Computer Chess

Esse é o título de filme dirigido por Andrew Bujalwski, com baixo orçamento e câmera antiga (para criar um clima vintage), cujo tema é a “singularidade”, isto é, a consciência artificial (note: consciência é mais que inteligência; é como se a máquina possuísse um ego). O argumento do filme é simples: assim como, atualmente, os humanos não temos mais nenhuma chance de vencer o computador no xadrez, no futuro também não teremos em várias outras áreas.
Por enquanto, a tal singularidade é apenas ficção. Na minha opinião, continuará sendo. A autoconsciência não me parece ser algo que se possa criar em laboratório. Mas não pretendia escrever sobre filosofia da mente, e sim de algo bem mais simples.
O que me mais me chama a atenção nessa história não é o exercício de futurologia, mas a constatação de que os humanos já não conseguimos mais vencer os computadores no jogo de xadrez.
Outro dia descobri que Pedrag Cicovacki –pensador iugoslavo naturalizado estado-unidense,  criativo intérprete de Kant– é mestre de xadrez. Fiquei admirado… Pois sempre considerei esse jogo como algo sofisticado não só do ponto de vista intelectual, mas também do imaginário (imaginação e simbologia*).
Mas, agora, pensando melhor, fico a perguntar-me o que pode conter de humano (e de transcendente) um jogo que foi dominado totalmente pela máquina.
Não seria mais correto e fecundo pensar que somos plenamente humanos naquilo que justamente transcende a máquina e o animal?
Schiller e Huizinga talvez nos pudessem ajudar ir adiante nessa reflexão. Que você acha, leitor?
*NOTA: O perenialista suíço Titus Burckhardt escreveu um interessante ensaio sobre a simbologia do xadrez.

Extensão cultural

O novo reitor da USP, Marco Antonio Zago, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo no último dia 25, enfatiza o papel cultural da universidade.
Diz ele, entre outras coisas, o seguinte: “As universidades existem para prover educação superior de excelência às novas gerações e para promover a pesquisa, entendida em sentido amplo: investigação experimental e tecnológica; pesquisa das questões econômicas, sociais e políticas; e da produção da cultura e da arte em todas as suas formas de expressão”.

Chamam a atenção, nesse trecho, pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, o reitor esquece-se do terceiro elemento do tripé que sustenta a ideia contemporânea de universidade: além de pesquisa e ensino, a extensão.* Em segundo, acrescenta ele um quarto pé: a cultura.

Sim, a cultura pode muito bem cumprir o papel de estender a “produção” universitária à sociedade. Mas a ideia de extensão é mais abrangente que a vida cultural. Trata-se, para além de alimentar a comunidade com cultura, de prestar-lhe vários serviços, de consultoria jurídica a atendimento médico.

Aliás, parece que a extensão universitária não constitui propriamente um terceiro elemento, ou pé, mas uma ideia, uma espécie de princípio regulador ou diretivo de todo o organismo universitário.

Em outras palavras, o sentido mesmo da universidade consiste na relevância que a pesquisa, o ensino e a “produção” cultural que são realizados nela, intramuros, têm para a sociedade em geral.

Não obstante, é verdade que a cultura, em particular, a arte, pela própria natureza, tem o condão de (inter)mediar teoria e prática — como nos esclarecem Kant e Schiller, p.ex.

Nesse sentido, será muito bem-vinda a valorização por parte do novo reitor da USP, uma das universidades mais importantes da América Latina, do papel da cultura, em geral, e da arte, em particular, na relação dessa instituição com a comunidade.

*Nota: O princípio da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão está estabelecido na Constituição Federal (1988), Cap. III, Seç. I, Art. 207, como segue: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.