libelo político

“Deus, um Delírio”

por LUIZ FELIPE PONDÉ

Falta nessas pessoas que teimam em ser profetas um pouco daquela sabedoria discreta que encontramos em gente como Fernando Pessoa: o improvável Deus nos protege da fé grosseira em ídolos com cabeça de bicho, como o culto da Humanidade, “mera idéia biológica”.

Pouco céticas e muito dogmáticas, elas confundem coisas como a salutar disciplina cética com o ateísmo. Como diria Chesterton, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. A humanidade é mais infeliz do que imagina nossa vã filosofia da emancipação.

O novo livro de Richard Dawkins (que parece ser aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande), “Deus, um Delírio”, não é ciência, mas mero libelo político (ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico), uma recaída na velha fúria jacobina, requentada com máximas evolucionistas.

Lembremos que não existem cosmologias de laboratório.

Afirmações como “tenha orgulho de ser ateu e olhe o futuro com confiança” soam bem num workshop para auto-estima.

Seu foco são as utopias modernas de salvação: não é por acaso que flerta com alguns dos totalitarismos mais sofisticados de nossa época, entre eles, aqueles, aliás, que “melhoraram muito” as relações entre homens e mulheres, esmagado-as sob a bota do ressentimento típico da desconstrução social genérica.

O livro vende o darwinismo como teoria “progressista” (grande intuição marqueteira), por isso suas alusões a “sair do armário”, tentando convencer a sensibilidade de esquerda que o darwinismo não é mais perigoso. A alma desassossegada indaga: além da parada dos ateus, serei processado se disser em público que acredito em Deus? Quem é o bobo que acredita que, sem Deus, o ser humano mataria menos? Sem o fundamentalismo islâmico (supõe-se), as torres gêmeas estariam lá, mas e os milhões de mortos em nome da ciência, da humanidade e da história nos séculos 18, 19 e 20?

De Stálin a Fidel, de Robespierre a Mao Tse-tung, todos seduziram a “inteligência atéia”. O ateísmo político domina a sensibilidade “pop-inteligente” há décadas, questões como a alegre legalização do aborto, a “revolta poético-científica do desejo”, a metafísica materialista e a ignorância filosófico-religiosa provam isso.

Ateísmo mais elegante
Quase todos crêem no “produto emancipação”. Deus não garante o “Bem” (nenhuma teologia séria pensa isso), nem o ateísmo a inteligência ou a ética.

Gostamos de matar e pronto.

Dawkins procura seduzir exatamente o tipo de pessoa covarde que não gosta de saber disso sobre si mesma e, com isso, minimiza uma grande qualidade do darwinismo filosófico: sua percepção trágica da vida na qual somos areia que um dia abriu os olhos e que balbucia sozinha diante da indiferença furiosa de um universo mudo e sonambúlico imerso no acúmulo de design cego (supremo conceito que descreve a emergência da “ordem” em meio à cegueira da matéria).

Todavia, reconheçamos que ele acerta ao dizer que a “religião inteligente” pouco tem feito diante da violência fundamentalista e do Mac-Jesus. Mas seria Deus que nos faz gostar de matar e sermos banais como qualquer animal que se arrasta no pó?

A inteligência se faz vítima do ruidoso mundo da democracia militante de massa. Este livro é a prova, ao tentar fazer do darwinismo uma teoria palatável à massa medrosa: se deixarmos de acreditar em Deus, seremos mais felizes… Quem disse que a beleza vencerá? O darwinismo é, filosoficamente, o ateísmo mais elegante que existe, nada prova sobre Deus, mas pelo menos não incorre no elementar erro do marxismo, que confunde representações sociais com o problema da ordem cósmica. Diante desse ruído, ainda que me considerem cético demais, confesso: prefiro Fernando Pessoa e Deus. [FOLHA 1/9/07]

DEUS, UM DELÍRIO
Autor: Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 45, em média (528 págs.)
Avaliação: regular

o gene egoísta

Estudo clássico da biologia faz 30 anos e ganha nova edição

Obra-prima do britânico Richard Dawkins chega com um ano de atraso ao Brasil

por CLAUDIO ANGELO

H á uma anedota já clássica no gueto dos jornalistas científicos segundo a qual é possível sustentar qualquer tese sobre o papel dos genes no comportamento humano citando um trecho escolhido de “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins.

Como toda boa piada, esta é cruel, mas tem mais do que um fundo de verdade. Ela revela o barulho que o maior clássico moderno da biologia tem feito desde que saiu, em 1976, e a confusão que ainda causa: determinismo ou livre-arbítrio?

As idéias que permeiam o livro de Dawkins há muito vazaram do laboratório e foram canibalizadas pelo mundo da cultura. Viraram desculpa para um monte de coisas, de infidelidade conjugal a assassinato. E, recentemente, foram ecoadas por ninguém menos que James Watson, o pai do Projeto Genoma Humano, em suas declarações desmioladas sobre diferenças genéticas determinando diferenças de capacidade intelectual entre brancos e negros.

É em boa hora, portanto, apesar do atraso de um ano, que chega ao Brasil a edição comemorativa de 30 anos de “O Gene Egoísta”. Quem já leu pode aproveitar para desfazer mal-entendidos sobre o livro, numa atmosfera política menos carregada que a dos anos 1970. Quem não leu pode se deliciar com a prosa de Dawkins, então um pensador mais arejado (e menos chato) que o militante ateu de “Deus, um Delírio”.

A premissa básica do livro é que os genes são a “unidade” mínima da evolução e “agem” de acordo com o axioma da seleção natural darwinista: maximize sua sobrevivência. Sobreviver, aqui, equivale a espalhar o maior número possível de cópias de si mesmo. Para que isso aconteça em um ambiente em que vários genes competem entre si, é necessário eliminar rivais e recorrer a uma série de truques, tais quais criar “máquinas de sobrevivência” que protejam o DNA do contato direto com o mundo.

Essas máquinas somos nós, os organismos vivos, que Dawkins comparou a “gigantescos e desajeitados robôs”. O valor adaptativo de uma máquina de sobrevivência está em ser melhor que seus competidores na exploração do ambiente. Para o gene, não compensa ajudar outro organismo quando isso implica em custo.

Portanto, na evolução -e, por tabela, no comportamento humano-, impera a lei da selva. Parando por aí, fica-se com a impressão de que Dawkins cede ao determinismo. Mas, embora intencionalmente force a mão na linguagem, ele mesmo desmonta tal sugestão ao postular que o egoísmo dos genes montou uma máquina tão sofisticada -o cérebro e a consciência- que consegue se rebelar contra seus ditames.

A biologia mudou um bocado nestes 31 anos. Mas “O Gene Egoísta” continua sendo obrigatório. Não só para quem quer entender a genética mas também para qualquer um que se pergunte como é possível traduzir conceitos científicos complicados como quem escreve um romance.


