“Acabou a baderna”

Da crônica homônima na Folha de hoje, 17-2, do jovem humorista e poeta Gregorio Duvivier:

A legislação vai mudar, graças a Deus (e à Dilma). Não vamos mais tolerar baderna. A ex-guerrilheira, quem diria, vai baixar o AI-5. O Brasil finalmente está virando um país sério: bandido preso no poste, Polícia Militar ameaçando Porta dos Fundos, leis antiterrorismo. O caminho se abriu. Este é o ano em que Bolsonaro vai assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos. Chegou o momento, Capitão! Em abril, nossa revolução faz 50 anos.

Estragar uma piada é fácil, basta explicá-la. Mas, como outra coluna do autor já “causou” (confusão), é melhor mesmo explicar que se trata de ironia. Vale lembrar o que se passou.

Na sua coluna na Folha de 2-12-13, intitulada “Partido novo do Estado mínimo“, Duvivier assume –ironicamente– o papel de representante da “nova” direita e do partido Novo, fundado por seus membros, e defende –cinicamente– as teses básicas dessa corrente política. Começa assim:

A gente não é a nova direita, até porque a gente não acredita nessa coisa de esquerda e direita. As pessoas dizem isso só porque a gente defende o Estado mínimo. É claro que a gente defende: tudo o que é privado funciona. Tudo o que é público é uma droga.

E, de fato, o leitor menos atento levou o humorista a sério… A crônica fora motivada justamente por polêmica entre Duvivier e integrantes da “nova” direita; e a polêmica só fez aumentar depois dela. Talvez o melhor trecho seja o último parágrafo, que transcrevo –e, por favor, não explico:

Bom mesmo era entregar o país nas mãos de um puta empresário. Tipo o Eike. Ou o presidente da Gol. Esse daí é um gênio. “Acabou essa festa de todo mundo ganhar barrinha de cereal. Agora você tem que pagar por ela. E caro.” É disso que o Brasil precisa: de um bom CEO, com MBA no exterior, que manje de marketing, “people management” e Excel. Vou ligar para o Eike. Vai que ele topa. Acho que hoje em dia ele topa.

Não gosto do Porta dos Fundos, acho-o, em geral, muito escrachado, para dizer pouco. E o Gregorio Duvivier não parece ser um ator talentoso. Dizem que ele um bom poeta. Sinceramente, não parece. Tem imaginação, mas ainda lhe falta o domínio da escrita. E da gramática.

Para concluir, observo que, na coluna mais antiga, o cronista critica a direita, e, na mais recente, a esquerda, ou melhor, o partido-no-poder, que, pelo menos para a direita, nova ou velha, continua sendo de esquerda. Isso dá o que pensar: voltarei ao tema.

Antes do problema

No post Drops de filosofia 4, mais abaixo, tratei esquematicamente do trabalho acadêmico de filosofia. Segundo o esquema, o trabalho já começa com a (ex)posição do problema. Mas, na realidade, há uma etapa ainda anterior.

Pense, raro leitor, num trabalho como o TCC (trabalho monográfico de conclusão de curso). Como começar?

Você precisa antes de tudo escolher um tema. Tem de ser algo de que goste, pelo qual se interesse de verdade. Depois, você precisa problematizar esse tema, ou seja, formular uma pergunta relevante sobre ele. Em seguida, vem o levantamento de bibliografia, a leitura e a escrita.

De que temas filosóficos você gosta mais?

Comece do mais geral; por exemplo, gosta mais de filosofia teórica ou de filosofia prática? Ou talvez goste mais de história da filosofia; nesse caso, de que época? Etc.

Sente-se confortavelmente e solte a imaginação –e a mão: escreva tudo que lhe vier à mente (brainstorming). Aos poucos, as coisas vão se organizando.

Siga, então, o esquema indicado.

Drops de filosofia [4]

A estrutura básica de um trabalho acadêmico de filosofiadeve articular-se em quatro momentos ou partes:
  1. Apresentação: apresentação do problema e da hipótese, bem como do método de trabalho;
  2. Introdução histórica: história do problema até a situação atual (status quaestionis);
  3. Desenvolvimento sistemático: defesa argumentativa (demonstração) da hipótese, à mão de contra-argumentos e contraexemplos, e
  4. Conclusão: recapitulação e ratificação da hipótese inicial, agora ao modo de tese.
§  Estrutura do trabalho científico
o   Apresentação
§  O problema
·         Motivação
§  A hipótese
§  O método
o   Introdução
§  Consideração histórico-filosófica
·         História do problema
o   Status quaestionis
o   Desenvolvimento
§  Consideração sistemático-filosófica
·         Argumentação
o   Contra-argumentos
o   Contraexemplos
o   Conclusão
§  Recapitulação
§  A tese