o fetiche da modernidade

O que resta à modernidade é seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática

por LUIZ FELIPE PONDÉ

A CIÊNCIA é o supremo fetiche da modernidade. Quando se olha no espelho, em seus melhores momentos, vê o brilho redentor da tecnologia e seu sublime ídolo, o progresso (a face contemporânea da “natureza atada” de Francis Bacon).

Diante do quase fracasso de grande parte de suas utopias (o racionalismo político, a administração da vida, a resolução científica da existência, a reformulação do humano, enfim, a organização eficaz da agonia), resta à modernidade seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática.

A prova evidente desse senso comum é supor que qualquer crítica à ciência significa alguma forma de heresia epistemológica ou mera falta de conhecimento científico por parte de quem levanta a questão.

A estrutura do átomo, suas partículas e cordas, para além de um panteísmo de iniciantes, nada muda em nossa condição cósmica. Tampouco as modas científicas, os “novos paradigmas” e seu superficial frenesi pseudo-religioso.

Aristóteles não conhecia nada sobre como o genoma desvendaria (?) todos os segredos do humano. Entretanto, a única forma de ateísmo filosoficamente séria (o darwinismo) busca exatamente responder a Aristóteles e sua herança (o primeiro motor inteligente): Como do acaso cego chegamos à ordem e ao design visíveis no universo? Pela repetição (e reprodução) mecânica daquilo que não pereceu, vítima da agressão do meio ambiente, em sua inércia ancestral, surge a aparência de ordem. A dança macabra entre o agredido e a agressão mimetizaria essa ordem.

A crítica ao dogmatismo do senso comum científico nada tem a ver com um “desconforto” diante da possível insignificância da vida, sendo mais provável que o pânico diante da possibilidade de “descrença” na ciência seja um indício desse mesmo suposto “desconforto”.

Evidentemente, a ciência (ou aquilo que dela de fato parece fazer a diferença, ou seja, a medicina, a biotecnologia, os aviões, a informática e os processos de controle da vida cotidiana pelo Estado e por seu aliado, o mercado) mudou a face do planeta.

Só um mentiroso não reconhece, humildemente, o alívio diante do adiamento da morte. Imaginar-se mais livre do que os medievais é outro sintoma clássico: quem nunca foi capturado pela fina malha de violência científica do sócio invisível, o Estado arrecadador?

Não se trata de demonizar a ciência. Isso é para a filosofia amadora. Ela é uma das grandes coisas que realizamos nos últimos 500 anos. Trata-se de vê-la como é: uma adolescente furiosa, às vezes generosa, normalmente arrogante quando bem-sucedida. A ciência não é um método puro (somente quando vista das alturas de sua ascendência filosófica). Constitui-se numa teia de interesses e laços institucionais que tendem à fantasia do absoluto, quando, na realidade cotidiana, seus agentes sociais vivem no pântano do relativismo ético e do totalitarismo econômico. Kafka poderia escrever um excelente conto sobre sua burocracia da produtividade.

Exemplo claro é a forma alucinada com a qual a sociedade crê na economia (“Ah, esses sofistas, calculadores e economistas”, diria Burke).

Entre a vírgula e o ponto, no espaço estreito de uma fórmula abstrata, a realidade que se esvai em sangue. Só o ato epistemológico da crença justifica a matematização abstrata que reproduz a vida fora de si mesma.

Se a teologia da baixa escolástica foi marca dos delírios de uma época na qual a grande civilização medieval agonizava, as poderosas profecias econômicas marcam um mundo em que a estatística esmaga o pobre humano de carne e osso.

A estratégia do senso comum científico é desconstruir a incerteza ou dissolvê-la numa incerteza meramente estética. A suspeita, sem fundamento, de que a crítica à “cientificidade” da modernidade seja filha da Inquisição é outro marco do senso comum científico: entenderemos melhor a relação entre a vida e a ciência se lermos os utilitaristas, muito mais do que se nos deslumbrarmos diante do amontoado de “descobertas revolucionárias”.

A “precisão” científica pode andar lado a lado com a ignorância acerca da realidade. E mais: pode ser um método poderoso de falseá-la.

