Um lógico na ilha da fantasia

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O Estado de São Paulo: VIDA&

Domingo, 10 fevereiro de 2008

Um lógico na ilha da fantasia

Pensador brasileiro com mais reconhecimento no exterior, Newton da Costa tem seus livros reeditados

por DANIEL PIZA

No final dos anos 50, Newton da Costa já era formado em Engenharia e Matemática e colaborador de publicações francesas quando procurou o reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) com uma proposta. Queria trazer professores estrangeiros, como seu mentor Marcel Guillaume, para ajudar a montar um centro de pesquisa de lógica e matemática em Curitiba. O reitor vetou o projeto e justificou: “Pode citar qualquer especialista estrangeiro em qualquer assunto, e lhe dou o nome de alguém aqui melhor do que ele.” Newton pensou em replicar: “Einstein?” Preferiu ficar quieto.

Em 2002, o respeitado jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung publicou uma matéria sobre ele. Título: “Newton ist brasilianer.” Era um trocadilho com o nome de Isaac Newton, o físico inglês: “Newton é brasileiro.”

As duas histórias mostram uma constante na vida de Newton da Costa, hoje aposentado, prestes a completar 79 anos, vivendo em Florianópolis “como se vivesse numa ilha da fantasia”. Ele é o pensador brasileiro mais respeitado mundialmente, reconhecido pelo desenvolvimento da lógica paraconsistente, hoje utilizada em diversos sistemas computadorizados. Mas é pouco conhecido no Brasil, onde há quem diga que nem sequer existe um filósofo brasileiro (ou então se chama de filósofo qualquer professor de filosofia).

Isso, no entanto, começa a mudar. Em março, a editora Hucitec lança as reedições de três de seus livros: Introdução aos Fundamentos da Matemática, de 1961, revisado em 1976; Ensaio sobre os Fundamentos da Lógica, de 1979, considerado seu livro mais importante; e Lógica Indutiva e Probabilidade, de 1990. Newton da Costa, em entrevista ao Estado, também diz ter ficado contente com a citação de seu nome pelo cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e engenheiro de formação, como uma das personalidades mais influentes do Brasil em enquete da revista Época.

O curioso é que Newton Carneiro Affonso da Costa nunca precisou deixar o País para desenvolver uma teoria de fama mundial. Nascido em Curitiba em 16 de setembro de 1929, ele, “mau aluno”, atribui ao ambiente familiar sua curiosidade e independência. A mãe era professora de literatura francesa; a tia, de literatura inglesa; outra tia, de literatura portuguesa. Um tio, Milton Carneiro, dava aulas de filosofia. O pai, funcionário público, gostava de matemática e do positivista francês Auguste Comte. O irmão mais velho de Newton, Haroldo, se tornaria geômetra.

“Na hora da refeição, só falávamos sobre esses assuntos”, lembra Newton. “Minha mãe proibia usar a primeira pessoa, ficar falando o que tinha feito durante o dia. Ela queria que se falasse sobre idéias, sobre política, filosofia, literatura.” Foi numa conversa com o tio que surgiu a dúvida que embasaria toda sua carreira: o que é o conhecimento – em especial, o conhecimento científico? A conversa era sobre a impossibilidade de uma pessoa provar que existe e que a existência não passa de ilusão dos sentidos. E um livro logo daria impulso a essas questões: Discurso do Método, de Descartes, que Newton leu aos 15 anos. “Li, reli, li e reli de novo.”

Autores
Brotava ali o filósofo da lógica, um caso raro entre intelectuais brasileiros de pensador metódico, sistemático. Ainda na adolescência, Newton descobriu os cinco autores que até hoje diz que mais o influenciaram: W.V. Quine, Rudolf Carnap, Karl Popper, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein. São todos da escola conhecida como “filosofia analítica”, que nas primeiras décadas do século 20 se dedicou a abordar questões filosóficas com auxílio da matemática. No Brasil, poucos foram os seguidores dessa linha de pensamento. O maior de todos é, sem dúvida, Newton da Costa, professor da Universidade de São Paulo por 30 anos.

Mas foi para a Universidade Estadual de Campinas que ele doou quase toda sua biblioteca de lógica e matemática, incluindo documentos importantes de sua carreira. Num cômodo – “meu cubículo”, como chama – de seu apartamento no centro de Florianópolis, onde vive há cinco anos, restam apenas os livros dos autores que mais o marcaram. Lá está o quinteto analítico, com destaque em número de volumes para Russell. Numa prateleira, vê-se uma montagem feita por alunos de uma foto de Newton diante de Russell – um encontro que nunca houve na realidade, embora fosse um dos maiores sonhos do brasileiro. “Russell foi, de longe, o autor que mais li, mesmo sem concordar com tudo. Era um gênio e escrevia como ninguém.”

Com quem, então, mais concordou? “Com Wittgenstein, sem dúvida. O Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus (1921), não dos outros livros.” Isso porque o pensador austríaco vislumbrava uma lógica com contradições, diferente da versão ortodoxa – e essa foi uma abertura fundamental para o conceito de “paraconsistência”. Russell, quando leu o tratado de Wittgenstein, decretou: “Ou você é um louco ou um gênio.” Wittgenstein também teve discussões agudas com Popper, outro autor a quem Newton deve muito, não só por uma filosofia da ciência que diz que “nenhuma explicação é suficiente”, mas também por livros como A Sociedade Aberta e seus Inimigos, uma crítica liberal ao marxismo.

Além do quinteto, estão ali autores como Kurt Gödel, o austríaco naturalizado americano cuja “teoria da incompletude” abalou os alicerces da matemática clássica em 1931, ao mostrar que um sistema de valores não pode ser consistente se se pretender completo. Sem ele, como sem outros grandes matemáticos como Henri Poincaré e F. Enriques, a lógica paraconsistente não existiria. As demais estantes do escritório trazem algumas centenas de livros que tratam justamente das idéias de Newton, além das traduções dos dez volumes que escreveu até agora. São livros em chinês, russo, romeno, alemão… Não há Mangabeira Unger que possa disputar com ele em termos de referência no exterior.

