Karl-Otto Apel

hqdefaultSó hoje soube da morte, ocorrida no domingo, 15-5-2017, de um dos mais importantes filósofos do século XX: o alemão Karl-Otto Apel, de 95 anos.

Apel desenvolveu uma ética filosófica no seio da chamada reviravolta linguístico-pragmática da filosofia transcendental (Manfredo Araújo de Oliveira). Para ele, a linguagem, enquanto meio de toda comunicação, constitui condição ineliminável de possibilidade e validade da argumentação sensata e portadora de normas morais consensuais (comunidade ilimitada de comunicação).

Com o fim de fundar racionalmente uma ética universal –a Ética do Discurso– para o mundo contemporâneo, percorreu um longo caminho de discussão e superação com os mais tradicionais sistemas da filosofia ocidental. Esse percurso é documentado na sua obra-prima Transformação da filosofia (1973-6)*.

Claramente de orientação kantiana, Apel dialoga especialmente com a hermenêutica fenomenológica de Heidegger e Gadamer e com a semiótica de Peirce. E é justamente desse diálogo que resulta a transformação pragmático-transcendental da filosofia: a filosofia consiste na reflexão transcendental de todo pensar dialógico, e a Ética do Discurso, numa ética intersubjetiva de caráter a priori pragmático-transcendental, solidária e universal, portadora de consenso, verdade e responsabilidade.

A foto acima foi tirada durante uma entrevista concedida pelo filósofo em 2004 a Nicole Holzenthal. Esta e outras entrevistas estão disponíveis no Youtube. Uma das coisas que mais chamam a atenção é a humildade intelectual e a serenidade de Apel.

Sem dúvida, uma grande e inestimável perda para a filosofia!

Clique AQUI para assistir à mencionada entrevista.

E clicando AQUI você pode ler uma pequena entrevista concedida por Apel a Maurício Guilherme Silva Júnior quando esteve na UFMG.

O importante jornal alemão Die Zeit, ao noticiar a sua morte, refere-se a Karl-Otto Apel como “representante da Escola de Frankfurt” e considera que ele tenha influenciado a Ética do Discurso.  Isso se deve, decerto, ao trabalho desenvolvido por Apel em parceria (dialógica!) com seu amigo, outro grande filósofo, Juergen Habermas. Mas se este último pode sim ser considerado como um membro da citada Escola, o mesmo não se pode dizer sem mais de Apel, que sempre manteve uma posição de independência em relação ao neomarxismo e às demais correntes filosóficas contemporâneas.

* Tradução brasileira: Transformação da filosofia. Vol. 1: Filosofia analítica, semiótica, hermenêutica; vol. 2: O a priori da comunidade de comunicação. São Paulo: Loyola, 2000.

kyoto 10

Ativistas vestidos de pingüins fazem protesto em Bali

Posição brasileira sobre o clima é inexplicável

Diplomata argentino que arquitetou o Protocolo de Kyoto há dez anos diz que as negociações em Bali são “irracionais”

ONTEM, NO DIA EM que o Protocolo de Kyoto completou dez anos, o “pai” do acordo do clima, o diplomata argentino Raúl Estrada Oyuela, 69, manifestou pouco otimismo com o progresso das negociações em Bali rumo ao futuro do regime. Ele disse que as discussões estão “irracionais”, para em seguida complementar: “não conseguiria explicá-las à minha mulher”. Ele pediu ainda comprometimento de todos os países.

por CLAUDIO ANGELO

Em entrevista concedida à Folha -minutos antes de um bolo com os dizeres “Feliz Aniversário, Kyoto!” ser cortado-, Estrada disse que há muito a comemorar. A celebração se deve ao ganho político representado pelo tratado e aos mecanismos de mercado colocados em prática por Kyoto. Mas afirmou que a conferência de Bali pode acabar produzindo pouco mais que um calendário de reuniões. Dificilmente, afirma, um substituto de Kyoto será acordado em 2009, como quer a ONU. Diplomata de carreira, Estrada já serviu em Washington, Brasília, Santiago e Pequim. Foi o chefe do comitê que há 12 anos estabeleceu o Mandato de Berlim, instrumento que baseou o acordo de Kyoto. É considerado o principal arquiteto da negociação que resultou no tratado. Depois, foi o negociador-chefe argentino em mudança climática, até ser demitido em 2006 pelo presidente Néstor Kirchner após criticar o Ministério do Ambiente.

FOLHA – Como o sr. avalia a negociação em Bali?
RAÚL ESTRADA OYUELA – Até o final da semana passada, eu estava um pouco mais otimista. Agora a coisa complicou. Fora da União Européia, os países desenvolvidos estão renitentes quanto a cumprir os compromissos do Protocolo de Kyoto e sobretudo a renová-los com maior profundidade. Por outro lado, os países em desenvolvimento mantêm o mesmo tipo de discurso de 20 anos atrás, e que deve ser atualizado. Não é possível que a China, país que tem em seu poder a maior proporção de títulos da dívida pública americana, peça assistência financeira. Nem que, como grande exportador de produtos de altíssima tecnologia, peça assistência tecnológica. Aí você se dá conta de que os grandes países em desenvolvimento, que têm de fato um peso grande nos temas globais, não assumem responsabilidades específicas. China, Índia, Brasil, Malásia, Indonésia, Coréia do Sul, África do Sul e México têm sido chamados a todas as grandes reuniões onde se tomam decisões importantes. Isso implica uma responsabilidade que não pode ser ignorada.

FOLHA – Esses países dizem: “não negamos que temos responsabilidades, e as cumpriremos, mas…”
ESTRADA – Depois dos outros. Isso já não tem razão. É uma desculpa. Não se pode ter Índia e China dizendo que não farão o que precisam se os EUA não fizerem primeiro e os EUA dizendo que não farão se a Índia e a China não fizerem primeiro. Tem de haver um acordo onde todos se comprometam. Se quer um acordo onde todos se comprometam, o Brasil deve se comprometer.