O GENE EGOÍSTA
Autor:
Richard Dawkins
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 55 (540 págs.)
Avaliação: ótimo
[FOLHA 17/11/07]

o relojoeiro cego

A improbabilidade de Deus

por RICHARD DAWKINS

Muito do que as pessoas fazem é em nome de Deus. Os irlandeses mandam-se uns aos outros pelo ar em nome de Deus. Os árabes mandam-se a si próprios pelo ar em nome de Deus. Os imãs e os aiatolas oprimem as mulheres em nome de Deus. Os papas e os padres celibatários destroçam a vida sexual das pessoas em nome de Deus. Os shohets judeus cortam a garganta de animais vivos em nome de Deus. As proezas da religião no passado ― cruzadas sangrentas, inquisições que praticavam a tortura, conquistadores que assassinavam em massa, missionários que destruiam culturas, resistência reforçada legalmente e até ao último momento possível a cada nova verdade científica ― são ainda mais impressionantes. E tudo isto para quê? Creio que se torna cada vez mais claro que a resposta é absolutamente para nada. Não há nenhuma razão para que acreditemos que existam quaisquer espécies de deuses e há muito boas razões para que acreditemos que não existem e nunca existiram. Foi tudo um gigantesco desperdício de tempo e de vida. Seria uma anedota de proporções cósmicas se não fosse tão trágico.

Porque é que as pessoas acreditam em Deus? Para a maior parte das pessoas a resposta é ainda uma qualquer versão do antigo Argumento do Desígnio. Olhamos em volta para a beleza e complexidade do mundo ― para o movimento aerodinâmico de uma asa de andorinha, para a delicadeza das flores e das borboletas que as fertilizam; por intermédio de um microscópio para a vida luxuriante existente em cada gota de água de um tanque; por intermédio de um telescópio para a copa de uma sequóia gigante. Reflectimos na complexidade electrónica e na perfeição óptica dos nossos olhos que vêem tudo isto. Se temos alguma imaginação, estas coisas conduzem-nos a um sentimento de temor e reverência. Além disso, não podemos deixar de nos impressionar com a semelhança óbvia dos órgãos vivos com os projectos cuidadosamente planeados dos engenheiros humanos. A expressão mais famosa deste argumento é a analogia do relojoeiro de William Paley, padre do século dezoito. Mesmo que não soubéssemos o que é um relógio, o carácter obviamente concebido dos seus dentes e molas e de como engrenam uns nos outros para um propósito, forçar-nos-ia a concluir «que o relógio teve de ter um autor: que teve de ter existido, nalguma altura, num lugar ou noutro, um artífice ou artífices, que o concebeu com o propósito a que o vemos agora responder; que compreendeu a sua construção e concebeu o seu uso.» Se isto é verdade de um relógio relativamente simples, não é muito mais verdade do olho, do ouvido, do rim, da articulação do cotovelo e do cérebro? Estas belas, complexas e intrincadas estruturas, que foram evidentemente construídas com um propósito, tiveram de ter o seu próprio autor, o seu próprio relojoeiro ― Deus.

Tal é o argumento de Paley, e é um argumento que praticamente todas as pessoas que reflectem e têm sensibilidade descobrem por elas próprias em certa altura da sua infância. Durante a maior parte da história deve ter parecido absolutamente convincente e de uma verdade auto-evidente. E contudo, como resultado de uma das mais espantosas revoluções intelectuais da história, sabemos agora que é errado ou pelo menos supérfluo. Sabemos agora que a ordem e a aparente intencionalidade do mundo vivo aconteceu por intermédio de um processo completamente diferente, um processo que funciona sem a necessidade de qualquer autor e que é uma consequência de leis físicas basicamente muito simples. Este é o processo de evolução por selecção natural, descoberto por Charles Darwin e, independentemente, por Alfred Russel Wallace.

O que têm em comum todos os objectos que parecem ter de ter tido um autor? A resposta é improbabilidade estatística. Se encontramos um seixo transparente a que o mar deu a forma de uma lente imperfeita, não concluímos que teve de ser concebido por um oculista: as leis da física por si sós são capazes de alcançar este resultado; não é muito improvável que tenha meramente «acontecido». Mas se encontramos uma lente composta trabalhada, cuidadosamente corrigida contra a aberração esférica e cromática, revestida contra o brilho e com «Carl Zeiss» gravado no rebordo, sabemos que não poderia ter acontecido meramente por acaso. Se pegarmos em todos os átomos de uma tal lente composta e os lançarmos juntos ao acaso sob a impulsionante influência das leis vulgares da física na natureza é teoricamente possível que, por puro acaso, os átomos se agrupem segundo o padrão da lente composta da Zeiss e até que os átomos em redor da orla se agrupem de modo a que o nome Carl Zeiss seja gravado. Mas o número de outras formas segundo as quais os átomos poderiam, com idêntica probabilidade, ter-se agrupado é tão extremamente, imensamente, incomensuravelmente elevado, que podemos pôr completamente de lado a hipótese do acaso. Como explicação o acaso está fora de questão.

A propósito, este argumento não é circular. Pode parecer circular porque, depois da ocorrência, podemos dizer que qualquer organização particular de átomos é muito improvável. Como já alguém disse, quando uma bola cai num determinado pedaço de relva no campo de golfo, seria loucura exclamar: «De todos os biliões de pedaços de relva em que a bola poderia ter caído, caiu efectivamente neste. Quão admiravelmente e miraculosamente improvável!» Claro que a falácia aqui é que a bola tinha de cair nalgum lado. Só podemos ficar admirados com a improbabilidade do acontecimento real se o determinarmos a priori: por exemplo, se uma pessoa de olhos vendados girasse sobre si no tee, acertasse na bola ao acaso e conseguisse um hole in one. Isso seria verdadeiramente espantoso, porque o destino alvo da bola tinha sido estabelecido previamente.

De todas as triliões de formas diferentes de juntar os átomos de um telescópio, apenas uma minoria poderia na realidade funcionar de forma útil. Apenas uma pequena minoria teria Carl Zeiss gravado ou, na verdade, quaisquer palavras reconhecíveis de qualquer linguagem humana. O mesmo é verdade para as partes de um relógio: de todos os biliões de modos possíveis de os juntar, apenas uma pequena minoria dirão as horas ou farão qualquer coisa útil. E, claro, o mesmo é verdade, a fortiori, para as partes dos corpos vivos. De todos os triliões de triliões de modos de juntar as partes de um corpo, apenas uma minoria infinitesimal viverão, procurarão comida, comerão e se reproduzirão. É verdade que há muitas formas diferentes de estar vivo ― pelo menos dez milhões de formas diferentes, se contarmos o número de espécies diferentes que estão actualmente vivas ― mas, por mais formas que possam existir de estar vivo, de certeza que há muito mais de estar morto!

