O mundo por José Mujica

«Em sua nona videocoluna para a DW, o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, questiona-se como um mundo no qual a produtividade se multiplica à esteira da tecnologia não consegue socorrer suas crianças pobres. Para ele, os governos centrais são incapazes de superar suas visões de curto prazo e egoístas para resolverem o problema.»

Veja: Consciência Sul, DW.COM, 2/1/17

messianismo

O credo petista converteu-se em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante que justifica o injustificável

por MARCELO O. DANTAS

EM MEADOS do século 17, ainda sob o impacto da expulsão dos sefarditas da península ibérica, muitos judeus passaram a ansiar pela vinda de um messias que pusesse termo aos sofrimentos do exílio, restaurando a autonomia política do povo de Israel. Movido por essa esperança, um obscuro estudioso da cabala, Sabbatai Zevi, deu início a sua pregação milenarista.

Homem de temperamento inconstante, Sabbatai logo se indispôs com os rabinos de Smyrna (atual Turquia), que o expulsaram da cidade. Após 17 anos de insucesso, o estranho místico estava prestes a desistir de tudo. Decidiu então ir a Jerusalém consultar-se com Nathan de Gaza, um jovem profeta. Foi quando teve revelada a natureza divina de sua missão. Ele (Sabbatai) era o tão aguardado messias.

A boa-nova não tardou a empolgar a diáspora judaica. Iniciava-se o ano de 1666, data prevista por alguns para o confronto do redentor (1) com a besta (666). Acompanhado por cortejo digno de um príncipe, o eleito de Iahweh rumou a Istambul, certo de que imporia sua autoridade sobre o sultão. Deu-se o oposto. Feito prisioneiro, Sabbatai esconjurou o martírio, convertendo-se ao islã. Seria o fim de qualquer empreitada sensata, não operasse o messianismo na freqüência do mito. Em lugar de causar perplexidade, a apostasia do messias passou a ser vista por seus adeptos como um “pecado santo”. Segundo Abraham Miguel Cardozo, um dos mais destacados teólogos do movimento, o ato paradoxal de Sabbatai Zevi fora um sacrifício voluntário.

Por meio desse mergulho no abismo, ele chegaria ao coração do mal e ali o liqüidaria por dentro, libertando as últimas partículas de luz aprisionadas nas esferas da impureza. Entre os adeptos do sabbatianismo, duas grandes correntes se formaram.

Os moderados acreditavam que somente a alma do messias seria capaz de resistir a um contato tão estreito com as forças do mal. Enquanto não ocorresse o retorno glorioso do ungido à verdadeira fé, o povo de Israel deveria observar os preceitos morais da ortodoxia rabínica, malgrado sua natureza imperfeita e transitória.

Em contraste, a ala radical passou a defender uma modalidade exacerbada de antinomismo: todos os adeptos deveriam imitar o exemplo do messias e descer às profundezas da escuridão. Segundo o sinistro Jacob Frank, somente por meio do pecado seria possível chegar à transcendência: o advento da era messiânica reclamava a superação definitiva da ética mosaica, fundada sobre a dicotomia opressiva dos conceitos de certo e errado, bem e mal.

Semelhante heresia nunca chegou a desaparecer por completo. Suprimidos os últimos remanescentes do movimento, a idéia sabbatiana continuou a existir, em estado latente, no mundo das eternas possibilidades. Até que veio ressurgir, com roupagem secular, no Brasil do mensalão.

Não é segredo que o PT se estruturou como agremiação messiânica. Durante mais de duas décadas, seus militantes se portaram como adeptos de uma seita guerreira destinada a libertar o povo brasileiro de cinco séculos de opressão. Eles eram os puros, os eleitos, os apóstolos do Partido Messias. Mais que uma fantasia revolucionária, sua mensagem anunciava ao país a aproximação do tempo do milagre, em que o mal seria vencido e os bons enfim reinariam.

