Argumento Moral

depositphotos_11912807-stock-photo-germany-circa-1974-a-stampO modo kantiano, i.e., transcendental-idealista de justificar a crença na existência de Deus consiste, grosso modo, em argumentar que uma pessoa que crê ser racional agir moralmente está agindo como se Deus existisse, e que, ipso facto, seria pragmaticamente contraditório se essa pessoa negasse a existência de Deus, mesmo que esta não possa ser (teoricamente) demonstrada.

O que há de velho na “nova” direita? [1]

Joel Pinheiro, editor da revista Dicta & Contradicta, em interessante artigo (“O que há de novo na ‘direita’?”) publicado em 31-1-2014 no jornal Valor, tenta lançar alguma luz sobre o lado direito do espectro político-partidário nacional. Trata-se de uma suposta “nova direita”, que, em parte, nem é nova, e, em parte, nem se diz de direita.
A primeira coisa que chama a atenção é a declaração de que a marca distintiva da ala conservadora da nova direita consiste no ódio a tudo que vem da esquerda. Claro que direita e esquerda se opõem, no limite, de modo radical. Mas que a radicalidade política implique o sentimento de ódio ao adversário, para dizer o mínimo, é sinal de obscurantismo. Deve-se acrescentar, porém, que a extrema esquerda também nutre pela oposição os mesmos “sentimentos primitivos”.
Segundo o autor, o jornalista Reinaldo Azevedo é um dos conservadores odientos. Tem razão; é mesmo. Esse blogueiro costuma distorcer a fala do inimigo, colocando-lhe na boca palavras facilmente reprováveis. Vejamos um exemplo claro dessa estratégia de manipulação.
Em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo do dia 24-1-2014 (“O ‘bando de negros e morenos'”), Azevedo, após citar o secretário geral da presidência, Gilberto Carvalho, faz o seguinte comentário “jornalístico”:
‘Nosso preconceito’ uma ova! Esse é o preconceito de Carvalho, que chama ‘negros’ e ‘morenos’ de ‘bando’.
Que palavras deve ter dito o senhor Carvalho para que merecesse essa dura reprovação moral? Terá dito mesmo que negros e morenos formam bandos, assim como animais e criminosos? Leiamos as palavras do secretário geral, citadas pelo próprio Azevedo:
Da mesma forma que os aeroportos lotados incomodam a classe média. Da mesma forma que, para eles, é estranho certos ambientes serem frequentados agora por essa gentalha’ (…). O que não dá para entender muito é a carga do preconceito que veio forte. (…) As pessoas veem aquele bando de meninos negros e morenos e ficam meio assustadas. É o nosso preconceito.
Ora, não está claro o que o senhor Carvalho quer dizer quando fala não só de “bando”, mas também de “gentalha”? Evidentemente que sim. Ele quer dizer que é a classe média que percebe os jovens integrantes dos “rolezinhos” como gentalha formadora de bandos. É surpreendente que um ex-professor de redação de cursinho pré-vestibular não tenha compreendido isso.
Mais duas palavrinhas acerca desse “jornalista”. Como muitos integrantes da tal nova direita, talvez a maioria, Azevedo é incoerente. Ao mesmo tempo em que se diz católico, ele defende a ferro e fogo o liberalismo econômico, doutrina formalmente condenada pela Igreja. Além disso, é dogmático. Não só porque sempre está do lado de quem tem razão (nós contra eles), mas porque afirma teses ingenuamente dogmáticas. Certa feita, afirmou com a maior tranquilidade que Tomás de Aquino já havia resolvido a questão da existência de Deus, e que, por isso, não entendia por que continuar discutindo. Ora, nem mesmo o Doutor Angélico reclamava para as suas cinco vias (vias e não provas!) o caráter da cogência, muito menos da apoditicidade. Ele mesmo admitia que, nessa matéria, não era possível convencer a quem não estivesse disposto a ser convencido.
Por essa e por outras, Reinaldo Azevedo não deveria, a meu ver, ser considerado como um jornalista. O jornalista é um profissional que busca a verdade dos fatos, ou seja, que investiga os fatos e procura expô-los da forma mais objetiva possível. Não é isso o que acabamos de ver, nem é isso que caracteriza o trabalho do nosso blogueiro. Ele próprio, aliás, admite que faz política. Noutras palavras, é um típico integrante de  Think Tanks. — Ainda voltarei a esse tema!
