desejos para 2008

Em tempos de aquecimento global, turistas da catástrofe visitam lugares que podem de repente sumir do mapa

por JOÃO PEREIRA COUTINHO

O ANO de 2007 aproxima-se do seu final e é provável que exista alguma ansiedade entre os leitores. Onde passar o Réveillon? E o que fazer em 2008 para que o ano seja realmente especial?

Não tremam, leitores: de acordo com as últimas tendências, é preciso variar no turismo. Paris? Roma? Londres ou Nova York? Interessantes, sim. Convencionais, sem dúvida. Mas, nas palavras de Ken Shapiro, editor da “Travel Age West” citado pela imprensa inglesa, a verdadeira moda e o verdadeiro desafio estão no “turismo-catástrofe”.

O raciocínio de Shapiro é exemplar: se o aquecimento global está a destruir o planeta Terra, não seria preferível visitar alguns locais que, amanhã de manhã ou, talvez, depois de amanhã, já não existirão no nosso mundo?

Os turistas da catástrofe aumentaram estrondosamente em 2007. E os locais visitados cobrem os quatro cantos da Terra: da Antártida ao Kilimanjaro, sem esquecer as Maldivas ou a Patagônia, milhares de visitantes apressam-se a ver neve (Kilimanjaro) ou terra não coberta por água (Maldivas) para que um dia possam contar aos netos como era o mundo nos inícios do século 21.

Claro que essa conversa toda pressupõe um cenário otimista: a existência de netos no século 22. Digo otimista porque, nas conversas sobre o clima, é impossível não perceber a verdadeira causa da tragédia.

E a verdadeira causa somos nós, humanos, que diariamente contribuímos para o fim do mundo com nossos comportamentos egoístas e insensatos. A crença inocente de que existirão seres humanos no século 22 é suficientemente atroz para encher de repugnância qualquer ambientalista. Seres humanos? Daqueles que vivem e respiram? Mas a Terra não seria um local imensamente mais aprazível sem eles?

O jornalista Alan Weisman respondeu afirmativamente no livro “The World Without Us”, um dos sucessos editoriais de 2007. Idéia de Weisman: imaginar o momento em que os humanos saem de cena e a mãe-natureza fica entregue ao seu destino. Em 300 páginas, a tese de Weisman é demolidora: se os humanos se extinguirem de um momento para o outro (um vírus, uma guerra, um surto de esterilidade), será possível observar melhor o rastro de destruição que deixaram.

Mas será possível observar mais: a forma como a mãe-natureza consegue lidar com os estragos, sarando as feridas e recompondo os seus ecossistemas. Em alguns séculos, a natureza consegue corrigir a destruição humana que durou milênios.

Confesso-me conquistado pela tese de Weisman. E, nos últimos dias de 2007, questiono honestamente se a humanidade não deveria formular dois desejos para 2008. Primeiro, comprar o pacote completo de “turismo-catástrofe” e dizer adeus a uma calota de gelo ou a um urso-polar. E, depois, dizer finalmente adeus ao planeta em suicídio coletivo e mundial. Com a certeza redentora de que os ursos e as calotas continuariam depois de nós. [FOLHA 26/12/07]

modorra em Bali

Reunião traça mapa vago para enfrentar mudança climática, e negociação continua emperrada pela política interna dos EUA

APENAS a ambivalência dos diplomatas permite qualificar como grande avanço o “mapa do caminho” acordado em Bali. A conferência sobre mudança climática na ilha indonésia, concluída em atmosfera abrasadora, com vaias e assobios contra os EUA, obteve pouco mais que a permanência dos americanos nas negociações decisivas dos próximos dois anos.

A intransigência dos EUA forçou o mínimo denominador comum: uma direção vaga (cortar emissões de gases que agravam o efeito estufa), um meio óbvio (novas reuniões) e um prazo conhecido (2009). Faltou o principal num roteiro, definir aonde se deseja chegar, ou qual é a meta do tratado para substituir o Protocolo de Kyoto após 2012.

Como a reunião de Bali chegou perto da ruptura completa, a mínima concessão de última hora dos americanos pareceu uma guinada, e o acordo obtido, uma vitória. O tempo dirá que o único vencedor foi George W. Bush.