FOLHA – E é possível que venha a acontecer? Porque a negociação agora está em dois trilhos separados, o da Convenção do Clima, que define compromissos voluntários, e o do Protocolo de Kyoto, que trata de metas obrigatórias…
ESTRADA – Isso é uma ficção. Nenhuma pessoa normal no mundo, além de nós, pervertidos que participamos disto [da negociação internacional de clima], pode entender que essas coisas estejam separadas. Porque, para as pessoas, estamos falando do mesmo assunto. Há um protocolo que está em vigor há três anos e que se começa a aplicar em 1º de janeiro do ano que vem. Esse protocolo tem disposições para o próximo período de compromisso, que pode perfeitamente estar limitado aos mesmos países que já entraram no primeiro período de compromisso, mas tem também outras disposições. Tem o artigo 9, que permite revisá-lo e ampliá-lo, e isso pode fazer com que outros países se incorporem a um compromisso efetivo, e o artigo 5, que permite ajustar os critérios pelos quais se faz a limitação de emissões. É perfeitamente possível que, no contexto do protocolo, no artigo 10, se coloque um tipo de compromisso que não tenha vinculação com um topo, porque isso é visto pelos países em desenvolvimento como um limite ao crescimento. Mas sim como uma meta de eficiência a alcançar. Uma meta de conservação de florestas nativas, por exemplo. Mas, neste momento, a conversa é: “eu não me mexo até que você faça algo” e o outro lado diz exatamente o mesmo.

FOLHA – A tendência é que conferência caminhe para isso?
ESTRADA – Até agora sim. Pode ser que, com a chegada de ministros de delegações que têm tido posições muito duras, se faça algumas concessões. É uma tática de negociação: manda-se primeiro a segunda fila para provocar situações de rigidez, depois o chefe da delegação chega e faz uma concessão. Pequena, mas como é uma concessão, é comemorada (risos).

FOLHA – E como o sr. enxerga a posição do Brasil, que insiste em deixar os dois trilhos separados?
ESTRADA – Me parece que essa posição é impossível de explicar às pessoas comuns. Eu tenho um ponto de referência: quando estou trabalhando num tema desse tipo, sinto que estou bem orientado se consigo explicá-lo bem à minha mulher. Mas se quando explico, ela diz: “Olha, isso não está direito”, é que ninguém vai entender por quê.

FOLHA – Esse procedimento, então, não lhe parece certo.
ESTRADA – Não. Pode-se até usá-lo, mas precisa estar acompanhado de uma decisão efetiva de adotar compromissos.

FOLHA – O Brasil disse que terá compromissos verificáveis…
ESTRADA – E qual será esse compromisso? Não me foi dito. Há uma quantidade enorme de medidas de mitigação que os países em desenvolvimento podem adotar sem comprometer seu crescimento. Por exemplo: eficiência energética. Muitas dessas medidas o Brasil já tem. Mas o transporte no Brasil, como na Argentina, é maciçamente rodoviário. Isso é ambientalmente irracional. Podemos produzir motores elétricos eficientes para a indústria.

FOLHA – Se o sr. desenhasse o processo de negociação, como faria?
ESTRADA – Eu juntaria as cabeças dos países mais importantes, que foi o que eu fiz em Kyoto. É preciso buscar representações válidas em cada grupo e encontrar a linha de fundo para o compromisso. Eu não vejo isso acontecer agora. O que há são reuniões muito grandes, com 80 pessoas, onde não se negocia nada, porque todo mundo só quer ser ouvido. Eu não vejo que nesta conferência haja o tipo de liderança que é preciso ter. Também não sei se é boa idéia que o “mapa do caminho” seja fixado pelo presidente da conferência, como ele vem dizendo, porque o “mapa do caminho” precisa refletir o entendimento. Neste caso, o que vamos ter não será um mapa do caminho significativo, mas um calendário do que deverá acontecer em cada etapa. Mas faz falta algo como o Mandato de Berlim: com um calendário e um conteúdo a cumprir. O Protocolo de Kyoto foi feito sob medida para os EU
A. E agora eles não gostam da palavra Kyoto: vamos mudá-la, então, para Bethesda ou qualquer nome próximo a Washington. Essa situação é lamentável.

FOLHA – A data-limite de 2009 lhe parece realista?
ESTRADA – É difícil porque não sei como os EUA chegarão lá. O novo governo assume em janeiro [de 2009], tem uma prioridade econômica grande, tem o problema do Iraque. Não sei se o clima é a terceira ou a quarta prioridade da lista. Para tomar uma decisão em dezembro de 2009 seria preciso conhecer a posição dos EUA quatro meses antes. A idéia de fechar 2009 é porque a conferência se realiza na Dinamarca. A seguinte será na América Latina. Bom, poderíamos ter um Protocolo do Rio de Janeiro… [FOLHA 12/12/07]

“duvido que marx ganhasse o nobel”

“É preciso chegar aos 75 para começar a entender alguma coisa”, diz o economista sueco Assar Lindbeck

por LOLA GALÁN

Assar Lindbeck (nascido em Lulea, Suécia, 1930) é um dos gurus do Estado do bem-estar social, um tema sobre o qual escreveu dezenas de livros e centenas de artigos. Membro do Comitê Nobel durante 25 anos, Lindbeck aproveitou ao máximo, com visitas aos museus do Prado e Thyssen, sua estada em Madri, convidado pela Fundação Carolina, para dar uma aula sobre as perspectivas do modelo social europeu.

