O 1. rap brasileiro

Deixa isso pra lá
by Jair Rodruigues et. al.
live Auditório Ibirapuera

Em 2013, na apresentação de final de ano da escola de música do meu filho, esse menino de 75 anos apareceu para dar uma palavrinha e acabou dando um verdadeiro show em 10 min: o Jair falou e disse, contou piada, cantou duas músicas e, pasmem, até plantou bananeira, de terno mesmo… Foi impressionante. Um verdadeiro showman.

Ao longo do dia, ouvi vários depoimentos sobre o artista Jair Rodrigues e a sua pessoa. Parece mesmo que o artista e a pessoa eram uma coisa só, ou seja, o artista não era uma personagem: o Jair era assim mesmo, sempre alegre, carinhoso, otimista e apaixonado –pela música, pela vida, pelas pessoas.

Esse é, na minha opinião, um mito que nos caberia, brasileiros, cultivar. (Mil vezes mais do aquela metáfora de hamster, cujo esporte consistia em ficar girando como numa roda.)

Morreu hoje, pelo que ouvi, na sauna ou depois da sauna, dormindo. Não é a primeira morte relacionada à sauna de que tenho notícia. (É preciso tomar cuidado!) E ultimamente tivemos outras notícias de morte durante o sono. (Pode parecer a morte dos sonhos… mas, se pudesse escolher, eu preferiria morrer acordado!)

Posso parecer piegas, mas o Brasil de fato acordou hoje menos alegre.

Mestre revolucionário

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Só hoje, depois de ano e meio, é que vim a saber da morte do maestro Alberto Jaffé (13-6-2012).

Professor, violinista, maestro e compositor, foi o criador do método que leva o seu nome, Método Jaffé, ainda hoje utilizado em todo o país e que revolucionou o ensino de música com o uso de semelhanças entre instrumentos para promover o ensino coletivo de cordas.

Quando Alberto Jaffé tinha oito anos, deu seu primeiro recital de violino no Rio de Janeiro. Com o passar do tempo solidificou uma carreira de sucesso, com prêmios e apresentações em muitos países, principalmente ao lado da esposa, a pianista Daisy de Luca. Também atuou como solista em orquestras brasileiras e de Israel, Bélgica, Espanha, Alemanha, América Central, México e dos EUA.

Depois de fazer sua pós-graduação na Alemanha, com Max Rostal, Alberto Jaffé dirigiu o Curso Internacional de Verão Pro Arte, e muitos outros cursos. De 1982 a 1985, ele foi codiretor do Departamento de Música da National Academy of Arts in Champaign, em Illinois, e também professor de violino, viola e música de câmara na University of Illinois.

No início da década de 1970, com a experiência adquirida no ensino de música, criou o referido método de ensino coletivo de instrumentos de cordas, que colaborou com a formação de muitos dos principais músicos em atuação e até hoje é utilizado nas principais escolas de música do país.

Uma de suas alunas, a vioinista Adriana A. Maresca, toca na Orquestra Sinfônica de S.André e leciona na Escola Casa da Música, onde é professora de violino do meu filho, Tomás.

Tive a oportunidade de ser eu também aluno do maestro Jaffé no final da década de 1970 (!), na extinta Orquestra de Cordas do Sesc, que funcionava na filial da rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque, centro da cidade de S.Paulo. Embora tenha participado apenas um ano do projeto, foi uma experiência marcante. Em pouco tempo, estávamos eu e colegas já tocando versões simplificadas de grandes clássicos. Cheguei, aliás, a participar –como integrante do naipe de terceiros (!) violinos– da gravação de um LP.

Mas o melhor de tudo foi sem dúvida a convivência com a figura humana do saudoso maestro. Um homem que, apesar do talento e do reconhecimento internacional, era sempre acessível, compreensivo e de muito bom humor.

Fica aqui, pois, ainda que com atraso, a minha singela homenagem ao grande mestre Alberto Jaffé.