Qual a resposta científica ao Eclesiastes? [FOLHA 5/2/07]

libelo político

“Deus, um Delírio”

por LUIZ FELIPE PONDÉ

Falta nessas pessoas que teimam em ser profetas um pouco daquela sabedoria discreta que encontramos em gente como Fernando Pessoa: o improvável Deus nos protege da fé grosseira em ídolos com cabeça de bicho, como o culto da Humanidade, “mera idéia biológica”.

Pouco céticas e muito dogmáticas, elas confundem coisas como a salutar disciplina cética com o ateísmo. Como diria Chesterton, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. A humanidade é mais infeliz do que imagina nossa vã filosofia da emancipação.

O novo livro de Richard Dawkins (que parece ser aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande), “Deus, um Delírio”, não é ciência, mas mero libelo político (ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico), uma recaída na velha fúria jacobina, requentada com máximas evolucionistas.

Lembremos que não existem cosmologias de laboratório.

Afirmações como “tenha orgulho de ser ateu e olhe o futuro com confiança” soam bem num workshop para auto-estima.

Seu foco são as utopias modernas de salvação: não é por acaso que flerta com alguns dos totalitarismos mais sofisticados de nossa época, entre eles, aqueles, aliás, que “melhoraram muito” as relações entre homens e mulheres, esmagado-as sob a bota do ressentimento típico da desconstrução social genérica.

O livro vende o darwinismo como teoria “progressista” (grande intuição marqueteira), por isso suas alusões a “sair do armário”, tentando convencer a sensibilidade de esquerda que o darwinismo não é mais perigoso. A alma desassossegada indaga: além da parada dos ateus, serei processado se disser em público que acredito em Deus? Quem é o bobo que acredita que, sem Deus, o ser humano mataria menos? Sem o fundamentalismo islâmico (supõe-se), as torres gêmeas estariam lá, mas e os milhões de mortos em nome da ciência, da humanidade e da história nos séculos 18, 19 e 20?

De Stálin a Fidel, de Robespierre a Mao Tse-tung, todos seduziram a “inteligência atéia”. O ateísmo político domina a sensibilidade “pop-inteligente” há décadas, questões como a alegre legalização do aborto, a “revolta poético-científica do desejo”, a metafísica materialista e a ignorância filosófico-religiosa provam isso.

Ateísmo mais elegante
Quase todos crêem no “produto emancipação”. Deus não garante o “Bem” (nenhuma teologia séria pensa isso), nem o ateísmo a inteligência ou a ética.

Gostamos de matar e pronto.

Dawkins procura seduzir exatamente o tipo de pessoa covarde que não gosta de saber disso sobre si mesma e, com isso, minimiza uma grande qualidade do darwinismo filosófico: sua percepção trágica da vida na qual somos areia que um dia abriu os olhos e que balbucia sozinha diante da indiferença furiosa de um universo mudo e sonambúlico imerso no acúmulo de design cego (supremo conceito que descreve a emergência da “ordem” em meio à cegueira da matéria).

Todavia, reconheçamos que ele acerta ao dizer que a “religião inteligente” pouco tem feito diante da violência fundamentalista e do Mac-Jesus. Mas seria Deus que nos faz gostar de matar e sermos banais como qualquer animal que se arrasta no pó?

A inteligência se faz vítima do ruidoso mundo da democracia militante de massa. Este livro é a prova, ao tentar fazer do darwinismo uma teoria palatável à massa medrosa: se deixarmos de acreditar em Deus, seremos mais felizes… Quem disse que a beleza vencerá? O darwinismo é, filosoficamente, o ateísmo mais elegante que existe, nada prova sobre Deus, mas pelo menos não incorre no elementar erro do marxismo, que confunde representações sociais com o problema da ordem cósmica. Diante desse ruído, ainda que me considerem cético demais, confesso: prefiro Fernando Pessoa e Deus. [FOLHA 1/9/07]

DEUS, UM DELÍRIO
Autor: Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 45, em média (528 págs.)
Avaliação: regular

deus está conosco até o pescoço

Recepção ao livro de Richard Dawkins expõe o ateísmo e o criacionismo como a nova divisão da cultura moderna

por CARLOS ALBERTO DÓRIA

Há debates que são proveitosos; outros, perda de tempo. É perda de tempo discutir os fundamentos da fé. Filosoficamente, a fé é uma premissa indemonstrável. Por outro lado, uma grande conquista da república moderna (Revolução Francesa) é o Estado laico: não se combate as igrejas, mas a religião é tomada como questão de foro íntimo; diz respeito à vida privada, não à esfera pública. É o indiferentismo político em relação à fé.

