Assassinato da memória nacional

A Folha publicou hoje uma nota de repúdio, de minha autoria, a um artigo de Olavo de Carvalho. Abaixo, o original e, em seguida, a versão publicada:

“Lamentável a publicação, na seção Opinião da edição de hoje, 17-6-2014, do artigo ‘Assassinos da inteligência’, do jornalista Olavo de Carvalho. Esse autor defende a tese negacionista da ‘ditabranda’, que fere o senso comum e os direitos humanos. Afirma com todas as letras que o regime militar matou ‘400 terroristas’, ‘a maioria deles de armas na mão’, uma inverdade histórica que ofende os familiares das vítimas da ditadura, em particular, e os cidadão de bem, em geral. Não vejo como um artigo desses possa estimular o debate, e acho muito duvidoso que reflita alguma tendência do pensamento contemporâneo. A não ser que o anticomunismo raivoso, que confunde esquerda, esquerdismo, marxismo e comunismo, entre outras coisas, possa ser considerado pensamento.”

“Olavo de Carvalho defende a tese negacionista da ditadura, que fere o senso comum e os direitos humanos. Afirma com todas as letras que o regime militar matou ‘400 terroristas’, ‘a maioria deles de armas na mão’, uma inverdade que ofende os familiares das vítimas da ditadura, em particular, e os cidadãos de bem, em geral. Não vejo como um texto desses possa estimular o debate e acho muito duvidoso que reflita alguma tendência do pensamento contemporâneo.”

Desonestidade intelectual sem fim

Comento, a seguir, artigo de Olavo de Carvalho (OC), publicado no Diário do Comércio em 15 de agosto de 2005, intitulado “Miséria intelectual sem fim”. O texto do autor vai em negrito; os meus comentários seguem no formato de citação (com avanço). Trata-se de comentários despretensiosos, que fiz a um ex-aluno, forte candidato a olavette.


Há quase meio século o mercado editorial brasileiro, e em conseqüência os debates jornalísticos e universitários, cujo alimento de base são os livros,

Isso não é mais verdade, depois da Internet (e os e-books etc.), e, na verdade, nem o era antes, pois a discussão acadêmica se baseia muito mais em obras não traduzidas do que nas publicadas no Brasil.

não refletem em nada o movimento das idéias no mundo, mas apenas o apego atávico da intelectualidade local a mitos e caoetes fabricados pela militância esquerdista para seu consumo interno e satisfação gremial.

Duvido muito que o OC possa falar com conhecimento de causa: que ideias circulam na Alemanha, nos países nórdicos, na Rússia, no Japão, África do sul etc.? O mundo, pra ele, são os países de fala inglesa.

Sem a menor dificuldade posso listar mais de quinhentos livros importantes, que suscitaram discussões intensas e estudos sérios nos EUA e na Europa,

Duvido muito. Que eu saiba, o OC não tem memória fotográfica; quinhentos livros relevantes é uma enormidade. Isso não existe. Desafio-o a mostrar o livro e a respectiva discussão (por estudiosos relevantes em órgãos relevantes)! 

e que permanecem totalmente desconhecidos do nosso público, pelo simples fato de que sua leitura arriscaria furar o balão da autolatria esquerdista e varrer para o lixo do esquecimento inumeráveis prestígios acadêmicos e literários consagrados neste país ao longo das últimas décadas.

E desconhecidos do próprio OC até pouco tempo, não é? Por quê? Ele não lia em inglês? Não tinha Internet? Além disso, o que ele não diz é que o mercado editorial esquerdopata tupiniquim também está muito atrasado em relação ao estrangeiro. Por quê? Isso não aumentaria o prestígio dos acadêmicos?

Esses livros dividem-se em sete categorias principais:
1. Obras essenciais de filosofia e ciências humanas que oferecem alternativas à ortodoxia marxista-desconstrucionista-multiculturalista dominante

Queria ver como OC demonstra o parentesco essencial entre essas três correntes ideológicas! E como se pode falar de ortodoxia com respeito a uma ideologia no mínimo complexa, ou mesmo eclética, como essa? Castoriadis e Badiou, p.ex., são marxistas, o último continua sendo comunista, e ambos não são desconstrucionistas nem relativistas etc.

(por exemplo, os livros de Eric Voegelin, Leo Strauss, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan, Eugen Rosenstock-Huessy, Thomas Molnar, David Stove, Roger Scruton).

Um dos luminares da teologia da libertação, ou seja, da teologia marxista-desconstrucionista-multiculturalista, o jesuíta Ignácio Ellacuría, foi um pupilo do Zubiri. Mas é claro que OC não leu Ellacuría e não gostou.
2. Análises críticas dessa ortodoxia (Hilton Kramer, Roger Kimball, Keith Windschuttle, John M. Ellis, Mary Lefkowitz, Judith Reisman).
3. Pesquisas históricas sobre o movimento esquerdista internacional, baseadas nos documentos dos Arquivos de Moscou e outras fontes recém-abertas, (John Lewis Gaddis, John Earl Haynes, Stephen Koch, Harvey Klehr, R. J. Rummel, Christopher Andrew, Herb Romerstein, Ronald Radosh, Arthur Herman).

Como se todas as esquerdas do mundo fizessem parte de um único movimento! Nem as tais internacionais socialistas eram homogêneas. E como se a Rússia fosse a matriz de todos os movimentos esquerdistas do mundo!
4. Livros sobre o esquerdismo hoje em dia, com a descrição dos laços abrangentes que unem ao terrorismo e ao narcotráfico a esquerda chique da grande mídia, das fundações bilionárias e dos organismos dirigentes internacionais ( Unholy Alliance , de David Horowitz, Countdowmn to Terror , de Curt Weldon, Treachery , de Bill Gertz, Through the Eyes of the Enemy , de Stanislav Lunev).

OC fala como se a mera existência de livros fosse já uma prova de alguma coisa. E como se a direita não tivesse laços abrangentes com o crime! Você conhece alguma fundação bilionária de esquerda, raro leitor? Algum banqueiro esquerdista? E é difícil encontrar um criminoso maior do que um banqueiro…

5. Livros sobre a perseguição anti-religiosa no mundo e o fenômeno concomitante da expansão acelerada do cristianismo na Ásia e na África ( The Criminalization of Christianity , de Janet L. Folger, Persecution, de David Limbaugh, Megashift , de James Rutz, Jesus in Beijing , de David Aikman etc. etc.).

E o que isso tem que ver com o assunto? Entre os cristãos tem de tudo, esquerdistas e direitistas, corintianos e marcianos.

6. Livros sobre questões políticas em discussão aberta nos EUA, com repercussões mundiais mais que previsíveis (Men in Black , de Mark R. Levin, So Help Me God , de Roy Moore, Deliver Us From Evil , de Sean Hannity, Liberalism Is a Mental Disorder , de Michael Savage e, evidentemente, todos os livros de Ann Coulter).

