida no presente. Toda minha simpatia ainda vai para gente como Nietzsche e Wittgenstein, que consideravam nossa profissão um terrível perigo e nossa situação institucional, um convite à falsificação. O que tem o ensino da filosofia, hoje, com o esforço de tornar-se digno de viver? Haveria de comum, entre nosso discurso e o dos antigos, mais do que mera homonímia?

Como o leitor, continuo desconfiando do “pathos” que anima essa retórica que acabo de exibir, especialmente no jargão da autenticidade. Mas não posso dormir sem desconfiar que vai aí algo de Verdade. [(19/12/1999) FOLHA Online – Brasil 500]

de platão a mangabeira

por OLAVO SCHOPENHAUER DE CARVALHO

Depois que os brasileiros tiraram o último lugar entre estudantes secundários de 32 nacionalidades, os progressos da ignorância pátria não cessaram de assombrar o mundo. O “Índice Global de Talentos” da consultorias Economist Intelligence Unit e Heidrick & Struggles mostra que o Brasil é um dos países com menor capacidade de criar ou atrair mentes brilhantes. Num total de trinta concorrentes, estamos em 23º lugar.

Não me venham com as explicações econômicas de sempre. “Nêfte paíf”, recordista mundial de professores universitários per capita (um para cada oito alunos), a classe dos intelectuais subsidiados prospera dia-a-dia desde que a USP chegou ao poder com Fernando Henrique e nunca mais saiu de cima de nós. Os dois fatores estão interligados. À progressiva míngua de talentos corresponde o vigoroso crescimento da máfia intelectual ativista. “Ativista” não quer dizer mentalmente ativo, mas “politicamente participante”, isto é, o sujeito que tem a generosidade de ocupar quantos cargos públicos lhe ofereçam, de embolsar todas as verbas estatais disponíveis e de assinar todos os manifestos que se publiquem em favor de pessoas envolvidas solidariamente nas duas tarefas anteriores.

Desde o tempo de O Imbecil Coletivo, já documentei tão amplamente a inépcia grotesca das figuras mais badaladas da intelectualidade nacional, que oferecer novas provas seria redundância. Mas não resisto a apontar o exemplo do prof. Roberto Mangabeira Unger, que de certo modo condensa na sua desengonçada pessoa todo esse fenômeno sociológico.

Outro dia, rememorando Platão, escrevi que filósofo é o indivíduo que tenta encontrar um princípio de ordem na sua própria alma e então – só então – diagnosticar ou mesmo tentar curar a desordem do mundo. Com essa idéia na cabeça, tomei um susto quando li a declaração do supracitado Mangabeira: “Para ajudar a transformar o Brasil, em primeiro lugar tenho que transformar a mim mesmo.”

Será que o Mangabeira virou filósofo após tê-lo parecido tão bem?, perguntei. Na continuação, porém, o iluminado esclarecia o sentido da transformação interior a que almejava: “Sou um homem sem charme num país de charmosos. Isso é uma séria complicação. Eu preciso aprender a ter charme.”

Platão, logo após seu fracasso político juvenil, descobriu que não estaria apto a orientar governantes enquanto não encontrasse dentro de si a raiz que o ligava ao fundamento último da existência. Tal foi a meta a que dirigiu seus esforços de uma vida inteira. O guru presidencial, em contraste, sente que para o desempenho de suas altas responsabilidades não lhe falta senão o que pode haver de mais exterior e efêmero. Sem querer, ele enuncia aí o princípio supremo da pedagogia filosófica nacional, que Machado de Assis já havia resumido na “Teoria do Medalhão”: o ser é nada, o parecer é tudo. Tal é a distância que separa Atenas de Brasília.

Guiada por tipos que não são nem mesmo o Mangabeira Unger mas aspiram a sê-lo quando crescerem, a inteligência brasileira entrou em parafuso, veio ao solo e, rompendo-lhe a superfície, mergulhou na treva infernal da estupidez auto-satisfeita. Desde então nossas universidades, sustentadas pelo dinheiro público, despejam anualmente no mercado milhões de imbecis qualificados para a devoção ao Che, o consumo de drogas e o culto emocionado da sua própria superioridade moral, medida pela raiva assassina que sentem do restante da espécie humana. Nessas condições, a educação nacional, hoje em dia, só se distingue do crime organizado porque o crime é organizado. [Jornal do Brasil, 4/10/07]

homens e idéias

por CARLOS HEITOR CONY

Consta que Diógenes, com o sol mediterrâneo lambendo forte os mármores clássicos de Atenas, saía do tonel em que vivia e, de lanterna acesa, andava pelas ruas espantando a todos que o julgavam louco. Com tanto e tamanho sol, a luz de uma lanterna era, além de um pleonasmo, a prova de uma demência em progresso.

