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ERASMO DE ROTTERDAM, Desidério [1466-1536]. Sobre o livre-arbítrio [1524]

[1] Atenhamo-nos à solução intermediária: existem, sim, obras boas, mesmo que imperfeitas, e das quais o homem pode valer-se sem fazer delas motivo para ensoberbecer-se; existe, sim, algum merecimento, mas é preciso reconhecer que, se foi conquistado, isso se deve a Deus. Quem sabe fazer um exame de consciência terá de abdicar de qualquer pretensão de arrogância ao dar-se conta do quanto a vida humana está cheia de fraquezas, vícios e delitos, mas não iremos tão longe a ponto de dizer que o homem, mesmo se justificado, não é mais que um cúmulo de pecados, quando o próprio Cristo nos fala de um novo nascimento e Paulo, de uma nova criatura.

[2] Mas por que conceder um espaço ao livre-arbítrio? Para ter algo a imputar justamente aos ímpios que voluntariamente se desviaram, escondendo-se da graça divina, para afastar de Deus qualquer acusação caluniosa de crueldade ou injustiça, para afastar de nós o desespero ou a presunção, para impulsionar-nos em direção ao empenho.

[3] Essas são as razões que levaram quase todos os autores a admitir o livre-arbítrio; mas o livre-arbítrio continuaria ineficaz sem a contínua ajuda da graça de Deus, que é exatamente o que nos impede qualquer forma de orgulho.

[4] Mas ainda se poderá dizer: para que serve o livre-arbítrio, se ele nada pode fazer sozinho? Responderei: para que serviria o homem, se Deus fizesse com ele como faz o oleiro com a argila, ou se Deus procedesse com ele da mesma forma que procede com uma pedrinha?

erasmo 1

ERASMO DE ROTTERDAM, Desidério [1466-1536]. Elogio da loucura [1509]

[1] O que quer que os mortais geralmente digam de mim, e não ignoro quanta má fama tem a loucura entre os mais loucos, todavia, eu digo, eu sozinho acalmo com a minha influência homens e deuses. E a prova mais convincente é que logo que aqui cheguei, diante dessa numerosa assembléia, todos os rostos imediatamente se iluminaram de nova e insólita alegria, e logo as vossas frontes se desanuviaram, aplaudindo com um sorriso de tão encantadora alegria, que todos os presentes que aqui contemplo me parecem bêbados como os deuses de Homero… quando antes estáveis sentados, tristes e preocupados, como se tivésseis saído há pouco do antro de Trofônio [filho de Apolo].

[2] E como acontece quando o Sol mostra à Terra o seu belo rosto dourado, ou como depois de um duro inverno, de novo, na primavera, o zéfiro sopra a sua suave carícia, num átimo tudo muda de aspecto e assume nova cor, e como uma nova juventude renasce; do mesmo modo vós, ao ver-me, ganhastes imediatamente outro aspecto. O que grandes oradores podem a custo conseguir, com longos discursos longamente meditados, eu obtive num instante, somente com a minha presença: mandastes embora o tormento das preocupações…

[3] O próprio Cristo, que é a sabedoria do Pai, de certa maneira se fez estulto ele mesmo para vir em socorro à loucura humana, quando, assumindo a natureza humana, apresentou-se como homem; do mesmo modo que se fez pecado, para nos redimir do pecado.

[4] E não quis nos redimir senão com a loucura da cruz, valendo-se de apóstolos idiotas e obtusos aos quais deliberadamente prescreveu a insipiência, afastando-os da sabedoria, chamando-os a seguir o exemplo das crianças, dos lírios, da mostarda e dos passarinhos (todas elas, coisas estúpidas e desprovidas de inteligência, que vivem somente graças à orientação da natureza, sem artifícios, sem ansiedade)…

[5] Mas, para não prosseguir ao infinito e para oferecer-vos a essência da coisa, na minha opinião toda religião cristã tem uma espécie de parentesco com a loucura e absolutamente não se dá bem com a sabedoria. Quereis provas? Observai, em primeiro lugar, como aqueles que mais encontram prazer nas funções sagradas e em todas as coisas da religião, que se acostam sempre aos altares, são jovens, velhos, mulheres, ignorantes. E a mãe natureza que os impele a isso, é sabido; e nada mais.

