Resposta mortífera

Toda resposta mata uma possibilidade. Estou pensando na aula de filosofia. (Se ocorre a mesma coisa em toda e qualquer aula ou, no limite, em toda e qualquer atividade teórica, isso eu não sei — o que, aliás, parece-me ótimo.) E na resposta do professor.

E mata uma possibilidade não só porque a resposta, ainda que seja aberta, complexa ou múltipla, é apenas uma entre muitas outras possíveis. Mas, principalmente, porque, quando responde à própria pergunta, o professor tira dos alunos a possibilidade da descoberta ou, no mínimo, da reflexão.

A aula de filosofia deve, pois, consistir no ato (do professor) de perguntar –e no correlato ato reflexivo (do aluno) de responder.

Extensão cultural

O novo reitor da USP, Marco Antonio Zago, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo no último dia 25, enfatiza o papel cultural da universidade.
Diz ele, entre outras coisas, o seguinte: “As universidades existem para prover educação superior de excelência às novas gerações e para promover a pesquisa, entendida em sentido amplo: investigação experimental e tecnológica; pesquisa das questões econômicas, sociais e políticas; e da produção da cultura e da arte em todas as suas formas de expressão”.

Chamam a atenção, nesse trecho, pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, o reitor esquece-se do terceiro elemento do tripé que sustenta a ideia contemporânea de universidade: além de pesquisa e ensino, a extensão.* Em segundo, acrescenta ele um quarto pé: a cultura.

Sim, a cultura pode muito bem cumprir o papel de estender a “produção” universitária à sociedade. Mas a ideia de extensão é mais abrangente que a vida cultural. Trata-se, para além de alimentar a comunidade com cultura, de prestar-lhe vários serviços, de consultoria jurídica a atendimento médico.

Aliás, parece que a extensão universitária não constitui propriamente um terceiro elemento, ou pé, mas uma ideia, uma espécie de princípio regulador ou diretivo de todo o organismo universitário.

Em outras palavras, o sentido mesmo da universidade consiste na relevância que a pesquisa, o ensino e a “produção” cultural que são realizados nela, intramuros, têm para a sociedade em geral.

Não obstante, é verdade que a cultura, em particular, a arte, pela própria natureza, tem o condão de (inter)mediar teoria e prática — como nos esclarecem Kant e Schiller, p.ex.

Nesse sentido, será muito bem-vinda a valorização por parte do novo reitor da USP, uma das universidades mais importantes da América Latina, do papel da cultura, em geral, e da arte, em particular, na relação dessa instituição com a comunidade.

*Nota: O princípio da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão está estabelecido na Constituição Federal (1988), Cap. III, Seç. I, Art. 207, como segue: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

EaD na Second Life

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/informat/fr3001200816.htm

FOLHA DE SÃO PAULO

São Paulo, quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Instituições migram para o Second Life

DA REPORTAGEM LOCAL

Uma ilha do Second Life concentra 35 instituições de ensino brasileiras. Nem todas existem no mundo físico, mas mesmo assim acompanham a tendência global de inúmeras iniciativas educacionais nesse ambiente virtual.

A ilha Vestibular Brasil foi feita para ser “uma cidade universitária virtual, ou seja, um local onde existam várias instituições de ensino, onde os alunos, os futuros alunos e os professores possam interagir livremente”, segundo Maurício Garcia, diretor da Garcix Inovações, que criou o local, com apoio da ABMES (Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior).

Grande parte dos projetos não tem como fim principal atividades pedagógicas inovadoras. No momento, as instituições usam o Second Life como estratégia de marketing.

Carlos Valente, professor de tecnologia da Anhembi Morumbi, que está no mundo virtual, já escreveu, em co-autoria com João Mattar, um livro sobre o uso do Second Life como ferramenta pedagógica -“Second Life e Web 2.0 na Educação” (Ed. Novatec, R$ 49).

Ele afirma que o mundo virtual tem potencial pedagógico. Valente cita a interação possível para conferências e aulas. Ele também destaca o conteúdo multimídia e a participação dos usuários na criação de ambientes, como na web 2.0. (GVB)

ENSINO a distância

Educação a distância cresce 571% entre cursos superiores, diz Censo

A oferta de cursos superiores de EAD (Educação a Distância) cresceu 571% entre 2003 e 2006 — o número passou de 52 para 349. A participação destes alunos no universo dos estudantes passou a ser de 4,4% em 2006, sendo que, um ano antes, essa participação representava 2,6%.