Perguntaram ao filósofo o que ele fazia com aquela lanterna cuja luz nem iluminar podia o que já estava suficientemente iluminado. Diógenes respondeu que estava procurando um homem. Consta também que era visto pedindo esmola às estátuas que ia encontrando pelo caminho, aquelas estátuas de olhos vazados, que nada enxergavam e nada escutavam, modelos de beleza e insensibilidade às súplicas humanas. Por essas e outras, além de demente foi considerado cínico.

Se vivesse no Brasil de hoje, não seria nem demente nem cínico, e talvez nem filósofo pudesse ser.

De suas manias antigas só manteria o domicílio dentro um tonel, sem pagar IPTU nem taxa de incêndio e condomínio. Não teria estátuas pelas ruas para pedir esmola. Com muita sorte, poderia habilitar-se a um dos programas do governo, ao Fome Zero, por exemplo, se é que ainda existe este programa inaugural do primeiro mandato do presidente Lula -a quem abracei cordialmente na ABL na semana passada.

Restaria a Diógenes andar de lanterna acesa pelos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território nacional, procurando aquilo que considerasse “um homem”. Ele ignoraria aquela constatação atribuída a Oswaldo Aranha, segundo a qual o Brasil é um deserto de homens e de idéias.

Desanimado, acabaria comprando a próxima e suculenta edição da “Playboy” para ver a Mônica Veloso pelada. E compreenderia por que nos faltam homens e idéias. [FOLHA 2/10/07]

“vendo” o invisível

No final do século 19, não se sabia o que era um átomo

por MARCELO GLEISER

Aos leitores intrigados pelo título, pensando que se refere a fantasmas e outras entidades sobrenaturais, peço desculpas.

O “invisível” aqui está relacionado com o mundo do muito pequeno, dos átomos e seus componentes. Quando aprendemos na escola que tudo é feito de átomos, pouco sabemos sobre como essa profunda descoberta foi feita.

A história é longa e tem seu prelúdio na Grécia Antiga, em torno de 400 a.C., quando dois filósofos, Leucipo e Demócrito, propuseram que tudo era composto de pequenos tijolos indivisíveis, que chamaram de átomos.

Muita coisa aconteceu de lá até o final do século 19, que é quando a nossa história começa de fato. Resumindo esses 2.300 anos, posso dizer que os átomos foram esquecidos, relembrados por gigantes como Newton, esquecidos mais uma vez, até serem resgatados por John Dalton e outros pioneiros que mostraram que os elementos químicos tinham de ser feitos de átomos de massas diferentes. Porém, até o final do século 19, ninguém sabia o que era um átomo.

Em 1897, o inglês J. J. Thomson abriu as portas para o mundo dos átomos ao descobrir o elétron. Thomson mostrou que os átomos de todos os elementos não são indivisíveis, como se acreditava até então, mas sim formados por partículas (ou “corpúsculos”, como ele os chamou) ainda menores. Thomson examinou a radiação que se propaga no chamado tubo catódico, uma versão menos sofisticada dos antigos tubos de TV, concluindo que se tratava de partículas com carga elétrica negativa. A menor massa que se conhecia, a de um átomo de hidrogênio, o mais leve e abundante dos elementos químicos, era duas mil vezes maior que a dessas partículas.

Encontrar essa regularidade no coração da matéria é algo extraordinário: os átomos de todos os elementos, que compõem tudo o que vemos na natureza, têm essas partículas neles, que foram mais tarde chamadas de elétrons. Era claro que as diferentes massas atômicas deveriam estar relacionadas com o número de elétrons nos átomos. Sabia-se que os átomos eram eletricamente neutros, o que indicava a presença neles de carga positiva de igual valor. De alguma forma, essa carga positiva deveria contribuir muito mais do que os elétrons para a massa total do átomo. Mas que massa era essa?