A União Européia, vários outros países e especialistas queriam consagrada como meta a recomendação da melhor ciência: cortar emissões entre 25% e 40% até 2020. É o necessário, segundo o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), para evitar um aquecimento acima de 2,5C e uma perturbação mais perigosa do clima mundial. Os EUA bloquearam.

Tal objetivo terminou mencionado só de maneira indireta, em nota de rodapé. Nenhum país saiu obrigado a assumir esse compromisso. A meta pode ou não ressuscitar nas próximas rodadas de negociação, mas é pouco provável que isso aconteça nas primeiras quatro reuniões, marcadas para 2008.

Trata-se de um ano eleitoral nos EUA. Mesmo a crescente irritação de outras delegações será impotente diante do obstrucionismo de um Bush em fim de mandato. Seu sucessor, ainda que mais sensível ao problema ambiental, terá menos de um ano para dobrar a resistência do Congresso -se é que se decidirá a fazê-lo. Bill Clinton e Al Gore, cabe lembrar, nunca submeteram Kyoto para ratificação, nos três anos que tiveram.

A ausência de avanço substantivo não deve ser debitada apenas na conta dos EUA. Nações como China, Índia e Brasil também obstruíram a negociação batendo nas mesmas teclas de sempre: os países desenvolvidos têm de fazer sua parte primeiro, além de financiar e transferir tecnologia para corte de emissões, nas economias emergentes, e adaptação da infra-estrutura.

Obtiveram concessões milimétricas nos últimos quesitos e fizeram outras idem, como aceitar o compromisso genérico de reduzir emissões de modo “mensurável, reportável e verificável”, por exemplo pelo combate ao desmatamento.

Um avanço, decerto, mas diminuto. Temperando o otimismo protocolar da diplomacia, Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção de Mudança Climática, alertou: “Temos uma gigantesca tarefa pela frente, e o tempo para alcançar um acordo é extremamente curto, portanto temos de andar depressa”. Mais depressa que em Bali, leia-se. [FOLHA Editorial 18/12/07]

bali e a usina de gaddafi

por MARCOS NOBRE

CARNAVAL em Paris. Pelo menos para o coronel Muammar Gaddafi. O “guia da revolução líbia” fez da capital francesa seu parque de diversões por quase uma semana.

Gaddafi montou uma tenda beduína ao lado do palácio presidencial. As principais pontes de Paris eram interditadas à medida que avançava seu passeio de barco pelo Sena. Tumultuou o museu do Louvre para ver a “Monalisa” e a “Vênus de Milo”. O mesmo no Palácio de Versalhes, onde se deteve para contemplar o trono de Luís 14, de quem é admirador. Caçou na floresta de Rambouillet e pontificou sobre o céu e a terra em diversas oportunidades.

Nada mais justo. O presidente Nicolas Sarkozy se achou muito esperto em fazer o primeiro movimento para “reabilitar” o “guia” perante a “comunidade internacional”, de olho nas reservas de petróleo e na venda de armas e usinas nucleares. Gaddafi respondeu com a maior balbúrdia diplomática e política que a França experimentou nos últimos anos.

A idéia era aproveitar a coincidência da visita com a Conferência das Partes sobre o Clima, em Bali. Dada a importância dessa negociação global, e como a posição francesa é a mesma da União Européia a esse respeito (metas rígidas de redução de emissões), a imprensa deveria tratar a visita de Gaddafi como evento menor.

Aconteceu o contrário. Mas algo ainda mais importante ficou de fato na sombra: a nova ofensiva mundial (França à frente, Brasil logo atrás) em favor da energia nuclear.
A França é o maior produtor de energia nuclear da Europa. Setenta e oito por cento da energia elétrica do país vem dessa fonte.

O principal objetivo do presidente francês em matéria de política externa é construir o que ele chama de “União Mediterrânea”. É uma idéia delirante, que, no fundo, serve apenas para vender armas e usinas nucleares para Marrocos, Argélia, Líbia e quem mais se interessar. E para criar um contencioso com a União Européia, especialmente com a Alemanha.

A energia nuclear é vendida agora como alternativa à crise dos combustíveis fósseis e do efeito estufa. Em resposta ao declínio das jazidas, diz-se que os novos reatores de nêutrons rápidos serão capazes de utilizar 100% do urânio natural (ao contrário dos 0,6% do isótopo U235, tecnologia usada atualmente). Mas, para que se tornem comercial e politicamente viáveis, é preciso espalhar usinas por todo o planeta.