Complexo
Mas não são apenas livros de filosofia que Newton conserva. Edições de Shakespeare e do Dom Quixote de Cervantes estão em destaque. A grande literatura e a música clássica – “Sou dos três Bs, Bach, Beethoven e Brahms” – são os prazeres culturais de Newton, que nas horas de folga também gosta de escrever poemas com o sobrenome dinamarquês da mãe, Eriksen. Ao lado, vê-se um livro em espanhol sobre as campanhas militares de Napoleão. “Leio tudo sobre Napoleão desde criança”, conta Newton. “Como toda pessoa com complexo de inferioridade, sou fã de Napoleão. Ele foi um gênio da estratégia.”

Como assim, complexo de inferioridade? Um pensador que construiu uma obra sólida num país periférico e ganhou reputação mundial, da qual não hesita em demonstrar orgulho, tem complexo de inferioridade? “Pois é, eu tenho. É como unha encravada, você tem e pronto. Uma vez conversei com um amigo psicanalista sobre isso e perguntei a ele: ‘Se eu não tivesse esse complexo, teria feito a minha obra?’ Ele respondeu: ‘Isso não dá para dizer.’ Então, se é assim, não posso fazer nada.” E tome livros sobre Napoleão.

Engenheiro formado, Newton começou a trabalhar na construtora do sogro, que lhe disse que em dez anos ele garantiria sua independência financeira. Newton não suportou ficar mais de um ano. “Dinheiro não importa para mim; nunca importou.” O desprendimento material não impediu esse professor com aparência de professor – que passa os dias dentro de casa lendo e escrevendo e dá uma palestra por semana – de ter uma vida confortável, de ter criado dois filhos, um economista e uma química, e de ser um avô carinhoso, que apresenta sorridente uma das netas, Isabela. Um pedestre que cruze por Newton da Costa numa dessas ruas do centro de Florianópolis com nomes de matemáticos (Praça Benjamin Constant, Rua Trompowski, etc.) não imagina que esse afável senhor de camisa social e calça de elástico seja um dos maiores lógicos do mundo.

O que tira Newton do sério é o atraso do Brasil, especialmente o desprezo ao trabalho intelectual. “Hoje você liga a rádio ou a TV e só ouve debilóides”, diz. Crítico do governo Lula, que acha que tem sorte de acontecer num período de prosperidade mundial, ele discorda em especial do pensamento socialista, citando Popper e economistas como Ludwig von Mises. “Só o capitalismo permite mobilidade social. Se a economia for impulsionada, tudo o mais se ajeita”, diz. “Mas agora o Lula é de centro-direita…”, ironiza, declarando-se de “centro-esquerda” e afirmando que votaria democrata nos EUA.

Em 1957, Newton se licenciou em Matemática pela UFPR; em 1960, se doutorou. Nessa época começou a se propor o desafio de desenvolver um sistema formal que levasse em conta as contradições, embora o nome “paraconsistência” só fosse surgir em 1974. O termo até então era “inconsistência”, e desde Gödel uma série de matemáticos mundo afora tentava chegar a essa teoria. Foi quando Newton tomou contato com a “lógica fuzzy”, também chamada de “difusa” ou “booleana”, que da mesma forma lida com estados intermediários entre o verdadeiro e o falso. Ela foi estruturada em 1965 por um professor da Universidade da Califórnia, Lofti Zadeh, cujos trabalhos Newton resenhou para publicações alemãs e brasileiras.

Nomes
“A fuzzy pode ser vista como uma versão mais específica da lógica paraconsistente”, afirma Newton. “Eu já provei isso.” O que ele alega é que sua teoria vai além de um modelo matemático; é um sistema filosófico, que discute conceitos a fundo e tenta, por exemplo, resolver problemas da dialética de Hegel. Newton também diz ter sido inspirado pela leitura de Marx e Freud. O termo “paraconsistência” foi sugerido por um amigo peruano, também filósofo da lógica, Francisco Miró Quesada. Significa “ao lado da consistência”, algo como “quase-consistência”. Na visão de Newton, a razão não pode provar nenhuma verdade absoluta, mas pode demonstrar a existência de uma “quase-verdade”, uma descrição mais próxima aos fatos. “Se explodir uma bomba atômica no prédio vizinho”, exemplifica, “é muito provável que você seja varrido para longe.”

Mas esse pragmatismo não significa que nosso conhecimento possa determinar muitas coisas com precisão. “Nem mesmo o contorno do seu corpo é definido. Alguém a anos-luz daqui só vê uma mancha no lugar onde você está. Você é uma mancha de elétrons, e há elétrons escapando de você o tempo todo.” Newton faz um gesto rápido com a mão. “Viu, acabei de pegar um elétron seu.” E solta outra de suas risadas, tão velozes quanto sua fala. Se você acha que um lógico deve ser uma pessoa fria ou impassível, é porque não conheceu Newton da Costa.

A palavra “paraconsistência”, assim como “fuzzy”, começou a ganhar vida própria de uns tempos para cá. É o destino de muitas teorias, como a Relatividade de Einstein – não raro explicada como “tudo é relativo”, o que o físico alemão jamais afirmou. No caso da paraconsistência, passou a ser utilizada como uma espécie de afirmação da irracionalidade, da rejeição ao método, da impossibilidade de qualquer forma de conhecimento. “Uma vez recebi abraços efusivos de um italiano, que disse que minha teoria tinha mudado a vida dele. Depois li o livro do sujeito e aquilo não tinha nada a ver com o que penso.”

Sistemas
Newton da Costa, afinal, é um defensor da razão, que define como união da faculdade lógica com o senso crítico; e diz que sua lógica complementa a clássica. “Em situações de comportamento padrão, a paraconsistente se reduz à lógica clássica.” É por isso que decisões – em computadores de robôs e sistemas de controle de vôo, para citar duas áreas que já utilizam lógica difusa e/ou paraconsistente – podem de fato ser tomadas.

Os processadores trabalham com um sistema binário, 0 (desativado) ou 1 (ativado), mas, graças a esses modelos matemáticos mais complexos, seguem funcionando mesmo quando recebem “inputs” opostos (“pare” e “avance”, por exemplo). A lógica paraconsistente não elimina a opção entre duas alternativas, mas possibilita que mais variáveis sejam avaliadas no processo de decisão, trabalhando com o que Newton chama de “probabilidade pragmática”. A experiência é que põe a razão à prova.

Newton critica os que usam a palavra lógica numa acepção falsa, como “Futebol não tem lógica” – significando que não é previsível. Para ele, a razão trabalha com a lógica ao menos para sistematizar as experiências. “O chato da irracionalidade é que ela não tem critérios”, resume, acentuando que seu trabalho é voltado para o conhecimento científico. Diz até que a indução faz parte da racionalidade: “Sem a indução não seríamos nada. Na pré-história, depois que o tigre-de-dente-de-sabre atacou um homem pela terceira vez, eles concluíram: tigres-de-dente-de-sabre são perigosos. E saíram correndo (risos). Sem isso não haveria racionalidade.”

