Incompetência administrativa

Folha de S. Paulo de hoje, 31-1, noticia que o secretário estadual da Educação de São Paulo, Herman Voorwald, reconheceu ontem que algumas escolas da rede ficaram sem professor nesta semana devido a um erro administrativo.
Até aqui se trata apenas de incompetência administrativa, aquilo que o secretário chama eufemisticamente de “erro”. Mas a seguir vem a emenda do soneto:

Os contratos de 280 professores não foram encerrados até 18 de dezembro, data limite para que os temporários ficassem 40 dias fora das escolas, evitando assim que se configurasse vínculo empregatício.

Essa é a situação das nossas escolas. Professores sendo ludibriados pelo Estado do mesmo modo que empregados domésticos o são –mesmo depois da Emenda Constitucional 72/2013– por famílias que não querem contrair com eles “vínculo empregatício”.
O resultado imediato é que parte das faltas dos professores foi coberta por outros docentes temporários e eventuais. Não se sabe ao certo a quantidade de escolas sem professores.
O resultado mediato é o descalabro puro e simples da educação pública no estado mais “desenvolvido” da federação.

Extensão cultural

O novo reitor da USP, Marco Antonio Zago, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo no último dia 25, enfatiza o papel cultural da universidade.
Diz ele, entre outras coisas, o seguinte: “As universidades existem para prover educação superior de excelência às novas gerações e para promover a pesquisa, entendida em sentido amplo: investigação experimental e tecnológica; pesquisa das questões econômicas, sociais e políticas; e da produção da cultura e da arte em todas as suas formas de expressão”.

Chamam a atenção, nesse trecho, pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, o reitor esquece-se do terceiro elemento do tripé que sustenta a ideia contemporânea de universidade: além de pesquisa e ensino, a extensão.* Em segundo, acrescenta ele um quarto pé: a cultura.

Sim, a cultura pode muito bem cumprir o papel de estender a “produção” universitária à sociedade. Mas a ideia de extensão é mais abrangente que a vida cultural. Trata-se, para além de alimentar a comunidade com cultura, de prestar-lhe vários serviços, de consultoria jurídica a atendimento médico.

Aliás, parece que a extensão universitária não constitui propriamente um terceiro elemento, ou pé, mas uma ideia, uma espécie de princípio regulador ou diretivo de todo o organismo universitário.

Em outras palavras, o sentido mesmo da universidade consiste na relevância que a pesquisa, o ensino e a “produção” cultural que são realizados nela, intramuros, têm para a sociedade em geral.

Não obstante, é verdade que a cultura, em particular, a arte, pela própria natureza, tem o condão de (inter)mediar teoria e prática — como nos esclarecem Kant e Schiller, p.ex.

Nesse sentido, será muito bem-vinda a valorização por parte do novo reitor da USP, uma das universidades mais importantes da América Latina, do papel da cultura, em geral, e da arte, em particular, na relação dessa instituição com a comunidade.

*Nota: O princípio da indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão está estabelecido na Constituição Federal (1988), Cap. III, Seç. I, Art. 207, como segue: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.