O primeiro-ministro François Fillon deixou claro que “a França não vende sua alma”. Já usinas nucleares, sem problema. Só que é uma péssima idéia fazer esse tipo de negócio. Ainda mais quando o cliente é Gaddafi. [FOLHA 17/12/07]

demônio ex machina

Presos ao cotidiano, muitas vezes não percebemos a fronteira tênue entre o familiar e o sinistro

por GUILHERME WISNIK

COM UMA frota de automóveis de aproximadamente 5,7 milhões, o município de São Paulo apresenta a incrível proporção de um veículo para cada 1,92 habitante. É que a taxa de crescimento da frota motorizada cresceu, nos últimos cinco anos, oito vezes mais que a população, dentro de uma mancha urbana que pouco se modificou. Tomemos como padrão um carro compacto e econômico.

Numa situação hipotética, com essa frota na rua em fila indiana, teríamos uma grande minhoca de lata com 21,6 mil km de comprimento, sendo que a soma das vias carroçáveis do município gira em torno de 16 mil km. Como mostram os números da prefeitura (“município em dados”), se no final dos anos 60 o modo coletivo representava 70% das viagens motorizadas na cidade, hoje o modo individual predomina.

Psicologicamente, o carro é uma máquina capaz de nos transportar de forma ágil e confortável, permitindo ao condutor o dom do livre arbítrio, isto é, a possibilidade de mudar de planos (e de trajeto) ao sabor das solicitações cada vez mais flutuantes da vida contemporânea.

Ocorre que essa máquina não trafega por ondas imateriais como as de telefonia. Assim, para se deslocar “livremente” pela cidade, uma pessoa mobiliza uma carroceria motorizada que ocupa 6 m2 de via pública, pesa uma tonelada, polui o ar e consome litros de combustível fóssil não renovável. Com capacidade para atingir 160 km/h, esse carro se arrasta hoje, nos fins de tarde, a uma média de 15 km/h, numa cidade que tem, nesse período, 120 km de congestionamento diário.

Será que o evidente desperdício de tempo e combustível (entre outros bens menos quantificáveis) ainda justifica essa pseudo liberdade? Que fração da riqueza gerada por cada pessoa, naquela jornada de trabalho, é consumida em tamanho desperdício? Presos ao cotidiano, não percebemos a fronteira tênue entre o familiar e o sinistro.

No conto “La Autopista del Sur”, Julio Cortázar descreve um engarrafamento monstro na volta de um feriado, na auto-estrada que leva a Paris. Ligadas aos seus compromissos, as pessoas mantêm, ainda por um bom tempo, uma angústia impaciente: esbravejando, buzinando, agarrando-se a notícias vãs e desencontradas. No entanto, o tempo vai passando sem que nada se altere, alternando dias e noites de calor, frio, chuva.

Cativas da sua própria materialidade, as pessoas (designadas pelas marcas dos seus carros) se organizam em grupos para conseguir provisões, transformando os automóveis em depósitos, enfermarias, motéis etc., criando uma teia de relações nova. Como na vida “normal”, alguns namoram, engravidam, outros morrem…

Um dia, porém, a coluna de carros começa a se mexer. De uma hora para a outra, cada um tem de assumir o seu posto original e seguir em frente em sua cápsula. Não há tempo para hesitações ou despedidas. No movimento mecânico da estrada, todos vão se perdendo rapidamente de vista à medida que retornam, em linha reta, para a sua vida particular. Aquela que sempre julgaram ser a mais natural do mundo. [FOLHA 17/12/07]

kyoto 10

Ativistas vestidos de pingüins fazem protesto em Bali

Posição brasileira sobre o clima é inexplicável

Diplomata argentino que arquitetou o Protocolo de Kyoto há dez anos diz que as negociações em Bali são “irracionais”

ONTEM, NO DIA EM que o Protocolo de Kyoto completou dez anos, o “pai” do acordo do clima, o diplomata argentino Raúl Estrada Oyuela, 69, manifestou pouco otimismo com o progresso das negociações em Bali rumo ao futuro do regime. Ele disse que as discussões estão “irracionais”, para em seguida complementar: “não conseguiria explicá-las à minha mulher”. Ele pediu ainda comprometimento de todos os países.