Eu me divirto quando leio locuções jornalísticas como “mais que previsíveis” e “evidentemente”, sobretudo quando ocorrem na mesma frase. Os olavettes repetem essas coisas sem antes verificar do que se trata. Será mesmo coisa relevante? Relevante pra quem? O que se discute abertamente nos EUA é mesmo relevante para todos? E o que significa abertamente, na Fox?

7. Obras essenciais que deram novo impulso ao pensamento político conservador americano e europeu desde os anos 40, como as de Ludwig von Mises, Marcel de Corte, Willmore Kendall, Russel Kirk, Erik von Kuenhelt-Leddin, William F. Buckley Jr., M. Stanton Evans, Irving Babbit, Paul Elmer More e muitos outros. Neste ponto a ignorância dos nossos professores universitários chega a ser criminosa, como se viu na fraude coletiva do “Dicionário Crítico do Pensamento da Direita” (detalhes em www.olavodecarvalho.org/textos/naosabendo.htm).

Volto ao ponto inicial: a falta de tradução não implica desconhecimento nem desinteresse. E duvido muito que tudo o que OC considera importante seja mesmo importante de um ponto de vista mais geral. Aposto até que entre esses mesmos autores há quem menospreze outros da mesma lista. Como está fora da academia, OC não parece fazer ideia de como as coisas se passam nela. Aliás, digo mais, duvido que ele sequer conheça os periódicos acadêmicos mais relevantes da área!

Todos esses exemplos são de livros e autores bem conhecidos, amplamente debatidos na mídia americana e alguns na européia.

Isso não lembra alguma coisa? Aquele complexo de vira-lata típico de povos subdesenvolvidos? Se é americano, se é inglês, então é importante?

Cada uma das sete classes comportaria mais de cem outros títulos igualmente importantes. Não é exagerado concluir que, se o debate nacional ignora todas essas obras, das duas uma: ou ele é tão rico que pode prescindir delas, fartando-se numa pletora de produtos locais mais substanciosos, ou está tão abaixo do nível delas que não chega nem a suspeitar que devam ser lidas ou mesmo que existam.

Velha tática de manipulação (que deve ser conhecida por quem publicou obra de erística): redução a uma disjunção (ou/ou). Os vendedores também a usam: — você quer em verde ou em azul? — quando o sujeito não quer é nada. Eu acho até que algumas dessas obras sejam conhecidas pelos brasileiros; que algumas sejam consideradas importantes e outras não; que até deve ter havido alguma discussão em torno de uma ou de outra — das tais quinhentas (será que OC lê todos os periódicos acadêmicos brasileiros pertinentes?) –; há várias possibilidades, não apenas duas exclusivas.

Não é preciso perguntar qual das duas hipóteses é verdadeira.

Hehehe…

Qualquer estudante universitário afirmará resolutamente que se trata de autores desconhecidos no meio acadêmico brasileiro, portanto irrelevantes para quem já encheu seu pé-de-meia cultural com a moeda forte de Eduardo Galeano, Rigoberta Menchú e Emir Sader (sem contar, é claro, a ração diária de Foucaults e Derridas, invariável há cinqüenta anos).

Aí os olavetTes repetem o mesmo achincalhamento sem ler. Duvido que o Galeano possa ser considerado como uma bosta completa. E que Foucault e Derrida sejam também uns bostas completos. Não gostar deles é uma coisa, menosprezá-los é outra. Pra isso são necessários argumentos.

Resta ainda o fenômeno, mórbido em último grau, da polêmica de mão única. Sua fórmula é a seguinte: uma discussão qualquer aparece na mídia americana, conservadores e esquerdistas produzem dezenas de livros a respeito e a parte esquerdista é publicada no Brasil sem suas respostas conservadoras, simulando consenso universal em questões que, no mínimo, permanecem em disputa. O establishment cultural brasileiro materializa assim o koan budista de bater palmas com uma mão só. Isso é a norma, sobretudo, nas polêmicas anticristãs. Uma fajutice barata como O Papa de Hitler , de John Cornwell, teve várias edições e toda a atenção da mídia. Os muitos livros sérios que desmantelaram a farsa (sobretudo o do rabino David Dalin, The Myth of the Hitler Pope , e o do eminente filósofo Ralph McInnerny, The Defamation of Pius XII ) continuam inacessíveis e não foram nem mesmo mencionados na mídia soi-disant cultural.

A onisciência do OC é mesmo impressionante. Talvez o sr. McInnerny seja tão eminente quanto o próprio OC, vai saber. O que OC não parece perceber é que o mercado cultural e livreiro é um… mercado! Quem não publica aquilo que vende, simplesmente (se) quebra. Um “papa do Hitler” é coisa que vende, Assim como tudo que contiver fofoca, sexo, sangue etc. (Entrando um pouco no mérito da coisa: a questão não é que o papa tenha apoiado o nazismo e sim que ele não o tenha combatido com todas as forças. E ele efetivamente não o fez, ora. Isso é admitido até por defensores de Pio XII, ou seja, que ele não fez mais porque o enfrentamento poderia desencadear uma reação desproporcional de Hitler, o que poria mais vidas em risco. Esse argumento é meio esquisito, não? O mesmo vale, em minha opinião, para os últimos papas que acobertaram, sim senhor, os escândalos sexuais dos padres safados.)

Ninguém sequer noticiou que o próprio Cornwell, surpreendido de calças na mão, retirou muitas das acusações que fizera a Pio XII. No Brasil elas ainda são repetidas como verdades provadas.

Verdades provadas? Então prove! E daí que meia dúzia de manés apresente alguma tese como verdade provada? Será que todos os interessados têm de engolir a tese ou de responder a ela? Quer dizer que no Brasil todo mundo acredita na tese do Papa nazista?

Do mesmo modo, os filmes Farenhype 9/11 (www.fahrenhype911.com) e Michael Moore Hates America (www.michaelmoorehatesamerica.com), respostas devastadoras à empulhação fabricada por Michael Moore em Farenheit 9/11 , permanecem fora do alcance do público e não mereceram nem uma notinha nos jornais.

OC lê todos os jornais; impressionante! Duvido muito que os filmes do Moore sejam apenas empulhação. O cara é marqueteiro, quer vender, e por isso exagera mesmo, até distorce, inventa, mas diz também verdades. Mais ou menos como o faz o próprio OC. A diferença é que ao último não cabe nenhuma licença poética.

Resultado: o mais notório charlatão cinematográfico de todos os tempos, que nos EUA tem fama apenas de mentiroso criativo,

Muito provavelmente, isso também é uma mentira. Talvez entre os fascistas, os festeiros do chá etc., isso seja verdade. Mas isso é uma questão de preferência ideológica!

é citado como fonte respeitável até nas universidades.

Onde? Por quem? Na Anhanguera? Na Castelo Branco? Por quem, pelo nogueirinha? Existe algum artigo científico ou alguma tese que refira filme do Moore como fonte de informação na bibliografia?