El País – Os Nobel de economia não são Nobel de verdade. Foram criados pelo Banco Central sueco em 1969. Alfred Nobel nunca pensou em premiar economistas, apesar de na sua época ter havido grandes figuras nessa disciplina.
Assar Lindbeck – Sim. Pessoas muito inteligentes, com grandes dons de observação, mas na realidade o desenvolvimento da economia, sua transformação em uma ferramenta rigorosa, é coisa da segunda metade do século 20.

EP – O senhor acredita que Karl Marx teria merecido o Nobel?
Lindbeck – É uma pergunta muito difícil. Não sei. Duvido. Ele teve intuições brilhantes. Foi capaz de entender até que ponto a inovação tecnológica estava mudando de maneira drástica a estrutura econômica. Mas foi ingênuo, porque pensou que, depois de introduzidas as inovações e quando a massa do capital tivesse se consolidado, bastaria administrá-lo. Não viu a necessidade constante de inovação e de investimento.

EP – Também se enganou em relação às contradições internas do capitalismo, que continua vivo e com boa saúde.
Lindbeck – Sim, o capitalismo não deixou de se espalhar pelo mundo. Mas tem cada vez mais problemas. Um deles é a falta de disciplina dos mercados financeiros. Muitos atores nesses mercados assumem riscos demais e isso afeta a economia. Foi o que vimos com a crise do mercado imobiliário nos EUA. De vez em quando os mercados criam problemas para o conjunto da economia.

EP – Então há necessidade de mais regulamentação?
Lindbeck – É preciso fazer algo. Creio que seria necessária uma inspeção financeira mais qualificada para ver os riscos e poder intervir a tempo. Há muita gente inteligente inventando instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados. O ruim é que não são bastante inteligentes para prevenir seus riscos.

EP – As pessoas comuns se preocupam mais com a manutenção e o desenvolvimento do Estado do bem-estar social. Um tema em que vocês, suecos, foram pioneiros; continuam avançando?
Lindbeck – Não. O modelo sueco não é muito diferente do dos países do norte da Europa. A Espanha, assim como Grécia e Portugal, está um pouco atrás. A única coisa que difere no sistema sueco é sua generosidade na proteção às famílias com filhos. A licença-maternidade [remunerada com pagamento total] é de 14 meses, e há muitas ajudas para pais com filhos pequenos. Mas há países como a França que têm ajudas parecidas.

EP – A Espanha deu passos à frente ultimamente, mas falta muito por fazer. Suponho que poder cuidar dos filhos com mais tranqüilidade tenha um impacto nessa sociedade.
Lindbeck – Sim. É o que propiciou nas sociedades nórdicas que a presença das mulheres no mercado de trabalho alcance quase 80%. Houve outro elemento que tornou isso possível: a proteção que o Estado dá aos idosos. Porque estiveram tradicionalmente aos cuidados das mulheres. Quer dizer, nosso modelo favoreceu a emancipação feminina.

EP – Todo mundo se olha no espelho sueco e considera esse modelo um grande sucesso social.
Lindbeck – Até certo ponto. Neste momento temos um problema: a utilização indevida dos subsídios. Veja que em três países europeus que afirmam oferecer uma excelente cobertura de saúde a seus cidadãos, Holanda, Noruega e Suécia, ocorrem os índices mais elevados de licenças por doença. As pessoas estão saudáveis, mas pedem licença médica. Há uma tremenda indignidade. Na Suécia as pessoas faltam ao trabalho em média 22 dias por ano, quando no Japão a média é de apenas três. Os dois casos são extremos. Mas não é só a licença por enfermidade. No meu país os pais podem faltar ao trabalho quando os filhos estão doentes. Isso é muito bom, mas na prática as pessoas ficam em casa mesmo quando a criança já se recuperou completamente. Toda essa farsa está destruindo o Estado do bem-estar social. As pessoas se aposentam muito cedo em muitos países europeus, vão para casa com 55 anos ou menos; outros ficam no seguro-desemprego mesmo que consigam obter um trabalho. E as pessoas consideram isso normal. Fizemos uma pesquisa há pouco tempo para saber se os cidadãos achavam normal pedir licença por doença sem estar doentes, e 60% dos pesquisados disseram que sim.

EP – O que significa que o sistema não funciona quando não há um compromisso real das pessoas de defendê-lo. Um compromisso que existia no início.
Lindbeck – Sabemos por que isso acontece. Quando se criou o Estado do bem-estar social, depois da Segunda Guerra Mundial, as pessoas estavam acostumadas a trabalhar para se manter. Só recorriam à ajuda em caso de necessidade, porque as leis sociais assim o ditavam. Com o tempo essas leis foram sendo relaxadas. As pessoas começaram a considerar correto viver de subsídios. Aí passaram a enganar o Estado do bem-estar. É o que aconteceu nos últimos dez ou 15 anos na Suécia.

EP – Por que o senhor acredita que isso ocorre? Tem algo a ver com a imigração?
Lindbeck – Não tem nada a ver, absolutamente. O que acontece é que os subsídios são muito altos em relação aos salários. Em muitos casos a diferença entre o seguro-desemprego e o salário é de apenas 10%. Às vezes não há diferença nenhuma.

EP – Então o que se pode fazer?
Lindbeck – Há soluções. Uma é reduzir os subsídios; outra, aumentar os controles. Mas isso é muito difícil, porque a maioria dos doentes tem sintomas que nenhum médico pode comprovar: 60% das licenças são por dores nas costas e por depressão. Uma solução que estão utilizando os britânicos e americanos é pagar subsídios a quem trabalha, isto é, incentivar quem trabalha.

EP – E as pessoas que realmente precisam?
Lindbeck – É preciso fazer alguma coisa, porque estamos em uma situação verdadeiramente crítica. Na Suécia fizemos estudos e há regiões em que as pessoas faltam ao trabalho em média três dias por ano, e outras, com os mesmos níveis de atendimento de saúde, em que faltam em média 54 dias. Sem que haja qualquer diferença na saúde das pessoas.

