mini-curso

PUC-Rio
Departamento de Filosofia
Programa de Mini-Cursos
Prof. Dr. Tito Marques Palmeiro
Período: 2007.2; dias 9, 16 e 23 de agosto
Horário: 5as, das 13 às 16hs.
Sala: Mini-Auditório do RDC
No. de Vagas: 28

Percepção e Linguagem em Merleau-Ponty
O curso discutirá o papel da percepção na filosofia de Merleau-Ponty. Trata-se de compreender como sua obra pode reivindicar um “primado da percepção” apesar das diversas críticas da filosofia tradicional à redução do conhecimento ao sensível. Veremos, no entanto, que a percepção não é compreendida por Merleau-Ponty como o ajuizamento de representações empíricas porque seu sentido é muito mais amplo, é o de uma abertura a todos os fenômenos. Trata-se portanto de compreender o caráter extremamente ambicioso de um projeto que questiona a percepção como um meio para interrogar todos fenômenos, procurando com isso promover uma renovação da interrogação filosófica. Mas se a percepção é uma abertura a todas as questões é porque o sensível não é estranho à idealidade e à universalidade. O curso seguirá o questionamento dessa relação pela discussão do problema da linguagem. Mostraremos que a linguagem não é estudada na obra de Merleau-Ponty pela questão da estrutura da proposição,
mas através do quadro ontológico inaugurado pela percepção: ela é tomada como um elemento sensível cuja reflexividade permite a expressão da idealidade própria ao sensível.

Bibliografia Selecionada
Fenomenologia da Percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1999. (Trechos do “Prefácio” e do capítulo “O Corpo como Expressão e a Fala”).
Notes de cours 1958-1959 et 1960-1961. Paris, Gallimard, 1996. (Tradução) .
O Visível e o Invisível. São Paulo, Perspectiva, 1971. (Trechos selecionados.)

Programa
Serão discutidos os seguintes tópicos:
Aula 1: O sentido de uma filosofia da percepção
Aula 2: A necessidade de uma interrogação da linguagem
Aula 3: A relação linguagem-percepção

o especialista instantâneo em filosofia 4

por JIM HAKINSON

Existencialismo
O movimento filosófico continental mais importante nos últimos tempos foi talvez o existencialismo, que teve partidários franceses e alemães. O expoente francês principal foi Sartre, um erudito invejável que combinava a filosofia com a agitação política marxista, a autoria de romances e de peças de teatro, e uma capacidade prodigiosa para o álcool. Foi ele que introduziu o slogan “A existência precede a essência”, que quer dizer, mais ou menos, que devemos estar menos preocupados com o tipo de coisas que as coisas são, do que com o fato de serem.

Os existencialistas resistem a ser classificados, insistindo geralmente na autonomia do individual: logo, têm tendência para ficar um bocado irritados só pelo fato de lhes chamarmos existencialistas. O existencialismo, ou pelo menos a sua linha francesa, tem conexões literárias muito fortes, sendo Camus e o próprio Sartre os seus maiores expoentes. A literatura tende a concentrar-se no conceito de acte gratuit (refira-a em francês, claro), que constitui supostamente a essência da afirmação existencialista da sua própria existência. Mas para o resto das pessoas parece-se mais com um caso de crueldade caprichosa. Uma vez que o acte gratuit, pelo menos na literatura, tem tendência para ter uma natureza violenta, ou, no mínimo dos mínimos, anti-social, viver com um existencialista (pelo menos com um existencialista francês) deve ser de arrasar com os nervos.

Os alemães, dos quais vale a pena referir Martin Heidegger e Karl Jaspers, são um grupo muito diferente. Não têm pretensões literárias, felizmente, e tendem a ser mais explícitos quanto às suas influências, referindo filósofos como Kierkegaard e Edmund Husserl, um filósofo alemão dos princípios do século que desenvolveu de uma maneira sistemática e tipicamente alemã o conceito de Fenomenologia, i.e., a tentativa de penetrar, por entre as aparências superficiais das coisas, na realidade básica da nossa apreensão consciente delas (ou coisa assim).

O existencialismo não arrasta consigo qualquer compromisso religioso para qualquer dos lados: Sartre era ateu, Jaspers cristão; Heidegger era nazista, mas isto é em geral convenientemente esquecido. Um ponto interessante a notar é que os livros de filosofia escritos em inglês têm em geral de ter três elementos nos seus títulos, sendo Language, Truth and Logic (Linguagem, Verdade e Lógica) Truth, Probability and Paradox (Verdade, Probabilidade e Paradoxo) e Mind, Language and Reality (Mente, Linguagem e Realidade) alguns exemplos proeminentes, ao passo que o número de elementos exigidos para os títulos existencialistas parece ser de apenas dois, como em Sein und Zeit (Ser e Tempo) de Heidegger, e em L’Etre e le Neant (O Ser e o Nada) de Sartre. Os filósofos analíticos anglo-saxônicos têm tendência para desprezar o existencialismo por não ser suficientemente analítico; os existencialistas têm tendência para desprezar os filósofos analíticos anglo-saxônicos por não serem suficientemente. [Tradução de Desidério Murcho]