Podemos com segurança concluir que os corpos vivos são biliões de vezes demasiado complicados ― demasiado estatisticamente improváveis ― para terem surgido por puro acaso. Como é que surgiram, então? A resposta é que o acaso entra na história, mas não um único e monolítico acto de acaso. Em vez disso, toda uma série de pequenos passos ocasionais, cada um suficientemente pequeno para ser um resultado credível do seu predecessor, ocorreram uns atrás dos outros em sequência. Estes pequenos passos do acaso são causados por mutações genéticas, mudanças fortuitas ― erros de facto ― no material genético. Originam mudanças na estrutura corporal existente. A maior parte dessas mudanças são perniciosas e levam à morte. Uma minoria revelam-se pequenas melhorias, que conduzem a um aumento da sobrevivência e da reprodução. Por este processo de selecçÃ
£o natural, as mudanças ao acaso que se revelam no fim de contas benéficas espalham-se pela espécie e tornam-se a norma. O cenário está agora montado para a próxima pequena mudança no processo evolutivo. Depois de, digamos, um milhar destas pequenas mudanças em série, cada mudança fornecendo a base para a próxima, o resultado final tornou-se, por um processo de acumulação, demasiado complexo para ter surgido num único acto de acaso.

Por exemplo, é teoricamente possível que um olho se forme do nada, num único passo de acaso: digamos que a partir apenas da pele. É teoricamente possível no sentido em que poderíamos escrever uma receita com a forma de um grande número de mutações. Se todas estas mutações acontecessem simultaneamente, poderia mesmo surgir do nada um olho completo. Mas embora seja teoricamente possível, é na prática inconcebível. A quantidade de acaso que envolve é demasiada. A receita «correcta» envolve mudanças num enorme número de genes simultaneamente. A receita correcta é uma combinação particular de mudanças em triliões de combinações de acasos igualmente prováveis. Podemos certamente excluir uma tal miraculosa coincidência. Mas é perfeitamente plausível que o olho moderno se tenha formado a partir de algo que fosse quase igual ao olho moderno mas não exactamente igual: um olho ligeiramente menos elaborado. Pelo mesmo argumento, este olho ligeiramente menos elaborado formou-se a partir de um ainda menos elaborado, etc. Se assumirmos um número suficientemente grande de pequenas diferenças entre cada estádio evolutivo e o seu predecessor, somos capazes de derivar um olho completo, complexo, a funcionar, a partir apenas da pele. Quantos estádios intermédios podemos postular? Isso depende do tempo de que dispusermos. Houve tempo suficiente para os olhos evoluírem por pequenos passos a partir do nada?

Os fósseis dizem-nos que a vida evolui na Terra há mais de 3 000 milhões de anos. Para a mente humana é quase impossível apreender uma tal imensidão de tempo. Nós, naturalmente e felizmente, tendemos a ver a nossa própria expectativa de vida como razoavelmente longa, mas não podemos esperar viver nem sequer um século. Passaram 2 000 anos desde que Jesus viveu, tempo suficiente para esbater a distinção entre história e mito. Podemos imaginar um milhão de períodos desses colocados lado a lado? Suponhamos que queremos escrever toda a história num longo e único rolo. Se amontoássemos toda a história da Era Comum num metro de rolo, que tamanho teria a parte do rolo da Era pré-Comum até ao começo da evolução? A resposta é que a parte do rolo da Era pré-Comum estender-se-ia de Milão a Moscovo. Pensemos nas implicações disto para a quantidade de mudanças evolutivas que podem ser incluídas. Todos as raças de cães domésticos ― pequineses, poodles, spaniels, São Bernardos e chihuahuas ― provieram de lobos num espaço de tempo medido em centenas ou no máximo milhares de anos: não mais que dois metros ao longo da estrada de Milão para Moscovo. Pensemos na quantidade de mudança envolvida na passagem de lobo a pequinês; agora multipliquemos essa quantidade de mudança por um milhão. Quando olhamos para isto dessa maneira, torna-se fácil acreditar que um olho pode ter evoluído por pequenos passos a partir do nada.

É preciso ainda convencermo-nos de que cada um dos mediadores na rota da evolução, digamos da mera pele para um olho moderno, teria sido favorecido pela selecção natural; teria sido um progresso em relação ao seu predecessor na sequência ou pelo menos teria sobrevivido. Não serviria de nada provarmos a nós próprios que existe teoricamente uma cadeia de mediadores quase perceptivelmente diferentes levando a um olho se muitos desses mediadores tivessem morrido. Afirma-se às vezes que as partes de um olho têm de estar todas reunidas ou o olho não funcionará. Metade de um olho, diz o argumento, não é melhor que nenhum olho. Não podemos voar com metade de uma asa; não podemos ouvir com metade de um ouvido. Portanto, não pode ter existido uma série de passos intermédios conduzindo ao olho, asa ou ouvido modernos.

Este tipo de argumento é tão ingénuo que podemos apenas perguntar-nos quais os motivos subconscientes para acreditar nele. É obviamente falso que meio olho seja inútil. As pessoas que sofrem de cataratas a quem removeram cirurgicamente os cristalinos não podem ver muito bem sem óculos, mas ainda assim estão muito melhor do que as pessoas que não têm quaisquer olhos. Sem o cristalino não é possível focar uma imagem detalhada, mas é possível evitar chocar com obstáculos e seria possível detectar a sombra vaga de um predador.

Quanto ao argumento segundo o qual não podemos voar com apenas metade de uma asa, é refutado por um grande número de animais planantes bem sucedidos, incluindo mamíferos de géneros muito diferentes, lagartos, rãs, cobras e chocos. Muitos géneros diferentes de animais que vivem nas árvores têm abas de pele entre as suas articulações que são de facto asas fraccionadas. Se cairmos de uma árvore, qualquer aba de pele ou alisamento do corpo que aumente a nossa área de superfície pode salvar-nos a vida. E, por muito pequenas ou grandes que as nossas abas possam ser, haverá sempre uma altura crítica tal que, se cairmos de uma árvore dessa altura, a nossa vida poderia ter sido salva por precisamente um pouco mais de área de superfície. Portanto, quando os nossos descendentes desenvolverem essa área de superfície extra, as suas vidas serão salvas precisamente por um pouco mais, mesmo que caiam de árvores de uma altura ligeiramente maior. E assim sucessivamente, por passos imperceptivelmente graduados até que, centenas de gerações depois, chegamos a asas completas.

Os olhos e as asas não podem surgir num passo único. Isso seria como ter a sorte quase infinita de acertar na combinação que abre a caixa-forte de um grande banco. Mas se girarmos os discos da fechadura ao acaso e, de cada vez que nos aproximarmos um pouco mais do número da sorte, a porta da caixa-forte rangendo abrir outra ranhura, em breve teremos a porta aberta! Na essência, é esse o segredo de como a evolução por selecção natural realiza o que pareceu impossível. Coisas que não podem plausivelmente ser derivadas de predecessores muito diferentes podem plausivelmente ser derivados de predecessores apenas ligeiramente diferentes. Contanto que haja uma série suficientemente longa de predecessores ligeiramente diferentes, podemos derivar qualquer coisa de qualquer outra coisa.

Portanto, a evolução é teoricamente capaz de fazer o trabalho que antigamente parecia ser uma prerrogativa de Deus. Mas há alguma prova de que a evolução tenha de facto acontecido? A resposta é sim; a prova é esmagadora. Milhões de fósseis encontram-se exactamente nos lugares e exactamente à profundidade a que devemos esperar que estejam se a evolução aconteceu. Nem um único fóssil foi alguma vez encontrado num local em que a teoria da evolução não previsse que estivesse, embora isto pudesse ter acontecido com muita facilidade: um fóssil de um mamífero tão antigo que os peixes ainda não existissem, por exemplo, seria suficiente para refutar a teoria da evolução.