É patético. Também cada nova intrujice anti-americana ou anti-israelense de Noam Chomsky é recebida como mensagem dos céus, mas ninguém pensa em publicar a coletânea The Anti-Chomsky Reader , de Peter Collier e David Horowitz, porque é impossível lê-la sem concluir que nem mesmo o Chomsky lingüista, anterior à sua transfiguração em pop star da esquerda, era digno de crédito.

Taí uma boa pedida: queria ver OC a uma mesa com Chomsky. Não sobre linguística, pois disso o OC não sabe nada. Mas sobre aquilo que ele acha que sabe. Chomsky tem o hábito de apresentar dados e fontes, um hábito que faria muito bem a OC. Veja o que ele faz neste artigo: cita autores e livros como se isso constituísse uma prova. Não passa de um argumento de autoridade, que, no caso, é apenas uma falácia.

Como esse estado anormal de privação de alimentos intelectuais essenciais vem se prolongando por mais de uma geração, o resultado aparece não só na degradação completa da produção cultural, hoje reduzida a show business e propaganda comunista, mas também nos indivíduos, notavelmente mais embotados e burros a cada ano que passa, quaisquer que fossem antes seus talentos e aptidões.

Como professor de olavettes, eu que o diga! Uma coisa que precisa ser explicada por OC é por que diabos toda a cultura, toda a educação têm de ser reduzidas à disjunção esquerda-direita… Há muita merda sendo publicada neste país, e no resto do mundo (os EUA devem ser os campeões da merdice!), mas há coisas boas também. E coisas que nada têm que ver com ideologia política.

Não hesito em declarar que, pela minha experiência pessoal, qualquer menino educado pela via do home schooling nos EUA está intelectualmente mais equipado do que a maioria dos “formadores de opinião” no Brasil, incluindo os luminares da grande mídia, os acadêmicos e os escritores de maior vendagem no mercado (imagino um debate entre qualquer deles e Kyle Williams, menino gordinho de quinze anos que, sem jamais ter freqüentado escola, faz sucesso como colunista político desde os doze – seria um massacre).

Boa parte das famílias americanas que optam por educar seus filhos em casa é religiosamente fundamentalista e/ou mórmon. Um exemplo apenas (do menino prodígio) não passa de caso anedótico; não prova nada.

Não é preciso dizer que a essas mesmas criaturas, aliás, incumbe a culpa pelo presente estado de coisas. A instrumentalização – ou prostituição – completa da cultura no leito da “revolução cultural” gramsciana não poderia ter outro resultado, exatamente como anunciei no meu livro de 1993, A Nova Era e a Revolução Cultural.

OC, o profeta! Li muito pouco do Gramsci. Pergunto-me se os olavettes o lerão ou simplesmente o jogarão no lixo. — veja: se Gramsci é um bosta, deve ser fácil refutá-lo, não? Se não é, mas é um cara perigoso, então não deve ser muito fácil refutá-lo. Nesse caso, porém, ele deveria ser refutado, não é? E o que os olavettes fazem diante dessa situação? Estudam Gramsci e se empenham em refutá-lo? Claro que não. Já o dão por refutado –pelo mestre–, e de uma vez por todas. Isso só demonstra que não entendem nada de filosofia. Não existe refutação definitiva em filosofia. Um olavette famoso, o jornalista Reinaldo Azevedo, escreveu certa vez que achava despropositada a discussão acerca da existência de Deus, uma vez que Tomás de Aquino já tinha resolvido a parada (!!!).

Por orgulho, vaidade, ressentimento, desonestidade, covardia, sem contar a inépcia pura e simples e a ambição insana de poder absoluto sobre a mente popular, a liderança intelectual esquerdista fechou o Brasil num isolamento provinciano e incapacitante,

Tenho 52 anos e nunca sofri nenhum constrangimento esquerdista em lugar algum. Será que tive apenas sorte, ou será que sou um imbecil completo, incapaz de perceber a própria lavagem cerebral? Não existe isolamento nenhum. Não existe monopólio nenhum. Existem panelinhas. A miséria existente, e a ditadura recente, explicam em parte a preponderância de panelinhas esquerdistas em certas áreas. O resto é manipulação (de OC). — Uma técnica muito eficaz de manipulação consiste justamente em transformar o medo (de coisas concretas) em angústia (medo indefinido). É o que o governo estadunidense fez depois do 11/9, e continua fazendo (todo mundo tem medo mas não sabe bem de quê), e é o que OC não se cansa de fazer: a esquerda é um poder maligno que está por toda parte, e pode engoli-lo a qualquer momento. Cuidado, talvez você esteja dormindo com ela! Faça um curso comigo, leia meu site, compre meus livros, e aprenda a identificar o inimigo íntimo. Saiba como não se deixar transformar num imbecil ou num idiota: saiba como se tornar um olavette!

sem o qual jamais teria sido possível esse paroxismo de inconsciência, essa apoteose da credulidade beócia, sem precedentes em toda a história universal, que foi a aposta maciça do eleitorado brasileiro na idoneidade do PT e na sabedoria infusa de um semi-analfabeto presunçoso.

É essa a explicação filosófica ociana da vitória do PT com o Lula? Uau, que profundidade! Que o Lula seja semianalfabeto e presunçoso, isso é lá verdade. Mas disso não se segue muita coisa, não é? Eu mesmo pensava coisas semelhantes. Depois tive de engolir o fato de que esse semianalfabeto fez coisas pelos miseráveis e pobres que ninguém antes fez. É um fato que o governo do PT tirou e está tirando milhões de pessoas da miséria absoluta. Mas para quem defende o trabalho escravo de crianças, como OC (na China, p.ex.), isso não deve significar muita coisa.

Mas a consciência, ao contrário do dinheiro, parece fazer tanto menos falta quanto mais escasseia.

Disso eu gosto nele, essas tiradas engraçadas, tipo Zé Simão…

Convocados quase que simultaneamente pelos dois house organs do esquerdismo brasileiro, que são os cadernos Mais! da Folha de S. Paulo e Prosa & Verso do Globo,

O Globo, um jornal de esquerda?! Putsgrila!!!

para analisar o fenômeno do descalabro petista, os representantes mais badalados daquela liderança, os mesmos que há trinta anos dominam o palco dos debates públicos no país, lançam as culpas em tudo, exceto, é claro, na hegemonia esquerdista e no seu próprio trabalho incansável de carcereiros da inteligência.
No Mais! , César Benjamin tem ao menos o mérito de reconhecer que a corrupção petista não vem de hoje, não é súbito desvio de uma linha de conduta honesta e sim um mal antigo, de raízes profundas. Mas, na hora de explicar suas causas, apela, sem notar que se contradiz, ao subterfúgio usual de acusar a estratégia de acomodação com o “neoliberalismo”, supostamente adotada pelo governo Lula.

Quer dizer que o descalabro do partido que está prestes a reeleger a presidenta é de ordem moral? Êita análise filosófica profunda, sô! Alguém poderia recomendar Max Weber ao OC? Não, não recomende não, pois não quero me responsabilizar por atos de violência descontrolada.