Isso não significa que Newton não reconheça que haja eventos além da racionalidade. Por isso, diz não ser ateu e acreditar, “como Einstein, numa força da natureza”; e gosta de citar uma frase de Gabriel Marcel: “Filosofar é antes participar de um mistério do que resolver um problema.” Nem a ciência escapa. “Os resultados científicos são sempre aproximados”, escreve no livro Lógica Indutiva e Probabilidade. “A verdade é sempre parcial e provisória.” Mas a razão pode funcionar, sim; o conhecimento existe. “Nem eu mesmo imaginava que a lógica paraconsistente pudesse ter tanta aplicação no mundo real.” Hoje, nada parece mais lógico.

raciossímio

Macacos resos, como os humanos, são capazes de fazer soma mental

Estudo comparou animais com estudantes dos EUA; taxa de acerto foi igual

Depois de um grupo de chimpanzés ter dado um banho em universitários num teste de memória numérica, como mostraram cientistas japoneses no começo do mês, pesquisadores americanos anunciaram na segunda-feira que macacos resos, mais distantes dos humanos na linha evolutiva, não deixam a desejar. Na comparação com estudantes de faculdade, os animais se mostraram capazes de fazer adições mentais tão bem quanto os humanos.

Estudos anteriores já haviam mostrado que vários animais são capazes de reconhecer quantidades, mas até então não havia evidência de que eles tivessem habilidades matemáticas, como a de somar, explica Jessica Cantlon, neurocientista da Universidade Duke e co-autora da nova pesquisa.

No trabalho, dois macacos, Boxer e Feinstein, foram comparados com 14 universitários da Duke. A tarefa consistia em mentalizar dois conjuntos de pontos que eram rapidamente apresentados em uma tela de computador. A imagem então mudava e apareciam duas caixas contendo uma quantidade X de pontos. Os macacos tinham de escolher a que apresentava a soma correta.

Os humanos não podiam contar verbalmente enquanto viam os pontos e deviam dizer quantos havia na tela o mais rápido possível. Tanto macacos quanto humanos responderam em média dentro de um segundo. E ambos tiveram a mesma taxa de acerto. O estudo está na revista aberta “PLoS Biology” (www.plosbiology.org). [FOLHA 19/12/07]

Fantasma de Einstein Ainda Cerca Física

FOLHA DE SÃO PAULO

Gênio que revolucionou a ciência no início do século passado aparece como arrogante e sarcástico em nova biografia

Correspondências do cientista reveladas somente em 2006 ajudam a compor um novo perfil em obra do jornalista Walter Isaacson

FLÁVIO DE CARVALHO SERPA

Niels Bohr, um dos pioneiros da teoria da mecânica quântica, que explica as forças que regem o mundo das partículas, não agüentava mais ouvir Albert Einstein repetindo toda hora sua famosa tirada: “O Senhor Deus não joga dados”. Era uma contestação aos princípios probabilísticos e estatísticos da nova física, que o criador da teoria da relatividade nunca engoliu até o fim de sua vida. Num seminário internacional, Bohr resolveu fazer troça: “Einstein, pare de ficar dizendo o que Deus deve fazer”.
O sarcasmo é uma pequena amostra da extensão da revolução na ciência desencadeada por Einstein, que envolveu até especulações sobre como funcionaria a mente de Deus, a criação do Universo e seu fim inexoravelmente previsível dali para frente. Mais de cem anos depois das descobertas do maior gênio do século 20, muita gente ainda tenta descobrir como funcionava sua mente.
Foi uma nova leva de cartas de parentes de Albert Einstein, mantidas em sigilo até o ano passado, que inspirou o jornalista Walter Isaacson, ex-editor-chefe da revista “Time” e diretor da CNN e autor de biografias de grande sucesso, como a de Benjamin Franklin.
Em “Einstein, sua Vida, seu Universo”, na lista dos mais vendidos nos EUA, ele também tenta desvendar os enigmas da mente do físico e suas implicações para o mundo moderno.
A expectativa quanto a essas cartas pessoais era enorme, especialmente porque os executores dos arquivos de Einstein já haviam proibido até mesmo seu filho Hans Albert de publicar algumas cartas herdadas de sua mãe Mileva Maric, a primeira mulher do gênio.
Mas esses papéis inéditos acabaram sendo a parcela mínima do valor e do conteúdo do catatau de 656 páginas. Para explicar o trabalho de Einstein, Isaacson contou com a ajuda e o endosso do físico teórico Brian Greene (autor de “O Universo Elegante”) e do prêmio Nobel Murray Gell-Mann, descobridor dos quarks, os tijolos básicos da matéria.

Dívida com o passado
Uma medida do empenho do autor em entender o que escreveria é que ele tomou lições de cálculo tensorial -uma ferramenta matemática que faz tipos diferentes de geometria a conversarem entre si. Isso foi algo que o próprio Einstein teve de fazer para formular a teoria da relatividade geral.
Poucas biografias populares mencionam essa dívida de Einstein com os gênios do cálculo tensorial, os italianos Gregório Ricci-Curbastro e Tullio Levi-Civita, a matemática criada por eles está na raiz da Relatividade Geral, a teoria de Einstein que explica a força da gravidade. A grande sacada da teoria foi considerar a gravidade e a aceleração equivalentes -uma intuição física. Mas o trabalho só foi para frente com as ferramentas dos italianos.
O trabalho de Isaacson equilibra bem detalhes da vida pessoal e explicações sobre as teorias criadas por Einstein. Não foi uma tarefa fácil. Além dos documentos liberados só no ano passado pela Universidade Hebraica, Isaacson teve de garimpar matéria-prima no Projeto de Documentos de Einstein, concentrada no Instituto de Tecnologia da Califórnia.
Dez livros de cartas e escritos de Einstein desde sua juventude até os 20 anos já foram editados, mas possivelmente nenhuma grande novidade ou segredo vai emergir do material não revirado até agora.