[6] Em segundo lugar, vede todos aqueles primeiros fundadores da religião; eles abraçavam uma vida de extraordinária simplicidade e eram inimigos irreconciliáveis da cultura.

[7] Finalmente, não existem loucos mais desvairados do que aqueles que alguma vez se deixaram tomar pelo ardor da piedade cristã: dissipando os seus bens, sem se preocupar com as ofensas, deixando-se enganar, não distinguindo amigos de inimigos, tendo horror ao prazer, alimentando-se de jejuns, vigílias, lágrimas, labutas e injúrias, desinteressados da vida, não ansiando senão a morte; resumindo, tomando-se, parece, absolutamente insensíveis ao senso comum, como se o seu espírito estivesse noutro lugar, e não dentro do corpo. E o que é isso senão loucura? Não é de surpreender que os apóstolos parecessem bêbados de vinho doce, ou que São Paulo tenha parecido louco ao juiz Festo [Porcio Festo]…

[8] Mas, como já vesti a pele do leão, vamos em frente, mostremos também que toda a sonhada felicidade dos Cristãos, aquela felicidade a que aspiram com tanto sofrimento, não é mais, perdoai-me a palavra e considerai somente a coisa em si, que uma espécie de loucura e desvario. Em primeiro lugar, Cristãos e Platônicos estão quase de acordo que a alma humana está imersa no corpo, e a este ligada por uma cadeia, a rusticidade do corpo impedindo-lhe de contemplar o real e de usufruir dele. É por isso que Platão define a filosofia como contemplação da morte, como aquela que afasta a mente das coisas visíveis e corpóreas, exatamente como faz a morte.

[9] Portanto, enquanto a alma utiliza retamente os órgãos corporais é considerada sã; mas quando, rompidos os vínculos, tenta afirmar-se em plena liberdade, pensando quase em fugir daquele cárcere, então chamam a isso insanidade, loucura. Se isso ocorre por doença ou por defeito orgânico, então é por todos considerada loucura verdadeira.

[10] Todavia, vemos que homens dessa espécie também predizem o futuro, sabem línguas e ciências nunca aprendidas anteriormente; enfim, mostram possuir em si algo de divino. Não há dúvida de que isso se dá porque a mente, um pouco mais livre do contato com o corpo, começa a revelar a sua força natural. Creio que é pelo mesmo motivo que algo semelhante costuma acontecer àquele que, aflito na agonia da morte, fala, como que inspirado, de coisas prodigiosas.

[11] Se, no entanto, isso se manifesta pelo ardor religioso, talvez não se trate do mesmo gênero de loucura, mas de outro, tão próximo do precedente que grande parte dos homens julga nada mais, nada menos, que loucura, especialmente quando o modo de vida de um punhado de desgraçados diverge totalmente do resto do gênero humano.

[12] A esses, portanto, pode suceder na realidade aquilo que, segundo a fantasia de Platão, acontecia aos prisioneiros da caverna (os quais viam somente as sombras das coisas) e àquele fugitivo que, ao retomar à caverna, anunciou aos companheiros ter visto as coisas na sua realidade e que eles se enganavam redondamente acreditando que nada mais existisse além daquelas pobres sombras. Já ciente, ele efetivamente lamenta e deplora a loucura dos outros, por estarem tomados por tamanha ilusão; os outros por sua vez riem dele como de um louco que desatina e o expulsam dali.

[13] Do mesmo modo, a multidão: quanto mais corpóreas são as coisas, tanto mais arregala os olhos, acreditando que nada além possa existir; ao passo que os espíritos religiosos tanto mais as negligenciam quanto mais próximas do corpo estiverem, para se deixar arrebatar completamente na contemplação das coisas invisíveis.