Reinaldo Gonçalves, economista da UFRJ, acha que o PT estaria melhor sem Lula, José Dirceu et caterva — intriga de família que, sinceramente, não é da nossa conta.
Paul Singer só se preocupa em recordar os bons tempos e tentar salvar a fé socialista. Sempre tive aliás a impressão de que os socialistas saem direto do pediatra para o geriatra. 
O Prosa & Verso não se contenta em ouvir os gurus de sempre. Anuncia mais um ciclo de conferências da série “O Olhar”, “Os Sentidos da Pauxão” etc. – organizado pelo indefectível Adauto Novaes – no qual esses campeões de tagarelice comentarão, desta vez, “O Silêncio dos Intelectuais”, sugerindo que o Brasil está mal porque eles têm falado muito pouco.

Participei de um desses ciclos e achei interessante. Bem diversificado, aliás.

Francisco de Oliveira explicita esse pensamento ao proclamar que a esquerda vem errando porque não trata com suficiente deferência os seus intelectuais – ele próprio, suponho, em primeiro lugar –, usando-os apenas como ornamentos em vez de se curvar às suas sábias lições.
O poeta Antônio Cícero divaga pelo passado histórico, exibindo sua incapacidade de discernir entre a Idade Média e o Renascimento e, quando vai chegando perto do assunto proposto, já acabou o artigo.

Hum… agora fiquei mesmo com vontade de ir ao original… Sou leitor do Cícero, e esse cara é sério e não é nada bobo. E não é esquerdista, muito menos irracionalista.

Sérgio Paulo Rouanet apela ao dever de “universalidade” dos intelectuais, que ele define como “pensar e agir em nome de todos”, como se a universalidade da verdade dependesse do apoio unânime das multidões e como se aquele dever não consistisse, com freqüência, em defender aquilo que todos rejeitam.

Concordo em termos, mas é preciso saber se ele entendeu direito o Rouanet. “Em nome de todos”, pelo menos assim fora de contexto, pode muito bem ser entendido como um imperativo categórico, ou seja, não em nome de todos os existentes em dado lugar e tempo, mas de absolutamente todos os seres racionais.

Renato Janine Ribeiro medita um pouquinho sobre “O que é ser intelectual de esquerda?” – decerto a mais interessante das perguntas para uma classe cuja principal tarefa é a contemplação extática do próprio umbigo.
Querem mais? Essas amostras bastam. A vacuidade, a falta de garra para apreender a substância dos fatos, a obscenidade espontânea e quase inocente com que esses sujeitos lambem em público o próprio ego grupal — tudo isso ilustra, ao mesmo tempo, a causa remota e o seu efeito presente: a total irresponsabilidade intelectual de ativistas ambiciosos desembocou, a longo prazo, numa degradação tamanha, que eles próprios, mergulhados nela, já não conseguem lembrar que a produziram fazendo exatamente o que estão fazendo agora.

Mas que desfecho mixuruca! Obscena foi a estratégia ociana para desqualificar vários intelectuais, resumindo papers inteiros em uma frase. Uma coisa que aprendi com um professor de filosofia, muito simples mas muito poderosa, foi perguntar-me, depois de ler alguma coisa, o seguinte: o que aprendi com isso? Sinceramente, eu não aprendi nada com esse artigo!

E você, raro leitor?

Carta a um futuro olavette [1]

A seguir, reproduzo uma “carta” originalmente endereçada a um ex-aluno, ora forte candidato a se tornar mais um olavette. A aparente fragmentariedade do texto se deve ao fato de, como toda resposta, subtender muitas coisas. Decidi publicá-la por achar que o caso desse ex-aluno, P., como o chamarei, está infelizmente longe de ser único ou raro. Se for útil para pelo menos uma pessoa já terá valido a pena.

Caro P.,

Não sou especialista em Aristóteles, do qual aliás conheço apenas o básico, para avaliar o livro do Olavo de Carvalho (OC). Mas ele mesmo diz, em algum lugar, que suas ideias sobre o estagirita se baseiam em indicações, antigas, de filósofos árabes e, recentes, do Mario F. dos Santos. Em todo caso, para mim, história da filosofia não é filosofia, e a obra em questão é de história da filosofia.

Eu tomaria mais cuidado com o adjetivo “grande” (ou “pequeno”) ao atribuí-lo a filósofos e pensadores. “Grande”, para mim, cabe a Sócrates, Platão, Aristóteles, ao “burro” do Kant e a mais uns poucos. (O OC talvez pudesse ser o criado de quarto de um deles…)

Nem toda interpretação da “realidade” é de natureza filosófica. A filosofia começa, aliás, discutindo a própria “realidade”: se existe, qual sua natureza, o papel do intérprete etc. A maior parte do que OC publica tem muito pouco de filosofia.

Eu não dou a mínima para a filosofia acadêmica (se é que existe filosofia na academia!); sigo nisso os grandes.

Kant dizia que não se pode ensinar filosofia, mas apenas a filosofar. Infelizmente, é a filosofia herdada, morta, que se ensina na academia. E não me parece que OC faça algo muito diferente. Tive vários “olavettes” como alunos, e eles sempre estiveram entre os piores, incapazes de pensar por si mesmos, cheios de preconceitos, erros crassos e jargões.

Na verdade, meu caro, ninguém ensina ninguém. O professor pode apenas sensibilizar o aluno, e oferecer as condições (ambiente, instrumental etc.) para que este possa começar a filosofar. O aluno aprende ou não, mas ninguém pode se ativar por ele! Tudo que lhe venha de fora não é filosofia viva, mas conhecimento histórico, morto, que ele decora e depois esquece.

Essa desculpa do OC, de que ele não teria tempo para escrever livros, é ela mesma preguiçosa, hehe. Se alguma coisa não lhe falta é a capacidade e a vontade de escrever. Tratados são desnecessários, mas algumas boas sínteses bem que ele podia escrever, não acha? Mas cadê elas? Cadê, aliás, o tal d’Olho do Sol?

Você diz que OC assume o que faz. Bem, eu também manteria cautela quanto a isso. Como lhe disse, ele reescreve a própria biografia de tempos em tempos. Não se trata apenas de mudar de ideia!

Veja: quando o conheci, OC era astrólogo. Sim, ele aprofundou o estudo da astrologia (psicologia, simbologia, metafísica etc.), mas isso se deu aos poucos. No começo, era mesmo um fazedor de horóscopos (um amigo tem uma fita gravada com o horóscopo feito pelo OC), autor de artigos para a revista Planeta (onde difundia barbaridades como a falsa Gnose de Princeton). Quando abriu a Escola Júpiter, começou a dar cursos de formação intelectual. Nessa época, descobriu a obra do esoterista francês René Guénon. Talvez esse encontro tenha sido um dos mais importantes de sua vida. E eu duvido que ele admita tudo o que se passou desde então.