Outro articulista que, segundo Joel Pinheiro, integra a ala raivosa da nova direita seria o filósofo (PUC-SP, Faap) Luiz Felipe Pondé. O professor Pondé, assim como Azevedo, também é colunista da Folha. Confesso que, nos últimos tempos, não tenho conseguido mais ler a sua coluna. Ele está muito mais preocupado em causar sensação (viria daí a gíria “causar”?) do que provocar a reflexão. Tornou-se um sensacionalista. Como parte da estratégia de sedução do leitor, Pondé esforça-se para imitar o estilo do jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Debalde. Diferentemente do Reinaldo Azevedo, o nosso professor escreve mal. Mas de vez em quando encaixa algumas frases de efeito. O pior, porém, não é isso. O pior é a “salada mística” que ele faz com os conceitos e doutrinas religiosas e culturais. Ao mesmo tempo em que se diz um homem medieval, afirma com a maior sem-cerimônia ser hipócrita aquele que não adora um passeio no shopping –e isso muito antes dos “rolezinhos”! Mas vamos dar uma vista-d’olhos em um de seus artigos.
“Euzinho” é o sugestivo título que Pondé deu à sua coluna, na Folha, do dia 27-1-2014. Nela, trata da relação entre tradição e modernidade. Ele começa já pisando fundo:
A modernidade é uma declaração de guerra à ideia de tradição. Mas nós, modernos, continuamos a não perceber isso, e o resultado é que suspiramos como bobos diante do que pensamos ser uma tradição, apesar de detestarmos qualquer sinal verdadeiro de tradição.
Bem, eu diria que não se trata de uma guerra generalizada, mas de uma ruptura com alguns aspectos da tradição cristã. Entre outros, com o autoritarismo teológico-político e a unidade entre Estado e Igreja. Mas não é verdade que nós não percebemos a mudança. O primeiro a percebê-la com clareza foi Descartes, no século 17. Nietzsche, no século 19, escancarou-a ao anunciar a morte de Deus. Foucault, no 20, daria o golpe de misericórdia, declarando a morte do próprio homem.
Antes que me objetem, não se trata de uma percepção privilegiada de filósofos. Eles apenas verbalizaram o sentimento geral. Em todo caso, esse mal-estar da nossa civilização, provocado pela perda sob os pés do solo da tradição, não significa que passamos a detestar “qualquer sinal verdadeiro de tradição”.
Ao contrário, parece que nós temos alguma nostalgia para com a tradição, mas quando tentamos nos reaproximar dela, não conseguimos ir além de seus sinais exteriores. A tradição torna-se, então, tradicionalismo, isto é, a idolatria de sinais vazios.
Voltemos ao artigo. Quando nos dá a conhecer a própria definição de tradição, o que Pondé acaba fazendo é justamente cair no tradicionalismo mais caricato:
Tradição é pagar contas, enfrentar finais de semana vazios e não desistir.
Que raio de tradição é essa? Com certeza, não se trata de uma tradição pré-moderna. Essa história toda de cuidar da casa, da família, dos filhos, que ele repete ao longo do texto é uma invenção moderna. A infância, por exemplo, foi inventada por Rousseau, no século 18, ou talvez por Comenius, no 17.
A tradição pondiana é rasa e, portanto, para o seu desgosto, tipicamente moderna. Mas, voltando a meu ponto, não é verdade que os modernos perderam totalmente o contato com a verdadeira tradição. Tradição, bem entendido, não como a adoração das cinzas, mas como o manter acesa a chama – como disse alguém. Ocorre que a chama da verdadeira tradição devora os sinais do tradicionalismo morto que consiste em repetir fórmulas vazias e “pagar contas”.
Embora Pondé lide profissionalmente com as religiões, ele mesmo não é religioso. Mas não seguir uma religião tradicional e não crer no Deus do monoteísmo não significa ser ateu. Pondé crê piamente no deus Mercado. Ele acha que a “sociedade de mercado”, ou seja, a sociedade centrada no mercado, na economia, é a melhor coisa que a humanidade jamais inventou. Sem o mercado, estaríamos de volta às cavernas. Essa crença é que é antitradicional e supersticiosa!
Luiz Felipe Pondé não deveria, afinal, ser considerado como um filósofo. Filósofo é aquele que busca a verdade, e não quem já a possui e quer impingi-la, ainda que sedutoramente, aos outros.
Joel Pinheiro cita mais alguns nomes de representantes da nova direita, nomes que, sinceramente, eu simplesmente não conheço: Rachel Sheherazade, Paulo Eduardo Martins, Rodrigo Constantino e Felipe Moura Brasil. Se não me engano, li alguma coisa sobre uma polêmica entre a senhora Sheherazade e um obscuro professor de filosofia de S.Paulo. O Lobão eu já conheço. E acho impressionante que um roqueiro reacionário seja mencionado nesse contexto. Mas como não li nada desse senhor, apenas tendo-o visto durante alguns minutos no programa Roda Viva da TV Cultura, passo adiante.
“Por trás de todos”, continua o autor, “está um mentor em comum: Olavo de Carvalho, jornalista e filósofo que vive nos Estados Unidos, de onde escreve artigos e dá cursos on-line”. Então está explicado!
CONTINUA