EP – A Suécia decidiu ficar fora do euro. Como está sendo?
Lindbeck – Mais cedo ou mais tarde entraremos na União Monetária Européia, mas não me parece catastrófico estar fora. Seremos admitidos quando quisermos. O maior problema é que nossas exportações não aumentaram tanto quanto a média européia nos últimos cinco anos, mas as exportações são 40% do PIB.

EP – Aos 77 anos o senhor continua sendo professor na Universidade de Estocolmo. O que acha da aposentadoria aos 65 anos?
Lindbeck – Me parece uma loucura. A expectativa de vida aumentou muito. E os jovens, pelo menos na Suécia, não se incorporam ao mercado de trabalho aos 16 anos como antes. Agora os estudantes não trabalham antes dos 27. A vida produtiva é curta demais, e isso custa caríssimo. Além disso, como eu digo, é preciso chegar aos 75 pa
ra começar a entender alguma coisa. [EL PAÍS 28/11/07]

chega de modernidade

Luiz Felipe Pondé defende a “dúvida conservadora” e contesta a idéia de que os problemas humanos são políticos e sociais

por RAFAEL CARIELLO

Uma briga antiga vai ganhar um novo “round” com o lançamento em breve do livro “Do Pensamento no Deserto” (Edusp), reunião de ensaios do filósofo Luiz Felipe Pondé, 47.
Trata-se da peleja entre o pensamento conservador e a modernidade, entendida como a crença na promessa de que a razão humana, de que a ciência, daria conta da realidade e seria capaz de reformar a vida e a sociedade, visando à melhoria do homem.
Contra essa certeza iluminista (que determina a vida no Ocidente desde pelo menos o fim do século 18), levantou-se desde logo o que o professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) chama de “dúvida conservadora”. Embora o pensamento conservador tenha tido representantes nobres no Brasil -Pondé cita, entre outros, o crítico Otto Maria Carpeaux e o escritor Nelson Rodrigues-, os problemas que ele coloca raramente são tratados com rigor acadêmico no Brasil.
É o que esse professor de filosofia procura fazer nos dez ensaios de seu novo livro, que tratam de temas como a ciência e a bioética, as literaturas de Fiódor Dostoiévski e Franz Kafka e os entraves do mundo universitário. “Do Pensamento no Deserto” ainda não tem data para ser lançado, mas deve sair neste semestre, diz Pondé.
Na entrevista a seguir ele explica o que é a dúvida conservadora e ajuda a entender declarações como o elogio à Idade Média (“foi tão boa”), o desprezo à busca da felicidade (“existem coisas muito mais importantes”), a crítica à modernidade (“uma adolescente, uma menina de 14 anos, que chega a um lugar e começa a organizar”) e a afirmação da existência do mal (“é óbvio que o mal existe; o que talvez a gente possa pôr em dúvida é se existe o bem”).

FOLHA – O problema do conservadorismo é a modernidade?
LUIZ FELIPE PONDÉ – Conservadorismo significa, sem dúvida nenhuma, uma desconfiança enorme em relação à modernidade, compreendida como a crença na razão como instrumento suficiente para o conhecimento. “Conservador” é um termo que não é claro. Mas é razoavelmente correto você pensar que o termo indica desconfiança e mal-estar com relação à suficiência da razão, desconfiança com a idéia de que você possa jogar fora a tradição religiosa, contrariedade à idéia de ruptura -de que o ser humano possa inventar tudo a partir de hoje-, e está também na idéia de que a natureza humana é alguma coisa da qual você deve se aproximar com cuidado e que sempre subentende um certo mistério.

FOLHA – Há também uma desconfiança em relação à idéia de autonomia moral e de possibilidade de melhoria coletiva do ser humano?
PONDÉ – Esse é um ponto central. Aquilo que os ingleses chamam de “melhoristas”. Uma desconfiança com a capacidade de o ser humano se auto-inventar e se auto-aperfeiçoar. Isso porque o ser humano é um animal essencialmente orgulhoso. É isso que o define. Outra característica é uma desconfiança em relação à idéia de que os problemas humanos são políticos e sociais. O problema humano é sempre moral. [FOLHA 27/1/07]

“a modernidade quis organizar a agonia”

Para filósofo, ruiu a utopia da solução científica da existência: “O ser humano é agonia, não é alguma coisa que tenha solução”

Pondé diz que promessa de felicidade ligada ao iluminismo falhou e que há um “afrouxamento da certeza moderna”

A seguir, Luiz Felipe Pondé diz que o momento é propício à dúvida conservadora porque há hoje um “afrouxamento da certeza moderna”. (RAFAEL CARIELLO)

FOLHA – Para os modernos, o problema está sempre fora do homem?
LUIZ FELIPE PONDÉ – A tentativa de transformar o problema humano em político-social é já fruto da busca de você afastar o mal que o caracteriza e dizer que o problema é o grupo social, que poderia ser modificado. O problema é sempre o contexto, a família, a classe social…
O pensamento conservador tem uma urticária enorme dessa idéia de progresso, sabe?
Que nós vamos construir muitas estradas, vamos crescer economicamente, as pessoas vão ficar com muitas TVs em casa, e aí a vida vai melhorar.