O desafio era tentar ver o invisível. Átomos têm diâmetros de aproximadamente um décimo de billionésimo de metro, muito além do poder de microscópios, ao menos os do início do século 20. Ninguém “vê”, propriamente, um elétron. O que se mede são seus efeitos, as correntes elétricas que criam, por exemplo. A partir deles, sua existência e suas propriedades são inferidas. Essa é uma diferença fundamental entre a física do dia-a-dia, palpável e concreta, e a física atômica e subatômica, invisível e indireta. Como, então, ver o invisível?

Entra em cena o neozelandês Ernest Rutherford, que estudou com Thomson em Cambridge. Rutherford sabia que os elementos radioativos, como o urânio, emitem radiação de altas energias: por que não usá-la como projéteis atirados contra os átomos, feito balas? Rutherford bombardeou átomos de ouro com partículas alfa.

Para seu espanto, notou que algumas eram ricocheteadas a ângulos de mais de 90 graus, como se houvessem colidido com algo muito denso e pequeno. A maioria passava direto, levemente defletida. Rutherford concluiu que seus resultados só poderiam ser explicados se toda a carga positiva estivesse numa região central dez mil vezes menor do que o átomo!

Descobriu o núcleo atômico, sem jamais tê-lo “visto”. [FOLHA 16/9/07]

o que é o triângulo de platão

O triângulo de Platão é uma representação esquemática, por meio de uma figura geométrica (triângulo equilátero), da estrutura básica da metafísica platônica, tal como esta é depreendida da obra “República”, mais especificamente do mito ou alegoria da caverna. O triângulo representa, assim, a articulação dos três elementos ou momentos fundamentais da teoria das idéias de Platão, associando cada um deles a um vértice do triângulo: a um dos vértices inferiores, a alma (pensar, eu, sujeito); ao outro, o mundo sensível (ser, natureza, objeto), e, ao vértice superior, o mundo supra-sensível ou das idéias (idéia, absoluto, Deus).

O problema (representado pelo triângulo) de Platão consiste na diferença entre os elementos ou momentos indicados pelos vértices inferiores: como pode a alma supra-sensível conhecer cientificamente (epistéme) o mundo sensível, ou seja, a respectiva “essência” ideal?

A tese ou resposta platônica a esse problema se apóia em duas teorias apresentadas na forma de mitos: o da reminiscência (anamnesis) e o da participação (relação original-cópia: metexis). Assim, por um lado, a alma pode obter conhecimento espistêmico do mundo porque, ao entrar em contato com este, ela se lembra das idéias que contemplou antes de nascer, e, por outro, as coisas do mundo são capazes de despertar a lembrança na alma porque são cópias, sombras das idéias.

educação: da potência para o ato

Aristóteles. Política. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1985, p. 269-70.

Trecho do capítulo 11, Livro VIII, que em algumas traduções aparece como Livro V

Não é difícil de ver, então, que devem ser ensinados aos jovens os conhecimentos úteis realmente indispensáveis, mas é óbvio que não se lhes deve ensinar todos eles, distinguindo-se as atividades liberais das servis; deve-se transmitir aos jovens, então, apenas os conhecimentos úteis que não tornam vulgares as pessoas que os adquirem. Uma atividade, tanto quanto uma ciência ou arte, deve ser considerada vulgar se seu conhecimento torna o corpo, a alma ou o intelecto de um homem livre inúteis para a posse e a prática das qualidades morais. Eis por que chamamos vulgares todas as artes que pioram as condições naturais do corpo, e as atividades pelas quais se recebem salários; elas absorvem e degradam o espírito.

Há também algumas ciências que podem ser tidas como liberais, mas somente até o ponto em que elas não levam à vulgaridade, pois uma dedicação excessiva e uma obstinação que pode induzir alguém a considerá-las um fim em si mesmas resultarão nos inconvenientes mencionados pouco antes. Faz também muita diferença a natureza do objetivo visado em certa atividade ou em certo estudo; se alguém segue uma atividade ou um estudo para seu benefício ou para benefício de seus amigos, ou visando às qualidades morais, eles nada têm de vulgar, mas aquele que se dedica a eles por causa de terceiros parece muitas vezes estar agindo mercenária ou servilmente…