Os que crêem em “Deus é fiel” pensam evidentemente em si, não nos ateus. Estes, por sua vez, podem achar que Deus é um “vertebrado gasoso”, como dizia Ernst Haeckel há mais de cem anos: a fé não precisa de provas, e a ciência não precisa da crença popular nos seus resultados. A lei da gravidade existe, queiramos ou não, e ateus e religiosos caem igualmente. Os ateus não são atraídos para o centro da terra enquanto os crentes levitam.

Mas, quando a religião assume feição de coisa pública, o seu debate muda de caráter. Trata-se de uma ameaça à idéia política republicana. Por isso não é possível imaginar que a obra de Richard Dawkins “Deus, um Delírio”, recém-lançada em português (Companhia das Letras), possa ser entendida fora dos marcos da política.

Ora, por que um livro considerado panfletário pelos seus inimigos é tão discutido; taxado de “ultradarwinismo chique”, ou de manifestação de “ateísmo elegante”, mesmo por quem não aprofunde a discussão das suas idéias, naturalmente polêmicas?

Por certo porque o pensamento grosseiro é mais facilmente combatido, e o conjunto da obra de Dawkins, um cientista respeitado e considerado intelectual brilhante, não pode ser colocado nessa categoria. Além disso, o seu papel de divulgador do pensamento científico é uma contribuição bem singular sua, não se podendo dizer o mesmo dos seus adversários.

Mas “Deus, um Delírio” é um livro de aliciamento. Sua virulência contra a idéia de Deus não se deve apenas às convicções do autor -coisa que provavelmente ele guardaria para si, se não fosse a importância política que atribui à discussão. Ele entende que se vive, hoje, um “estado de emergência científico”, tal a penetração do fundamentalismo cristão na política norte-americana, coisa que atribui, entre outras causas, à tolerância e subestimação do papel moderno do criacionismo. Por isso, profeticamente, nos diz: “Uma guerra se aproxima entre o sobrenaturalismo e a racionalidade”. É um livro que visa recuperar o terreno perdido para a fé.

Um deus que batalha no campo da história sequer é o deus do papa Bento 16, que gostaria de ver a fé sustentada por si própria, sem precisar da muleta que lhe forneceu a “teologia da libertação”. Talvez por isso mesmo nem a tentativa desesperada do padre e paleontólogo Pierre Teillard de Chardin (1881-1955) de integrar, de modo evolucionista, uma suposta essência humana na “cristosfera” parece hoje digna de promoção por parte da Igreja Católica. Essa deixou o trabalho menor para os protestantes criacionistas.

A cruzada contra a idéia de Deus que Dawkins lidera é, antes de tudo, contra o criacionismo norte-americano que “fundamentalizou” o Estado, fomentando o obscurantismo religioso no plano interno e justificando a guerra santa contra o Islã no plano externo. A busca do apoio eleitoral dos criacionistas tornou-se crítico na política interna daquele país. Daí o lobby contra as pesquisas relacionadas com a célula-tronco, prenunciando um “ataque global à racionalidade e aos valores iluministas”, nas palavras de Dawkins.

Dawkins gostaria que os ateus “saíssem do armário” para combater o bom combate à luz do dia. Para tanto, é preciso reconhecer que a palavra “ateu” é terrível e assustadora na sociedade norte-americana: “O status dos ateus é hoje equivalente ao dos homossexuais 50 anos atrás”.

Uma pesquisa Gallup de 1999 mostrou que 94% votariam em católicos; 92% em judeus ou negros; 79% em homossexuais e apenas 49% em ateus. Portanto, o que Dawkins quer fazer é encorajar um debate público sobre algo que tem sido nefasto à democracia: o aviltamento do ensino e da ciência em nome da fé, graças ao avanço criacionista na esfera pública.

A bibliografia criacionista é tão vasta quanto a darwinista, mas o seu programa moderno é impor o estudo de Deus como um objetivo das ciências e, para tanto, pretende ter o apoio do Estado através do acesso a fundos públicos de pesquisa. Desse modo, sibilinamente, a religião escorrega da esfera privada para o domínio público, querendo disputar com a ciência a primazia do conhecimento necessário para a evolução do conhecimento humano.