por CLAUDIO ANGELO

Em entrevista concedida à Folha -minutos antes de um bolo com os dizeres “Feliz Aniversário, Kyoto!” ser cortado-, Estrada disse que há muito a comemorar. A celebração se deve ao ganho político representado pelo tratado e aos mecanismos de mercado colocados em prática por Kyoto. Mas afirmou que a conferência de Bali pode acabar produzindo pouco mais que um calendário de reuniões. Dificilmente, afirma, um substituto de Kyoto será acordado em 2009, como quer a ONU. Diplomata de carreira, Estrada já serviu em Washington, Brasília, Santiago e Pequim. Foi o chefe do comitê que há 12 anos estabeleceu o Mandato de Berlim, instrumento que baseou o acordo de Kyoto. É considerado o principal arquiteto da negociação que resultou no tratado. Depois, foi o negociador-chefe argentino em mudança climática, até ser demitido em 2006 pelo presidente Néstor Kirchner após criticar o Ministério do Ambiente.

FOLHA – Como o sr. avalia a negociação em Bali?
RAÚL ESTRADA OYUELA – Até o final da semana passada, eu estava um pouco mais otimista. Agora a coisa complicou. Fora da União Européia, os países desenvolvidos estão renitentes quanto a cumprir os compromissos do Protocolo de Kyoto e sobretudo a renová-los com maior profundidade. Por outro lado, os países em desenvolvimento mantêm o mesmo tipo de discurso de 20 anos atrás, e que deve ser atualizado. Não é possível que a China, país que tem em seu poder a maior proporção de títulos da dívida pública americana, peça assistência financeira. Nem que, como grande exportador de produtos de altíssima tecnologia, peça assistência tecnológica. Aí você se dá conta de que os grandes países em desenvolvimento, que têm de fato um peso grande nos temas globais, não assumem responsabilidades específicas. China, Índia, Brasil, Malásia, Indonésia, Coréia do Sul, África do Sul e México têm sido chamados a todas as grandes reuniões onde se tomam decisões importantes. Isso implica uma responsabilidade que não pode ser ignorada.

FOLHA – Esses países dizem: “não negamos que temos responsabilidades, e as cumpriremos, mas…”
ESTRADA – Depois dos outros. Isso já não tem razão. É uma desculpa. Não se pode ter Índia e China dizendo que não farão o que precisam se os EUA não fizerem primeiro e os EUA dizendo que não farão se a Índia e a China não fizerem primeiro. Tem de haver um acordo onde todos se comprometam. Se quer um acordo onde todos se comprometam, o Brasil deve se comprometer.

FOLHA – E é possível que venha a acontecer? Porque a negociação agora está em dois trilhos separados, o da Convenção do Clima, que define compromissos voluntários, e o do Protocolo de Kyoto, que trata de metas obrigatórias…
ESTRADA – Isso é uma ficção. Nenhuma pessoa normal no mundo, além de nós, pervertidos que participamos disto [da negociação internacional de clima], pode entender que essas coisas estejam separadas. Porque, para as pessoas, estamos falando do mesmo assunto. Há um protocolo que está em vigor há três anos e que se começa a aplicar em 1º de janeiro do ano que vem. Esse protocolo tem disposições para o próximo período de compromisso, que pode perfeitamente estar limitado aos mesmos países que já entraram no primeiro período de compromisso, mas tem também outras disposições. Tem o artigo 9, que permite revisá-lo e ampliá-lo, e isso pode fazer com que outros países se incorporem a um compromisso efetivo, e o artigo 5, que permite ajustar os critérios pelos quais se faz a limitação de emissões. É perfeitamente possível que, no contexto do protocolo, no artigo 10, se coloque um tipo de compromisso que não tenha vinculação com um topo, porque isso é visto pelos países em desenvolvimento como um limite ao crescimento. Mas sim como uma meta de eficiência a alcançar. Uma meta de conservação de florestas nativas, por exemplo. Mas, neste momento, a conversa é: “eu não me mexo até que você faça algo” e o outro lado diz exatamente o mesmo.

FOLHA – A tendência é que conferência caminhe para isso?
ESTRADA – Até agora sim. Pode ser que, com a chegada de ministros de delegações que têm tido posições muito duras, se faça algumas concessões. É uma tática de negociação: manda-se primeiro a segunda fila para provocar situações de rigidez, depois o chefe da delegação chega e faz uma concessão. Pequena, mas como é uma concessão, é comemorada (risos).

