Realidade Diamantina

diamante-centenary
Sexto maior  diamante do mundo, Centenary tem 278 quilates e 247 facetas

A realidade é como um magnífico diamante de infinitas facetas.

As visões de mundo, filosofias, ideologias, isto é, os ismos em geral, são como pontos de vista mais ou menos abrangentes do diamante. Alguns mal percebem uma única faceta, enquanto outros dão conta de várias.

Nenhum, porém, abrange todo o diamante.

Cada perspectiva considera o respectivo aspecto de um modo particular. Algumas, por exemplo, deixam-se fascinar por seu brilho, outras nem sequer o percebem.

São graves as consequências decorrentes do conflito das interpretações: da guerra à paz; da civilização à barbárie; do amor ao ódio; da pobreza à ostentação; da humildade à arrogância; da democracia à tirania.

E, no entanto, que seria do diamante sem os pontos de vista, perspectivas e interpretações?

O burro

No mesmo dia e espírito da mensagem anterior sobre a ignorância, acrescentei:

C.,
Hehehe… essa foi boa! Mas não é nada disso. Dê uma
espiada, por exemplo, em
http://www.forum-grenzfragen.de/grenzfragen/open/Kirchenamt/Fuerst/frame.htm
e
http://www.sicetnon.cogito.de/artikel/historie/nichtwissen.htm
O burro, aliás, é o símbolo do filósofo. E a
filosofia, você sabe, começa com o espanto, a
perplexidade, a… ignorância: o saber do não-saber!
Abraço,
gil

Ignorância aplicada

A Internet é mesmo um instrumento fascinante… serve até, como que contra a nossa vontade, para nos lembrar de coisas que escrevemos há anos! Estava eu “pesquisando” uma expressão e me deparei com a seguinte mensagem de minha autoria (em 29-6-2004):

C.,
Não se faça de vítima, por favor…
Sabe, acho que já sei o que devo fazer, a qual organização me devo juntar. Aliás, vou fundar uma. Vai chamar-se Ignoramus Et Ignorabimus ([ignoramos e ignoraremos] primeiro tenho de verificar se o latim está certo) — Instituto para a Ignorância Aplicada. Ignorância mesmo, porque Não Saber é meio afetado…
Seu objetivo será investigar e identificar tudo quanto é Besserwisser [sabichão, sabe-tudo] deste país. E mostrar o quanto eles também, no mais das vezes, apenas aplicam a própria ignorância.
Será uma organização político-filosófica anti-escolas, anti-ismos.
Aguarde!
gil

Fiquei até com vontade de mudar o nome deste blogue, que é provisório mesmo, e de criar um grupo de estudos…

O mundo dos filósofos

O Drops de filosofia n. 5, que trata de idealismo e realismo, fez-me lembrar de um congresso internacional de filosofia, ocorrido anos atrás numa tradicional universidade de S.Paulo. Se não me falha a memória, o tema geral da conferência da professora M. era o pragmatismo. Lá pelas tantas, ela avançou um argumento sui generis contra o idealismo. Segundo a renomada conferencista, bastaria que se tentasse sair da sala sem antes abrir a porta para se constatar a falsidade dessa posição epistemológica. Um nariz quebrado como argumento filosófico.

Não foi a primeira nem a última vez que deparei com esse tipo de “argumento” pragmático. Coloquei a palavra argumento entre aspas porque, a meu ver, uma teoria só pode ser refutada por outra teoria e não pela realidade. Mesmo pela doída realidade de um nariz quebrado. O que poderia refutar a tese idealista de um sujeito constituinte é a tese realista oposta da determinação objetiva do conhecimento.

Nesse sentido, para que pudesse funcionar como um contra-argumento, um fato como o do nariz quebrado precisaria ser interpretado como a aplicação de uma lei ou regra geral, ou seja, precisaria ser subsumido em uma teoria, no caso, no realismo.

A teoria epistemológica segundo a qual o objeto independe totalmente do sujeito e se impõe a este tal como é em si mesmo chama-se realismo ingênuo. A ingenuidade em questão não tem necessariamente um sentido pejorativo. Ela implica, antes, a crença na veracidade do senso comum, ou, por outra, na certeza sensível.