Foi aí que o OC escreveu aqueles livrinhos sobre tradição e tradicionalismo. Começou a estudar e a divulgar a obra do suíço Frithjof Schuon, de quem se tornou discípulo, juntamente com vários alunos (como todo líder carismático, OC sempre teve discípulos). Eles foram para os EUA, onde o Schuon tinha uma Tariqa, uma escola esotérica muçulmana, sufi. (Você deve saber que OC, não por acaso, escreveu uma biografia de Maomé.)

Schuon era para OC um deus na terra, um santo, um grande iniciado. Agora, ele diz que o Schuon era na verdade uma espécie de espião, alguém que foi enviado aos EUA para corrompê-lo por dentro. — O que OC tem a dizer sobre isso?

É que eu me desfiz de todos os livros do OC (e eu tinha todos ou quase todos), senão seria fácil demonstrar essa radical “mudança de ideia”.

Na verdade, o OC foi desligado da tariqa pelo próprio Schuon. Preste atenção nisso. Quando alguém diz isso ao OC, ele responde que tem um documento que prova ter saído de lá numa boa. Ou seja, ele acaba se entregando ao demonstrar interesse em manter uma boa relação com o emissário do capeta.

Pouco antes, OC entrou para a ordem dos irmãos Shah (Idries etc.). Uma ordem supostamente sufi, com um método peculiar, heterodoxo, de desenvolvimento espiritual. Depois escreveu que se tratava de magia negra. (Rapaz, se eu puxar pela memória, não para de vir coisas…)

O suposto tradicionalismo católico do OC vem da época do perenialismo (Guénon, Schuon). Não digo que ele não tenha fé (quem sou eu para afirmar isso?), mas sim que ele se apega ao tradicionalismo católico em virtude da doutrina metafísica daqueles autores e, em especial, do filho de Ananda Coomaraswamy, Rama.

OC vai abandonando pelo caminho os alunos que não o seguem em suas “mudanças de ideia”. Converse com alguns dessas épocas (astrológica, tradicionalista etc.), e depois faça o seu julgamento.

OC chegou a dizer que escrevia na primeira pessoa do plural, o eu majestático, justamente porque se tratava de trabalhos impessoais, com os quais não teria, de fato, nenhuma relação existencial. Isso não me parece nada com “assumir os erros”.

Mas a coisa vem de antes, meu caro. Dizem que ele nunca foi jornalista, como sempre afirmava. Não teria passado de um copidesque.

Você leu seus livros de transição (da fase esotérica para a anticomunista), especialmente O jardim das aflições? Eu tenho a curiosidade de saber como aparecem os EUA nas outras edições, depois da primeira, desse livro. Acho improvável que ele mantenha sua posição original. Naquela época, os EUA ainda eram para ele o suprassumo da decadência, da era moderna, de ferro, kali-yuga. Agora, são o bastião da liberdade e da defesa dos direitos do indivíduo. Uau!

Eu mesmo me deixei influenciar pelo discurso anticomunista do OC e de outros autores, como o Rei Azedo, digo, Reinaldo Azevedo. Aos poucos, fui me informando melhor, interpretando mais critica e autonomamente a “realidade” e, assim, libertei-me dessa dialética diabólica entre esquerdismo e direitismo.

Em vez de ler apenas as citações feitas pelo OC, leia os originais. Leia Marx, p.ex. É inegável que Marx foi um grande economista (isso ninguém nega!), e também um humanista. Os ataques ad hominem do OC são esperneios doentios que nada têm de filosóficos. (Você sabe que eu não sou materialista, marxista, ateu etc.)

Eu era um almofadinha antilulista. Agora, embora não feche os olhos para as faltas e equívocos do seu governo, reconheço os avanços sociais efetuados por Lula. Queria ver o OC ir falar mal do Lula no sertão nordestino! Lá e em muitos outros lugares do Brasil, Lula é um deus. Pessoas que passavam fome, agora têm o que comer e um dinheirinho pra comprar mais alguma coisa. Nenhum outro governante fez coisa parecida. E olha que é o mínimo! Não sei como é que um cristão possa ver com maus olhos esse tipo de política social. (E eu não sou petista nem lulista nem esquerdista!)

Quanto ao cenário acadêmico, você não está totalmente errado, mas vá com mais cuidado… O que quase não se encontra são fascistas como OC, aquela direita raivosa, anticomunista, americanista, sionista etc. Isso, de fato, é coisa rara. Mas há muita gente de direita, sim, ora. O tal do esquerdismo preponderante é muito mais uma posição humanista do que político-ideológica. As pessoas associam desenvolvimento social (eliminação da miséria, igualdade de condições, distribuição de renda, educação básica etc.) à esquerda ou à centro-esquerda (no máximo, à centro-direita). Na área das ciências sociais, encontram-se de fato mais esquerdistas militantes.

Eu tô fora disso tudo. Não sou nem de direita nem de esquerda. Quase sempre, voto nulo. Para mim, Cristo era um anarquista não violento: a César o que é de César… Cristo é o meu presidente, o meu sacerdote, o meu médico, professor etc. A política partidária pressupõe o Estado, e o Estado é intrinsecamente violento, ou seja, anticristão. Voltaremos a conversar sobre isso.

Em suma: fascismo anticomunista do OC é violento e anticristão.

Mas não serei eu a demonizá-lo. Isso seria fazer o jogo dele. “Não resistais ao mal”! Deixe que ele esperneie… e que os olavettes lambe-botas aprendam quando quebrarem a cara de um jeito ou de outro. Talvez quando ele mudar de ideia novamente?

Na PUC, pelo menos na pós-graduação em filosofia, não encontrei quase ninguém de esquerda, muito menos militante. Aliás, com todos os problemas e deficiências, uma coisa eu tenho de admitir: a maioria dos professores que tive lá ama o que faz, gosta mesmo da filosofia, de dar aula etc. Não encontrei nenhum líder carismático, e sei bem que com boas intenções se pavimenta o caminho para o inferno, mas, quer saber, não foi o pior dos mundos.

O que me desanima é esse patológico apego à história! Sim, é importante estudar os grandes filósofos mortos, a história da filosofia é até mesmo indispensável, mas isso tudo não é ainda filosofia! Quando pergunto aos alunos: e vocês, o que acham, concordam? Eles ficam atônitos! Como assim, eu, um zé ninguém, concordar ou discordar de Kant?!

A discussão entre especialistas não tem fim. Sempre vai aparecer alguém para discordar: não, não, Platão não disse nada disso, o que ele quis dizer era uma coisa bem diferente etc. Aposto como há vários autores que discordam radicalmente das interpretações do Voegelin, p.ex. (Modestamente, acho exagerada a crítica que ele faz ao tal do gnosticismo.) Então, meu caro, estou fora. Eu uso os mortos para tentar fazer algo de vivo: supondo-se que Platão pensasse mesmo X, o que se segue? O que isso tem que ver com a realidade, com a nossa realidade, o que eu, nós pensamos de X, o que fazemos dele na nossa VIDA etc.