FOLHA – E como o sr. enxerga a posição do Brasil, que insiste em deixar os dois trilhos separados?
ESTRADA – Me parece que essa posição é impossível de explicar às pessoas comuns. Eu tenho um ponto de referência: quando estou trabalhando num tema desse tipo, sinto que estou bem orientado se consigo explicá-lo bem à minha mulher. Mas se quando explico, ela diz: “Olha, isso não está direito”, é que ninguém vai entender por quê.

FOLHA – Esse procedimento, então, não lhe parece certo.
ESTRADA – Não. Pode-se até usá-lo, mas precisa estar acompanhado de uma decisão efetiva de adotar compromissos.

FOLHA – O Brasil disse que terá compromissos verificáveis…
ESTRADA – E qual será esse compromisso? Não me foi dito. Há uma quantidade enorme de medidas de mitigação que os países em desenvolvimento podem adotar sem comprometer seu crescimento. Por exemplo: eficiência energética. Muitas dessas medidas o Brasil já tem. Mas o transporte no Brasil, como na Argentina, é maciçamente rodoviário. Isso é ambientalmente irracional. Podemos produzir motores elétricos eficientes para a indústria.

FOLHA – Se o sr. desenhasse o processo de negociação, como faria?
ESTRADA – Eu juntaria as cabeças dos países mais importantes, que foi o que eu fiz em Kyoto. É preciso buscar representações válidas em cada grupo e encontrar a linha de fundo para o compromisso. Eu não vejo isso acontecer agora. O que há são reuniões muito grandes, com 80 pessoas, onde não se negocia nada, porque todo mundo só quer ser ouvido. Eu não vejo que nesta conferência haja o tipo de liderança que é preciso ter. Também não sei se é boa idéia que o “mapa do caminho” seja fixado pelo presidente da conferência, como ele vem dizendo, porque o “mapa do caminho” precisa refletir o entendimento. Neste caso, o que vamos ter não será um mapa do caminho significativo, mas um calendário do que deverá acontecer em cada etapa. Mas faz falta algo como o Mandato de Berlim: com um calendário e um conteúdo a cumprir. O Protocolo de Kyoto foi feito sob medida para os EU
A. E agora eles não gostam da palavra Kyoto: vamos mudá-la, então, para Bethesda ou qualquer nome próximo a Washington. Essa situação é lamentável.

FOLHA – A data-limite de 2009 lhe parece realista?
ESTRADA – É difícil porque não sei como os EUA chegarão lá. O novo governo assume em janeiro [de 2009], tem uma prioridade econômica grande, tem o problema do Iraque. Não sei se o clima é a terceira ou a quarta prioridade da lista. Para tomar uma decisão em dezembro de 2009 seria preciso conhecer a posição dos EUA quatro meses antes. A idéia de fechar 2009 é porque a conferência se realiza na Dinamarca. A seguinte será na América Latina. Bom, poderíamos ter um Protocolo do Rio de Janeiro… [FOLHA 12/12/07]

quem está em perigo

O planeta não está em perigo. Nós é que estamos

por VACLAV HAVEL

Nos últimos anos pergunta-se de forma cada vez mais enérgica se as mudanças climáticas globais ocorrem ou não segundo ciclos naturais; até que ponto nós, humanos, contribuímos para tais mudanças; que perigos são provocados por estas e o que pode ser feito para preveni-las.

Estudos científicos demonstram que quaisquer alterações na temperatura e nos ciclos de energia em escala global poderiam significar uma ameaça generalizada para todas as pessoas em todos os continentes.

Também é óbvio, com base nas pesquisas publicadas, que a atividade humana é uma causa de mudança; só que não sabemos qual o tamanho da contribuição específica desta atividade. Mas, é realmente necessário conhecer o tamanho desta relação de causa e efeito com uma precisão que chegue ao último ponto percentual? Ao aguardar por uma precisão incontestável, não estaríamos apenas perdendo tempo, quando poderíamos estar tomando medidas que são relativamente indolores quando comparadas àquelas que teríamos que adotar após mais postergações?

Talvez devêssemos começar a enxergar a nossa estada temporária na Terra como um empréstimo. Não pode haver dúvida de que nas últimas centenas de anos, pelo menos, o mundo euro-americano tem acumulado uma dívida, e que agora outras partes do planeta estão seguindo esse exemplo.