[14] Os homens do mundo, portanto, colocam em primeiro lugar as riquezas e logo a seguir as comodidades corporais; deixam em último lugar a alma, em cuja existência, aliás, a maioria nem mesmo acredita, uma vez que não pode ser vista com os olhos. Ao contrário, as pessoas piedosas voltam-se, em primeiro lugar, com todas as suas forças, para Deus, que é o mais simples dos seres, e, secundariamente, cuidam do que mais se aproxima de Deus, ou seja, a alma; assim, negligenciam o corpo e de coração desprezam o dinheiro, fugindo dele por ser imundo. Ou, se forem obrigadas a tratar de alguma coisa do mesmo tipo, fazem-no de má vontade e com desdém: têm e é como se não tivessem, possuem e é como se não possuíssem.

[15] Existe entre essas duas categorias de homens, mesmo nos detalhes, uma considerável diferença, uma gradação. Para começar, apesar das várias faculdades humanas terem todas um vínculo com o corpo, existem algumas mais materiais, como o tato, a audição, a visão, o olfato, o paladar, e outras mais afastadas, como a memória, a inteligência, a vontade. E a alma, quando se empenha, floresce.

[16] Nos homens religiosos, posto que todo o seu empenho está voltado àquilo que mais se afasta das faculdades materiais, estas se enfraquecem, embotam-se. As pessoas comuns, ao contrário, são extraordinariamente vivas, ao passo que as outras, aquelas espirituais, têm pouco ou nenhum desenvolvimento. Daí resulta o que se diz de alguns santos, de terem bebido óleo em lugar de vinho.

[17] E também no campo das paixões existem aquelas que têm maior conexão com a materialidade do corpo: o amor carnal, a gula, a ira, a soberba e a inveja. Contra essas, as pessoas piedosas travam uma guerra sem quartel, enquanto o povo, ao contrário, acha que sem as mesmas a vida não é vida.

[18] Existem ainda sentimentos intermediários e quase naturais, como o amor à pátria, o afeto pelos filhos, pelos pais, pelos amigos, aos quais o povo confere considerável importância. Mas mesmo estes sentimentos os outros estudam arrancar-lhes do coração, a não ser quando alcançam aquela parte mais elevada da alma; de modo que não amam o pai enquanto pai (de fato, o que este gerou senão o corpo?, se bem que mesmo este se deva a Deus, que é o genitor de tudo), mas enquanto homem bom, no qual resplandece a imagem daquela inteligência suprema, que chamam de único sumo bem, e fora do qual, como eles sustentam, não existe nada que mereça ser amado ou desejado.

[19] Dentro desse mesmo critério se avaliam todas as outras competências da vida, de modo que o que é visível, se não deve ser totalmente desprezado, deve ser levado em muito menor conta do que as coisas que não se podem ver.

[20] Afirmam ainda que mesmo nos sacramentos e nas próprias práticas piedosas existe espírito e existe corpo. No jejum, por exemplo, para eles não é muito importante se alguém se abstém das carnes e das refeições (o que significa jejum para o povo), mas que ao mesmo tempo modere também as suas paixões, deixe-se levar menos que de costume pela ira, assim como pela soberba, para que o espírito, já aliviado do peso do corpo, se eleve para usufruir com alegria dos bens celestes.

[21] O mesmo pode-se dizer da eucaristia; mesmo que não se deva desprezar a exterioridade do rito, este é de pouca utilidade, aliás, é perigoso, se não for acrescido do elemento espiritual, vale dizer, daquilo que está sendo representado por meio daqueles sinais visíveis. O que está sendo representado é a morte de Jesus, que deve ser imitada pelos homens, eliminando e quase sepultando as paixões do corpo, e assim ressurgir para uma nova vida e, em comunhão com todos, fazer-se um só com Ele. Esta é a ação, este é o pensamento de quem é piedoso.

[22] O povo, ao contrário, ilude-se que o sacrifício consiste apenas em se aproximar dos altares e escutar o rumor das vozes, desviando os olhos para outras cerimônias a ele atinentes. O homem religioso, no entanto, durante toda a vida, e não somente nessas circunstâncias por mim apresentadas como exemplo, foge de tudo o que se relaciona com o corpo, para deixar-se arrebatar pelo eterno, o invisível, o espiritual. E assim, dado que entre essas duas espécies de homens é grande o desacordo sob todos os aspectos, resulta que uns pareçam loucos aos outros. Mas essa palavra se aplica melhor aos homens religiosos que à gente comum, segundo o meu modo de ver.