Para finalizar, nem tudo nos “novos filósofos” é porcaria, P. O próprio Foucault, sobretudo na sua última fase, tem coisas interessantes e aproveitáveis.

Não sou ninguém para dar conselhos. Mas creio que fazemos muito bem em manter nossa mente alerta e aberta, evitando o “maniqueísmo” e toda forma de dogmatismo burro e emburrecedor.

Certamente OC tem também coisas interessantes e aproveitáveis, mas eu não tenho tempo nem saco para ficar garimpando pérolas em meio a tanto lixo ideológico.

Uma vez escrevi a OC agradecendo-lhe por um belo artiguinho de Natal, que me deixou embevecido. Mas também já lhe escrevi para dizer que ele não passava de um “imbecil individual”.

Espero que não se tenha assustado com tudo isso!

Abraço do seu ex-professor,

Edson

Velhas e aparentes

Em sua coluna (“Superar divisões“) na Folha de S.Paulo de hoje, 25-2, Vladimir Safatle começa falando das divisões internas à(s) esquerda(s). Mas termina, ao que parece, extrapolando a esquerda, ao comparar a esquerda progressista com a direita liberal.

Com efeito, Safatle acha irônico que, no Brasil, os liberais sejam contra as liberdades individuais. Diz ele:

[…] o Brasil, com suas idiossincrasias, é um país no qual os liberais são, no fundo, contra as liberdades individuais.
Por aqui, ser liberal é, via de regra, ser contra o aborto, criticar o casamento homossexual, desconfiar das discussões sobre o Estado radicalmente laico, ridicularizar o embate contra a destruição da vida privada na esteira do “combate ao terrorismo” e ser contra a legalização das drogas. Por essas ironias do destino, quem defende liberdade individual no cenário político-partidário brasileiro é a esquerda.

E eu, modestamente, acho irônico que o Safatle ache irônico essa conduta. Sim, porque, para o liberalismo, trata-se única e exclusivamente da “liberdade” econômica. O liberalismo, em geral, só defende a liberdade individual enquanto esta for compatível com a liberdade econômica, ou seja, com o livre funcionamento do mercado.

A “nova” direita brasileira mostra bem isso: seus membros são hiperliberais em termos econômicos e ultraconservadores em termos culturais, éticos e políticos. Quando se refere à liberdade individual, o liberal tem em mente a “liberdade” de escolher entre uma calça Lee e uma Levi’s, entre Coca e Pepsi, Globo e Record, Corinthians e Palmeiras, FHC ou Lula… já entendeu, não é, raro leitor?

Mas a ironia é maior ainda quando se considera que esse estado de coisas não é, de maneira alguma, uma “idiossincrasia” do Brasil, como alega Safatle. O conservadorismo dos liberais brasileiros é tão superficial e hipócrita quanto o progressismo da esquerda europeia, p.ex. Todos as liberdades mencionadas pelo professor da USP são compatíveis com a sociedade centrada no mercado, ou seja, com o capitalismo.

Não é por acaso, pois, que liberais conservadores se digam cristãos ao mesmo tempo que defendem a usura (os juros bancários brasileiros só podem ser justificados pelo risco… de morte!), e que esquerdistas progressistas defendam o aborto ao mesmo tempo que se dizem cristãos (como a dona Marta Suplicy, p.ex.).

O buraco é bem mais embaixo. Precisamos ir além dessas diferenças aparentes para encontrar a verdadeira raiz do problema. Safatle parece intuir essa necessidade quando conclui que tais

elementos do cenário nacional demonstram como há um rearranjo possível do espectro político, à condição de superar velhas dicotomias.

Superar as velhas e, embora violentas, aparentes dicotomias entre esquerda política (focada na luta de classes) e esquerda libertária (centrada na ecologia), bem como entre a esquerda e a direita.

Voltarei ao assunto, mas, na minha opinião, a superação dessas divisões não pode ser encontrada num meio termo, ou seja, no caso do conflito entre esquerda e direita, a solução não está no centro.

É isso que se chama Quarta Via: nem um nem outro nem a mistura dos dois –nem esquerda nem direita nem centro. Utopia?

Rex fallaciae

No post O que há de velho na “nova” direita [1], referi-me ao pseudo-jornalista Reinaldo Azevedo (doravante, RA). De lá para cá, notei que vários amigos do Feicebuque seguem esse senhor. Seguem-no não só no sentido da rede social, mas no sentido ideológico. O que, como professor de filosofia, preocupa-me deveras.

Para inteirar-me do que estava sendo dito, fui ler a coluna em questão (Assim não dá, Vladimir!, na Folha de S.Paulo de 21-2-14). A seguir, comento alguns trechos.

O alvo do senhor Azevedo, pois que ele sempre tem um alvo, é, desta feita, o filósofo Vladimir Safatle (doravante, VS), professor da USP. Mais especificamente, a coluna que este escreveu (Os vivos e os mortos) para o mesmo jornal em 18-2-14.

A primeira coisa que devemos perguntar é por que Safatle foi escolhido como alvo da semana? E o senhor Reinaldo não nos deixa esperando; logo na primeira linha, declara o motivo:

Vladimir Safatle, possível candidato do PSOL ao governo de São Paulo […]

Trata-se, raro leitor, não se engane, de uma autêntica declaração de guerra. RA não tem escrúpulos em dizer que, para ele, o que importa é a política, mais especificamente, o que ele chama de economia política. Chega a recriminar políticos da oposição (anteriormente ao governo do PT, da situação) por reconhecerem os acertos de políticos da situação (antes, da oposição) e de fazer alianças com estes. No seu blogue só são aceitos comentários concordantes, jamais críticas; atualmente, só oposicionistas podem postar seus comentários lá. Como ele diz: o nome dessa atitude é política.

Ocorre que de um jornalista não se espera política, mas a verdade dos fatos. Quem está disposto a esconder ou a distorcer a verdade com vistas a um fim supostamente maior, no caso, a luta político-partidária, não merece a confiança do leitor nem a do eleitor. Para não falar (desculpe o vício de linguagem) do maquiavelismo consistente em santificar os meios pelos fins.