Pode-se dizer que há quatro ramos de educação atualmente: a gramática, a ginástica, a música, e o quarto segundo alguns é o desenho; a gramática e o desenho são considerados úteis na vida e com muitas aplicações, e se pensa que a ginástica contribui para a bravura; quanto à música, todavia, levantam-se algumas dúvidas. Com efeito, atualmente a maioria das pessoas a cultiva por prazer, mas aqueles que a incluíram na educação agiram assim porque, como já foi dito muitas vezes, a própria natureza atua no sentido de sermos não somente capazes de ocupar-nos eficientemente de negócios, mas também de nos dedicarmos nobremente ao lazer, pois […] este é o princípio de todas as coisas. De fato, se ambos são necessários, o lazer é mais desejável que os negócios, e é o objetivo destes; temos portanto de perguntar: como devemos fruir nosso lazer? Certamente não será jogando, pois se assim fosse os jogos seriam o objetivo de nossa vida; como isto é impossível e as diversões são mais úteis no tempo em que nos dedicamos aos negócios (quando se está fatigado tem-se necessidade de relaxar, e o relaxamento é o objetivo dos jogos ao passo que os negócios são acompanhados de fadiga e concentração), ao introduzir as diversões na cidade devemos discernir os momentos favoráveis para as usarmos, pois as empregamos como se fossem remédios; a sensação que elas criam na alma é relaxante para a mesma, e é relaxante por ser agradável.

Mas o lazer parece conter em si mesmo o prazer, a felicidade e a bem-aventurança de viver, e isto não está ao alcance dos homens ocupados, e sim dos que usufruem o lazer; o homem de negócios se ocupa na busca de algum objetivo ainda não alcançado, mas a felicidade é um objetivo alcançado, que todos os homens consideram acompanhado não pelo sofrimento, e sim pelo prazer; nem todos os homens, porém, definem este prazer da mesma forma; cada um o concebe segundo sua própria natureza e seu próprio caráter, e o prazer que o melhor dos homens considera ligado à felicidade é o melhor prazer e provém das mais nobres fontes. É claro, portanto, que há ramos do conhecimento e da educação que devemos cultivar apenas com vistas ao lazer dedicado à atividade intelectual, e tais ramos devem ser apreciados por si mesmos, enquanto as formas de conhecimento relacionadas com os negócios são cultivadas como necessárias e como meios para atingir outros fins. Por esta razão os antigos incluíram a música na educação, não por ser necessária (nada há de necessário nela), nem útil no sentido em que escrever e ler são úteis aos negócios e à economia doméstica e à aquisição de conhecimentos e às várias atividades da vida em uma cidade, ou como o desenho também parece útil no sentido de tornar-nos melhores juízes das obras dos artistas, nem como nos dedicamos à ginástica, por causa da saúde e da força (não vemos nenhuma destas duas resultarem da música); resta, portanto, que ela seja útil como uma diversão no tempo de lazer;parece que sua introdução na educação se deve a esta circunstância, pois ela é classificada entre as diversões consideradas próprias para os homens livres.

conceito vs. idéia

SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. Trad. de M. Sá Correia. Porto: RÉS, s.d. p. 307-12.