Estes são os resultados do Censo da Educação Superior de 2006, divulgados nesta quarta-feira (19) pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Participaram da pesquisa 2.270 instituições — 248 públicas e 2.022 privadas.

As demais modalidades de cursos também tiveram aumento, menor nas graduações (8,3% em número de cursos e 5% em número de matrículas). Os tecnológicos tiveram aumento de 34,3% nas matrículas.

Os dados demonstram também um crescimento geral no número de alunos matriculados em cursos de educação superior: de 4,99 milhões para 5,31 milhões, incluindo cursos presenciais, a distância, seqüenciais e tecnológicos.

Outra novidade foi a evolução, em 2006, da taxa de escolarização líquida – corresponde ao número de alunos matriculados em cursos de educação superior sem distorção de idade. Ou seja, jovens de 18 a 24 anos que estão na faculdade. Em 2005, o número de jovens em instituições de ensino superior correspondia a 10,9% do total de jovens brasileiros; em 2006, a 12,1%.

“Ainda é pouco, mas há duas décadas esse percentual estava praticamente estagnado”, destacou o diretor de estatísticas e avaliação da educação superior do Inep, Dilvo Ristoff. “Conseguimos iniciar uma mudança”.

A região Sudeste ainda tem o maior número de instituições de ensino superior, com 48,1% do total, mas essa representação vem diminuindo a cada ano com o crescimento em outras regiões. O Nordeste, por exemplo, tinha 388 instituições em 2005. Em 2006, já eram 412.

Finalidade
O Censo atualiza anualmente as informações da educação superior sobre número de instituições, cursos, matrículas, vagas, inscritos, ingressos, concluintes, docentes e pessoal técnico administrativo.

A finalidade do Censo, segundo o Inep, é fazer uma radiografia da educação superior. As instituições respondem ao questionário por meio da Internet e, com base nesse conjunto de dados, a pesquisa oferece aos gestores de políticas educacionais uma visão das tendências do nível de ensino.

Ao longo de 2007 foram recolhidas informações sobre cursos e instituições de educação superior tendo como data base o dia 30 de outubro de 2006. São computadas as matrículas efetuadas até o dia 30 de junho do mesmo ano. [UOL Educação 19/12/07 – 12h26]

viva o quirguistão!

Desejamos que não faltem recursos financeiros ao ministro da Educação. E que sejam eles muito bem aplicados

por ARNALDO NISKIER

ENQUANTO se discute de quem é a culpa pela baixa qualidade da educação brasileira, avaliada no exame internacional do Pisa (Programa para Avaliação de Estudantes Internacionais), variando as versões entre os que vitimam os alunos, os professores, os pais ou as escolas, um fato mereceu notável destaque: descobriu-se o Quirguistão, país que bravamente superamos na última olimpíada do conhecimento (ciências, matemática e leitura).

Fica na Ásia Central, faz fronteira com o famoso Sinkiang, que integrou a antiga União Soviética (era uma das suas 15 Repúblicas). Tem uma população de cerca de 5 milhões de habitantes. A capital? Bishkek.

Pode parecer exibição de cultura inútil, mas não houve quem deixasse de recorrer às melhores enciclopédias para se atualizar sobre o país que derrotamos, embora tenhamos ficado numa das últimas colocações das provas realizadas com a participação de alunos de 15 anos de idade, testando 57 países.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, aceitou convite para visitar a Academia Brasileira de Letras, onde, numa rara sessão plenária, debateu democraticamente com os imortais a problemática que enfrentamos.

Ouviu pacientemente as questões levantadas, anotou sugestões, como a volta da literatura brasileira aos currículos do ensino médio e a possível publicação de obras de grandes escritores -em edições populares- para uma farta distribuição às escolas públicas, com vista à valorização do gosto pela leitura. Não deixou de registrar, igualmente, que seria uma boa idéia oferecer o “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, produzido com exclusividade pela ABL, para figurar nas bibliotecas públicas.

O debate foi rico e respeitoso. O ministro disse que deseja estimular o pensamento reflexivo no espírito dos alunos (por isso reintroduziu a sociologia e a filosofia nos currículos) e mandou reservar 1 bilhão de reais do Orçamento de 2008 para aplicar em obras de escolha das próprias escolas. Inquirido sobre o que está ocorrendo com os livros didáticos, cuja operação é alvo de críticas da nossa sociedade, respondeu com veemência: “Querem que eu institua um tribunal para censurar os livros. Isso não farei de jeito nenhum!”.