A inconsistência dessa fábula foi posta em xeque com a chegada do partido ao poder e o abandono do discurso ético que pautara sua ascensão. Curiosamente, em lugar de aceitar o desafio da realidade como estímulo ao pensamento crítico, boa parte da militância optou pelo caminho esquivo da alienação mística. Importava, acima de tudo, preservar a fé na santidade do messias. O credo petista converteu-se, assim, em um neosabbatianismo radical, alimentado por uma intelectualidade delirante, especializada em justificar o injustificável.

Marilena Chaui revelou ao mundo a teleologia da corrupção; Paulo Betti defendeu o caráter soteriológico do pecado; e o solerte Wagner Tiso abriu mão de seu coração de estudante para encavalar o espírito pragmático de Jacob Frank. O pacto com o fisiologismo e a conversão à ortodoxia econômica passaram a ser tratados como pecados santos -alianças temporárias do messias apóstata com o dragão burguês destinadas a acelerar o tempo histórico e facilitar o advento da era escatológica. Nestes tempos messiânicos, até o maná foi reinventado.

“Eles estão chegando!”, anuncia-nos o senador Mercadante, enquanto nos bastidores salva o mandato do colega mercador. Hoje, os petistas aceitam tudo. Menos que alguém ouse pensar por conta própria. [FOLHA 23/12/07]

os 5 principais eventos do ano

Promoção do aumento de tropas no Iraque, retração do crédito imobiliário, autoritarismo no Paquistão e ascensão de Moscou e Pequim marcaram 2007

por GIDEON RACHMAN
do “FINANCIAL TIMES”

Alguns acontecimentos mudam o mundo em um instante: a queda do Muro de Berlim; os tanques invadindo a praça Tiananmen; os aviões colidindo com o World Trade Center.

Até o agora não houve momentos decisivos como esses em 2007. Talvez devêssemos ser gratos por isso, já que os acontecimentos que abalam o mundo são freqüentemente atos súbitos de violência chocante. Ainda assim, pretendo tentar montar uma lista com os cinco mais importantes acontecimentos dos últimos 12 meses:

Janeiro: o “surge”. É cedo para dizer se a decisão do presidente George W. Bush de reforçar o número de soldados americanos no Iraque será vista como o momento em que os EUA começaram a reverter a situação ou não. As grandes questões ainda sem resposta são: temos uma guerra civil a ponto de eclodir? O que acontecerá quando os EUA retirarem seus soldados adicionais? Mesmo assim, já se tornou claro que o reforço das forças de ocupação foi um acontecimento importante. Demonstrou que Bush havia decidido rejeitar o Relatório Baker, considerado por muitos uma estratégia de saída para os americanos. No fim do ano, a redução da violência no Iraque começou a convencer alguns dos céticos da idéia. Até mesmo os principais candidatos democratas à Presidência têm se recusado a prometer que todas as tropas sairão do país até 2013. O reforço demonstrou que os EUA estão no Iraque para ficar.

Fevereiro: o discurso do presidente Vladimir Putin em Munique. O presidente russo sinalizou um novo clima de política externa em seu país, com um discurso extraordinariamente irado no qual acusava os EUA de um “uso excessivo, quase descontrolado, de força (…) que está arremessando o mundo num abismo de conflitos”. O discurso abriu um ano no qual a Rússia vem se provando cada vez mais ativa em todos os aspectos da política internacional. O preço elevado do petróleo e a economia doméstica em alta reforçaram a confiança do governo. E essa postura mais ativa no exterior veio acompanhada de maior autoritarismo no país. A Rússia crê que está de volta ao cenário e quer que o mundo saiba disso.

Agosto: a compressão de crédito. A crise do setor americano de empréstimos imobiliários continua a se desenvolver. Talvez venha a se provar “apenas” um problema financeiro e econômico. Mas a capacidade do consumidor americano de continuar comprando foi fundamental para a economia mundial nos últimos anos. Caso a crise no mercado de crédito imobiliário de risco altere esse fator e conduza indiretamente a novas quedas do dólar, haverá implicações políticas. O relacionamento entre a China e os EUA vai se deteriorar; a economia européia sofrerá pressão, e o mesmo se aplica a todo o sistema mundial de comércio. Os EUA terão mais dificuldade para pagar as contas que lhe cabem como policial do planeta.