Darwin nunca foi ateu no sentido militante que Richard Dawkins indica. Sua própria formação se deveu, em boa medida, à teologia de William Paley. Partiu da idéia de imutabilidade das espécies para mostrar que as formas vivas se transformam sem qualquer finalidade, validando a proposição kantiana de que a natureza é um mecanismo que se comporta “em relação a si mesma reciprocamente como causa e como efeito”. O funcionamento dessa máquina natural dispensa a interferência de um “supremo relojoeiro”, na imagem teológica de Paley.

Porém, como o próprio Darwin observou, a seleção natural é uma hipótese que precisa de um número muito grande de provas para ser considerada uma “lei” e, portanto, precisa explicar até mesmo a evolução de órgãos complexos como o olho, senão não teremos como resolver o “problema de Paley”, isto é, refutar a tese do design segundo a formulação daquele teólogo do século 18.

Ainda se discute como o olho se desenvolveu, e este é um caso-limite da biologia, mas o “problema de Paley” só pode persistir onde a ciência não chegou. A ciência caminha no sentido oposto ao da fé, embora os criacionistas lutem desesperadamente para associá-las.

A evolução contemplada pela genética supõe um “pool” de genes sobre o qual se processam mutações e recombinações, além da decifração do próprio código genético. Trata-se de uma “teoria poderosa”, suficientemente testada, ao passo que a teoria da seleção natural, a mais importante contribuição de Darwin, é difícil de ser testada, ao menos no sentido experimental; por isso, a seleção natural continua a operar como um verdadeiro programa de pesquisas onde a fronteira é aquela que divide o que pode ser explicado pela seleção natural e aquilo que pode ser explicado sem a seleção natural.

Mas, para reforçar argumentos, é curioso como os críticos de Dawkins não deixam de atirar farpas contra o marxismo, como se esse fosse uma degenerescência do evolucionismo. Acusam-no de confundir representações sociais com o “problema da ordem cósmica”. Não há um texto sequer de Marx sobre a ordem cósmica que permita comprovar essa leitura. Portanto, a observação só serve como um toque de reunir para o conservadorismo, incluindo o antimarxismo.

É verdade que o marxismo manteve uma relação ambivalente com o darwinismo, cercada pela incompreensão do próprio Marx, pela imputação duvidosa de decorrências das descobertas de Darwin à sociedade e assim por diante. Mas há também textos de Marx e Engels que vão no sentido inverso, e é inegável que um dos mais brilhantes trabalhos sobre o processo de hominização -tema de Darwin, especialmente em “A Origem do Homem” (1871)- foi escrito por Engels. Do mesmo modo, são os marxistas que têm promovido mais recentemente, e com perspicácia, a revisão da antropologia de Darwin, que parte não da idéia de uma seleção natural que atua como força absoluta, mas da percepção do papel da solidariedade n
a evolução da espécie humana. Rigorosamente, aponta-se a “seleção de instintos não-selecionistas” como móvel da humanização na perspectiva inaugurada por Darwin1.

Outros desenvolvimentos recentes, não-marxistas, também acrescentam argumentos sobre a hereditariedade por processos não restritos à genética2. Pelo menos quatro diferentes processos de herança podem ser identificados, sendo os genes um deles. Nesse sentido, abrem uma discussão mais rica sobre as idéias de Dawkins em seu livro de divulgação, “O Gene Egoista”, onde se vê claramente um geneticismo-radical.

Reduzir o darwinismo ao selecionismo é uma simplificação grosseira da contribuição do naturalista inglês para a compreensão da história da vida, nela incluindo a animalidade do homem. E reduzir o marxismo a um ateísmo oportunista é escancarar a ignorância da sua história, preferindo vê-lo não como um pensamento que se transforma mas estabilizado nos seus piores momentos.

O incômodo da emergência do ateísmo parece ser a plataforma política que Dawkins propõe para ele: um toque de reunir para cientistas e livre-pensadores materialistas que reconhecem no avanço do criacionismo uma ameaça à liberdade de ensino e investigação sob o regime político que caracteriza a República moderna. Se quiserem ser honestos, não há como os críticos de Dawkins taparem o sol com a peneira.

NOTAS
1 – Essas idéias, Patrick Tort desenvolve em vários textos, notadamente “La Pensée Hiérarchique et l’Evolution”, Paris, Aubier, 1983; “Misère de la Sociobiologie”, Paris, PUF, 1985 ; “Darwinisme et Société”, Paris, PUF, 1992.
2 – Eva Jablonka e Marion J. Lamb, “Evolution in Four dimensions: Genetic, Epigenetic, Behavioral and Symbolic Variation in the History of Life”, Cambridge, The MIT Press, 2005.

