ficino

FICINO, Marsílio [1443-99]. Teologia platônica

[1] A alma é tal que se agarra às coisas superiores sem deixar as inferiores; e assim nela se ligam as coisas superiores com as inferiores. De fato, ela é imortal e móvel, e, portanto, de um lado concorda com as coisas superiores, do outro, com as inferiores. E se concorda com ambas, deseja ambas…

[2] E quando adere ao divino — porque espiritualmente está unida a ele, e união espiritual gera cognição — conhece o divino. Quando preenche os corpos, move-os intrinsecamente e vivifica-os; ela é, portanto, o espelho das coisas divinas, vida das coisas mortais e conexão de umas com as outras…

[3] Tal natureza parece sumamente necessária na ordem do mundo: para que, depois de Deus e dos anjos e acima do corpo e das qualidades que se dissipam no tempo e no espaço, sirva de termo médio adequado: um termo que de certa maneira seja dividido pelo transcorrer do tempo e, todavia, não dividido pelo espaço.

[4] É ela que se insere entre as coisas mortais sem ser mortal, posto que se insere íntegra, e não dividida, e assim mesmo, íntegra e não dispersa, dele se retira. E uma vez que, enquanto sustenta os corpos, adere também ao divino, é senhora dos corpos, não companheira. Esse é o máximo milagre da natureza.

[5] Outras coisas abaixo de Deus são, cada uma em si, uma entidade singular: a alma é simultaneamente todas as coisas. Tem em si a imagem das coisas divinas, das quais depende, e as razões e os exemplos das coisas inferiores, que de certa maneira ela mesma produz. Fazendo-se intermediária de todas as coisas, possui a faculdade de todas as coisas… Mas uma vez que é a verdadeira conexão de todas, quando migra para uma não deixa a outra, mas migra de uma para a outra e sempre as conserva todas, de modo que, justamente, pode denominar-se o centro da natureza, a intermediária de todas as coisas, a cadeia do mundo, o rosto de tudo, o nó e a cópula do mundo.