FOLHA – É isso que o separa ao mesmo tempo de esquerdistas revolucionários e de liberais reformistas?
PONDÉ – É aí que eles se encontram. A idéia de que você pode construir uma engenharia social para melhorar o homem, a idéia de que você pode identificar a natureza humana e mexer nela. É o que os ingleses chamam de teorias de gabinete.
Faço aqui uma teoria sobre como melhorar o homem. Apago toda a Idade Média, toda a história da humanidade, e acho que nos últimos 200 anos é que a gente entendeu o ser humano. Isso é típico do que causa risadas numa mente conservadora. A idéia de que um cara que escreveu um livro há 150 anos evidentemente sabe mais do que Aristóteles.
Como dizia [Edmund] Burke [1729-1797, filósofo crítico da Revolução Francesa], “a sociedade é um contrato entre os mortos, os vivos e os que não nasceram ainda”. Isso implica que não devemos romper com o passado como se a adolescência fosse o paradigma da vida.
Com relação aos “que não nasceram ainda”, isso aponta para as fronteiras da crítica conservadora: usaremos embriões para fabricar cremes de beleza. Não temos recursos morais no comportamento humano que indiquem qualquer capacidade de não fazer isso, se isso nos for “útil” -o direito não preserva nada por mais de 40 anos. Somos utilitaristas ferozes e hipócritas. Nossa atenção deve se concentrar nos sucessos da ciência.
Isso não significa negar a pesquisa científica, mas não idolatrá-la. A dúvida conservadora deve chamar atenção para os delírios de um Estado sempre autoritário, mesmo que se diga democrático, para a necessidade de rompermos com esse integralismo da felicidade -existem coisas muito mais importantes do que a felicidade-, enfim, que ensinemos aos mais jovens como a vida é um risco eterno, como o ser humano é uma espécie precária, violenta e atormentada pela falta de sentido e como fracassamos na utopia idealista do progresso.

FOLHA – O que o pensamento conservador crê que possa estar sendo perdido com a modernidade?
PONDÉ – Faz parte da dúvida conservadora a idéia de que a única forma de fazer frente ao poder são várias formas de poder -brigando entre elas. Por isso que a Idade Média foi tão boa, no sentido de que nela você não tinha nenhuma instância de poder absoluto.
A modernidade é uma adolescente, uma menina de 14 anos, que chega a um lugar e começa a organizar. Essa é a imagem. Imagine essa menina, que entra na empresa e começa a administrá-la. Joga fora o que foi feito até hoje, começa a inventar todos os procedimentos.
É a modernidade. Perde-se o quê nesse processo? Perde-se o que uma adolescente de 14 anos perderia administrando uma empresa. Quase tudo.

FOLHA – A literatura, a arte, são lugares privilegiados de aparecimento da reflexão conservadora?
PONDÉ – A arte não totalmente, na medida em que ela é tomada por essa febre da vanguarda. A ruptura da ruptura da ruptura.
Isso é quase uma piada. Mas a literatura tem um espaço resguardado porque, como não tem de apresentar resultados, nem progride, ela não se submete de todo à lógica moderna. Sim, você pode pegar um Kafka, um Dostoiévski, uma série de autores onde esse mal-estar com a modernidade aparece. Neles, o que me importa é em que medida o que escreveram serve para eu compreender o mundo, por que a vida é quase sempre uma porcaria, por que, apesar de quase todas as provas em contrário, a maioria das pessoas insiste em viver.

FOLHA – No seu artigo sobre Dostoiévski, o sr. trata do problema do mal. O mal é o grande recalcado da modernidade?
PONDÉ – Acho que sim. Talvez sim. No entanto o ser humano é capaz de sobreviver a esse totalitarismo de “o homem é bom”, e “o mal é contextual”. Apesar de Rousseau, o ser humano ainda é capaz de perceber que, na realidade, o mal está nele. Se dissolvo o mal num sistema social, então não sou mal. O mal é concreto em toda parte, embora às vezes tenhamos dificuldade de defini-lo. A questão é em que medida o recalque do mal na realidade não se presta ao ser humano construir uma neurose narcísica. É óbvio que o mal existe. O que talvez a gente possa pôr em dúvida é se existe o bem. Esse sim é mais difícil de compreender.

FOLHA – O conservadorismo parece ganhar força hoje -e isso, no Brasil, é claro. A que se deve isso?
PONDÉ – Antes de tudo a dúvida conservadora é caracterizada pela idéia de que a gente toma sempre de dez a zero da vida. O momento pode ser propício justamente pelo afrouxamento da certeza moderna.

FOLHA – A promessa parece ter falhado.
PONDÉ – Sim, nesse sentido da utopia: a reformulação científica do humano, a administração da vida, a solução científica da existência. O que caracteriza a modernidade é a utopia de que a gente vai organizar a agonia. Não resolvem. O ser humano é agonia. O ser humano não é alguma coisa que tenha solução. [FOLHA 27/1/07]

telefone celular será o computador popular do futuro

O pensador Derrick de Kerckhove, que realizou uma série de palestras no Brasil no início deste mês

“Esqueçam o laptop de US$ 100 de Negroponte”, proclama cientista canadense pai da psicotecnologia


por RODOLFO LUCENA

D OUTOR em sociologia da arte e em língua e literatura francesa, Derrick de Kerckhove, canadense nascido na Bélgica em 1944, dirige há mais de 20 anos o Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia da Universidade de Toronto. Ele esteve no Brasil no início do mês para uma série de palestras e falou à Folha, em São Paulo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

FOLHA – O senhor inventou o termo psicotecnologia. O que é esse conceito e como chegou a ele?
DE KERCKHOVE – Foi pelas relações com a linguagem. A linguagem está relacionada com nossa mente, com nossos pensamentos. Tem um poder próprio, de ação, de meditação, de ordenação de idéias, quando é escrita. Toda tecnologia de suporte à linguagem é uma psicotecnologia. É uma tecnologia que, via linguagem, conecta o indivíduo, o interior e o exterior. A psicotecnologia é, predominantemente, uma tecnologia da linguagem. E cada vez que muda o suporte para a linguagem, muda a sensibilidade do usuário e da cultura.