[Carlos Alberto Dória é sociólogo, doutor em sociologia no IFCH-Unicamp e autor de “Ensaios Enveredados”, “Bordado da Fama” e “Os Federais da Cultura”, entre outros livros. Acaba de publicar “Estrelas no Céu da Boca – Escritos Sobre Culinária e Gastronomia” (ed. Senac). Trópico]

Seleção natural

Principal historiador do criacionismo, Ronald Numbers diz que movimento cresce em todo o mundo

por ERNANE GUIMARÃES NETO

A escola básica é a principal frente de uma guerra global: a das visões de mundo evolucionista e criacionista. A primeira, herdeira do cientista britânico Charles Darwin (1809-82), carrega o estandarte da ciência estabelecida; a segunda, de tradição religiosa, reage no campo político e cultural -incluindo argumentos científicos- para retomar o imaginário popular.

Para o historiador da ciência Ronald Numbers, essa disputa -entre ensinar, respectivamente, que o homem descende de outros animais ou que o homem foi criado por Deus- apresenta uma agressividade desnecessária.

“Não acredito que haja um conflito inerente à relação entre a maior parte da ciência e a maior parte da religião”, diz.

Professor na Universidade do Wisconsin, em Madison (EUA), Numbers lançou em novembro uma edição atualizada de “The Creationists” (Os Criacionistas, Harvard University Press, 624 págs., US$ 21,95, R$ 48), em que fala da expansão do criacionismo e do design inteligente, teorias opostas ao evolucionismo.

Para ele, o conflito não deriva de uma divisão dentro da comunidade científica, mas de pressões políticas das instituições -religiosas e científicas.

Em entrevista à Folha, ele também comentou a exposição sobre Darwin em São Paulo e a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na última segunda, que classificou o aborto como questão de saúde pública.

FOLHA – Qual sua opinião a respeito da mostra, organizada pelo Museu de História Natural de Nova York, sobre Charles Darwin [no Masp até 15/7]?
RONALD NUMBERS – Participei da inauguração da exposição em Nova York. Acho que é uma introdução muito boa ao darwinismo, uma tentativa de mostrar seu pensamento, apresentando as evidências usadas por ele para desenvolver sua teoria.

FOLHA – Há disputa entre essas evidências e aquelas que sustentam o ponto de vista criacionista?
NUMBERS – Simplesmente: não há evidências para o criacionismo. A criação foi um evento sobrenatural de Deus, portanto não dá para encontrar indícios dela.

Muito das chamadas “provas” do criacionismo são tentativas de associar os registros fósseis a um período muito curto, como o ano da inundação universal. Eles tentam excluir o fator tempo, de que os evolucionistas tanto precisam.
E estão claramente errados.

FOLHA – Acha que o conflito entre ciência e religião cresceu ao longo dos últimos anos?
NUMBERS – Não acredito que haja um conflito inerente à relação entre a maior parte da ciência e a maior parte da religião. É claro que um cristão literalista, aquele que acredita que o mundo foi feito em seis dias, não pode aceitar a evolução.

A maioria dos cristãos e judeus -acredito que os muçulmanos também podem fazê-lo- arranjaram formas de acomodar seus ensinamentos na ciência. Contanto que eles não sejam materialistas e que os cientistas não digam que Deus não existe.

FOLHA – O design inteligente representa essa acomodação? Como define essa teoria?
NUMBERS – Não há definição oficial. Muitos leigos a vêem como uma forma de teologia natural: “Tal coisa é complexa demais para ter sido feita pelo acaso”. Mas os líderes do movimento negam veementemente fazerem teologia natural.

FOLHA – Qual é o fundamento?
NUMBERS – A “complexidade irredutível”, ver que um organismo na natureza é tão complexo que não poderia ser explicado em termos evolucionistas, pois certas características teriam de surgir todas ao mesmo tempo. O designer seria Deus. Para a maioria dos cientistas, “dê-nos mais 50 anos e nós explicaremos”.