Manifestou desejo de cuidar melhor da capacitação de professores: “O sistema relegou essa prioridade ao quinto plano. Vamos tratar do assunto como uma carreira de Estado, sob responsabilidade do governo federal. Só assim poderemos dar melhor assistência, inclusive salarial, aos quase 3 milhões de professores que cuidam dos nossos 50 milhões de alunos”. Foi aplaudido.

O debate prosseguiu com a abordagem da questão atualíssima da qualidade do ensino. O ministro Haddad revelou que há sinais de aperfeiçoamento nas tarefas de alfabetização, seguindo dados de 2003 e 2005. “A minha maior preocupação é o ensino médio, por isso, de forma pioneira, estamos distribuindo livros gratuitos aos estudantes das escolas públicas.”

É claro que concordamos que nada em educação “cai do céu” ou se resolve da noite para o dia. Até gostamos de ouvir que os métodos fonéticos foram em outros tempos mal substituídos, em nosso sistema, que sofreu de uma doença epidêmica intitulada “piagetismo”.

Parece que adotamos uma dinâmica inversa -e isso é saudável. Fernando Haddad não concorda com a demonização do ensino superior, como querem alguns críticos de plantão. “Devemos aperfeiçoá-lo, e não destruí-lo.”

Ao final, recebendo das mãos do presidente da ABL duas certeiras contribuições para a valorização da língua portuguesa, prometeu uma intensa cooperação com a casa de Machado de Assis, “para que os alunos compreendam, e não apenas decodifiquem a língua portuguesa”. Louve-se o estilo do ministro da Educação, que não se aborreceu com as críticas ouvidas. Prometeu soluções na execução do Plano de Desenvolvimento da Educação. Desejamos que não lhe faltem recursos financeiros -e que sejam eles muito bem aplicados. [FOLHA 18/12/07]

calamidade

Em 2007, os professores [do estado de São Paulo] faltaram ao trabalho, em média, 32 dias – 15% do ano letivo. São vários os casos de alunos que mal recordam a fisionomia de seus supostos mestres. Alguns professores praticamente não pisaram na escola. É o que revela um ranking com os campeões em ausências do estado, o primeiro do gênero feito com dados oficiais. A lista, com dez nomes, baseou-se nas faltas médicas, motivo número 1 para o absenteísmo no Brasil. De acordo com o levantamento, esses professores apresentaram, em média, 54 atestados médicos neste ano, além de outras justificativas para mais dezenas de faltas. [Veja 19/12/07]

dinheiro não falta

[Enquanto isso, a PUC espera por míseros 52 mil irreais para manter um projeto de extensão universitária voltado para o ensino médio (pré-vestibular para jovens de baixa renda), uma verba aprovada — para um projeto reconhecido oficialmente e premiado internacionalmente –, mas que não chega nunca. Quem sabe se a PUC criasse um bloco carnavalesco…]

por NICOLA PAMPLONA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu com a liberação de R$ 12 milhões para as 12 escolas de samba do Grupo Especial do carnaval carioca. O dinheiro virá da Petrobrás e das companhias petroquímicas Braskem e Unipar. Segundo o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), um dos objetivos é afastar “más influências” das escolas, que têm histórico de ligação com o jogo do bicho e com o tráfico de drogas. “(As escolas de samba) precisam de autonomia para que más influências não prejudiquem um patrimônio do povo brasileiro”, afirmou Cabral, lembrando que o carnaval foi tombado como patrimônio cultural pelo Ministério da Cultura. Questionado sobre quais seriam as más influências, desconversou: “Qualquer má influência.”

(…) A ajuda às escolas de samba foi definida em reunião ontem pela manhã no Hotel Glória, zona Sul do Rio, com representantes das agremiações e da Petrobrás, além de Gilberto Gil (Cultura). Na saída, Gil admitiu que o apoio do governo pode reduzir a participação da criminalidade no carnaval carioca. “Não é a partir disso que o Ministério da Cultura se move no sentido de um parceiro, mas ajuda. Todo aporte de recursos a ações culturais da comunidade é um fator inibidor dos riscos da ilegalidade, do convívio com a criminalidade”, disse Gil, sem informar como será a fiscalização dos gastos dessa verba. [Estadão 9/12/07]