Philip Seymour Hoffman (1967 – 2014)

Acabo de saber da morte, com apenas 46 anos, de um dos meus atores preferidos, o estadosunidense Philip Seymour Hoffman. Sem dúvida um dos melhores de sua geração, o premiado ator era capaz de brilhar mesmo em papéis secundários, roubando literalmente a cena.
Era um daqueles atores-camaleão, que, como ensina um amigo, encarna a personagem a pouco de ficar irreconhecível. Comparem-se, por exemplo: o enfermeiro de Magnólia; o guru charlatão de O Mestre; Truman Capote, de Capote; o gênio do mal de Missão Impossível 3; o “modernista” e ambíguo padre de Dúvida etc. É uma coisa impressionante.
Uma grande perda para a Sétima Arte. Menos um grande ator para nos alegrar e enriquecer.

Mahatma Gandhi (1869-1948)

Celebra-se hoje, 30-1, o 66. aniversário de morte de um dos maiores homens de toda a história, Mohandas Karamchand Gandhi (Porbandar, 2 de outubro de 1869 — Nova Déli, 30 de janeiro de 1948), mais conhecido popularmente por Mahatma Gandhi.
Foi o idealizador e fundador do moderno Estado indiano e um dos maiores defensores do princípio de satyagraha (“caminho da verdade” ou “busca da verdade”) como forma não violenta de transformação. O princípio da não violência também inspirou vários ativistas democráticos e antirracistas, como Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela.
Gandhi afirmava com frequência a simplicidade de seus valores, derivados da tradição hindu, especialmente do Bhagavad Gita: verdade (satya) e não violência (ahimsa). Em sua autobiografia,The Story of my Experiments with Truth, Gandhi explica sua filosofia como um modo de vida.
Deve-se esclarecer que satyagraha, um dos principais ensinamentos de Gandhi, designa uma forma não violenta de protesto, que não deve ser confundida com a passividade; trata-se de uma forma de ativismo, que muitas vezes implica a desobediência civil.
Estritamente vegetariano, escreveu livros sobre o vegetarianismo enquanto estudava direito em Londres. Ser vegetariano fazia parte das tradições hindus e jainistas. Gandhi experimentou diversos tipos de alimentação e concluiu que uma dieta deve ser suficiente apenas para satisfazer as necessidades do corpo humano. Jejuava muito, e usava o jejum frequentemente como estratégia política.
Gandhi renunciou ao sexo quando tinha 36 anos de idade e ainda era casado, uma decisão que foi profundamente influenciada pela crença hindu do brahmacharya, pureza espiritual e prática, largamente associada ao celibato. Também passava um dia da semana em silêncio. Abster-se de falar, segundo acreditava, dava-lhe paz interior. A mudez tinha origens nas crenças do mouna e do shanti. Nesses dias, ele se comunicava com os outros apenas escrevendo.
O título de Mahatma (do sânscrito mahatma, “grande alma”), atribuído a Gandhi, representa o reconhecimento por seu papel como líder espiritual.
Depois de retornar à Índia de sua bem-sucedida carreira de advogado na África do Sul, ele deixou de usar as roupas que representavam riqueza e sucesso. Passou a usar um tipo de roupa que costumava ser usada pelos mais pobres entre os indianos. Promovia o uso de roupas feitas em casas (khadi).
Gandhi e seus seguidores fabricavam artesanalmente os tecidos da própria roupa e usavam esses tecidos em suas vestes; também incentivava os outros a fazer isso, o que representava uma ameaça ao negócio britânico – apesar de os indianos, em sua maioria, estarem desempregados, em grande parte pela decadência da indústria têxtil, eles eram forçados a comprar roupas feitas em indústrias inglesas. O tear manual, símbolo desse ato de afirmação, viria a ser incorporado à bandeira do Congresso Nacional Indiano e à própria bandeira indiana.
Também era contra o sistema convencional de educação em escolas, acreditando que as crianças aprenderiam mais com seus pais e com a sociedade.
Sobre Gandhi, Albert Einstein escreveu que “as gerações vindouras terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra”.