Tudo não é relativo
O grande desafio era desfazer mitos em torno da vida e obra do gênio alemão. Começando por aí -Einstein sempre renegou a Alemanha, antes mesmo do nazismo torná-la intragável para os judeus. Ele também cansou de desmentir a afirmação até hoje corrente de que sua teoria torna tudo relativo. Na verdade, lembra Isaacson, a teoria de Einstein procura justamente as invariâncias e dá um valor absoluto, não relativo a nada, para a velocidade da luz.
O mito de que Einstein tenha sido mau aluno de matemática também é refutado. Na verdade Einstein volta e meia contestava professores e autoridades com arrogância e insolência na juventude. Um exemplo foi a reação que ele teve ao físico Paul Drude, que não lhe deu retorno sobre uma observação que ele tinha feito a um erro cometido por Drude em artigo. Einstein prometeu “nunca mais dar atenção a gente desse tipo”. E complementou: “em vez disso vou atacá-los impiedosamente nas publicações, que é o que eles merecem”.
As relações pessoais do gênio nessa época também destoam radicalmente da mitológica foto com a língua para fora. Se ele foi bonzinho na velhice, na juventude era uma peste.
Esse desagradável traço da personalidade de Einstein fascinou Isaacson. “Precisamos alimentar, nas nossas escolas, o desejo de fazer perguntas, de desafiar os dogmas e de pensar diferente”, explicou o autor à Folha por e-mail. “Às vezes parece que forçamos os garotos ao conformismo. Devemos é celebrar a vontade de desafiar o pensamento convencional.”
O autor crê que esses traços de personalidade poderiam salvar os EUA frente ao desafio econômico chinês. “Nessa nova era de globalização a criatividade vai ser premiada”, disse. “Não vamos vencer com o ensino rotineiro, mas sim imaginando coisas novas. É o que Einstein nos inspira a fazer.”

Bússola mágica
A curiosidade do físico parece ter sido sempre uma virtude sua. Um episódio apontado pelo próprio Einstein como um momento de estalo sobre suas aptidões foi quando ele ganhou de presente uma bússola. Tinha entre quatro e cinco anos e estava doente. Ele lembra que ficou tão excitado com os poderes misteriosos da agulha que se movia influenciada por forças ocultas que começou a tremer. “Posso ainda me lembrar que essa experiência me marcou profundamente”, escreveu.
Depois, logo que aprendeu a ler passou a consumir vorazmente fascículos de divulgação científica para jovens. Aos 15 anos já dominava o cálculo integral. É inegável que Einstein nascera também em uma família culta e antenada com o progresso científico e tecnológico. O pai e um tio dele se aventuraram a construir geradores de eletricidade, mas eram maus negociantes e faliram.
O primeiro emprego de Einstein seria definitivo para sua carreira futura. Não era bem o que ele queria -em vez de um posto na universidade, ele foi parar no escritório de patentes da Suíça-, mas foi isso que lhe permitiu mergulhar nas mais avançadas tecnologias da época. Especialmente na questão da sincronização dos horários de trens, que o deixou a poucos passos para a constatação da relatividade do espaço-tempo.

Rumo à descoberta
“Acho que Einstein teve a sorte de estar num escritório de patentes em vez de servir como assistente na academia tentando agradar professores seniores e ensinando a física convencional. Como examinador de patentes ele tinha de visualizar realidades físicas sob conceitos científicos”, escreve Isaacson.
“Ele conseguia montar equações complexas; contudo, mais importante, ele sabia que a matemática é a linguagem usada pela natureza para descrever suas maravilhas”, diz. “Por isso conseguia visualizar o modo como as equações eram refletidas na realidade -como as equações dos campos eletromagnéticos descobertas por James Maxwell, por exemplo, iriam se manifestar a um menino que viajasse ao lado de um raio de luz. Como ele declarou: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”.”
Mas esses ensinamentos de Einstein podem levar a um beco sem muita saída no mundo moderno. “É importante estimular a individualidade”, dizia o físico, “pois somente o indivíduo pode produzir idéias novas.” Mas hoje a ciência é obra de equipes enormes conectadas instantaneamente pela internet. É mais um trabalho cooperativo do que o produto de estalos geniais. E muitos dos obstáculos e desafios da física moderna dependem de laboratórios enormes e bilionários.
Esta biografia é uma ótima introdução aos avanços da ciência no início do século passado e dá conta didaticamente da proposta. O leigo pode entender como foi concebida a relatividade e os embates de Einstein contra a mecânica quântica, que ele também ajudou a construir, mas renegou furiosamente depois.

Briga quântica
Para o leitor avançado, no entanto, Isaacson fica devendo algumas contextualizações. A busca de Einstein por uma teoria que unifique a relatividade e a mecânica quântica -e abolisse o famoso acaso dos lances de dados- é muito parecida com a perseguida pelos físicos teóricos da teoria de cordas.
Isaacson falha ao encarar a batalha pessoal de Einstein contra a mecânica quântica como uma causa perdida e superada na ciência moderna. Não é bem assim. Muitas correntes teóricas ainda perseguem a revisão dos fundamentos de física, incluindo os adeptos das cordas como Brian Greene.
Finalmente, Isaacson não ressalta que da briga com os teóricos quânticos Einstein produziu um de seus mais significativos trabalhos, que só agora começa a dar frutos. Sua contestação da mecânica quântica incluía a critica a um tipo de ligação entre partículas separadas no espaço -hoje conhecida na física como emaranhamento-, que ele chamou de “ação fantasmagórica”.
Como uma bomba de efeito retardado, o emaranhamento, formulado ainda sem este nome por Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen em 1935, é hoje um dos fundamentos da computação quântica, tecnologia ainda incipiente que promete revolucionar a ciência nas próximas décadas. A idéia de partículas separadas pela distância manterem estados relacionados está por trás dos qubits, os bits (unidades mínimas de informação) de computadores quânticos. Quando essas máquinas quânticas começarem a funcionar, Einstein vai merecer mais um prodigioso galardão póstumo.

LIVRO – “Einstein – sua Vida, seu Universo”
Walter Isaacson; Companhia das Letras; 656 págs., R$64

o renascimento de deus

por HÉLIO SCHWARTSMAN,

Sob o sugestivo título de “As Novas Guerras de Religião”, a revista britânica “The Economist” dedicou o número da semana passada aos crescentes enfrentamentos inter-religiosos. São várias reportagens recheadas de números e informações. É leitura obrigatória para os que se interessam pelo fenômeno. Como não dá para abordar tudo, vou me restringir na coluna de hoje à questão do “revival” religioso.