Mas o “argumento” do nariz quebrado é ingênuo ainda noutro sentido, mais geral, uma vez que revela certa ingenuidade filosófica. Isso porque pressupõe que os fatos da vida poderiam, por si mesmos, fazer com que os filósofos abandonassem ou assumissem determinada posição teórica. Assim, por exemplo, para ser coerente, Descartes deveria abandonar o seu ceticismo em relação ao mundo material, uma vez que, enquanto meditava, ele se confortava com o calor da estufa e se deliciava com o sabor da maçã.

Grande ingenuidade! As teorias filosóficas não alteram em nada a realidade, mas apenas a explicam de modos diferentes. Deixemos de lado Descartes, porque ele jamais duvidou de fato da realidade exterior; o seu ceticismo era explicitamente metódico. Tomemos o exemplo do empirista Berkeley, que este sim negava a substancialidade da matéria. Segundo ele, só há uma substância: o espírito, a consciência ou a mente –do criador e da criatura. Toda a realidade é constituída, pois, de fatos mentais.

Ora, como é que esse imaterialismo pode conciliar-se com o empirismo, ou seja, com a tese segundo a qual todo conhecimento provém da experiência sensível? É simples. O raro leitor deve ter notado que eu falei, ao referir-me ao imaterialismo berkeliano, de negação da substacialidade da matéria e não da realidade da matéria. Berkeley jamais duvidou da realidade do mundo, mas apenas a interpretou de um modo diferente (não realista).

O mundo dos filósofos é o mesmíssimo mundo do senso comum, do realista ingênuo. Quando acorda, o filósofo encontra o mundo pronto, com tudo no lugar, funcionando perfeitamente, inclusive o despertador que ele precisa desligar antes que acorde os outros. Só que ele interpreta esses fatos de uma maneira muitas vezes incomum ou mesmo antinatural.

Se fosse possível refutar teorias, argumentos e teses filosóficas com o simples recurso à dura realidade de uma porta ou parede, com certeza a filosofia não teria subsistido tanto tempo; já teria sido superada pelas ciências positivas.

Mas o argumento realista ingênuo do nariz quebrado tem ainda outros problemas, aos quais voltarei em breve.

E você, raro leitor, o que pensa disso tudo?

Ciência e filosofia

No post Violência e ideologia, de hoje, afirmei, entre parênteses, que o argumento

“evolucionista” é no mínimo problemático, pois, embora não seja científico, deixa de fora o próprio sujeito do conhecimento pretensamente científico …

Gostaria de esclarecer um pouco essa minha afirmação, embora pretenda voltar ao assunto mais tarde.

O que está em questão é a diferença entre a filosofia e a ciência, ou melhor, as ciências ditas positivas. Essa diferença vem sendo cada vez mais esquecida e encoberta pela filosofia acadêmica dominante mundo afora. Isso se deve à influência cada vez mais forte, determinante mesmo, que as ciências duras e as novas disciplinas científicas, como as neurociências, vêm exercendo sobre a filosofia, ou melhor, sobre os professores de filosofia.

Essa situação não deixa de ser curiosa. Veja, raro leitor: o pai da filosofia e do racionalismo modernos, Descartes, aquele pensador que ambicionava criar e estabelecer uma scientia filosófica abrangente, com as raízes fincadas na metafísica, elevando-se através da física e alcançando todas as demais ciências pelos ramos da mecânica, da medicina e da moral, esse mesmo pensador jamais confundiu a reflexão propriamente filosófica com o conhecimento científico da natureza.

Mas, hoje, é comum entre os professores de filosofia (penso em escala internacional) a concepção segundo a qual o desenvolvimento da ciência tende a eliminar a filosofia. Nesse sentido, um problema só seria “filosófico” enquanto não encontrasse uma solução científica. A filosofia não passaria, por conseguinte, de uma espécie de fonte de problemas ou de “programas de pesquisa” para os verdadeiros pensadores, os cientistas.

Bom, vou deixar essa tese a meu ver esdrúxula de lado e voltar à questão da diferença entre filosofia e ciência.

Toda ciência possui um objeto próprio, e, mais importante, é determinada por este. A física não tem o mesmo objeto que a biologia. A física aplicada à biologia não é biologia, mas justamente física aplicada. Ocorre que a determinação objetiva da ciência implica a exclusão do sujeito. No fazer científico, o sujeito, ou seja, o cientista, esquece-se de si mesmo. Noutras palavras, o sujeito da ciência extroverte-se no objeto.