O princípio que constitui o fundamento de tudo o que dissemos até aqui sobre a arte é que o objecto da arte, o objecto que o artista se esforça por representar, o objecto cujo conhecimento deve preceder e engendrar a obra, como o germe precede e engendra a planta, esse objecto é uma Ideia, no sentido platónico do termo, e absolutamente mais nada; não é a coisa particular, visto que não é o objecto da nossa concepção vulgar; também não é o conceito, visto que não é o objecto do entendimento, nem da ciência. Sem dúvida a Ideia e o conceito têm qualquer coisa de comum, na medida em que ambos são unidades que representam uma pluralidade de coisas reais; apesar de tudo, há entre eles uma grande diferença; e é esta diferença que explica duma maneira suficientemente clara e luminosa o que disse acerca do conceito no primeiro livro e acerca das Ideias neste. Teria já Platão concebido claramente esta diferença? não quero de modo nenhum afirmá-lo: ele dá, a propósito das Ideias, numerosos exemplos e explicações que se poderiam aplicar a simples conceitos. Deixemos entretanto esta questão sem resposta e continuemos o nosso caminho, felizes todas as vezes que nos encontrarmos sobre as marcas dum grande e nobre espírito, mais preocupados ainda, apesar de tudo, em prosseguir o nosso fim do que por nos ligarmos aos seus passos. – O conceito é abstracto e discursivo; completamente indeterminado, quanto ao seu conteúdo, nada nele é preciso a não ser os seus limites; o entendimento é suficiente para o compreender e para o conceber; as palavras, sem outro intermediário, são suficientes para o exprimir; a sua própria definição, enfim, esgota-o completamente. A Ideia, pelo contrário, que se pode rigorosamente definir como o representante adequado do conceito, é absolutamente concreta; por mais que ela represente uma infinidade de coisas particulares, não é menos determinada em todos os seus aspectos; o indivíduo, enquanto indivíduo, nunca a pode conhecer; é preciso, para a conceber, despojar toda a vontade, toda a individualidade, e elevar-se ao estado de puro sujeito que conhece; também se pode dizer que ela está escondida de todas, excepto do génio e daquele que, graças a uma exaltação da sua faculdade de conhecimento puro (devido quase sempre às obras de arte), se encontra num estado vizinho do génio: a Ideia não é essencialmente comunicável, ela só o é relativamente, visto que, uma vez concebida e expressa na obra de arte, ela só se revela a cada um proporcionalmente ao valor do seu espírito; eis precisamente por que as obras mais excelentes de todas as artes, os monumentos mais gloriosos do génio, são destinados a permanecer eternamente cartas fechadas para a estúpida maioria dos mortais; para estes as obras de arte são impenetráveis, elas estão à parte, separadas por um largo abismo e assemelham-se ao príncipe cujo acesso não é permitido ao povo. Apesar de tudo, os mais tolos dos homens não confiam menos nas obras de arte consagradas, visto que não querem de modo nenhum deixar ver a sua tolice, mas estão dispostos, no seu foro íntimo, a condenar essas mesmas obras de arte, desde que se lhes faça esperar que possam fazê-lo sem nenhum perigo de se revelarem; então descarregam com deleite esse ódio muito tempo alimentado em segredo contra o belo e contra aqueles que o realizam; não podem perdoar às obras de arte o terem-nos humilhado não lhes dizendo nada: visto que, em geral, para apreciar de boa vontade e livremente o valor do outro, para o fazer valer, é necessário possuí-lo o próprio. É aí que se funda a necessidade de ser modesto, uma vez que se tenha mérito; é também aí que assenta a estima excessiva que se tem pela modéstia: sozinha, entre todas as suas irmãs, essa virtude nunca é esquecida, desde que se ouse fazer o elogio dum homem de mérito; é que se espera, ao elogiá-la, fazer prova de intenções conciliantes e apaziguar a cólera dos imbecis. O que é, com efeito, a modéstia, senão uma fingida humildade, pela qual, no seio deste mundo infectado pela mais detestável inveja, se pede desculpa pelas vantagens e pelos méritos a pessoas que são desprovidas de ambos? Porque aquele que não se atribui nem vantagens nem méritos, pela simples razão de que efectivamente não os possui, esse não é de modo nenhum modesto, é só honesto.

A Ideia é a unidade que se transforma em pluralidade por meio do espaço e do tempo, formas da nossa apercepção intuitiva; o conceito, pelo contrário, é a unidade extraída da pluralidade, por meio da abstracção que é um procedimento do nosso entendimento; o conceito pode ser chamado unitas post rem, a Ideia, unitas ante rem. Indiquemos, finalmente, uma comparação que exprime bem a diferença entre conceito e Ideia: o conceito assemelha-se a um recipiente inanimado; aquilo que lá se deposita permanece bem colocado na mesma ordem, mas não se pode tirar de lá (através dos juízos analíticos) nada mais do que aquilo que lá se colocou (através da reflexão sintética); a Ideia, pelo contrário, revela àquele que a concebeu representações completamente novas do ponto de vista do conceito de mesmo nome: ela é como um organismo vivo, que cresce e é prolífico, capaz, numa palavra, de produzir aquilo que não se introduziu lá.