Os padrões de distribuição dos animais e das plantas pelos continentes e ilhas do mundo são exactamente os que seria de esperar que fossem se eles tivessem evoluído de antepassados comuns por graus lentos e graduais. Os padrões de semelhança entre animais e plantas são exactamente o que esperaríamos se alguns fossem entre si primos chegados, e outros mais distantes. O facto do código genético ser o mesmo em todas as criaturas vivas sugere esmagadoramente que todas descendem de um único antepassado. As provas a favor da evolução são tão conclusivas que a única forma de salvar a teoria da criação é assumir que Deus deliberadamente colocou enormes quantidades de provas para fazer com que parecesse que a evolução ocorreu. Por
outras palavras, os fósseis, a distribuição geográfica dos animais e tudo isso, são todos um gigantesco conto do vigário. Alguém quer adorar um Deus capaz de tal embuste? É certamente muito mais respeitoso, assim como mais sensato do ponto de vista científico, tomar as provas pelo seu valor facial. Todas as criaturas vivas são primas umas das outras, descendem de um antepassado remoto que viveu há mais do que 3000 milhões de anos.

Por conseguinte, o Argumento do Desígnio foi destruído como razão para acreditar em Deus. Existem outros argumentos? Algumas pessoas acreditam em Deus por causa do que sentem ser uma revelação interior. Tais revelações nem sempre são edificantes mas para a pessoa em questão são sem dúvida sentidas como reais. Muitos habitantes de hospícios têm uma fé inabalável em que são Napoleão ou, na verdade, o próprio Deus. Não há dúvida do poder de tais convicções para quem acredita nelas, mas isto não é razão para que o resto de nós acredite. Na verdade, uma vez que essas crenças são mutuamente contraditórias, não podemos acreditar nelas.

É preciso dizer um pouco mais. A evolução por selecção natural explica muitas coisas, mas não poderia ter começado do nada. Não poderia ter começado sem que houvesse algum género de reprodução e de hereditariedade. A hereditariedade moderna baseia-se no código de ADN, que é ele mesmo demasiado complicado para ter surgido espontaneamente por um único acto de acaso. Isto parece significar que teve de existir algum sistema hereditário anterior, agora desaparecido, que era suficientemente simples para ter surgido por acaso e pelas leis da química e que forneceu o meio no qual uma forma primitiva de selecção natural cumulativa pôde começar. O ADN foi um produto posterior desta selecção primitiva e cumulativa. Antes deste género original de selecção natural, houve um período em que foram construídos compostos químicos complexos a partir de compostos químicos mais simples e antes desse um período em que os elementos químicos foram feitos a partir de elementos mais simples, seguindo leis físicas bem compreendidas. Antes disso, em última instância foi tudo construído de hidrogénio puro no imediato seguimento do big bang que iniciou o universo.

Há a tentação de defender que, embora Deus possa não ser necessário para explicar a evolução da ordem complexa uma vez que o universo, com as suas leis fundamentais da física, tenha começado, precisamos de um Deus para explicar a origem de todas as coisas. Esta ideia não deixa Deus com muito que fazer: somente iniciar o big bang, e em seguida sentar-se e esperar que tudo aconteça. O físico-químico Peter Atkins, no seu livro maravilhosamente escrito The Creation, postula um Deus preguiçoso que se esforçou por fazer tão pouco quanto possível para iniciar tudo. Atkins explica como cada passo na história do universo seguiu, por simples lei física, o seu predecessor. Reduziu assim a quantidade de trabalho que o criador preguiçoso precisaria de fazer e no fim de contas concluiu que de facto não precisaria de fazer nada!

Os detalhes da fase inicial do universo pertencem ao reino da física e eu sou biólogo, mais interessado nas últimas fases da evolução em complexidade. Para mim, o ponto importante é que, mesmo se o físico precisa de postular um mínimo irredutível que teve de estar presente no começo, para que o universo começasse, esse mínimo irredutível é certamente extremamente simples. Por definição, as explicações construídas sobre premissas simples são mais plausíveis e mais satisfatórias do que as explicações que têm de postular começos complexos e estatisticamente improváveis. E dificilmente poderemos encontrar algo mais complexo do que um Deus Todo-Poderoso! [Richard Dawkins, in Free Inquiry, Volume 18, Número 3. Tradução de Álvaro Nunes. (Richard Dawkins é Professor em Oxford de Compreensão Pública da Ciência. É o autor de O Relojoeiro Cego –no qual este artigo se baseia em parte– e A Escalada do Monte Improvável. É Editor Principal do Free Inquiry).]

deus está conosco até o pescoço

Recepção ao livro de Richard Dawkins expõe o ateísmo e o criacionismo como a nova divisão da cultura moderna

por CARLOS ALBERTO DÓRIA

Há debates que são proveitosos; outros, perda de tempo. É perda de tempo discutir os fundamentos da fé. Filosoficamente, a fé é uma premissa indemonstrável. Por outro lado, uma grande conquista da república moderna (Revolução Francesa) é o Estado laico: não se combate as igrejas, mas a religião é tomada como questão de foro íntimo; diz respeito à vida privada, não à esfera pública. É o indiferentismo político em relação à fé.

Os que crêem em “Deus é fiel” pensam evidentemente em si, não nos ateus. Estes, por sua vez, podem achar que Deus é um “vertebrado gasoso”, como dizia Ernst Haeckel há mais de cem anos: a fé não precisa de provas, e a ciência não precisa da crença popular nos seus resultados. A lei da gravidade existe, queiramos ou não, e ateus e religiosos caem igualmente. Os ateus não são atraídos para o centro da terra enquanto os crentes levitam.

Mas, quando a religião assume feição de coisa pública, o seu debate muda de caráter. Trata-se de uma ameaça à idéia política republicana. Por isso não é possível imaginar que a obra de Richard Dawkins “Deus, um Delírio”, recém-lançada em português (Companhia das Letras), possa ser entendida fora dos marcos da política.

Ora, por que um livro considerado panfletário pelos seus inimigos é tão discutido; taxado de “ultradarwinismo chique”, ou de manifestação de “ateísmo elegante”, mesmo por quem não aprofunde a discussão das suas idéias, naturalmente polêmicas?

Por certo porque o pensamento grosseiro é mais facilmente combatido, e o conjunto da obra de Dawkins, um cientista respeitado e considerado intelectual brilhante, não pode ser colocado nessa categoria. Além disso, o seu papel de divulgador do pensamento científico é uma contribuição bem singular sua, não se podendo dizer o mesmo dos seus adversários.

Mas “Deus, um Delírio” é um livro de aliciamento. Sua virulência contra a idéia de Deus não se deve apenas às convicções do autor -coisa que provavelmente ele guardaria para si, se não fosse a importância política que atribui à discussão. Ele entende que se vive, hoje, um “estado de emergência científico”, tal a penetração do fundamentalismo cristão na política norte-americana, coisa que atribui, entre outras causas, à tolerância e subestimação do papel moderno do criacionismo. Por isso, profeticamente, nos diz: “Uma guerra se aproxima entre o sobrenaturalismo e a racionalidade”. É um livro que visa recuperar o terreno perdido para a fé.