FOLHA – Como isso acontece?
DE KERCKHOVE – Um exemplo é o alfabeto, que criou o ser privado, um sentimento muito forte de si mesmo, de identidade própria. Uma diferença entre o mundo lá de fora, que era objetivo, e essa pessoa aqui, subjetiva. Foi uma mudança poderosa, pois isso não existia na tribo. Na tribo, você era parte dela, você se misturava, mesclava, obedecia aos comandos, respondia às exigências, mas não se abstraía do coletivo. Você estava sempre dentro da tribo ou da família. Na sociedade oral, não havia uma individualidade muito forte, uma referência sobre si mesmo.

Com a psicotecnologia, você tem esse sentimento de forma muito forte. E com a internet você tem o maior casamento mítico de todos, o casamento da velocidade máxima com a complexidade máxima: a complexidade da linguagem e a velocidade da luz. Nós falamos com a velocidade da luz. As psicotecnologias estão constantemente emergindo…

Seja o telefone celular, que concentra toda a história das comunicações em uma pequena máquina que você leva no bolso, ou seja a altíssima complexidade dos supercomputadores ou dos computadores quânticos, que virão no futuro… Ou qualquer software, ou a web 2.0: você pode multiplicar a inteligência conectada na web 2.0 em qualquer configuração. Pode ser a Wikipédia, que é uma forma, ou o del.icio.us ou o furl, que são softwares sociais.

Qualquer variedade de interação humana, software, isso é psicotecnologia. Um blog é uma psicotecnologia, é toda uma nova forma de conectividade entre as pessoas, pois você não apenas coloca lá seus pensamentos e idéia, mas o blog funciona com os comentários dos visitantes… Todas essas coisas estão acontecendo mais rapidamente do que nós conseguimos absorvê-las…

Vivemos hoje a era sem fio, que é também experimentada aqui no Brasil. Pelo que eu já vi, melhor aqui do que em outros lugares do mundo, porque você tem aqui -nos hotéis, pelo menos- um acesso melhor, sem ter de passar pelos rituais exigidos na Europa. É uma sociedade muito conectada…

FOLHA – Mas apenas para pouca gente…
DE KERCKHOVE – Sim e não. Isso ainda está para ser visto. Há uma discussão hoje sobre conectar as favelas. É preciso ter uma solução, e isso poderia ser testado, pelo menos em uma delas. Sim, eu concordo que muita gente está excluída desse processo, mas é muito menos do que se pensa, se você considerar os telefones celulares. Todo mundo tem telefone…

FOLHA – Pré-pago.
DE KERCKHOVE – O futuro próximo do telefone celular é ficar mais e mais parecido com um computador. Esqueça Negroponte e seu laptop de US$ 100. O que teremos será um celular de US$ 50, de US$ 20, que vai fazer tudo o que você precisa.

Estou querendo dizer que, na verdade, não há uma divisão digital, mas sim um choque. Os dois grupos se chocam, se encontram. Sim, há enormes distâncias econômicas e sociais, muito fortes. Mas você não pode simplesmente dizer que as duas coisas são iguais. A única relação possível do mundo digital com as contradições sociais e econômicas é no sentido de melhorá-las, de reduzi-las. Além disso, as pessoas da favela, elas estão tendo acesso. Ok, é em LAN houses, mas estão lá.

FOLHA – E qual o impacto disso na vida das pessoas?
DE KERCKHOVE – Globalização. Quando você carrega o mundo em seu bolso, você é global, querendo ou não, sabendo ou não, gostando ou não. Nós estamos globalizados, nós estamos conectados com o resto do mundo. Nós já estávamos ligados pelas notícias, pela televisão, que traz as notícias do mundo para nossa sala, mostrando a chegada do homem à Lua, mostrando o mundo… Nós fomos socializados pela televisão de uma forma global, com certeza, e é por isso que McLuhan falava da aldeia global. Mas agora nós somos cidadãos globais, cidadãos do mundo. E isso é por causa dessa coisinha que carregamos no nosso bolso.

FOLHA – O cidadão não é mais passivo…
DE KERCKHOVE – De jeito nenhum, e isso tem sido de grande ajuda para a humanidade, especialmente para as sociedades mais atrasadas, para as pessoas que não sabem escrever. Essas pessoas agora podem falar pelo telefone, conversar, dar e receber notícias, podem perguntar sobre a situação do mercado na área em que eles atuam, enfim, há muita coisa que elas podem fazer.

A sociedade oral está recuperando um pouco do poder e da importância que perdeu para a sociedade letrada. E os aspectos locais são enriquecidos pela conexão global. A aldeia local, onde nós estamos, onde atuamos, trabalhamos, é enriquecida pela dimensão global. Nós funcionamos ao mesmo tempo local e globalmente, e nossa identidade está mudando, nossa sensibilidade está mudando.

FOLHA – E isso é bom?
DE KERCKHOVE – Sim, é muito positivo. O mundo está mudando, deixando de ser planejado e projetado e organizado, para ser emergente, auto-organizado… Claro que há aspectos negativos… O terrorismo é um aspecto emergente…

FOLHA – E há regras, governos que querem mandar no mundo…
DE KERCKHOVE – Você tem razão, e isso é um problema, e nós teremos de enfrentar esse problema. A sua personalidade digital é cada vez menos uma propriedade sua, e mais uma propriedade do conjunto. McLuhan costumava dizer: “Quanto mais sabem a seu respeito, menos você existe”. Sua persona digital escapa cada vez mais de seu controle. Você não controla sua reputação, você não controla os dados sobre você que são coletados por bancos.

McLuhan dizia que a tecnologia iria nos apagar, apagar o indivíduo e deixar tudo sob o controle do Estado ou de algum sistema regulador, um Big Brother automatizado. Essa possibilidade existe…

Mas a experiência de liberdade… Uma vez que essa idéia entra na sociedade…

Acho que nós vamos nos adaptando, vamos descobrir que podemos manter alguma coisa de nossa identidade ao mesmo tempo em que hiperconectamos. Vamos encontrar uma solução de compromisso, um meio-termo.