Aqui é necessário começar com uma espécie de “erramos”. Não, ainda não me converti. O “erramos” não diz respeito a meu ateísmo, mas ao fato de que boa parte da elite branca ocidental julgou ao longo dos últimos 150, 200 anos que a morte de Deus e o advento do secularismo eram favas contadas. Estávamos redondamente enganados.

De fins do século 18, com o Iluminismo, até bem recentemente, parecia de fato crível que o mundo caminhava para tornar-se menos religioso. Afinal, Darwin, Marx, Freud e Einstein provaram duas ou três coisinhas bastante interessantes. Mostraram que o homem, um bicho como qualquer outro, não comanda a história nem mesmo a psique humana. Pior, o próprio Universo funciona sem Deus, que pôde enfim ser reduzido a uma simples metáfora. Só que daí a concluir que a humanidade estava pronta para a emancipação foi um passo maior que a perna.

Tudo parecia seguir o “script”. Grupos religiosos mais proeminentes se retraíam. Nos EUA, evangélicos caíram numa espécie de ostracismo após o fiasco da Lei Seca (1920-33) e do julgamento de Johns Scopes (1925), no qual as idéias criacionistas foram humilhadas e judicialmente rechaçadas. Na Europa, as coisas pareciam seguir o mesmo rumo. Ideologias fascistas e comunistas rapidamente tomaram o lugar das religiões tradicionais. Mesmo no Terceiro Mundo, igrejas pareciam ceder terreno a líderes secularistas como Kemal Ataturk (Turquia, anos 20), Jawaharlal Nehru (Índia, anos 50). Também o islamismo dava indícios de que sucumbiria diante do pan-arabismo de Gemal Abdel Nasser nos anos 60. Ao que consta, até o Estado judeu não era tão judeu assim. A “Economist” sugere que David Ben Gurion, o fundador de Israel, um secularista convicto, só concordou que a lei rabínica fosse adotada para regular casamentos e divórcios no país porque estava certo de que os ortodoxos estavam com seus dias contados.

Em 1966, a bem-comportada revista “Time” estampou em sua capa a pergunta “Deus está morto?”. Em 1999, a própria “Economist” publicou em sua edição do milênio o obituário de Deus. Foi precipitada. A ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright recorda-se de uma ocasião em 1990 em que um diplomata que negociava a paz na Irlanda do Norte se queixou: “Quem vai acreditar que, no fim do século 20, ainda estamos lidando com um conflito religioso?”.

Também nos anos 90, nós da imprensa relatamos o conflito na antiga Iugoslávia como uma disputa étnica entre sérvios, croatas e bósnios. Não está errado, mas também é possível descrevê-lo como uma guerra entre cristãos ortodoxos, católicos e muçulmanos. Tudo depende de querermos enfatizar os componentes políticos ou os religiosos da contenda.

Mas veio o 11 de Setembro e a idéia de um futuro secular ruiu. Olhando retrospectivamente, é fácil encontrar sinais de que as coisas não caminhavam exatamente como nós pensávamos. Para sermos rigorosos, era o avanço do laicismo especialmente na Europa (e nas comunidades acadêmicas do Ocidente em geral) que se afigurava como uma exceção à regra religiosa _uma coisa de elite. Nos EUA, a freqüência da população a cultos não chegou nem mesmo a experimentar uma queda importante. No Terceiro Mundo, apesar das iniciativas de um ou outro líder nacionalista, a religião jamais esteve seriamente ameaçada. Às vezes nos esquecemos da força da demografia. A China, apesar de no papel comunista e atéia, será muito em breve a maior nação cristã do planeta. E a maior muçulmana também, sem mencionar, é claro, que sempre reuniu o maior número de adeptos do confucionismo, taoísmo etc. Só não será a maior nação hinduísta, e isso porque a Índia é uma outra potência populacional.

O que mudou então, que nos fez passar da previsão de um futuro sem religião para as novas guerras de religião? Certamente não foi apenas a nossa percepção após o 11 de Setembro.

A tese da “Economist” que eu acompanho é a de que são as variedades mais virulentas de religião que estão prosperando e ganhando adeptos. O catolicismo, por exemplo, perde fiéis para grupos pentecostais que praticam o exorcismo e fazem com que o praticante receba ordens diretas de Deus, entre outras manifestações psiquiátricas. Também vão muito bem no mercado da fé os fundamentalistas muçulmanos que atiram aviões em edifícios ou que se explodem diante de creches no Iraque. Para o bom e verdadeiro muçulmano sunita da escola wahabita, afinal, uma criança muçulmana xiita está em imperdoável erro teológico e não pode ser salva. Melhor que morra de uma vez abrindo as portas do paraíso a seu executor. O problema é o islamismo que é violento? Talvez o Alcorão instile mais pensamentos mórbidos em seus seguidores do que outras fés, mas o fato é que qualquer religião ou sistema de crenças dogmáticas (aí incluo marxismo, fascismo nazismo etc.) pode levar a sandices semelhantes. Afinal, foram os adoráveis Tigres Tâmeis, que praticam o pacífico hinduísmo, que inventaram a tecnologia dos homens-bomba, rapidamente exportada para outras partes do mundo.

Parece estar operando aqui algum mecanismo de “feedback positivo”. Uma série de reações e contra-reações entre grupos que interagem deflagrou uma espécie de corrida armamentista. Israel, por exemplo, para combater a OLP de Iasser Arafat, estimulou jovens palestinos a freqüentarem as mesquitas. Estava ajudando a criar o Hamas. De modo análogo, a resposta dos EUA ao 11 de Setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque, está levando a uma maior radicalização dos núcleos fundamentalistas islâmicos, que ganharam ainda campos de treinamento onde aperfeiçoam suas técnicas assassinas. O terror islâmico também tornou mais hostis e violentas as milícias hinduístas na Caxemira. No Paquistão, o general Pervez Musharraf acaba de dar um golpe de Estado, com o apoio dos EUA, para não ser derrubado por grupos muçulmanos que o recriminam justamente por receber apoio dos EUA. É difícil dizer onde termina esse tipo de movimento.

A receita para combatê-lo, entretanto, é conhecida e permanece a mesma desde o século 18: Estado laico e democracia. Praticar uma religião é perfeitamente legítimo. Trata-se, afinal, de atividade que pode proporcionar prazer a seus adeptos e oferecer-lhes oportunidade de reforçar vínculos sociais. É como pertencer a um círculo literário, fazer esporte ou freqüentar sites pornográficos –cada um sabe o que é melhor para si. Embora sempre vá existir uma certa tensão entre crenças religiosas distintas, as diferenças podem ser mantidas em níveis civilizados, desde que todos os grupos renunciem a impor sua verdade aos demais.