Relativismo absoluto

Na sua coluna de hoje, 2-2, no jornal Folha de S.Paulo (Logicamente impecável), Hélio Schwartsman refuta o contra-argumento do rabino Michel Schlesinger e do cardeal dom Odilo Scherer (Onde estava o homem?, Folha, 27-1-2014) contra o chamado “argumento do mal”.
Os próprios Schlesinger e Scherer resumem esse argumento por meio da pergunta: “Como se pode ainda acreditar em Deus depois de Auschwitz?” Schwartsman, por sua vez, expõe-o de modo mais técnico, como um argumento da forma modus tollens (mais precisamente, modus tollendo tollens) ou, simplesmente, da negação do consequente:
Se P, então Q.
Ora, não Q (= Q é falso, ou não é o caso de que Q).
Logo, não P (= P é falso, ou não é o caso de que P).
“Preenchendo” agora a forma lógica, temos que:
Se existe Deus (por definição, um Ser supremo, onipotente, onisciente e benevolente), então não existe o mal.
Ora, o mal existe.
Logo, Deus não existe.
A negação do consequente consiste, aí, em negar a inexistência do mal, ou seja, em afirmar a sua existência.
O argumento de Schlesinger e Scherer contra o argumento do mal é por assim por eles resumido: “A Shoá [no caso, o Holocausto] não foi obra de Deus ou de anjos malvados: foi de homens com ideologias desumanas, de pessoas incapazes de enxergar o outro”.
Depois de criticar a fragilidade desse contra-argumento, Hélio faz a apologia do argumento do mal: “A forma lógica do raciocínio […] é impecável. Se as premissas são verdadeiras, a conclusão necessariamente também o é. Daí que, para esboçar uma resposta, é preciso negar a onipotência/onisciência de Deus, sua benevolência ou a existência do mal”.
Será mesmo tão simples assim?
De fato, o silogismo é infalível, desde que as premissas sejam verdadeiras. Se suas premissas forem verdadeiras, a conclusão será necessariamente verdadeira.
Mas, em primeiro lugar, a lógica não tem nada que ver com a verdade de proposições, e sim com a validade de argumentos. Para sabermos se as premissas de um argumento são verdadeiras, temos de recorrer a outros meios.
Com base em quê, então, afirma-se que se há um deus onipotente, onisciente e benevolente então não existe o mal? Não é com base na lógica, porque não há incompatibilidade lógica nenhuma entre uma coisa (a proposição “existe um deus onipotente etc.”) e outra (“existe o mal”).
Os a(nti)teístas, até onde sei, nunca responderam a essa questão!
A questão, na verdade, é ainda mais radical do que parece.* O argumento pressupõe não apenas a existência do mal, mas antes a possibilidade de conhecermos o mal, ou seja, de discernirmos o que é bom e o que não é.
A situação, portanto, é a seguinte. Ou o a(nti)teísta entrega os pontos –uma vez que não pode justificar o próprio argumento (de onde/como/ por que sei que existe o mal — e o bem?)–, ou continua se vangloriando de sua lógica vazia (formal) enquanto assume o relativismo absoluto.
Mas então surge outro problema: “relativismo absoluto” é uma contradição nos termos…
*NOTA: Na verdade, o argumento do mal pressupõe não apenas a existência do mal e do bem e a possibilidade de sabermos a diferença entre um e outro, mas pressupõe um caminhão de outras coisas, a começar pelos princípios lógicos que possibilitam o próprio argumento. — Mas que diabos são esses princípios?