Um deus que batalha no campo da história sequer é o deus do papa Bento 16, que gostaria de ver a fé sustentada por si própria, sem precisar da muleta que lhe forneceu a “teologia da libertação”. Talvez por isso mesmo nem a tentativa desesperada do padre e paleontólogo Pierre Teillard de Chardin (1881-1955) de integrar, de modo evolucionista, uma suposta essência humana na “cristosfera” parece hoje digna de promoção por parte da Igreja Católica. Essa deixou o trabalho menor para os protestantes criacionistas.

A cruzada contra a idéia de Deus que Dawkins lidera é, antes de tudo, contra o criacionismo norte-americano que “fundamentalizou” o Estado, fomentando o obscurantismo religioso no plano interno e justificando a guerra santa contra o Islã no plano externo. A busca do apoio eleitoral dos criacionistas tornou-se crítico na política interna daquele país. Daí o lobby contra as pesquisas relacionadas com a célula-tronco, prenunciando um “ataque global à racionalidade e aos valores iluministas”, nas palavras de Dawkins.

Dawkins gostaria que os ateus “saíssem do armário” para combater o bom combate à luz do dia. Para tanto, é preciso reconhecer que a palavra “ateu” é terrível e assustadora na sociedade norte-americana: “O status dos ateus é hoje equivalente ao dos homossexuais 50 anos atrás”.

Uma pesquisa Gallup de 1999 mostrou que 94% votariam em católicos; 92% em judeus ou negros; 79% em homossexuais e apenas 49% em ateus. Portanto, o que Dawkins quer fazer é encorajar um debate público sobre algo que tem sido nefasto à democracia: o aviltamento do ensino e da ciência em nome da fé, graças ao avanço criacionista na esfera pública.

A bibliografia criacionista é tão vasta quanto a darwinista, mas o seu programa moderno é impor o estudo de Deus como um objetivo das ciências e, para tanto, pretende ter o apoio do Estado através do acesso a fundos públicos de pesquisa. Desse modo, sibilinamente, a religião escorrega da esfera privada para o domínio público, querendo disputar com a ciência a primazia do conhecimento necessário para a evolução do conhecimento humano.

Darwin nunca foi ateu no sentido militante que Richard Dawkins indica. Sua própria formação se deveu, em boa medida, à teologia de William Paley. Partiu da idéia de imutabilidade das espécies para mostrar que as formas vivas se transformam sem qualquer finalidade, validando a proposição kantiana de que a natureza é um mecanismo que se comporta “em relação a si mesma reciprocamente como causa e como efeito”. O funcionamento dessa máquina natural dispensa a interferência de um “supremo relojoeiro”, na imagem teológica de Paley.

Porém, como o próprio Darwin observou, a seleção natural é uma hipótese que precisa de um número muito grande de provas para ser considerada uma “lei” e, portanto, precisa explicar até mesmo a evolução de órgãos complexos como o olho, senão não teremos como resolver o “problema de Paley”, isto é, refutar a tese do design segundo a formulação daquele teólogo do século 18.

Ainda se discute como o olho se desenvolveu, e este é um caso-limite da biologia, mas o “problema de Paley” só pode persistir onde a ciência não chegou. A ciência caminha no sentido oposto ao da fé, embora os criacionistas lutem desesperadamente para associá-las.

A evolução contemplada pela genética supõe um “pool” de genes sobre o qual se processam mutações e recombinações, além da decifração do próprio código genético. Trata-se de uma “teoria poderosa”, suficientemente testada, ao passo que a teoria da seleção natural, a mais importante contribuição de Darwin, é difícil de ser testada, ao menos no sentido experimental; por isso, a seleção natural continua a operar como um verdadeiro programa de pesquisas onde a fronteira é aquela que divide o que pode ser explicado pela seleção natural e aquilo que pode ser explicado sem a seleção natural.

Mas, para reforçar argumentos, é curioso como os críticos de Dawkins não deixam de atirar farpas contra o marxismo, como se esse fosse uma degenerescência do evolucionismo. Acusam-no de confundir representações sociais com o “problema da ordem cósmica”. Não há um texto sequer de Marx sobre a ordem cósmica que permita comprovar essa leitura. Portanto, a observação só serve como um toque de reunir para o conservadorismo, incluindo o antimarxismo.

É verdade que o marxismo manteve uma relação ambivalente com o darwinismo, cercada pela incompreensão do próprio Marx, pela imputação duvidosa de decorrências das descobertas de Darwin à sociedade e assim por diante. Mas há também textos de Marx e Engels que vão no sentido inverso, e é inegável que um dos mais brilhantes trabalhos sobre o processo de hominização -tema de Darwin, especialmente em “A Origem do Homem” (1871)- foi escrito por Engels. Do mesmo modo, são os marxistas que têm promovido mais recentemente, e com perspicácia, a revisão da antropologia de Darwin, que parte não da idéia de uma seleção natural que atua como força absoluta, mas da percepção do papel da solidariedade n
a evolução da espécie humana. Rigorosamente, aponta-se a “seleção de instintos não-selecionistas” como móvel da humanização na perspectiva inaugurada por Darwin1.

Outros desenvolvimentos recentes, não-marxistas, também acrescentam argumentos sobre a hereditariedade por processos não restritos à genética2. Pelo menos quatro diferentes processos de herança podem ser identificados, sendo os genes um deles. Nesse sentido, abrem uma discussão mais rica sobre as idéias de Dawkins em seu livro de divulgação, “O Gene Egoista”, onde se vê claramente um geneticismo-radical.

Reduzir o darwinismo ao selecionismo é uma simplificação grosseira da contribuição do naturalista inglês para a compreensão da história da vida, nela incluindo a animalidade do homem. E reduzir o marxismo a um ateísmo oportunista é escancarar a ignorância da sua história, preferindo vê-lo não como um pensamento que se transforma mas estabilizado nos seus piores momentos.

O incômodo da emergência do ateísmo parece ser a plataforma política que Dawkins propõe para ele: um toque de reunir para cientistas e livre-pensadores materialistas que reconhecem no avanço do criacionismo uma ameaça à liberdade de ensino e investigação sob o regime político que caracteriza a República moderna. Se quiserem ser honestos, não há como os críticos de Dawkins taparem o sol com a peneira.

NOTAS
1 – Essas idéias, Patrick Tort desenvolve em vários textos, notadamente “La Pensée Hiérarchique et l’Evolution”, Paris, Aubier, 1983; “Misère de la Sociobiologie”, Paris, PUF, 1985 ; “Darwinisme et Société”, Paris, PUF, 1992.
2 – Eva Jablonka e Marion J. Lamb, “Evolution in Four dimensions: Genetic, Epigenetic, Behavioral and Symbolic Variation in the History of Life”, Cambridge, The MIT Press, 2005.