É claro que não o tão é fácil, pois o eleitor religioso tende a levar suas convicções espirituais para a urna o que, dependendo do perfil demográfico do país, pode fazer com que uma maioria religiosa se aproprie do Estado quebrando a frágil trégua. Daí a importância de inscrever o laicismo como uma garantia fundamental, ao lado dos direitos universais do homem.

Embora difícil, a tarefa não é impossível, dado que todas as religiões são minoritárias em alguma parte do globo.

Quanto ao ser humano, num ponto ele de fato difere dos outros animais. Insiste em prestar reverência a uma hipótese implausível, que se provou desnecessária e, nos dias de hoje, tem-se mostrado mais destrutiva do que agregadora.[pensata 8/11/07]

argumentos do desígnio

É racional acreditar em Deus? Muita gente supõe que a crença em Deus é uma questão de fé, não de razão. Richard Swinburne, Professor Nolloth de Filosofia da Religião Cristã na Universidade de Oxford, defende aqui que há alguns argumentos que, tomados em conjunto, fornecem de fato boas razões para supor que Deus exista.

por RICHARD SWINBURNE

As razões para acreditarmos que há um Deus existem desde que existem pessoas que sustentam essa crença; e os filósofos tentaram transformar essas razões em ‘argumentos’ com uma forma mais rigorosa desde que existem filósofos. O meu ponto de vista é o de que, quando são articulados da forma correta (i.e. de uma forma análoga à dos argumentos da ciência ou da história) e tomados em conjunto, esses argumentos constituem um caso poderoso e cumulativo a favor da existência de Deus.

Parece-me que entre os argumentos mais fortes a favor da existência de Deus estão duas formas do argumento do desígnio ― a que chamarei o argumento da ordem temporal e o argumento da ordem espacial. O argumento da ordem temporal começa por chamar a atenção para o fato de que, em todo o tempo e espaço possivelmente infinitos, os objetos materiais comportam-se da forma simples codificada pelas leis científicas.

Podemos ainda não saber o que são exatamente as leis mais fundamentais da natureza ― talvez sejam as equações de campo da Teoria da Relatividade Geral, ou talvez as leis da Teoria da Grande Unificação ou de uma teoria ainda maior a ser formulada. Dizer que essas leis governam a matéria é precisamente dizer que todo o pedaço de matéria, todo o nêutron, próton e elétron em todo o espaço e tempo infinitos comportam-se exatamente da mesma maneira (i.e. de acordo com exatamente as mesmas leis fundamentais). Isso é extraordinário!

É claro que isso não poderá ser sempre explicado cientificamente ― porque a explicação científica da operação de uma lei natural consiste em mostrar que é uma conseqüência de algumas leis ainda mais fundamentais ― explicamos a operação das leis da queda de Galileu mostrando que são uma conseqüência, para as circunstâncias particulares da Terra, das leis do movimento de Newton; e poderemos vir a ser capazes de explicar a operação das leis de Einstein pelas da Teoria da Grande Unificação. Mas o meu interesse é pela operação das leis mais fundamentais de todas. Ou a existência de tais leis é um fato bruto e inexplicável, ou tem de ser explicada por um padrão de explicação ligeiramente diferente do científico.

A segunda forma de argumento ― o argumento da ordem espacial ― chama a nossa atenção para a complexa construção das plantas, dos animais e dos seres humanos. Eles estão organizados de modo a serem capazes de apanhar a comida a que o seu aparelho digestivo está adaptado, a escapar dos predadores mais preparados para apanhá-los, a criarem-se e a reproduzirem-se ― eles são como máquinas muito complicadas. Ora, como é óbvio, há uma explicação bem conhecida de tudo isto em termos de evolução por Seleção Natural. Há muito tempo, diz a história, existiram organismos muito simples, e eles tiveram descendentes que diferiram dos progenitores de várias formas (alguns sendo maiores, outros menores, alguns mais simples e alguns mais complexos do que os seus progenitores). Os mais bem adaptados à sobrevivência (e muitas vezes a complexidade de organização fornece uma vantagem seletiva) fizeram-no e por sua vez produziram descendentes com características que diferem ligeiramente das suas em direções aleatórias; e foi assim que as plantas, os animais e os seres humanos complexos evoluíram. Esta história é decerto basicamente correta. Mas por que é que começaram a existir organismos simples? Presumivelmente porque a matéria-energia na altura do ‘Big Bang’, quando o Universo (ou de alguma forma o seu estado actual) começou há 15 biliões de anos, tinha precisamente a quantidade, densidade e velocidade inicial para conduzir com o tempo à evolução de organismos. E por que há no Universo leis da evolução? Isto é, leis que provocam a mutação aleatória dos genes dos animais, que levam a que os animais produzam muitos descendentes etc.? Presumivelmente porque essas leis derivam de leis fundamentais da natureza. Apenas um determinado tipo de disposição crítica da matéria e determinados gêneros de leis da natureza darão origem a tais organismos. Recente trabalho científico sobre a ‘afinação’ do Universo mostrou que a matéria inicial e as leis da natureza tiveram de ter de fato características muito, muito especiais para que os organismos pudessem evoluir. Por exemplo, o Big Bang teve de ser exatamente do tamanho certo ― se tivesse sido ligeiramente maior, os quanta de energia ter-se-iam afastado uns dos outros demasiado depressa para que a matéria se pudesse condensar nas galáxias, estrelas e planetas e assim permitir que os organismos evoluam. Se o Big Bang tivesse sido ligeiramente menor, o Universo teria colapsado antes de ser suficientemente frio para que a química dos elementos se formasse e assim permitir que os organismos evoluam. Se as leis da natureza tivessem a forma atual, mas as constantes físicas que entram nelas tivessem valores ligeiramente diferentes dos atuais (ou se elas tivessem tido uma das muitas outras formas diferentes), também não teria havido evolução. É, assim, extraordinário que as condições iniciais e as leis estivessem tão ‘afinadas’ que permitissem a produção das plantas, dos animais e dos seres humanos! Uma vez mais, isso não só não é, como, devido à própria natureza da ciência, nunca poderá ser explicável cientificamente. A ciência não poderá explicar por que razão as leis básicas da natureza são como são, nem por que na altura do Big Bang (ou perpetuamente, se não houve começo) tinham as características que tinham. Tudo isso é de onde a ciência começa, o que explica outras coisas em termos de. Daí que, uma vez mais, ou esses são fatos brutos e inexplicáveis, ou têm de ser explicados por um padrão de explicação ligeiramente diferente do científico.