Conheço RA desde os tempos da revista República, depois Primeira Leitura, da qual, aliás, fui assinante. Revistas bem editadas, com uma linha editorial –neoliberal– bem definida, ou seja, uma publicação acima da média. Financiada pelo banqueiro “Mendonção”, teve a publicação suspensa em 2006. Vejamos o que nos conta a Wikipedia sobre essas revistas:

Primeira Leitura era uma revista mensal brasileira de política, economia e cultura que sucedeu a antiga Revista República. Sua última edição circulou em junho de 2006.O períodico era caracterizado pelo viés assumidamente liberal de seu editor-chefe Reinaldo Azevedo e por trazer informações importantes sobre assuntos politicamente relevantes tanto no plano nacional como internacional. O períodico, além disso, pautou sua atuação jornalística por críticas contundentes ao Partido dos Trabalhadores e a Lula entre os anos de 2003 e 2006.
Em razão de ser chefiado e editado, até setembro de 2004, pelo ex-ministro das Comunicações da gestão FHC (Luiz Carlos Mendonça de Barros), o periódico era tido como sendo ligado aoPSDB e por ele controlado. Seus editores se defendiam veementemente de tal acusação, alegando terem independência editorial e alegando a transferência do controle da revista para novos proprietários, sem qualquer ligação jurídica ou econômica com a sigla.
Em março de 2006, irrompeu o chamado escândalo da Nossa Caixa, que consistiria num suposto esquema de manipulação de verbas publicitárias do Banco Nossa Caixa em favor de deputados da base aliada do governador Geraldo Alckmin.[carece de fontes] Alegou-se que a revista Primeira Leitura era uma das beneficiadas, embora isso seja negado pelo editor da publicação, Reinaldo Azevedo.[carece de fontes]O encerramento da publicação, em junho de 2006 (em razão da alegada ausência de anunciantes) foi tido como problemático por seus leitores e por segmentos conservadores e liberais do Brasil(que alegam estar o ambiente jornalístico brasileiro dominado por veículos que, implícita ou explicitamente, apóiam o Partido dos Trabalhadores e a gestão Lula).

Note, raro leitor, que mantive as ressalvas [carece de fontes]. Se fosse um pseudo-jornalista, eu daria como fonte a Veja, a Globo ou coisa parecida. Mas se trata aqui apenas de situar o leitor; tendo interesse, é fácil aprofundar a pesquisa.

Voltando à coluna, RA chama VS de mentiroso, afirmando que os políciais não mataram ninguém nos protestos citados pelo último. Começa esclarecendo o caso de Cleonice, uma gari, que teria morrido em Belém de infarto:

Varria rua quando houve um confronto entre manifestantes e a PM. Inalou alguma quantidade de gás lacrimogêneo e teve infarto depois disso, mas não por causa disso. O filósofo deve conhecer a falácia lógica já apontada pelos escolásticos: “post hoc ergo propter hoc” -“depois disso, logo por causa disso”. Nem tudo o que vem antes é causa do que vem depois. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Tudo se dá depois da chegada da loura, mas a loura é inocente, Vladimir! A notícia sobre a morte está aqui (is.gd/6QWqQM).

De vez em quando, RA arrisca-se nas águas da filosofia, tendo como recurso apenas a boia dos manuais do ensino médio. Acusa pois VS de ter incorrido em falácia, mais especificamente, na falácia da correlação coincidente. Segundo o pseudo-filósofo, a gari não teria morrido por causa do gás lacrimogênio, mas sim… por que mesmo? Ele não o diz. Limita-se a dizer que tudo não passou de uma infeliz correlação coincidente –aquilo que na linguagem coloquial chamamos simplesmente de coincidência.

Ora, quem, em tese, está mais perto da verdade, VS –que estabelece uma relação causal entre o gás lacrimogênio e o infarto da senhora Cleonica– ou RA –que simplesmente nega a causalidade, apelando, sem justificação, para a simples coincidência? O raro leitor provavelmente concordará comigo que, se tivéssemos de apostar em um dos dois, sem mais informações, o primeiro receberia a maioria das fichas. O mais lógico –e ético– seria porém concluir pela maior probabilidade da causação e não da coincidência.

Como disse, “sem mais informações”. E aí voltamos ao que disse mais acima. RA cita como fonte de informação o portal G1, ou seja, as Organizações Globo.

Wait a moment! Um jornalista não deveria recorrer a uma fonte primária em vez de a um jornal, aliás, a um grande jornal, reconhecidamente comprometido com a oposição? Mas, ainda assim, parece que RA não leu a sua “fonte”… Uma vez que nela se declara explicitamente que o secretário de saneamento do município, Luiz Otávio Mota Pereira, informou ainda que:

a morte [da senhora Cleonice] pode ter sido provocada pelo susto com o tumulto na manifestação.

O secretário, segundo o jornal, baseou-se em relatórios médicos. Ué, então, quem estabeleceu a relação causal entre a ação policial e a morte da gari não foi VS mas… os médicos! Não é incrível? E isso segundo o portal da Globo…

RA prossegue tratando dos demais casos de morte, um a um, com a mesma estratégia manipuladora –citando jornais como fonte etc.

Depois, RA volta o seu arsenal para outro ponto do artigo de VS. Cito a passagem (da coluna de VS) em questão:

não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha ‘lei de antiterrorismo’ no Brasil. Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram ‘acidentais’ […]. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido […]

Fuzila, então, RA:

“Não consta que tiveram” é um coquetel molotov na língua pátria. Isso é com ele. A morte de Andrade não foi um acidente. O destino do artefato eram os policiais. Vladimir parece achar que a farda cassa dos PMs a sua condição de humanos. Indignação seletiva é a dele. Segundo acusa, estão usando a “morte infeliz de alguém” para “criminalizar a revolta da sociedade brasileira”. O PSOL e os “black blocs” não são “a sociedade brasileira”. De resto, na ordem democrática, é uma tolice afirmar que a “revolta” está sendo criminalizada. Se ela incidir em práticas puníveis pelo Código Penal, os crimes se definem pelos atos, não pelas vontades.

Um caminhão de falácias e impropriedades de várias ordens em um único parágrafo! Em primeiro lugar, a morte do cinegrafista foi sim um acidente, infeliz e trágico, mas um acidente (ou um incidente, se quiserem). O próprio RA, sem se dar conta, admite-o ao dizer que o alvo eram os policiais. Ora, se o cinegrafista não era o alvo, então, logicamente, ele foi atingido acidentalmente.

Em segundo, em parte alguma de sua coluna, VS subtraiu aos policiais a dignidade humana. Apenas postulou que a farda dos policiais estaria sendo usada pela mídia para tratar os manifestantes com menos dignidade, ou seja, como se fossem todos criminosos e –como se mesmo os criminosos não fossem seres humanos!

Em terceiro, para desgosto de RA, o PSOL e os black blocs são sim a sociedade brasileira, assim como ele, VS, eu e você, raro leitor: nós todos somos a sociedade brasileira! Mas na cabeça de RA, do astrólogo Olavo de Carvalho, dos olavetes e da “nova” direita, não, a sociedade não somos todos, mas apenas alguns. (Não é preciso dizer, creio, que a esquerda não “pensa” muito diferente disso.) Não é necessário ser filósofo nem lógico para perceber a contradição entre o discurso pretensamente democrático e essa tese elitista.

Em quarto e último lugar, os crimes se definem sim pelas vontades, a saber, pelas vontades dos juízes. As leis precisam ser aplicadas, e, para isso, elas são interpretadas –em cada caso. Basta ver o que se passa no julgamento do chamado mensalão.