[Carlos Alberto Dória é sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de “Ensaios Enveredados”, “Bordado da Fama” e “Os Federais da Cultura”, entre outros livros. Acaba de publicar “Estrelas no Céu da Boca – Escritos Sobre Culinária e Gastronomia” (ed. Senac). Trópico]

Seleção natural

Principal historiador do criacionismo, Ronald Numbers diz que movimento cresce em todo o mundo

por ERNANE GUIMARÃES NETO

A escola básica é a principal frente de uma guerra global: a das visões de mundo evolucionista e criacionista. A primeira, herdeira do cientista britânico Charles Darwin (1809-82), carrega o estandarte da ciência estabelecida; a segunda, de tradição religiosa, reage no campo político e cultural -incluindo argumentos científicos- para retomar o imaginário popular.

Para o historiador da ciência Ronald Numbers, essa disputa -entre ensinar, respectivamente, que o homem descende de outros animais ou que o homem foi criado por Deus- apresenta uma agressividade desnecessária.

“Não acredito que haja um conflito inerente à relação entre a maior parte da ciência e a maior parte da religião”, diz.

Professor na Universidade do Wisconsin, em Madison (EUA), Numbers lançou em novembro uma edição atualizada de “The Creationists” (Os Criacionistas, Harvard University Press, 624 págs., US$ 21,95, R$ 48), em que fala da expansão do criacionismo e do design inteligente, teorias opostas ao evolucionismo.

Para ele, o conflito não deriva de uma divisão dentro da comunidade científica, mas de pressões políticas das instituições -religiosas e científicas.

Em entrevista à Folha, ele também comentou a exposição sobre Darwin em São Paulo e a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na última segunda, que classificou o aborto como questão de saúde pública.

FOLHA – Qual sua opinião a respeito da mostra, organizada pelo Museu de História Natural de Nova York, sobre Charles Darwin [no Masp até 15/7]?
RONALD NUMBERS – Participei da inauguração da exposição em Nova York. Acho que é uma introdução muito boa ao darwinismo, uma tentativa de mostrar seu pensamento, apresentando as evidências usadas por ele para desenvolver sua teoria.

FOLHA – Há disputa entre essas evidências e aquelas que sustentam o ponto de vista criacionista?
NUMBERS – Simplesmente: não há evidências para o criacionismo. A criação foi um evento sobrenatural de Deus, portanto não dá para encontrar indícios dela.

Muito das chamadas “provas” do criacionismo são tentativas de associar os registros fósseis a um período muito curto, como o ano da inundação universal. Eles tentam excluir o fator tempo, de que os evolucionistas tanto precisam.
E estão claramente errados.

FOLHA – Acha que o conflito entre ciência e religião cresceu ao longo dos últimos anos?
NUMBERS – Não acredito que haja um conflito inerente à relação entre a maior parte da ciência e a maior parte da religião. É claro que um cristão literalista, aquele que acredita que o mundo foi feito em seis dias, não pode aceitar a evolução.

A maioria dos cristãos e judeus -acredito que os muçulmanos também podem fazê-lo- arranjaram formas de acomodar seus ensinamentos na ciência. Contanto que eles não sejam materialistas e que os cientistas não digam que Deus não existe.

FOLHA – O design inteligente representa essa acomodação? Como define essa teoria?
NUMBERS – Não há definição oficial. Muitos leigos a vêem como uma forma de teologia natural: “Tal coisa é complexa demais para ter sido feita pelo acaso”. Mas os líderes do movimento negam veementemente fazerem teologia natural.

FOLHA – Qual é o fundamento?
NUMBERS – A “complexidade irredutível”, ver que um organismo na natureza é tão complexo que não poderia ser explicado em termos evolucionistas, pois certas características teriam de surgir todas ao mesmo tempo. O designer seria Deus. Para a maioria dos cientistas, “dê-nos mais 50 anos e nós explicaremos”.

O revolucionário, para a comunidade do design inteligente, é aceitar o sobrenatural dentro da ciência. Eles dizem que a escolha, feita há mais de 200 anos, de não apelar a Deus ou ao Diabo ao fazer ciência, é arbitrária e deveria ser rejeitada.

Estão desafiando uma regra básica da ciência: “Deus pode até ter feito a coisa, mas tentaremos interpretá-la naturalmente”.

FOLHA – E essa seria a nova moda, em lugar da “geologia do Dilúvio”?
NUMBERS – Errado. O apoio aos criacionistas, geólogos do Dilúvio ou seja qual for o nome continua muito grande. É que eles não têm nada de novo a apresentar, ou melhor, só um novo museu criacionista de US$ 27 milhões [cerca de R$ 55 milhões] a ser inaugurado na região de Cincinnati [o Creation Museum, com abertura prevista para junho].

FOLHA – Recentemente, o presidente Lula se referiu ao aborto como “questão de saúde pública”, com forte reação dos religiosos. Como um governo deve tratar esse tema? Como ocorreu nos EUA?
NUMBERS – Sou democrático o bastante para acreditar que as pessoas deveriam ter o direito de expressar suas vontades; as preocupações devem ser ouvidas, mas não acredito que as igrejas deveriam ditar a política.

A Suprema Corte dos EUA decidiu [em abril] que os Estados terão o direito de elaborar leis contra o “aborto com nascimento parcial” [técnica abortiva realizada com a gravidez avançada, geralmente no segundo trimestre de gestação]. Não sei se isso é o início de uma onda de leis antiaborto. Aborto e evolução são assuntos que dividem os EUA.

FOLHA – Assim como a eutanásia, certo?
NUMBERS – A eutanásia não chama tanto a atenção. As pessoas ignoram o assunto até que haja casos judiciais de importância. Os jornalistas é que criam esse conflito entre ciência e religião.

FOLHA – Como lidar com esse conflito, especialmente nas escolas?
NUMBERS – No Reino Unido não há proibição constitucional ao ensino de religião em escolas públicas; nos EUA isso existe desde a fundação, e as escolas dos EUA deveriam ser neutras em termos de religião.

Contudo pessoas como [o biólogo] Richard Dawkins, para quem a evolução é inerentemente ateísta -a mesma coisa que os religiosos vinham dizendo-, correm o risco de ver os religiosos quererem proibir o ensino do evolucionismo porque não seria, então, religiosamente neutro. Isso é perigoso.

FOLHA – Então pessoas como Dawkins põem lenha na fogueira?
NUMBERS – Sim, eles dão a deixa para os criacionistas. “Vocês, criacionistas, têm razão: a evolução é ateísta”.

FOLHA – Acha que a comunidade científica deve se preocupar com esse conflito ou há exagero?
NUMBERS -É causa para preocupação. Há uma controvérsia, sim, mas não dentro da comunidade científica. Diferentemente do que afirmam certos jornais, o número de criacionistas praticando ciência é ínfimo. A comunidade não está dividida. Fora da comunidade científica, sim: nos EUA, cerca de dois terços da população preferem o criacionismo ao evolucionismo.

FOLHA – Que acha da política francesa de proibir o uso ostensivo de símbolos religiosos nas escolas?
NUMBERS – Acredito na livre expressão das crenças religiosas.