O revolucionário, para a comunidade do design inteligente, é aceitar o sobrenatural dentro da ciência. Eles dizem que a escolha, feita há mais de 200 anos, de não apelar a Deus ou ao Diabo ao fazer ciência, é arbitrária e deveria ser rejeitada.

Estão desafiando uma regra básica da ciência: “Deus pode até ter feito a coisa, mas tentaremos interpretá-la naturalmente”.

FOLHA – E essa seria a nova moda, em lugar da “geologia do Dilúvio”?
NUMBERS – Errado. O apoio aos criacionistas, geólogos do Dilúvio ou seja qual for o nome continua muito grande. É que eles não têm nada de novo a apresentar, ou melhor, só um novo museu criacionista de US$ 27 milhões [cerca de R$ 55 milhões] a ser inaugurado na região de Cincinnati [o Creation Museum, com abertura prevista para junho].

FOLHA – Recentemente, o presidente Lula se referiu ao aborto como “questão de saúde pública”, com forte reação dos religiosos. Como um governo deve tratar esse tema? Como ocorreu nos EUA?
NUMBERS – Sou democrático o bastante para acreditar que as pessoas deveriam ter o direito de expressar suas vontades; as preocupações devem ser ouvidas, mas não acredito que as igrejas deveriam ditar a política.

A Suprema Corte dos EUA decidiu [em abril] que os Estados terão o direito de elaborar leis contra o “aborto com nascimento parcial” [técnica abortiva realizada com a gravidez avançada, geralmente no segundo trimestre de gestação]. Não sei se isso é o início de uma onda de leis antiaborto. Aborto e evolução são assuntos que dividem os EUA.

FOLHA – Assim como a eutanásia, certo?
NUMBERS – A eutanásia não chama tanto a atenção. As pessoas ignoram o assunto até que haja casos judiciais de importância. Os jornalistas é que criam esse conflito entre ciência e religião.

FOLHA – Como lidar com esse conflito, especialmente nas escolas?
NUMBERS – No Reino Unido não há proibição constitucional ao ensino de religião em escolas públicas; nos EUA isso existe desde a fundação, e as escolas dos EUA deveriam ser neutras em termos de religião.

Contudo pessoas como [o biólogo] Richard Dawkins, para quem a evolução é inerentemente ateísta -a mesma coisa que os religiosos vinham dizendo-, correm o risco de ver os religiosos quererem proibir o ensino do evolucionismo porque não seria, então, religiosamente neutro. Isso é perigoso.

FOLHA – Então pessoas como Dawkins põem lenha na fogueira?
NUMBERS – Sim, eles dão a deixa para os criacionistas. “Vocês, criacionistas, têm razão: a evolução é ateísta”.

FOLHA – Acha que a comunidade científica deve se preocupar com esse conflito ou há exagero?
NUMBERS -É causa para preocupação. Há uma controvérsia, sim, mas não dentro da comunidade científica. Diferentemente do que afirmam certos jornais, o número de criacionistas praticando ciência é ínfimo. A comunidade não está dividida. Fora da comunidade científica, sim: nos EUA, cerca de dois terços da população preferem o criacionismo ao evolucionismo.

FOLHA – Que acha da política francesa de proibir o uso ostensivo de símbolos religiosos nas escolas?
NUMBERS – Acredito na livre expressão das crenças religiosas.

FOLHA – Isso não interfere na aquisição de conhecimento?
NUMBERS – Não nos EUA. Não temos tantos muçulmanos nas universidades, mas eles têm liberdade para se vestir como quiserem, há os budistas em suas roupas cor de laranja… Banir os símbolos religiosos seria, nos EUA, atropelar os direitos dos alunos.

FOLHA – Entre os cientistas, há mais
religiosos, ateístas ou agnósticos? Quem tem mais voz?
NUMBERS – Um ex-aluno meu fez uma pesquisa anos atrás com cientistas dos EUA: cerca de 40% acreditavam num deus que atende a preces e provê uma vida após a morte. É uma concepção robusta de Deus. Outros tinham uma noção mais vaga.

Quanto mais alto o escalão, menos se acreditava em Deus -aparentemente, quanto mais famoso é o cientista, menos ele precisa de Deus.

FOLHA – O que mudou na nova edição de “Os Criacionistas”?
NUMBERS – Acrescentei dois capítulos: uma história do movimento do design inteligente e um capítulo chamado “O Criacionismo Torna-se Global”.