Agora a natureza está fazendo advertências e exigindo que nós não só contenhamos o crescimento da dívida, mas também comecemos a pagá-la. Não há muito sentido em questionar se contraímos um empréstimo excessivo, ou perguntar o que aconteceria se adiássemos o pagamento. Qualquer pessoa que tenha uma hipoteca ou uma dívida bancária pode facilmente imaginar a resposta.

Os efeitos das possíveis alterações climáticas são difíceis de se estimar. O nosso planeta nunca esteve em um patamar de equilíbrio do qual pudesse se afastar devido a determinada influência, humana ou não, para depois, no momento apropriado, retornar ao seu estado original.

O clima não é como uma espécie de pêndulo que retornará à sua posição original após um certo período. Ele evoluiu de maneira turbulenta no decorrer de bilhões de anos rumo a um complexo gigantesco de redes, e de redes no interior de outras redes, nas quais tudo está interligado de diversas formas.

As suas estruturas jamais retornarão precisamente ao estado em que se encontravam há 50 ou 5.000 anos. Elas só sofrerão alteração para um novo estado, que, contanto que a mudança seja reduzida, não implicará necessariamente em qualquer ameaça à vida.

Porém, mudanças de grande magnitude poderiam ter efeitos imprevisíveis no interior do ecossistema global. Em tal caso, teríamos que nos perguntar se a vida humana seria possível. Como ainda prevalece tanta incerteza, é necessária uma grande dose de humildade e circunspecção.

Não podemos iludir a nós mesmos indefinidamente, afirmando que nada está errado e que podemos manter alegremente os nossos estilos de vida consumistas, ignorando as ameaças climáticas e adiando uma solução. Talvez não haja nenhum perigo relativo a qualquer grande catástrofe nos próximos anos ou décadas. Quem sabe? Mas isso não nos desobriga da responsabilidade com relação às gerações futuras.

Não concordo com aqueles cuja reação às possíveis ameaças é alertar contra as restrições às liberdades civis. Caso as previsões de alguns climatologistas se confirmem, as nossas liberdades serão equivalentes àquelas de alguém dependurado no parapeito no vigésimo andar de um edifício.

Vivemos em um mundo conectado em uma única civilização global que abrange diversas áreas civilizacionais. Nos dias de hoje a maioria delas tem uma coisa em comum: a tecnocracia. Prioriza-se tudo que seja calculável, quantificável ou avaliável. Entretanto, este é um conceito bastante materialista, que nos está empurrando em direção a encruzilhadas importantes para a nossa civilização.

Toda vez que reflito sobre os problemas do mundo de hoje, quer estes digam respeito à economia, à sociedade, à cultura, à segurança, à ecologia ou à civilização em geral, sempre acabo me confrontando com a questão moral: que ação é responsável ou aceitável? A ordem moral, a nossa consciência e os direitos humanos – essas são as questões mais importantes no início do terceiro milênio.

Precisamos retornar repetidas vezes às raízes da existência humana e refletir sobre as nossas perspectivas nos séculos vindouros. Temos que analisar tudo com a mente aberta, moderadamente, de uma forma que não seja ideológica e obsessiva, e traduzir o nosso conhecimento em políticas práticas.

Talvez não se trate mais de uma questão de simplesmente implementar tecnologias para economizar energia, mas preponderantemente de introduzir tecnologias ecologicamente limpas, de diversificar os recursos e de não depender de uma única invenção como panacéia.

Também sou cético quanto à possibilidade de que um problema tão complexo quanto a mudança climática possa ser resolvido por um único ramo da ciência. Medidas e regulamentações tecnológicas são importantes, mas igualmente importante é o apoio à educação, ao treinamento ecológico e à ética – uma consciência da semelhança de todos os seres vivos e uma ênfase no compartilhamento de responsabilidades.

Ou atingiremos uma consciência em relação ao nosso lugar no organismo vivo e provedor de vida do nosso planeta, ou correremos o risco de ver a nossa jornada evolucionária retroceder milhares ou até mesmo milhões de anos. É por isso que entendemos essas questão como muito importante, e como um desafio para que nos comportemos responsavelmente e não como arautos do fim do mundo.

O fim do mundo foi antecipado diversas vezes no curso da história e, é claro, nunca chegou. E também não chegará desta vez. Não devemos temer pelo nosso planeta. Ele estava aqui antes de nós, e muito provavelmente continuará aqui depois dos seres humanos. Mas isso não significa que a raça humana não esteja correndo sério risco.