Heidegger, quando trata dessa questão, faz afirmações polêmicas como a de que a ciência não pensa. Ele quer dizer que a ciência não pensa… filosoficamente, ou seja, não re-flete, mas apenas se “flete” para fora, para o objeto. Esse fletir-se adiante se chama tradicionalmente intentio recta. Além disso, o pensador da Floresta Negra quer dizer que a ciência não pensa… o ser, mas apenas o ente, a coisa. (É o que Heidegger chama de esquecimento do ser ou esquecimento da diferença ontológica entre ser e ente.) E, por fim, quer ele dizer também que a ciência não pensa… o nada, uma vez que pressupõe o ente sem se fazer a pergunta decisiva: mas, afinal, por que o ser e não antes o nada?

Uma objeção que comumente se levanta contra esse tipo de concepção é que há ciências que não só não se esquecem do sujeito como o têm por objeto, como a psicologia. E que mesmo uma ciência dura como a física teria há muito identificado, com Heisenberg (Heisenbergsche Unschärferelation ou Unbestimmtheitsrelation: al., Relação imprecisa ou de indeterminação de Heisenberg, mais conhecida como princípio da incerteza) o problema da interferência do sujeito sobre o objeto.

Esses contra-argumentos, infelizmente, não colhem. Quando estuda o homem, o psicólogo toma-o como objeto e não como sujeito. É como se ele se contemplasse num espelho. O sujeito contemplado não contempla, ou seja, não exerce a função de sujeito, reduzindo-se à condição de objeto entre objetos, de coisa entre coisas.

Do mesmo modo, quando identifica a influência do próprio ato de investigação sobre o objeto investigado, o físico quântico não está refletindo sobre o seu papel como sujeito epistemológico, mas apenas como sujeito empírico. Trata-se da interferência física da luz projetada pelo microscópio sobre o movimento e a posição das partículas subatômicas.

Obviamente, não há nada que impeça tanto o psicólogo quanto o físico de pensar… filosoficamente, ou seja, de re-fletir sobre o próprio papel como sujeito no processo de investigação científica do objeto. É o que se chama tradicionalmente intentio obliqua. Mas, quando o fazem, quando pensam filosoficamente, eles não estão mais fazendo ciência e sim justamente –filosofia!

Drops de filosofia [11]

Princípio de autoridade, argumento de autoridade e falácia ad hominem
Denomina-se de princípio de autoridade àquele princípio segundo o qual certas teses devem ser aceitas de antemão, sem prévio exame, em razão de se terem originado de uma autoridade externa, p. ex., de uma autoridade técnica (engenheiro), científica (médico, especialistas em geral), religiosa (Deus, o papa, as escrituras) etc.
Chama-se, por sua vez, de argumento de autoridade ao raciocínio (argumento racional) cujas premissas consistem em teses originadas de alguma autoridade inconteste.
Do ponto de vista histórico, a princípio de autoridade teve vigência até o fim da Idade Média. A Idade Moderna caracterizou-se, em grande medida, pelo rompimento com esse princípio. O argumento de autoridade teve sempre uso e recepção controversos em filosofia. Atualmente é considerado, sem exceção, como uma falácia. 
A falácia ad hominem consiste no desvio –intencional– da atenção do conteúdo da discussão (dos argumentos) para a pessoa do interlocutor, na tentativa de desqualificá-la para o debate (p. ex., por não ser uma autoridade no assunto).
·         “Você sabe com quem está falando?”

·         “Quem é você para dizer uma coisas dessas?”

Drops de filosofia [9]

Racionalismo e empirismo
O racionalismo consiste na tese gnosiológica segundo a qual algum conhecimento se origina na razão. Essa tese foi historicamente representada, p. ex., por Descartes, segundo o qual o conhecimento certo se origina das ideias inatas (claras e distintas).

O empirismo consiste na tese gnosiológica segundo a qual todo conhecimento se origina na experiência, da empiria (dados dos sentidos) –ou seja, na tese de que nenhum conhecimento se origina na razão. Essa tese foi historicamente representada, p. ex., por Locke, segundo o qual o conhecimento se origina da sensação (mundo externo) e da reflexão (mundo interno).

Do ponto de vista filosófico-sistemático, portanto, racionalismo e empirismo constituem teses ou posições epistemológicas acerca da origem ou fonte do conhecimento.

E do ponto de vista histórico-filosófico, racionalismo e empirismo constituem as duas principais correntes da filosofia moderna.

§  Origem do conhecimento
o   Empírica ou a posteriori (posterioridade cronológica) => o   empirismo
o   Não-empírica ou a priori (prioridade lógica) => racionalismo