Novembro: a PetroChina se torna a mais valiosa companhia do mundo. Sim, há diversas razões para que o fato seja considerado como uma espécie de miragem. Apenas 2,2% das ações da empresa foram colocadas em circulação na bolsa de valores de Xangai; o valor de mercado avaliado para o grupo supera o US$ 1 trilhão, o que indica uma bolha nas ações chinesas. Ainda assim, o fato de que a empresa de maior valor no mundo agora seja chinesa tem peso simbólico inegável.

Novembro: o minigolpe de Estado do ditador do Paquistão, Pervez Musharraf. O Paquistão é um país para o qual todas as mais espinhosas questões da política externa americana parecem confluir. A política de Washington é promover a democracia, atacar o terrorismo e reprimir a proliferação nuclear. Mas, no Paquistão, os americanos se vêem aliados a um regime militar, a um país que promoveu a proliferação nuclear e a um parceiro ambíguo e pouco confiável nas guerras contra o terrorismo e o Taleban no vizinho Afeganistão. A decisão do general Musharraf de reter o poder e trancafiar os juízes do país representa severo embaraço para o Ocidente e prova até que ponto o Paquistão continua instável. Mas os EUA decidiram continuar a apoiá-lo, porque as demais opções plausíveis parecem piores.

Existe um tema comum que una esses cinco acontecimentos? Evidentemente. O elo é o desgaste crescente pelo qual vem passando a única superpotência que resta no mundo. Os americanos estão presos em uma guerra desgastante e desmoralizante. A Rússia, um velho adversário, está se tornando mais ativa no cenário internacional. A China, um novo rival, está em ascensão. O Paquistão, um aliado vital, ameaça desmoronar. A economia americana vem sofrendo a maior pressão que enfrentou em anos. Feliz Ano Novo. [FOLHA 23/12/07]

sobre a Natividade

“Deus está morto. Deus continua morto”? [A Gaia Ciência, Friedrich W. Nietzsche]

SIM

por OSWALDO GIACOIA JUNIOR

“NÃO ERRAMOS nós, como em meio a um nada infinito?”. No mesmo texto em que o louco de Nietzsche anuncia o assassinato de Deus, surge outra pergunta, mais incisiva: “Não são então essas igrejas mausoléus e criptas de Deus?”, indagação que culmina no paradoxo que encerra o aforismo: “Procuro Deus, procuro Deus…”.

Busca trágica, cada vez menos compreensível, na medida em que nos enredamos num humanismo autista. Obcecados em desmascarar o divino, assumimos a condição de produtores de nossa própria existência. Mas, com isso, vem à luz o elemento que, há alguns séculos, permanecia latente: a aliança entre o niilismo e o domínio absoluto da razão instrumental.

O sonho emancipatório das luzes, a altivez da crítica, a que tudo deve ser submetido, desandou na barbárie de duas guerras mundiais num único século. A mesma “ratio” calculatória, capaz de solucionar o problema da fome no mundo, condena à exclusão e à miséria mais da metade de seus habitantes. O humanismo esclarecido degenerou no Holocausto e hoje patrocina a guerra civil legal, num estado de exceção permanente.

Fica claro que esse humanismo é metafísica -e, com o esgotamento desta, perece também a dimensão do ideal e do idealismo na desertificação das utopias. É nisso que resulta a perda da transcendência. Pois transcender é determinação constitutiva do existir, de modo que, desgarrados, tornamo-nos progressivamente desumanos, infra-humanos, inumanos.

E assim nos dispomos uma vez mais a celebrar no Natal a festa máxima da cristandade. Estamos em condições de fazê-lo com boa consciência? Em que medida, para além dos hábitos de consumo, a Natividade pode ser vivida por nós como um novo começo? Como uma esperança que perpetuamente se renova? Como nos postamos hoje em relação à transcendência, aquele âmbito em que, existencialmente, se abre o horizonte do possível para uma experiência do sagrado, de Deus e dos deuses, para além de nosso delírio de onipotência?