FOLHA – Isso não interfere na aquisição de conhecimento?
NUMBERS – Não nos EUA. Não temos tantos muçulmanos nas universidades, mas eles têm liberdade para se vestir como quiserem, há os budistas em suas roupas cor de laranja… Banir os símbolos religiosos seria, nos EUA, atropelar os direitos dos alunos.

FOLHA – Entre os cientistas, há mais
religiosos, ateístas ou agnósticos? Quem tem mais voz?
NUMBERS – Um ex-aluno meu fez uma pesquisa anos atrás com cientistas dos EUA: cerca de 40% acreditavam num deus que atende a preces e provê uma vida após a morte. É uma concepção robusta de Deus. Outros tinham uma noção mais vaga.

Quanto mais alto o escalão, menos se acreditava em Deus -aparentemente, quanto mais famoso é o cientista, menos ele precisa de Deus.

FOLHA – O que mudou na nova edição de “Os Criacionistas”?
NUMBERS – Acrescentei dois capítulos: uma história do movimento do design inteligente e um capítulo chamado “O Criacionismo Torna-se Global”.

Muita gente, especialmente Stephen Jay Gould [1941-2002], enfatizou quão norte-americano sempre foi esse movimento, a ponto de o resto do mundo não ter de se preocupar.

Mas nos últimos 15 anos, o antievolucionismo se espalhou -até no Brasil: já ouviu falar de dois governadores antievolucionistas no Rio de Janeiro? [alusão aos protestantes Rosinha Matheus e Anthony Garotinho, do PMDB]

FOLHA – Em que outras frentes os criacionistas têm ganho terreno?
NUMBERS – Na América Latina, na África subsaariana, na Austrália… A maioria dos cristãos não aceita a evolução, mas antes eles não a combatiam. Na Ásia, um dos grupos antievolucionistas mais fortes está na Coréia do Sul.

Há cerca de dois anos, a ministra da Educação da Holanda [Maria van der Hoeven, atual ministra da Economia] sugeriu o ensino de design inteligente nas escolas, com o intuito de unir cristãos, judeus e muçulmanos.

E isso é só entre os cristãos. Entre os muçulmanos, o maior grupo antievolucionista é liderado por Harun Yahya, pseudônimo de Adnam Otkar, cujos livros já foram distribuídos para vários países. Há também o grupo judeu que criou a Torah Science Foundation, que mistura criacionismo e cabala.

FOLHA – Acha que os estudos sobre o genoma podem ditar as teorias que serão privilegiadas nos próximos anos?
NUMBERS – Creio que não. Teremos a mesma diversidade. Suponha que se confirme que não há grande diferença genética entre macacos e humanos. Os evolucionistas dirão: “É claro, nós saímos dos macacos”. Mas os criacionistas dirão: “Não admira, é o mesmo criador”. [FOLHA 13/5/07]

dê um tempo pra deus

Parece que malhar Deus está na moda

por STEVEN D. LEVITT

Daniel Dennett, co-diretor do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, deu o tiro de largada há cerca de um ano e meio, com “Breaking the Spell” (Quebrando a Magia), que defendia a análise científica da religião.

Pouco depois, Richard Dawkins, biólogo evolucionário britânico, lançou o campeão de vendas “The God Delusion” (A Ilusão de Deus). Depois vieram dois livros com títulos que dizem tudo: “God: the Failed Hypothesis” (Deus: A Hipótese Fracassada), de Victor Stenger, e o atual sucesso de vendas “God is Not Great” (Deus não é Grande), de Christopher Hitchens.

E o que está por vir?

“Irreligion”, do matemático John Allen Paulos (autor de “Innumeracy”), que refuta uma dúzia de argumentos pela existência de Deus. Amo o fato do lançamento do livro estar marcado para 26 de dezembro 2007. Poderia ser mais apropriado?

O que me intriga é: quem compra esses livros?

Não sou religioso. Não penso muito em Deus, exceto quando estou em uma situação difícil e preciso de favores especiais. Não tenho razão específica para dizer que ele os atenderá, mas algumas vezes tento de qualquer forma. Fora isso, não me interesso tanto por Deus.

Definitivamente não sou interessado o suficiente para sair e comprar livros explicando por que eu não deveria acreditar em Deus, mesmo que sejam escritos por pessoas como Dennett e Dawkins, a quem eu admiro grandemente. Se fosse religioso, acho que me esforçaria ainda mais em evitar livros me dizendo que minha fé está enganada.

Então quem está fazendo desses livros campeões de venda? Pessoas que desprezam a noção de Deus têm demanda insaciável por livros que as lembrem por quê? Haverá tantos por aí que não chegaram a uma conclusão sobre o assunto e estão abertos a persuasão?

Deixe-me argumentar de outra forma: compreendo porque os livros atacando liberais vendem – porque muitos conservadores odeiam liberais. Livros atacando conservadores vendem pela mesma razão.

Mas ninguém escreve livros dizendo que a observação de aves é uma perda de tempo, porque quem não é observador de aves provavelmente concorda e não quer gastar US$ 20 para ler sobre isso. Como são poucas as pessoas (ao menos no meu grupo) que não gostam de Deus de forma ativa, fico surpreso que os livros contra Deus não sejam recebidos com o mesmo bocejo que livros contra a observação de aves teriam. [Freakonomics.com: 8/8/07]

“afastar-se da religião é um avanço civilizatório”

Richard Dawkins está numa missão para acabar com Deus

Em seu mais recente e mais polêmico livro, “Deus, um Delírio”, o cientista de Oxford conhecido por seus genes egoístas e sua língua afiada não poupa palavras para contestar a existência do Todo-Poderoso.

Que ele descreve de forma impiedosa como “talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador, mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo”.

A obra, com lançamento previsto no Brasil para quinta-feira (Cia. das Letras, 528 páginas, R$ 54), já vendeu mais de 1 milhão de cópias em inglês – cada uma delas carregada de um sarcasmo anti-religioso que sem dúvida, alguns séculos atrás, seria bilhete garantido para uma noite na fogueira e uma eternidade no inferno.

Dawkins, porém, não parece preocupado com isso. Um dos primeiros ataques do livro é justamente contestar o argumento de que ‘religião não se discute’ e deve ser respeitada a qualquer custo.

“É sob a luz da pressuposição de respeito pela religião sem paralelos que faço meu aviso sobre este livro. Não farei ofensas gratuitas, mas tampouco usarei luvas de pelica para tratar da religião com mais delicadeza do que trataria qualquer outra coisa”, avisa.

Aqueles que comprarem a briga encontrarão pela frente um debatedor de lucidez espantosa, pragmatismo ferrenho e espiritualidade zero.

Dawkins é do tipo acostumado a polêmicas, sem medo de dizer o que pensa. Híbrido de zoólogo, etólogo e biólogo molecular, o britânico nascido no Quênia começou a demarcar seu território no mundo literário em 1976, com “O Gene Egoísta”, um dos maiores best sellers da escritura científica, no qual reduz o ser humano a um punhado de genes interessados apenas na própria reprodução.

Trinta e um anos depois, “Deus, um Delírio” faz soar o gongo de um clássico confronto entre ciência e religião.