Já existe, entre mim e o exterior, entre público e privado. No Facebook, você está público, mas você faz dele um uso particular, ele é de seu uso particular. Isso é bom? Nós já passamos do estágio do bem e do mal.

McLuhan conceituou a aldeia global
O teórico da comunicação Marshall McLuhan popularizou a expressão aldeia global. Em seu livro “A Galáxia de Gutenberg”, lançado em 1962, o canadense refere-se a uma nova forma de organização social proporcionada pelas mídias eletrônicas, que, ao alterar os processos cognitivos, suplantariam a cultura impressa. Para McLuhan (1911-1980), os meios eletrônicos levariam a humanidade a uma identidade coletiva com base tribal -a aldeia global. Antes disso, a cultura visual dominante seria fragmentária. Esse conceito de McLuhan, já popular à época do lançamento do livro, alcançou mais visibilidade com a disseminação da internet. O canadense é apontado por muitos como um visionário da rede mundial. [FOLHA 28/11/07]

“a igreja deve tornar a vida das pessoas mais fácil”

Em visita ao Brasil, suíço defende métodos anticoncepcionais e fim do celibato

A IGREJA deve tornar a vida das pessoas mais fácil, e não mais difícil. Essa frase condensa as divergências entre dois dos maiores teólogos católicos do mundo, o suíço Hans Küng, 79, e o alemão Joseph Ratzinger, 80, o papa Bento 16 -para quem a Igreja deve ser uma comunidade, se preciso for, de poucos, mas de bons e fiéis. Nesta entrevista, ele diz que proibir métodos anticoncepcionais é ser co-responsável por um eventual aborto e que o celibato de padres é algo medieval. Küng ainda critica a visita do papa ao Brasil, por impor sua força em estabelecer padrões de moral sexual.

por LEANDRO BEGUOCI

O teólogo chegou ao Brasil no sábado, quando concedeu esta entrevista exclusiva cujos principais trechos estão abaixo. Durante a semana, falará sobre seu tema predileto – a relação entre religiões e ética mundial- em sete conferências em seis cidades: São Leopoldo (RS), hoje, Porto Alegre e Curitiba, amanhã, Brasília na quarta e na quinta, quando irá à Câmara dos Deputados e deve se encontrar com o presidente Lula; ainda na quinta vai ao Rio e a Juiz de Fora (MG), na sexta. Apesar do encontro cordial que teve com o papa em 2005, a relação entre Küng e a Igreja Católica ainda não é estável. Ele não falará em nenhuma PUC (Pontifícia Universidade Católica). Sua vinda é patrocinada, principalmente, pela Universidade Federal do Paraná e pelo Instituto Humanitas da Unisinos, ligado aos jesuítas.

FOLHA – Uma das frases mais conhecidas do sr. diz que só haverá paz no mundo quando houver paz entre as religiões. A humanidade precisa de religião para ter paz?
HANS KÜNG – Há muitos argumentos contra a religião. Um deles é que ela legitima e provoca guerras, preconceitos, violência. Por outro lado, as religiões também têm uma função positiva. João Paulo 2º foi contra a guerra no Iraque. Onde as religiões estiveram favoráveis à paz, propiciaram a paz. As religiões podem ser instrumentalizadas, assim como a música.

FOLHA – No início de seu pontificado, Bento 16 sugeriu que o islamismo é uma religião violenta.
KÜNG – Acho que ele sabe que cometeu um erro. Afinal, ele sempre se ocupou muito pouco do Islã, dedicou todo o seu tempo para estudar os teólogos católicos. Da mesma maneira que existe muita violência na história do Islã também existe na história do cristianismo. O papa aprendeu com o erro. Na visita à Turquia, visitou a mesquita Azul [a mais importante de Istambul], onde prestou seu respeito à religião islâmica.

FOLHA – Por que quem não tem religião deve se preocupar com isso?
KÜNG – Hoje, constatou-se que a religião é um fator político e que ignorá-la é um erro. Ela mobiliza milhões de pessoas. Condeno posições extremas.

Uma delas é a religiosidade agressiva. Ela condena a separação entre Estado e religião, como os islâmicos que procuram transformar todo o povo muçulmano em extremista e como os imperialistas da Igreja Católica Romana que querem fazer da Europa, no sentido de João Paulo 2º, um continente católico, como se todos os países devessem ser a Polônia.

Outra posição extrema é a excessivamente laicizante. Alguns franceses laicistas ainda não conseguiram digerir a Revolução Francesa. Essa é uma das posições tomadas no Parlamento Europeu por pessoas que se manifestaram contra a menção ao cristianismo como uma das raízes da Europa. A posição correta seria a que reconhece a importância da religião, mas não faz dela um fator de dominação.

FOLHA – O sr. defende a idéia de uma ética mundial, válida para crentes das mais diversas religiões, além dos ateus. Essa tese tem receptividade no Vaticano?
KÜNG – O papa também quer o diálogo entre as religiões. Quando estivemos juntos, discutimos esse ponto. Algo concreto que se pode fazer, e isso o papa também deseja, é uma nova forma de associação das lideranças religiosas mundiais que poderiam, juntas, afirmar princípios éticos comuns.

Essa é a idéia do projeto de ética mundial que defendo. O princípio básico de que você não deve fazer ao outro aquilo que não quer que ele lhe faça é comum a várias religiões e a muitas pessoas não-crentes.

Ainda há quatro princípios importantes. O primeiro é não matar, e isso não vale só para quando se discutem questões como a do aborto, mas também para as guerras, para as favelas do Rio e para a periferia de Berlim. O segundo é não mentir, o terceiro, não roubar, e o quarto, não abusar da sexualidade.