Nosso afã humanista pôs em fuga Deus e os deuses, emudecidos, obstinadamente de costas para nós. Seu silêncio não é senão o eco de nossa mudez. Sartre cunhou o lema do humanismo contemporâneo: vivemos num plano em que existem unicamente os homens, em que a escolha humana define nossa essência e nosso futuro.

Mas não é também verdade que a Terra, totalmente esclarecida, irradia o infortúnio triunfal, pairando à beira do abismo de uma crise ecológica de dimensões cósmicas? Nietzsche, o Anticristo, nunca foi tão paradoxalmente atual -ele não cessou de gritar nos ouvidos moucos do homem moderno sua distância em relação a uma experiência efetiva de Natividade.

Impávidos, precipitamo-nos a passos de gigante na transição para o Super-Homem pós-humano, artefato da nanotecnologia do “homo faber”. Incapazes de viver até o fim as possibilidades do humano na história, atrevemo-nos irrefletidamente a projetar nosso destino e futuro. Pergunto-me se, atolados no hedonismo consumista, estaríamos em condições de acolher um verdadeiro Emanuel.

No ápice de sua realização, o humanismo contemporâneo ofusca a consciência da alienação que ele próprio engendra. Como resultado, estamos nos tornando cegos e surdos para a abertura do único âmbito extático em que nos seria ainda possível uma remissão do pesadelo em que nos lançou nosso programa de emancipação.

Afinal, o sonho de dominação da natureza, com refundação racional da sociedade, se tornou apocalíptico -escatologia macabra em que nosso poder-fazer pode efetivar um extermínio talvez irreversível das condições de nossa existência. Hoje, não carecemos mais de células pluripotentes de embriões humanos para produzir concretamente o eterno retorno do mesmo. Será que teremos como prometer, responsavelmente, que uma vida humana possa nascer sobre a Terra sob a forma de futuras gerações de seres humanos?

Gostaria muito de que ainda pudéssemos fazê-lo. Pois assim poderíamos nos desejar mutuamente, de todo o coração e em seu espírito mais autêntico, um feliz e abençoado Natal. [FOLHA 22/12/07]

schengen visa

Europa sem fronteiras será expandida a 24 países à meia-noite de hoje

Bruxelas, 20 dez (EFE).- A Europa sem fronteiras dará um salto simbólico à meia-noite de hoje, quando serão encerrados os controles terrestres e marítimos com nove países que entraram na União Européia (UE) em 2004, estendendo-se a um total de 24 países do continente.

A partir de sexta-feira, os cidadãos da comunidade européia poderão ir cada vez mais longe sem controles alfandegários, de Portugal à Estônia e da Grécia à Finlândia, em uma Europa sem fronteiras que já conta com 404 milhões de pessoas e 3,6 milhões de quilômetros quadrados.

A criação de “uma área sem controles desta magnitude é um evento histórico”, afirmou hoje o presidente da Comissão Européia (CE, órgão executivo da UE), José Manuel Durão Barroso.

Os nove países que terão seus postos de fronteiras eliminados são Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia e Malta, que entraram na UE em 2004. A exceção é Chipre, que declarou uma moratória.

A eliminação dos controles fronteiriços simboliza a queda das últimas barreiras físicas que separam os países do leste e do centro da Europa, muitos deles que integraram o antigo bloco soviético.

A supressão de fronteiras facilitará, além das viagens, a vida de centenas de milhares de pessoas nas regiões fronteiriças entre Polônia e Alemanha, onde existem famílias divididas pela fronteira, o que também acontece com a Hungria e a Áustria.

O dia de hoje foi escolhido para facilitar o trânsito das pessoas por causa do Natal.

As viagens de turismo e os tempos de permanência para estudo ou trabalho serão mais simples não só para os cidadãos da comunidade européia mas também para os de outros países, que poderão circular pela região com um único visto.