Muita gente, especialmente Stephen Jay Gould [1941-2002], enfatizou quão norte-americano sempre foi esse movimento, a ponto de o resto do mundo não ter de se preocupar.

Mas nos últimos 15 anos, o antievolucionismo se espalhou -até no Brasil: já ouviu falar de dois governadores antievolucionistas no Rio de Janeiro? [alusão aos protestantes Rosinha Matheus e Anthony Garotinho, do PMDB]

FOLHA – Em que outras frentes os criacionistas têm ganho terreno?
NUMBERS – Na América Latina, na África subsaariana, na Austrália… A maioria dos cristãos não aceita a evolução, mas antes eles não a combatiam. Na Ásia, um dos grupos antievolucionistas mais fortes está na Coréia do Sul.

Há cerca de dois anos, a ministra da Educação da Holanda [Maria van der Hoeven, atual ministra da Economia] sugeriu o ensino de design inteligente nas escolas, com o intuito de unir cristãos, judeus e muçulmanos.

E isso é só entre os cristãos. Entre os muçulmanos, o maior grupo antievolucionista é liderado por Harun Yahya, pseudônimo de Adnam Otkar, cujos livros já foram distribuídos para vários países. Há também o grupo judeu que criou a Torah Science Foundation, que mistura criacionismo e cabala.

FOLHA – Acha que os estudos sobre o genoma podem ditar as teorias que serão privilegiadas nos próximos anos?
NUMBERS – Creio que não. Teremos a mesma diversidade. Suponha que se confirme que não há grande diferença genética entre macacos e humanos. Os evolucionistas dirão: “É claro, nós saímos dos macacos”. Mas os criacionistas dirão: “Não admira, é o mesmo criador”. [FOLHA 13/5/07]

Bento 16 ou Sísifo Revisitado

por MATEUS SOARES DE AZEVEDO

NOSSA ÉPOCA ainda é dominada pelos espectros de Darwin, Marx, Freud, Jung e Teilhard de Chardin. Alguns deles, ou todos, podem ser considerados superados.

Mas o fato é que sua influência, percebida ou não, deixou marcas profundas em nosso modo de pensar e agir. Os “ismos” que forjaram continuam sendo as peças básicas de nossa “religião” secular. Esta também tem seus defensores “fundamentalistas”, que praticam uma “intolerância religiosa” que nada fica a dever aos piores exemplos do passado.

Pouquíssimas pessoas e instituições não foram afetadas por tais idéias. Em razão de sua influência no mundo ocidental, vale a pena avaliar como afetaram a Igreja Católica.

Elas o fizeram especialmente mediante a revolução que foi o Concílio Vaticano 2º (1962-65). O arquiteto do concílio foi o jesuíta Teilhard de Chardin. Com seu evolucionismo panteísta com verniz cristão, ele dizia que Cristo representou um grande “salto evolutivo” e que Deus também está sujeito à “evolução”. Se Lutero foi um cristão que deixou a igreja, Teilhard foi um pagão que permaneceu nela, diz um comentário espirituoso.

A natureza dessa revolução pode ser apreciada pelos ditos e escritos dos papas do período, de João 23 a Bento 16. Neles, percebe-se um programa radical e sem precedentes. Apesar disso, não suscitou grandes indagações por parte de um público que permanece relativamente passivo.

Seja como for, a influência de Teilhard continua. Na sua primeira homilia de Páscoa, em abril de 2006, Bento 16 declarou: “A ressurreição de Cristo é algo diferente: se tomarmos emprestada a linguagem da teoria da evolução, trata-se da maior das mutações, o salto mais crucial rumo a uma dimensão totalmente nova”.

O espírito da fala é completamente teilhardiano. Nisso Bento 16 não está só. Os papas do “aggiornamento” compartilham a mesma admiração.

Não obstante, há uma diferença. Bento 16 representa um novo modelo. João 23 (1958-63) foi o pioneiro das mudanças; Paulo 6º (1963-78) foi o ousado “revolucionário” que levou as transformações adiante e fechou o ciclo. Encerrou o concílio com “chave de ouro”, em 7/12/1965: “A descoberta das necessidades humanas absorveu toda a atenção do concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, dai ao concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso novo humanismo: também nós -e nós mais do que ninguém!- temos o culto do homem!”.

