“não somos racistas”

por DEMÉTRIO MAGNOLI

O SOCIÓLOGO português Boaventura de Sousa Santos é um dos tantos intelectuais que exercita o duplipensar, defendendo os direitos humanos em Israel com igual vigor com que aplaude a repressão em Cuba. Há dias, ele escreveu na Folha que os negros “são pobres porque são negros”, ecoando a doutrina difundida pela Secretaria da Igualdade Racial.

Essa “verdade oficial” é o alvo da crítica precisa de Ali Kamel no livro “Não Somos Racistas” (Nova Fronteira, 2006). Kamel confia na força dos argumentos e nunca cede ao lugar-comum. Primeiro, desmonta a operação básica dos racialistas: a junção das categorias censitárias “pretos” e “pardos” numa “raça negra” que desafia tanto a ciência como a consciência dos brasileiros, expressa na autodeclaração de cor. Depois, desnuda uma a uma as manipulações estatísticas da moda, demonstrando que a pobreza no Brasil não é um fruto do racismo. Entre tantos, um número deveria provocar reflexão nos racialistas: os pobres que se declaram “brancos” somam 19 milhões (são 4 milhões os pobres que se declaram “pretos”). Na lógica de Boaventura de Sousa Santos, “os brancos são pobres porque são brancos”, pois não?

O título do livro não é uma negação de que o racismo existe em todo lugar onde há seres humanos, mas um gesto de indignação contra a sugestão de que o ódio racial seja um componente da identidade brasileira. Essa sugestão, contudo, desempenha papel crucial no empreendimento racialista de construção de uma nação dividida em duas “raças” polares. Argumentos não são bem vistos entre os gerentes da linha de montagem das raças.

Um sociólogo americano atuante no Brasil indicou o caminho ao classificar os críticos das leis raciais como “elite branca”. Em recente debate na Unicamp, um dirigente do Movimento Negro Unificado apontou os “judeus” como articuladores da carta pública contra essas leis. Em Salvador, semana passada, líderes de manifestação pró-cotas raciais exigiam a “eliminação” dos “demônios brancos”.

Em tempos de calúnia fácil, escrever tal livro é um ato de coragem, ainda mais se o autor ocupa um cargo executivo no jornalismo das Organizações Globo. Uma coragem cívica, necessária. Em Ruanda, gritos isolados contra a “elite tutsi” prenunciaram o genocídio. Estamos bem longe disso. Mas, quando o Estado define identidades raciais, explorando o desamparo e o ressentimento, tudo se acelera. As novas fronteiras legais, traçadas entre os pobres, passam dentro dos ônibus, das escolas públicas e das favelas, produzindo inimigos ilusórios, mas perigosamente próximos. É preciso deter os incendiários antes do incêndio. [FOLHA 24/8/06]

o grande olho

por DEMÉTRIO MAGNOLI

CENSURAR, vigiar e punir: é isso que fazem algumas grandes corporações de tecnologia da informação. A Google firmou um acordo com o governo da China para oferecer, em chinês, uma versão do seu instrumento de busca dotada de parâmetros de exclusão de documentos “sensíveis”. Nessa versão, pesquisas sobre termos associados ao massacre da praça da Paz Celestial não retornam resultados relevantes, enquanto uma busca pela seita Falun Gong conduz apenas a textos de violenta condenação.

A Yahoo estabeleceu uma parceria mais perigosa. Há um ano, a empresa entregou ao governo chinês mensagens eletrônicas pessoais do jornalista Shi Tao, que sustentaram o processo judicial pelo qual foi sentenciado a dez anos de prisão, por “crime” de opinião. Não foi um caso isolado: em 2003, usando informações fornecidas pela empresa, um tribunal sentenciou o ex-funcionário público Li Zhi a oito anos de cadeia pelo mesmo “crime”. A Google censura, atuando como anexo do ministério chinês das comunicações. A Yahoo funciona como lacaia da polícia política, auxiliando a vigiar e a punir.

A Microsoft não liga para Estados: faz as próprias leis. Os computadores pessoais no Brasil começaram a receber uma atualização automática do Windows que instala um programa capaz de identificar o registro do sistema operacional, o modelo do computador e o número do disco rígido. O programa espião informa à empresa o resultado da investigação. Caso o Windows seja pirata, o usuário é convidado a adquirir um sistema legal. A atualização automática é instalada com o “consentimento” do usuário, ao qual é apresentado um alerta, escrito na novilíngua da informática. Alegadamente, não são colhidos outros dados. Mas, em tese, não há obstáculo técnico para que o exército de gnus de Bill Gates descubra a configuração do hardware, a lista de softwares instalados, o endereço de IP, os padrões habituais de navegação na internet e o conteúdo de documentos gravados no disco rígido.

A captura dessas informações, em larga escala, tem valor incalculável para orientar estratégias empresariais. A posse de informações individualizadas, por outro lado, confere poderes quase ilimitados no terreno da chantagem política e comercial. O sistema operacional é a infra-estrutura básica da “sociedade em rede”. O monopólio do Windows implica o pagamento global de tributos compulsórios ao império de Gates. A partir de agora, significa também a renúncia geral ao direito à privacidade e a substituição dos juízes que regulam os processos de investigação, busca e apreensão pela espionagem e coleta eletrônica de informações.