Não se vai resolver o problema da violência apenas com recursos policiais. Devemos mostrar esses princípios nas escolas, dizendo que eles não vêm de cima para oprimir os jovens, mas vêm para libertá-los.

FOLHA – Quando o papa esteve no Brasil em maio deste ano, ele não se reuniu com líderes das igrejas evangélicas pentecostais. Como construir esse consenso com religiões que se comportam como rivais?
KÜNG – Seria muito bom que o papa tivesse encontrado os líderes dessas religiões. Ele teria ouvido, muito provavelmente, quais são os pontos fracos da Igreja Católica, por que perdeu tantos fiéis. Como é que se pode pensar que não vão surgir várias comunidades menores quando, em São Paulo, há um padre para 200 mil pessoas?
Um fator que dificulta o surgimento de novos padres é exatamente essa lei medieval do celibato. A Igreja precisa repensar essas coisas. Quando se toma uma posição de que a missa precisa ser celebrada segundo os preceitos romanos, acaba sendo muito chato. Por outro lado, você tem cultos dos pentecostais que são muito mais animados na sua liturgia, com gestos, canções. Quando a gente simplesmente imita essa liturgia, não é bom. Mas aproveitar elementos é bom.

FOLHA – Muitos atribuem a perda de fiéis no Brasil à teologia da libertação, que teria se preocupado mais com a pobreza do que com a alma.
KÜNG – A teologia da libertação foi uma das primeiras que falou de uma participação popular na liturgia. Se houvesse tido mais espaço para ela na América Latina, provavelmente teríamos muito menos pentecostais.
Mas, desde o início, fui crítico em relação à predominância de elementos marxistas na teologia da libertação, em relação às ilusões de que se poderia ter uma grande revolução.

FOLHA – Quais são os maiores desafios da Igreja e deste papa?
KÜNG – O grande desafio da Igreja é não retroceder. O desafio do pontificado seria trazer novos impulsos para isso. Mas, até o momento, não aconteceu. Não se pode ignorar que nós, da Igreja Católica, , estamos em meio a uma grande crise. Manifestações do papa, como foram feitas no Brasil, mostram simplesmente a fachada de uma Igreja que nas suas estruturas mais profundas está em uma situação muito difícil.

FOLHA – O que o sr. tem em comum com Bento 16?
KÜNG – Nós dois sempre servimos à mesma comunidade de fé cristã e sempre buscamos um cristianismo autêntico.
A diferença se refere principalmente ao método. O papa defende o modelo romano como o único para todas as igrejas, seja na China ou na América Latina, o que, para mim, não é católico, no sentido de católico como algo universal. Minha opção é por um modelo pautado no Evangelho, no Novo Testamento, e isso possibilita muito mais o diálogo com as igrejas pentecostais e protestantes.

FOLHA – Há muitas católicas que fazem aborto.
Que tipo de resposta a Igreja deveria dar a elas?

KÜNG – A solução não está nem em permitir tudo nem em reprovar tudo. Se o objetivo é evitar o aborto, o que é muito desejável, então seria preciso favorecer os métodos anticoncepcionais. Quem proíbe esses métodos é co-responsável pela existência de tantos abortos.

É tarefa da Igreja encontrar uma posição intermediária entre o tudo é permitido e o tudo é proibido, para trazer as pessoas para uma posição intermediária nas suas vidas. Esse caminho do meio seria, no caso de uma mulher que se vê diante da questão do aborto, tomar ela mesma a decisão. Depois, que ela não ficasse sofrendo problemas de consciência e de culpa, mas se visse satisfeita pela decisão. Mesmo segundo a teologia moral tradicional, uma consciência que comete um erro está justificada. A Igreja deve tornar a vida das pessoas mais fácil, e não mais difícil.

FOLHA – E aos homossexuais?
KÜNG – Também há posições extremas, ambas erradas. Por um lado, seria um erro ignorar que existem propensões homossexuais. No que diz respeito à vida individual, não cabe à autoridade clerical decidir.

Outra posição extrema é a que transforma a homossexualidade em um motivo de propaganda ou de exibicionismo e, por isso, muitas manifestações homossexuais não contribuíram em nada para a visão mais correta desse tema justamente porque se mostram de uma maneira desavergonhada, que repercute mal na opinião pública.

FOLHA – Há espaço para o debate sobre esses temas dentro da Igreja?
KÜNG – A verdade última pertence apenas a Deus. É impossível para qualquer ser humano, desde o fiel mais simples até o papa, dispor integralmente da verdade. É claro que existem algumas verdades realmente válidas, como esses princípios éticos que valem como consenso para toda e qualquer pessoa. Agora, há várias maneiras para se aplicar uma verdade. É natural que haja controvérsias sobre isso na Igreja. No que diz respeito às verdades complexas, não poderia ser simplesmente resolvido por uma ditadura, mas no debate. Se o papa se pronuncia contra a ditadura do relativismo, também precisaria ter claro que muitas pessoas têm muito mais medo é de a ditadura do absolutismo, que muitas vezes vem de Roma.

FOLHA – Que tipo de relação o sr. tem com o papa?
KÜNG – Durante o pontificado de João Paulo 2º [1978-2005], tivemos uma relação muito tensa, ou nenhuma. Eu esperava muito que Ratzinger reagisse positivamente à carta que lhe enviei logo depois da sua eleição, pedindo uma conversa aberta, que João Paulo 2º jamais me concedeu. As nossas relações, hoje, estão muito mais distensionadas. Ele sabe que não abro mão de fazer críticas, mas posso fazê-las de maneira muito mais solidária. A posição dele é muito diferente da de seu antecessor. Mandei o segundo volume das minhas memórias para Roma e recebi uma resposta muito amigável. [FOLHA 22/10/07]