As comemorações pela abertura das fronteiras acontecerão à meia-noite em quatro lugares: nas fronteiras entre Estônia-Letônia e Letônia-Lituânia; nas tríplices fronteiras entre Alemanha-República Tcheca-Polônia e Áustria-Hungria-Eslováquia, além da fronteira Itália-Eslovênia.

Durão Barroso e o presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Pöttering, além de vários comissários, chefes de Governo e ministros nacionais participarão das cerimônias, que buscam simbolizar novamente a unificação da Europa.

O Espaço Schengen tem o objetivo de facilitar a livre circulação de cidadãos da UE e introduzir medidas compensatórias de segurança a partir de um registro comum europeu.

A abertura de fronteiras foi possível após a implantação de uma versão atualizada do Sistema de Informação Schengen (SIS) nos nove países que passarão a integrar a Europa sem fronteiras.

Esses países começaram a utilizar uma versão mais moderna (SIS II), que incluirá dados biométricos, mas os atrasos por problemas técnicos causaram uma grande frustração entre os dez países que ingressaram em 2004, que achavam que não eram tratados como os membros mais antigos.

Os postos fronteiriços nos aeroportos serão suspensos em 30 de março.

Durão Barroso mostrou “grande confiança” no trabalho dos novos Estados com sua contribuição à segurança comum.

Dois países da UE não quiseram integrar o Espaço Schengen: Reino Unido e Irlanda, enquanto dois países que não fazem parte da UE (Noruega e Islândia) e a Suíça devem entrar no ano que vem.

A Romênia e a Bulgária também estão de fora, já que se tornaram membros da UE em 1º de janeiro deste ano.

A entrada da Romênia tem sido objeto de polêmica, depois que a comunidade romena na Itália denunciou várias expulsões de imigrantes considerados “perigosos”.

Schengen é o nome de uma localidade de Luxemburgo de 500 habitantes que faz fronteira com a Alemanha e a França, e onde foi assinado o primeiro acordo de abolição de fronteiras entre esses três países mais a Bélgica e a Holanda. [UOL 20/12/07 – 13h54]

ENSINO a distância

Educação a distância cresce 571% entre cursos superiores, diz Censo

A oferta de cursos superiores de EAD (Educação a Distância) cresceu 571% entre 2003 e 2006 — o número passou de 52 para 349. A participação destes alunos no universo dos estudantes passou a ser de 4,4% em 2006, sendo que, um ano antes, essa participação representava 2,6%.

Estes são os resultados do Censo da Educação Superior de 2006, divulgados nesta quarta-feira (19) pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Participaram da pesquisa 2.270 instituições — 248 públicas e 2.022 privadas.

As demais modalidades de cursos também tiveram aumento, menor nas graduações (8,3% em número de cursos e 5% em número de matrículas). Os tecnológicos tiveram aumento de 34,3% nas matrículas.

Os dados demonstram também um crescimento geral no número de alunos matriculados em cursos de educação superior: de 4,99 milhões para 5,31 milhões, incluindo cursos presenciais, a distância, seqüenciais e tecnológicos.

Outra novidade foi a evolução, em 2006, da taxa de escolarização líquida – corresponde ao número de alunos matriculados em cursos de educação superior sem distorção de idade. Ou seja, jovens de 18 a 24 anos que estão na faculdade. Em 2005, o número de jovens em instituições de ensino superior correspondia a 10,9% do total de jovens brasileiros; em 2006, a 12,1%.

“Ainda é pouco, mas há duas décadas esse percentual estava praticamente estagnado”, destacou o diretor de estatísticas e avaliação da educação superior do Inep, Dilvo Ristoff. “Conseguimos iniciar uma mudança”.

A região Sudeste ainda tem o maior número de instituições de ensino superior, com 48,1% do total, mas essa representação vem diminuindo a cada ano com o crescimento em outras regiões. O Nordeste, por exemplo, tinha 388 instituições em 2005. Em 2006, já eram 412.