Na visão de Dawkins, a fé religiosa (seja qual for a denominação) não é apenas uma ilusão inofensiva, mas um delírio nocivo do qual a sociedade precisa ser curada.

“Se este livro funcionar do modo como pretendo, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem”, escreve Dawkins, em um delírio próprio de otimismo reconhecidamente presunçoso.

Em tom mais realista, ele espera, pelo menos, convencer alguns infiéis a vestir a camisa do ateísmo com orgulho:

“O motivo de muitas pessoas não notarem os ateus é que muitos de nós relutam em ‘sair do armário’. Meu sonho é que este livro ajude as pessoas a fazê-lo. Exatamente como no caso do movimento gay, quanto mais gente sair do armário, mais fácil será para os outros fazerem a mesma coisa”, escreve.

Dawkins, professor de Compreensão Pública da Ciência na Universidade de Oxford, conversou por telefone com “O Estado de SP”.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

– O sr argumenta em seu livro que a religião é algo nocivo, que pode levar a guerras, terrorismo e preconceito. A maioria das pessoas religiosas, entretanto, não sai dirigindo carros-bomba por aí. Acreditam em Deus, vão à igreja aos domingos e seguem suas vidas sem problema. A religião é algo intrinsecamente ruim ou apenas quando levada ao extremo?
Nem tudo na religião é ruim, claro que não. A maioria das pessoas comuns, que vão à igreja todo domingo, não levam isso muito a sério – mas uma minoria leva, sim, extremamente a sério. O que eu quero dizer é que são essas pessoas comuns, do dia-a-dia religioso, que doutrinaram todos nós durante a infância de que a fé é uma coisa boa, e que a religião é algo que precisa ser respeitada. Isso cria um ambiente propício para o fundamentalismo, abre caminho para o extremismo.

– Tivemos há pouco um evento trágico no Brasil: um acidente de avião no qual morreram 199 pessoas. Numa situação dessas, a religião, a fé, é o único consolo para muitos parentes das vítimas. Nesse caso, também, o senhor acredita que a religião é uma coisa ruim? Como o senhor lida com as tragédias da vida?
Se tivesse religião, me preocuparia com o Deus que deixou uma coisa dessas acontecer. Você não? Deus sempre leva o crédito pelas coisas boas, mas nunca a culpa pelas coisas ruins. Ele deixou que a tragédia acontecesse! É incrível. Não sei se alguém sobreviveu a esse acidente, mas se for o caso, seria capaz de apostar que alguém disse: ‘Vejam que maravilhoso, Deus salvou meu filho, minha filha, ou seja lá quem for.’ Ninguém parece se dar conta de que esse mesmo Deus deixou todas as outras pessoas morrerem.

– Não consigo pensar em nenhuma sociedade, do presente ou do passado, que não tenha venerado algum tipo de divindade – seja o Deus Sol, o Deus Vento ou qualquer outro tipo de deus. Será que a religião não faz parte do nosso DNA, que não é algo intrínseco à essência do ser humano?
Acho que você tem razão. Todas as sociedades humanas manifestam algum tipo de religião. Grande número de pessoas é religiosa, mas não todas. Não é algo, portanto, que esteja tão incorporado ao nosso DNA que não sejamos capazes de escapar disso. Muitos de nós escapam, especialmente as pessoas que têm uma educação melhor. Eu diria, sim, que há uma predisposição da mente humana que nos torna vulneráveis à religião, mas não acho que isso esteja embutido em nossos genes.

– Por que contrariar esse instinto?
Bem, nós não fazemos tudo que é natural do ser humano, fazemos? Se fizéssemos, todos nós estaríamos andando pelados por aí. Nossos ancestrais selvagens eram caçadores-coletores, que provavelmente lutavam constantemente entre si, principalmente pelo controle das fêmeas. Não é exatamente o tipo de sociedade na qual gostaríamos de viver hoje. Nós evoluímos muito desde então, ao longo de vários séculos de civilização, e nossa emancipação dos deuses é mais um passo desse processo civilizatório.

– Charles Darwin não era ateu, era agnóstico (alguém que não crê em Deus, mas não descarta totalmente sua existência). O sr. acha que ele aprovaria seu livro?
Darwin era um homem muito gentil, que se preocupava muito em não ofender seus amigos religiosos. Chegou a dizer que as pessoas não estavam prontas para o ateísmo. Acho que Darwin não ficaria totalmente satisfeito com o meu livro. Acho até que ele concordaria comigo no fundo do seu coração, mas não concordaria em publicar o livro da maneira como eu publiquei.

– Quando o sr. prega o fim da religião e coloca a ciência como dona da verdade, essa não é uma posição tão radical quanto a dos fundamentalistas religiosos?
Não acho. Os fundamentalistas acreditam em algo simplesmente porque aquilo está escrito em um livro. Só acredito em alguma coisa com base em evidências, e isso é uma grande diferença. Admito ser passional, veemente, mas apenas sobre assuntos para os quais existem evidências. Não sou passional porque fui criado para acreditar em algo ou porque li aquilo em algum livro sagrado.

– Muitas vezes a doutrina religiosa é usada como referência moral, inclusive para impor limites éticos à ciência – como no caso da clonagem e das células-tronco embrionárias. Sem a religião, quem vai regular a ciência? Sem Deus para julgar nossas ações no fim do túnel, quem vai determinar o que é certo e o que é errado?
Jogar fora a religião não signifi
ca jogar fora a ética. Ética é algo completamente diferente. Qualquer um que disser que baseia sua ética na religião está quase certamente enganado. Ninguém tira seus conceitos morais da Bíblia, porque isso significaria ser a favor da escravidão, da opressão das mulheres, do apedrejamento de homossexuais etc. O que as pessoas fazem é selecionar versos da Bíblia que as agradam, mas a ética e a moral elas pegam de outro lugar. Muita gente também acredita que sem a religião todos se transformariam em pessoas más, que não haveria nada que lhes impedisse de praticar atos ruins. Se isso é verdade, essas pessoas não são realmente boas. Elas só são boas porque têm medo de serem punidas por Deus, e não acho que essa seja uma forma honrosa de bondade.

– O sr. foi eleito mais de uma vez pela revista britânica “Prospect” como um do mais importantes intelectuais do planeta. O sr. acha que os cientistas são os novos pensadores, os novos filósofos do mundo moderno?
Acho que a ciência tem, sim, muito a dizer para o mundo, e acho que as pessoas se sentiriam muito mais completas em suas vidas se aprendessem com a ciência. Não só com o conhecimento da ciência, mas com a metodologia do descobrimento científico, que é algo que vale a pena ser seguido.

– A ciência tem resposta para tudo?
Ainda não, e talvez nunca tenha. Mas, se há algo que a ciência não pode responder, não há nenhuma razão para supor que a religião possa.

Richard Dawkins é professor de Compreensão Pública da Ciência na Universidade de Oxford e autor de vários livros sobre ciência, comportamento e religiosidade, começando pelo best-seller “O Gene Egoísta”, de 1976. Também publicou “O Capelão do Diabo”, “O Relojoeiro Cego” e “O Rio que Saía do Éden”. [OESP 12/8/07]