Desmilitarização da polícia

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo de hoje, 31-1, Barbara Gancia trata da violência da Polícia Militar contra os jovens de baixa renda, em sua maioria, pardos e negros. O parte mais interessante se encontra no final do artigo, quando a jornalista cita o especialista em segurança pública, consultor do governo FHC, antro­pólogo e professor da UERJ, Luiz Eduardo Soares, que defende, como prioridade ab­soluta, a desmilitarização (embora não o desarmamento) da polícia:

O objetivo do Exército é defender o território. Para cumprir essa função, ele se or­ganiza para mobilizar grandes con­tingentes com máxima celeridade sob ordens vindas de um só coman­do. Sua estrutura organizacional é totalmente verticalizada. O exérci­to luta contra o inimigo. Já a polícia é outro tipo de instituição. Seu pa­pel é prestar serviço, fazer ronda, patrulhamento, diagnosticar pro­blemas, mediar conflitos, dialogar e evitar a judialização [sic].

Não sei o que significa a palavra, a meu ver bem infeliz, “judialização” (tomo-a como corruptela de “judicialização”), mas o argumento do professor Soares é claro e convincente. As Forças Armadas, em geral, são o braço forte do Estado, que, como mostrou Max Weber, caracteriza-se pelo monopólio da violência física.
Um professor de filosofia que conheci na década de 1980, também no Rio, ia bem mais longe que Weber, que evitava a todo custo juízos de valor. Esse professor, também alemão, dizia que o Exército é simplesmente imoral. Ele queria dizer que se trata de uma instituição cuja existência só se justifica em estado de exceção, de conflito internacional, guerra.
Para muitos intelectuais, como o grande antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, que defendia a construção pelo Brasil da bomba atômica, essa posição pode parecer mais que ingênua, até irresponsável. Mas, na verdade, trata-se apenas de uma visão de mundo mais racional e humana.
Ontem, lembrei aqui de Gandhi. O grande líder espiritual da Índia era radicalmente contra toda forma de violência. Mas não me parece que ele fosse ingênuo, muito menos irresponsável. E me parece também que, “apesar” de todo seu idealismo, ele tenha conseguido resultados bem “realistas”, não?
Como quer que seja, a ação persistentemente desabrida e descontrolada da PM, especialmente contra nossos jovens, já me parece suficiente para justificar sua pura e simples extinção.