Como resultado dos nossos esforços empreendedores e da nossa irresponsabilidade, o nosso sistema climático pode não deixar um espaço para nós. Se adiarmos as ações, a margem para a tomada de decisões – e, conseqüentemente, para a nossa liberdade individual – poderá ficar bastante reduzida. [International Herald Tribune 27/9/07]

“mascate dos biocombustíveis”

O presidente Lula discursa na abertura da 62ª Assembléia Geral da ONU, em Nova York, em que propôs a realização da Rio + 20

Números selecionados ajudam discurso

por MARCELO LEITE

Em seu discurso na ONU, o presidente Lula apresentou-se mais como um mascate dos biocombustíveis -álcool combustível à frente- do que como estadista da onda verde global. Bom vendedor, usou números corretos, mas selecionados, e lhes deu a interpretação mais favorável ao produto nacional.

Primeiro, a Amazônia. Lula destacou, como não poderia deixar de fazer, a redução do desmatamento em 50% durante seu primeiro mandato. É um feito e tanto, para ambientalista inglês nenhum deixar de ver.

Só que essa desaceleração toma por base a área desmatada recordista de 2004, 27 mil km², a segunda maior já registrada (em 1995, havia sido de 29 mil km²). Baixar a um patamar de 10 mil km² constitui boa notícia, mas isso ainda é meio Sergipe -num único ano.

O presidente defende que países mais ricos compensem financeiramente o Brasil e outras nações que consigam reduzir o desmatamento. Parece oportuno, tendo em vista que essa fonte responde por cerca de três quartos das emissões nacionais de gases do efeito estufa causado pelo homem. Na conta planetária, por quase um quinto do aquecimento global.

Sem um mecanismo de mercado, porém, é improvável que países desenvolvidos ponham a mão no bolso. Só o farão se ganharem com isso créditos de carbono, ou seja, abatimentos nas reduções de emissões que se obrigaram a fazer por força do Protocolo de Kyoto (e outras que venham por aí, para o segundo período do tratado, depois de 2012). O Brasil resiste. Prefere um edificante fundo voluntário. Lula promove os biocombustíveis, mas não quer ser acusado de “vender” a Amazônia -daí sua referência a não abdicar da soberania brasileira sobre a região.

Seu item principal de venda, o álcool, enfrenta objeções ético-ambientais similares. Críticos como o mui companheiro Fidel Castro acusam o biocombustível de cana de tomar terras da produção de alimentos. Há temor de que os preços internacionais de grãos fiquem altos por muitos anos, piorando a vida dos pobres do mundo.

Receia-se ainda que a expansão da cana destrua habitats naturais. Lula descartou a objeção afirmando que “a experiência brasileira de três décadas mostra que a produção de biocombustíveis não afeta a segurança alimentar”. Assegurou que “cana-de-açúcar ocupa apenas 1% de nossas terras agricultáveis”.

Não está errado, mas é impreciso: a cana para produção de álcool toma 1% da área, segundo a Única (União da Indústria de Cana-de-Açúcar). Se for incluída aquela destinada ao açúcar, dobra.

Isso, claro, se for aceita a premissa de que no Brasil há 340 milhões de hectares de terras agricultáveis. Dá 40% do território nacional, o que soa exagerado. Considerada só a área de fato cultivada, a cana provavelmente já ultrapassa 10% e vai continuar crescendo.

Lula caprichou também no benefício ambiental do álcool: o biocombustível teria evitado em três décadas a emissão de 644 milhões de toneladas de CO² (principal gás do efeito estufa). É um número razoável. Mas só a redução do desmatamento, em um décimo do tempo, economizou mais do que isso, uns 800 milhões de toneladas de CO².

Mesmo que a cana venha a ocupar apenas pastagens, como alegam canavieiros, os bois terão de comer capim em algum lugar. É na Amazônia que mais cresce a pecuária bovina nacional.

Lula acenou com um “completo zoneamento agroecológico” para afastar esse cenário, mas precisa se apressar. Caso contrário, o desmatamento voltará a subir. Aí seu produto dirá adeus ao “selo que garanta suas qualidades sociolaborais e ambientais” -se este não se revelar só mais uma promessa de vendedor. [FOLHA 26/9/07]