Finalidade
O Censo atualiza anualmente as informações da educação superior sobre número de instituições, cursos, matrículas, vagas, inscritos, ingressos, concluintes, docentes e pessoal técnico administrativo.

A finalidade do Censo, segundo o Inep, é fazer uma radiografia da educação superior. As instituições respondem ao questionário por meio da Internet e, com base nesse conjunto de dados, a pesquisa oferece aos gestores de políticas educacionais uma visão das tendências do nível de ensino.

Ao longo de 2007 foram recolhidas informações sobre cursos e instituições de educação superior tendo como data base o dia 30 de outubro de 2006. São computadas as matrículas efetuadas até o dia 30 de junho do mesmo ano. [UOL Educação 19/12/07 – 12h26]

demônio ex machina

Presos ao cotidiano, muitas vezes não percebemos a fronteira tênue entre o familiar e o sinistro

por GUILHERME WISNIK

COM UMA frota de automóveis de aproximadamente 5,7 milhões, o município de São Paulo apresenta a incrível proporção de um veículo para cada 1,92 habitante. É que a taxa de crescimento da frota motorizada cresceu, nos últimos cinco anos, oito vezes mais que a população, dentro de uma mancha urbana que pouco se modificou. Tomemos como padrão um carro compacto e econômico.

Numa situação hipotética, com essa frota na rua em fila indiana, teríamos uma grande minhoca de lata com 21,6 mil km de comprimento, sendo que a soma das vias carroçáveis do município gira em torno de 16 mil km. Como mostram os números da prefeitura (“município em dados”), se no final dos anos 60 o modo coletivo representava 70% das viagens motorizadas na cidade, hoje o modo individual predomina.

Psicologicamente, o carro é uma máquina capaz de nos transportar de forma ágil e confortável, permitindo ao condutor o dom do livre arbítrio, isto é, a possibilidade de mudar de planos (e de trajeto) ao sabor das solicitações cada vez mais flutuantes da vida contemporânea.

Ocorre que essa máquina não trafega por ondas imateriais como as de telefonia. Assim, para se deslocar “livremente” pela cidade, uma pessoa mobiliza uma carroceria motorizada que ocupa 6 m2 de via pública, pesa uma tonelada, polui o ar e consome litros de combustível fóssil não renovável. Com capacidade para atingir 160 km/h, esse carro se arrasta hoje, nos fins de tarde, a uma média de 15 km/h, numa cidade que tem, nesse período, 120 km de congestionamento diário.

Será que o evidente desperdício de tempo e combustível (entre outros bens menos quantificáveis) ainda justifica essa pseudo liberdade? Que fração da riqueza gerada por cada pessoa, naquela jornada de trabalho, é consumida em tamanho desperdício? Presos ao cotidiano, não percebemos a fronteira tênue entre o familiar e o sinistro.

No conto “La Autopista del Sur”, Julio Cortázar descreve um engarrafamento monstro na volta de um feriado, na auto-estrada que leva a Paris. Ligadas aos seus compromissos, as pessoas mantêm, ainda por um bom tempo, uma angústia impaciente: esbravejando, buzinando, agarrando-se a notícias vãs e desencontradas. No entanto, o tempo vai passando sem que nada se altere, alternando dias e noites de calor, frio, chuva.

Cativas da sua própria materialidade, as pessoas (designadas pelas marcas dos seus carros) se organizam em grupos para conseguir provisões, transformando os automóveis em depósitos, enfermarias, motéis etc., criando uma teia de relações nova. Como na vida “normal”, alguns namoram, engravidam, outros morrem…

Um dia, porém, a coluna de carros começa a se mexer. De uma hora para a outra, cada um tem de assumir o seu posto original e seguir em frente em sua cápsula. Não há tempo para hesitações ou despedidas. No movimento mecânico da estrada, todos vão se perdendo rapidamente de vista à medida que retornam, em linha reta, para a sua vida particular. Aquela que sempre julgaram ser a mais natural do mundo. [FOLHA 17/12/07]