Felizmente existe um padrão destes que usamos constantemente na explicação dos fenómenos mundanos. Chamo-lhe explicação pessoal. Quando explicamos o fato de o livro estar na mesa, ou das palavras destas frases estarem no meu papel, explicamo-los em termos da ação de uma pessoa com capacidades para mudar as coisas e um propósito que procura assim realizar. As palavras que estão no papel têm de ser explicadas como causadas por uma pessoa (eu) com uma capacidade de mover o meu corpo de certos modos (i.e. escrever), e um propósito (ter um artigo para mandar ao editor). As explicações científicas postulam com frequência inobserváveis (e.g. prótons e elétrons) para explicar os dados observáveis; e os fundamentos para a suposição que fazem é que a hipótese explicativa é simples e leva-nos a esperar com alguma probabilidade os dados que de outra forma não esperaríamos. As explicações pessoais em termos de pessoas inobserváveis têm de ser aceites por razões análogas. A simplicidade de uma hipótese consiste em postular poucas entidades com poucas propriedades simples.

Os dados inexplicáveis pela ciência para os quais chamei a atenção ― o comportamento uniforme dos objetos de acordo com as leis da natureza, e o carácter especial dessas leis e das condições iniciais (ou limite) do Universo ― são facilmente explicáveis em termos de um Deus, onipotente (todo-poderoso), onisciente (conhece tudo) e perfeitamente livre. Está em atividade constante, movendo as estrelas e os átomos de forma regular (tal como podemos mover os nossos corpos de forma regular nos padrões de uma dança), e de modo a que, em conjunto com a matéria primeva que ele fez, dar origem aos animais e aos seres humanos. Sendo onipotente, pode fazer isso. Sendo onisciente, verá uma boa razão para fazê-lo. Um mundo que evolui regularmente é bonito, e os seres humanos que surgirão podem eventualmente aprender como funciona, o que só poderão fazer se houver leis da natureza simples, que entendam e possam depois até certo ponto escolher como modelar o mundo para o bem ou para o mal. É bom que existam seres humanos desempenhando um papel no processo de criação. Deus, sendo perfeitamente livre, não será impedido por forças irracionais de criar o que percebe ser bom.

Diz-se às vezes que sendo as leis da natureza como são, e sendo as condições iniciais como são no nosso Universo, este seria explicado se existisse um trilhão de outros universos com leis e condições iniciais diferentes. Seria então muito provável que existisse um universo em que esses fatores fossem exatamente os corretos para a evolução dos animais e dos seres humanos. Mas seria o cúmulo da irracionalidade postular um trilhão de universos (por oposição a um Deus) a fim de explicar o nosso Universo, a menos que existam características particulares do nosso Universo que sejam mais bem explicadas por uma super-teoria que tenha como consequência o trilhão de universos. Mas mesmo uma tal super-teoria teria de postular condições-limite muito especiais para o super-Universo de universos e super-leis da natureza muito especiais, que tivessem como consequência a evolução de uma variedade tal de universos que tornasse muito provável que pelo menos num houvesse a evolução da vida. A maior parte das super-teorias (para além de serem muito complicadas) não terão essa consequência. Assim temos o problema de saber precisamente porque o super-Universo tinha as leis da natureza e as condições-limite que tinha. E assim uma vez mais, quer se trate de um universo ou de um super-universo, ou a sua ordem e o seu carácter ‘afinado’ são fatos brutos e inexplicáveis ou têm de ser explicados por um padrão de explicação ligeiramente diferente do científico.

A hipótese do teísmo é uma hipótese muito simples. Postula um ser pessoal, não muitos. As pessoas são seres com poderes para mudar o mundo, conhecimento de como fazê-lo, e algum grau de liberdade na forma de fazê-lo. Deus é postulado como um género muito simples de pessoa ― tendo graus infinitos de poder, conhecimento e liberdade; ou, pondo negativamente, limite zero ao seu poder, conhecimento e liberdade. Os cientistas postulam sempre graus infinitos (ou zero) de propriedades como a hipótese mais simples, se o podem fazer consistentemente com os dados. Postulam que os fotons têm massa em repouso zero, em vez de alguma massa em repouso muito, muito pequena que iria predizer os dados igualmente bem; e costumavam postular que a força da gravidade tinha velocidade infinita até que outras considerações os obrigaram a aceitar uma hipótese diferente. Postular Deus é postular um ser de um gênero muito simples, e essa hipótese faz com que não seja improvável que encontremos os dados para os quais chamamos a atenção.

Supor que os dados são apenas fatos brutos e inexplicáveis parece, contudo, altamente irracional. Supor simplesmente que é uma grande coincidência que cada pedaço de matéria por todo o Universo se comporte exatamente da mesma forma é terrivelmente irracional ― e ainda mais quando há uma hipótese rival simples que nos leva a esperar esses dados, assim como que o mundo esteja afinado para produzir os animais e os seres humanos. A razão conduz-nos inevitavelmente da Natureza para a Natureza de Deus. [Richard Swinburne, in Think, Spring 2002, pp. 49-54. Tradução de Álvaro Nunes. Uma versão anterior deste artigo foi publicada previamente no Times Higher Education Supplement. Para uma discussão mais completa, veja-se Richard Swinburne, Será que Deus existe? (Lisboa, Gradiva, 1998).]

cientistas, esses ignorantes

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Isaac Newton (1642-1727), fundador da física clássica e descobridor da lei da gravidade:

A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isso fica sendo a minha última e mais elevada descoberta.

William Herschel (1738-1822), astrônomo alemão, descobridor do planeta Urano:

Quanto mais o campo das ciências naturais se dilata, tanto mais numerosas e irrefutáveis se tornam as provas da eterna existência de uma Sabedoria criadora e todo-poderosa.

Alessandro Volta (1745-1827), físico italiano, descobridor da pilha elétrica e inventor, cujo nome deu origem ao termo “voltagem”:

Submeti a um estudo profundo as verdades fundamentais da fé, e […] desse modo encontrei eloqüentes testemunhos que tornam a religião acreditável a quem use apenas a sua razão.