Consequentemente, qualquer que seja, na prática, a utilidade do conceito, quaisquer que sejam as suas aplicações, a sua necessidade, a sua fecundidade nas ciências, não permanece menos eternamente estéril sob o ponto de vista artístico. Pelo contrário, uma vez concebida, a Ideia torna-se a fonte verdadeira e única de toda a obra de arte digna deste nome. Completamente cheia duma vigorosa originalidade, residindo no seio da vida e da natureza, ela é apenas acessível ao génio ou ao homem cujas faculdades se elevam por um instante até ao génio. É apenas duma visão tão directa que podem nascer as obras verdadeiras, aquelas que trazem em si a imortalidade. Como a Ideia é e permanece intuitiva, o artista não tem nenhuma consciência in abstracto da intenção nem da finalidade da sua obra; não é um conceito, é uma Ideia que paira diante dele; não pode igualmente dar conta do que faz; trabalha, como se diz vulgarmente, por palpite, inconscientemente, instintivamente. Completamente ao contrário, os imitadores, os maneiristas, «imitatores, servum pecus», passam do conceito para a arte: eles anotam aquilo que agrada, o que provoca o efeito nas verdadeiras obras de arte; analisam-no, concebem-no sob a forma de conceito, isto é, abstractamente; fazem dele, enfim, à força de prudência e de aplicação, uma imitação confessada ou não. Semelhantes às plantas parasitas, sugam a sua alimentação, tiram-na das obras dos outros e tomam a cor dos seus alimentos como pólipos. Levando mais longe a comparação, poder-se-ia ainda dizer que eles se assemelham a máquinas que cortam muito miúdo e misturam tudo o que lá se lança, mas não podem nunca digeri-lo; deste modo os elementos estranhos podem sempre ser reconhecidos, isolados, distinguidos. Só o génio pode ser comparado a um corpo organizado que digere, elabora e produz. Sem dúvida que ele se forma na escola dos seus predecessores no exemplo das suas obras, mas só se torna fecundo pelo contacto imediato com a vida e com o mundo, sob a influência da intuição; eis por que a educação, por mais perfeita que seja, nunca eclipsa a sua originalidade. Todos os imitadores, todos os maneiristas concebem sob a forma de conceito as obras estranhas que lhes servem de modelos; ora nunca um conceito poderá dar a uma obra a vida interior. Os contemporâneo
s, isto é, tudo o que a época produz de pessoas medíocres, conhecem apenas os conceitos e são incapazes de se desligarem deles; eis por que acolhem com prontidão e entusiasmo as obras imitadas. Mas poucos anos bastarão para tornar essas mesmas obras enfadonhas, visto que o único fundamento sobre que repousa o seu encanto, isto é, o espírito do tempo e o conjunto dos conceitos familiares à época, serão bem depressa transformados.

Só as obras verdadeiras, tiradas directamente do seio da natureza e da vida, permanecem eternamente jovens e sempre originais, como a própria natureza e a própria vida, visto que não pertencem a nenhuma época, são da humanidade. Os contemporâneos, a que elas não se dignam comprazer, acolhem-nas com frieza; não se lhes pode perdoar terem implícita e indirectamente desvendado os erros da época; além disso só se lhes presta justiça tardiamente e de bastante má vontade; mas em compensação elas não podem envelhecer; até nos tempos mais recuados, elas conservam a sua expressão, a sua frescura, a sua juventude sempre renascente; aliás não têm nada a temer nem do desprezo, nem do esquecimento, a partir do momento em que foram coroadas pela aprovação e pelos aplausos desse pequeno número de homens esclarecidos que aparecem em raros intervalos nos séculos (apparent rari nantes in gurgite vasto) e que emitem os seus juízos; são os seus sufrágios, acumulando-se, que constituem por si só a autoridade e o árbitro aos quais se ouve apelar, quando se evoca o juízo da posteridade, visto que no futuro a multidão será e permanecerá sempre tão atrasada e tão estúpida como não deixou de ser no passado. – Remeto o leitor para as lamentações que os grandes génios de cada época elevam contra os seus contemporâneos: têm o aspecto de serem de hoje; é que a raça humana é sempre a mesma. Em todos os tempos e em todas as artes a afectação substitui a inspiração, que é a propriedade exclusiva dum pequeno número; ora a afectação é um vestuário sob o qual o génio brilhou um instante; uma vez usado, rejeita-o e as pessoas apanham-no. Resulta de tudo isto que, em geral, para ter a aprovação da posteridade é preciso renunciar à dos contemporâneos, e reciprocamente. [ACONTECIMENTOS 5/7/07]