Nos últimos dois parágrafos de sua catastrófica coluna, RA perde-se totalmente:

Sim, eu sei: malho em ferro frio ao cobrar que esquerdistas façam um debate ao menos factualmente honesto. Eu nunca me esqueço de um emblema desse modo que eles têm de argumentar. Até havia pouco, em defesa da legalização do aborto no Brasil, sustentavam que 200 mil mulheres morriam a cada ano vítimas de tal procedimento. Em fevereiro de 2012, a ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, levou tais números mentirosos à ONU (is.gd/qHYt5S). Um dia me enchi e peguei os dados do Ministério da Saúde sobre mortes de mulheres e suas causas e fiz as contas. Os abortistas haviam multiplicado por 200 o numero de óbitos em decorrência do aborto (is.gd/6Iu4EJ).

Começa com outra falácia, desta vez, ad hominem, afirmando que, por serem de esquerda, certas pessoas são intelectualmente incapazes e desonestas. Incrível.

Em seguida, recorre não à lógica mas à matemática (dos manuais do ensino fundamental), para refutar a tese segundo a qual 200 mil mulheres morreriam anualmente, no Brasil, em consequência da prática ilegal do aborto. E sabe qual é a fonte do nosso Oswald de Souza? O Ministério da Saúde! Mas como é que esse ministério, ou qualquer outro, poderia saber quantas mulheres morrem de tal procedimento? Se é ilegal, quem é que se sujeitaria a confessar o real motivo da morte? Mutatis mutandis, dá-se como nos casos de estrupo, que com certeza devem ocorrer em número bem maior do que o oficial.

Mas o pior nem é isso. O pior é que RA canta vitória concluindo que as mortes em decorrência de aborto não passariam de mil. Acho que o raro leitor concordará comigo que uma morte por aborto ilegal já seria demais, não? Mas mil?!

Não estou aqui discutindo o mérito dessa –espinhosa– questão bioética, mas apenas mostrando o absurdo da argumentação reinaldiana.

Por fim, RA conclui com uma piada:

A mentira é mais útil às causas das esquerdas do que a verdade. Não fosse assim, homicidas como Lênin, Stálin, Trótski ou Mao Tse-tung não seriam cultuados ainda hoje. Isso tudo é um pouco constrangedor, mas, como escreve Janio de Freitas, continuarei tentando.

Depois da Guerra do Iraque, aquela que foi perpetrada sob a mentirosa alegação de que Saddam Hussein possuía um enorme arsenal de armas de destruição em massa, e depois das revelações do Snowden, isso só pode ser mesmo uma piada.

Vou recomendá-la ao Zé Simão!

Violência e ideologia

Gostaria de chamar a atenção do raro leitor para as colunas do filósofo e jornalista Hélio Schwartsman na Folha de S.Paulo. Usei o plural porque ele escreve (colunas, artigos e, provavelmente, até editoriais) para esse jornal quase todos os dias da semana, salvo engano, menos segundas e quintas. Além disso, mantém uma coluna semanal, às quintas (temporariamente suspensa), no site da Folha.

Os textos do Hélio destoam do restante da Folha e das publicações jornalísticas em geral. Embora curtos, podem ser caracterizados como artigos de fundo, nos quais informação de qualidade vem acompanhada por análise cuidada. Somos informados sobre diferentes áreas do conhecimento, das neurociências à filosofia da mente, passando pelo direito e pela medicina, p.ex. Mas sempre de um modo prático, ou melhor, “aplicado” a casos concretos do cotidiano –da política, da economia etc.

Não concordo com mais da metade do que o Hélio diz, mas acho tudo muito estimulante. Ele tende a supervalorizar a ciência, e, naturalmente, tem mais afinidade com a chamada filosofia analítica. Na minha opinião, não consegue escapar do cientificismo nem do relativismo –o que representa um grande problema. Mas, enfim, vamos ao que interessa.

Na sua coluna de 16-2, “Especulação precoce“, Hélio Schwartsman tece considerações sobre a polêmica em torno da “justiça pelas próprias mãos” por parte de cidadãos brasileiros, como no caso do garoto que foi amarrado a um poste no Rio (já houve outro caso). Começa observando tratar-se de uma disputa ideológica. E, para caracterizar esse tipo de contenda, dispara uma frase certeira:

… as pessoas já sacam suas respostas antes mesmo de formularmos uma pergunta.

Em seguida, o nosso colunista caracteriza também as duas posições-padrão dos políticos em relação à criminalidade:

Para a esquerda, condições socioeconômicas como pobreza, desemprego, desigualdade e educação são os principais fatores a explicar a criminalidade. Já para a direita, delinquência se resolve é com polícia.

É uma caracterização esquemática, mas igualmente correta. No parágrafo seguinte, então, o Hélio avança um argumento típico dele, nessa sua nova fase “cientificista” a que me referi acima:

Precisamos nos conformar que o cérebro abusa mesmo dos automatismos heurísticos. O problema surge quando se considera que muitas questões relativas à criminalidade têm respostas empíricas estabelecidas, mas nossas convicções políticas fazem com que não as enxerguemos.

Com automatismos heurísticos, o filósofo-jornalista quer significar aqueles hábitos, quase instintivos, que nossa espécie foi desenvolvendo ao longo de milhares de anos de evolução, relativos a estratégias de solução de problemas (de sobrevivência). Isso quer dizer, então, que, em nossas posições políticas, nós tendemos a nos deixar enganar por esquemas evolucionários inconscientes. A ponto de ter nossa visão obnubilada para os dados empíricos disponíveis.

(Na minha opinião, esse tipo de argumento “evolucionista” é no mínimo problemático, pois, embora não seja científico, deixa de fora o próprio sujeito do conhecimento pretensamente científico: por que essa tese valeria para os políticos mas não para os cientistas? Que mágica permitiria a estes últimos escapar do autoengano evolucionário?)

Nosso autor aponta, em seguida, os respectivos pontos fracos das duas posições-padrão. Para desgosto da esquerda,

é fraco o elo entre economia e violência, como mostra Steven Pinker em “Melhores Anjos”. Dados de EUA, Canadá e Europa Ocidental revelam que melhoras econômicas quase não têm efeito sobre as taxas de homicídios. Há, isto sim, uma correlação bem modesta entre os índices desemprego e os crimes contra o patrimônio.

(Uma candidata melhor do que a pobreza seria a desigualdade social.) Mas a solução da direita

também traz problemas. É claro que, em algum nível, melhorar o policiamento reduz crimes. Mas isso só funciona até certo ponto. Se você o excede, desperdiça dinheiro público e estraga inutilmente a vida de um monte de gente.

Enfim, segundo Hélio Schwartsman, a dura realidade dos fatos, da empiria, refutaria nossas intuições mais primitivas acerca das causas da criminalidade bem como as posições ideológicas nelas direta ou indiretamente fundadas.

Voltarei ao assunto –de que, aliás, já tratei– em outros posts. Aqui apenas pretendi apresentar ao raro leitor um trabalho jornalístico diferenciado.