S.Tomás de Aquino

Comemora-se hoje, 21-1, entre os católicos, o dia de São (ou Santo) Tomás de Aquino. Os luteranos o comemoram no dia 8-3. Tommaso D’Aquino nasceu em Roccasecca ou Belcastro, na Itália, no ano de 1224 ou 1225 e morreu na Abadía de Fossanuova, também na Itália, no dia 7-3-1274.  Padre dominicano, teólogo, filósofo, expoente máximo da escolástica, proclamado santo e cognominado Doctor Communis ou Doctor Angelicus pela Igreja Católica. Talvez seu maior mérito tenha sido a síntese que realizou entre o catolicismo e o aristotelismo, este último reintroduzido no Ocidente pelos pensadores árabes (Averroes, Avicena et al.). Sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de sua época em suas duas Summae: a Summa Theologiae e a Summa Contra Gentiles.

Tanto o dialético Hegel quanto o analítico Russell não consideravam Tomás como um filósofo, mas sim como teólogo.

De fato, a diferença entre a teologia e a filosofia reside no fato de que a primeira não questiona seus pressupostos (a verdade revelada nas escrituras sagradas e, no caso do catolicismo, também na tradição apostólica). Mas é preciso acrescentar que, embora não aceite nenhum pressuposto sem crítica, ou seja, sem justificação, a filosofia não é possível sem pressuposto algum, ao passo que é possível uma filosofia fundada no absoluto.

Como quer que seja, é inegável o valor espiritual da obra do pensador aquinatense.

No século passado, estudiosos como o francês Étienne Gilson e o italiano Cornelio Fabro, por assim dizer, redescobriram a metafísica do Doutor Angélico: a filosofia do ser como ato ou a filosofia do ato de ser.

Grosso modo, trata-se do ser como tal em sua realidade operante, criativa, que não pode ser confundida com a categoria ou o conceito do ser. Do ser mesmo só podemos saber (conceitual ou categorialmente) que ele é, mas não o que ele é. O que as coisas são nos é dado por sua essência, essa sim concebível por conceitos. Natureza, essência, conceito, definição são conceitos afins. O ser transcende esse nível.

Para os escolásticos, os transcendentais consistem justamente numa espécie de supracategorias, de atributos ontológicos comutáveis entre si ou intercambiáveis. Segundo Tomás, são ele: res (a coisa), unum (o uno, a unidade), aliquid (alteridade), verum (o verdadeiro), bonum (o bem), e, last but not least, ens (o ente).

Esse assunto é muito delicado, principalmente para não especialistas como eu. Por exemplo, quando, logo acima, usei a expressão “espécie de supracategorias”, fui infeliz e corri o risco de levar o leitor a mal-entender o tomismo como se fora algum tipo de essencialismo. Pois a definição de um conceito (ou categoria) se obtém justamente pela especificação do gênero (p. ex., homem é animal [gênero] racional [espécie]). Parece que mesmo grandes tomistas, como Jacques Maritain, teriam sucumbido ao essencialismo, ao não atentarem para a diferença –destacada por Gilson e Fabro– entre ser (ato) e essência (potência).

Para finalizar esta nota, gostaria de lembrar outra sacada genial do Doutor Comum. Trata-se de sua contribuição para a chamada Querela do Universais.

Havia então duas posições antagônicas e mais uma terceira, intermediária; respectivamente, o nominalismo, o realismo e o conceptualismo. Para o nominalismo, os universais não passam de nomes, flatus voices, convenções fonéticas que usamos para classificar as coisas singulares; para o realismo, ao contrário, os universais são transcendente (Platão) ou imanentemente (Aristóteles) reais, e, finalmente, para o conceptualismo, os universais são representações mentais abstraídas das coisas.

Tomás de Aquino, fazendo valer a potência lógica de seu intelecto, sintetizou, então, as três posições conflitantes numa única: os universais existem antes das coisas (ante rem), na mente de Deus, como “ideias platônicas”; nas coisas (in re), como “essências aristotélicas”, e depois das coisas (post rem), na mente do homem, como “ideias humeanas”.