André Marie Ampère (1775-1836), físico e matemático francês, descobridor da lei fundamental da eletrodinâmica, cujo nome deu origem ao termo “amperagem”:

A mais persuasiva demonstração da existência de Deus depreende-se da evidente harmonia daqueles meios que asseguram a ordem do universo e pelos quais os seres vivos encontram no seu organismo tudo aquilo de que precisam para a sua subsistência, a sua reprodução e o desenvolvimento das suas virtualidades físicas e espirituais.

Jons Jacob Berzelius (1779-1848), químico sueco, descobridor de inúmeros elementos químicos:

Tudo o que se relaciona com a natureza orgânica revela uma sábia finalidade e apresenta-se como produto de uma Inteligência Superior […] O homem […] é levado a considerar as suas capacidades de pensar e calcular como imagem daquele Ser a quem ele deve sua existência.

Karl Friedrich Gauss (1777-1855), alemão, considerado por muitos como o maior matemático de todos os tempos, também astrônomo e físico:

Quando tocar a nossa última hora, teremos a indizível alegria de ver Aquele que em nosso trabalho apenas pudemos pressentir.

Agustin-Louis Cauchy (1789-1857), matemático francês, que desenvolveu o cálculo infinitesimal:

Sou um cristão, isto é, creio na divindade de Cristo como Tycho Brahe, Copérnico, Descartes, Newton, Leibniz, Pascal […], como todos os grandes astrônomos e matemáticos do passado.

James Prescott Joule (1818-1889), físico britânico, estudioso do calor, do eletromagnetismo e descobridor da lei que leva o seu nome:

Nós topamos com uma grande variedade de fenômenos que […] em linguagem inequívoca falam da sabedoria e da bendita mão do Grande Mestre das obras.

Ernest Werner von Siemens (1816-1892), engenheiro alemão, inventor da eletrotécnica e que trabalhou muito no ramo das telecomunicações:

Quanto mais fundo penetramos na harmoniosa dinâmica da natureza, tanto mais nos sentimos inspirados a uma atitude de modéstiae humildade […] e tanto mais se eleva a nossa admiração pela infinita Sabedoria, que penetra todas as criaturas.

William Thompson Kelvin (1824-1907), físico britânico, pai da termodinâmica e descobridor de várias leis da natureza:

Estamos cercados de assombrosos testemunhos de inteligência e benévolo planejamento; eles nos mostram através de toda a natureza a obra de uma vontade livre e ensinam-nos que todos os seres vivos são dependentes de um eterno Criador e Senhor.

Thomas Alva Edison (1847-1931), inventor, com maisde 2.000 patentes, entre elas a da lâmpada elétrica:

Tenho […] enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles: Deus.

Guglielmo Marconi (1874-1937), físico italiano, inventor do telégrafo sem fio, prêmio Nobel em 1909:

Declaro com ufanismo que sou homem de fé. Creio no poder da oração. Creio nisto não só como fiel cristão,mas também como cientista.

John Ambrose Fleming (1849-1945), físico britânico, descobridor da válvula e do diodo:

A grande quantidade de descobertas modernas destruiu por completo o antigo materialismo. O universo apresenta-se hoje ao nosso olhar como um pensamento. Ora, o pensamento supõe a existência de um pensador.

Arthur Eddington (1882-1946), físico e astrônomo britânico:

A física moderna leva-nos necessariamente a Deus.

Max Plank (1858-1947), físico alemão, criador da teoria dos quanta, prêmio Nobel em 1928:

Para onde quer que se estenda o nosso olhar, em parte alguma vemos contradição entre ciências naturais e religião, antes encontramos plena convergência nos pontos decisivos. Ciências naturais e religião não se excluem mutuamente, como hoje em dia muitos pensam e receiam, mas completam-se e apelam uma à outra. Para o crente, Deus está no começo; para o físico, Deus está no ponto de chegada de toda a sua reflexão.

Albert Einstein (1879-1955), físico judeu-alemão,criador da teoria da relatividade, prêmio Nobel em1921:

Todo o profundo pesquisador da natureza deve conceber uma espécie de sentimento religioso, pois não pode admitir que seja ele o primeiro a perceber os extraordinariamente belos conjuntos de seres que contempla. No universo, incompreensível como é, manifesta-se uma inteligência superior e ilimitada. A opinião corrente de que sou ateu baseia-se num grande equívoco. Quem a quisesse depreender das minhas teorias científicas, não teria compreendido o meu pensamento.

Carl Gustav Jung (1875-1961), suíço, um dos fundadores da psicologia analítica:

Entre todos os meus pacientes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu aos seus adeptos, e nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria.

Werner von Braun (1912-1977), físico alemão naturalizado norte-americano, especialista em foguetes e principal diretor técnico dos programas da NASA (Explorer, Saturno e Apolo), que culminaram com achegada do homem à lua:

Não se pode de maneira nenhuma justificar a opinião, de vez em quando formulada, de que na época das viagens espaciais temos conhecimentos da natureza tais que já não precisamosde crer em Deus. Somente uma renovada fé em Deus pode provocar a mudança que salve da catástrofe o nosso mundo. Ciência e religião são, pois, irmãs, e não pólos antitéticos […] Quanto mais compreendemos a complexidade da estrutura atômica, a natureza da vidaou o caminho das galáxias, tanto mais encontramos razões novas para nos assombrarmos diante dos esplendores da criação divina.

mindwalk

PONTO DE MUTAÇÃO

Ficha técnica
Título Original: Mindwalk
Idioma: Inglês, Legendas em Português
Ano de produção: 1990
Duração: 126 min.
Elenco: Liv Ulmann, Sam Waterston, John Heard
Direção: Bernt Capra
Produção: Lintschinger/Cohen

Uma cientista desencantada com o projeto Guerra nas Estrelas, um candidato democrata conservador à presidência dos Estados Unidos e um poeta e dramaturgo em crise existencial, discutem, em um castelo medieval no litoral da França, temas como os Caminhos da Ciência, a Natureza e o Homem, Descartes, Einstein, Ecologia, Política, Física Quântica etc., sob a perspectiva de um novo paradigma, uma nova visão de mundo.

Atuações brilhantes de Liv Ullmann, Sam Waterston e John Heard.

Locações feitas num dos mais visitados pontos turisticos da França, o castelo medieval localizado no Mont Saint Michel.

[Veja post abaixo]