João Paulo 1º, o “papa sorriso” do marketing conciliar, governou por só 33 dias, mas legou ao sucessor um nome que já é todo um programa. João vem do “precursor”, e Paulo, do “finalizador”. Mas João Paulo 2º (1978-2005) foi além. Foi o responsável pela manutenção das transformações. Assim, teve um papel comparável ao de Napoleão após a Revolução Francesa, impedindo a implosão do “aggiornamento” e a volta do “Ancien Régime”. João Paulo 2º foi o papa da imagem, dos eventos externos, das viagens.

Mas não teve êxito em deter a queda no número de fiéis, o fechamento de escolas e seminários, a baixa freqüência aos sacramentos, as defecções do sacerdócio, a secularização. A igreja viu diminuir drasticamente sua influência real. Além disso, as divisões internas aumentaram. Em contraste, o cristianismo oriental não vive crise.

Comparado com seus antecessores imediatos, Bento 16 inaugura um novo conceito e fase. A simples escolha do nome já diz muito. Ele não será nem um João Paulo 3º nem um Paulo ou um João a mais. Tampouco um Pio, cujo nome indicaria repúdio ao modernismo, definido por Pio 10º (1903-14) como a “síntese de todas as heresias”. Seus modelos são o fundador da ordem beneditina, contemplativo cuja divisa é “ora et labora”.

E Bento 15 (1914-22), papa conciliador. Assim, pode-se especular que Bento 16 almeje conciliar passado e presente, tradição e revolução. Suas ações apontam na direção da correção dos “excessos”. Ao mesmo tempo, busca um acordo entre contrários, de onde uma certa ambigüidade.

No “Washington Times” (30/9/03) informou ser um teólogo radical durante o concílio, mas agora é visto como conservador. Sua Santidade disse que, como o mundo tendeu para a esquerda, mesmo um progressista de suas convicções parece conservador.

Em “La Croix” (28/12/01) esclareceu ser um representante da nova igreja que não crê em “retorno à tradição”.

O cerne da questão é que enfrenta os efeitos perversos longínquos da revolução que ajudou a fomentar no passado. Quer limitar ou abolir as conseqüências destrutivas. Mas se limita aos efeitos. Visa os “excessos”, não a raiz do que ele mesmo denominou “autodemolição” da igreja. Sua agenda aponta para uma intrincada “concertação”. Conseguirá ser bem-sucedido nessa tarefa de Hércules? Ou se engajará em obra de Sísifo? [FOLHA 1/5/07 (MATEUS SOARES DE AZEVEDO , jornalista e historiador das religiões, é autor, entre outras obras, de “A Inteligência da Fé – Cristianismo, Islã e Judaísmo”)]

homem-camaleão

O narrativismo evolucionário e o camaleão

Desconstruindo o “fundamentalismo darwinista”: uma defesa do livre-arbítrio humano

por SERGIO DANILO PENA*

“Il n’y a pas de hors-texte”
Jacques Derrida

Esta citação do famoso filósofo francês (1930-2004) é geralmente traduzida como “não há nada além do texto” e interpretada no sentido de que Tudo (com T maiúsculo para não deixar dúvidas) é de alguma maneira um texto, uma estória. Conseqüentemente, tudo, até a narrativa de vida de uma pessoa, pode ser submetido às técnicas de desconstrução textual. Que o diga Howard Crick, personagem de Stranger than fiction (“Mais estranho que a ficção”), original e brilhante filme do diretor Marc Forster que já está disponível em DVD no Brasil. Para entender se sua vida é uma comédia ou uma tragédia, Howard tem de recorrer à ajuda de um crítico literário e não de uma psicanalista.

Por sua habilidade de continuamente adaptar suas cores ao meio ambiente, o camaleão é emblemático da capacidade de autodefinição e recriação constante.

No clássico e brilhante artigo “The spandrels of San Marco and the panglossian paradigm” (‘Os tímpanos de São Marcos e o paradigma panglossiano’; acesse o texto aqui ) meus ídolos Stephen Jay Gould e Richard Lewontin desconstruíram impiedosamente as estorinhas “panglossianas” evolucionárias inventadas e divulgadas por aqueles que Gould chamou de “ darwinian fundamentalists ” (uma boa tradução talvez seja “darwinistas evangélicos”). Tratamos disso em uma coluna há alguns meses. De fato, muitas narrativas evolucionárias são fáceis de se desconstruir porque em geral o besteirol é ululantemente óbvio.

Por exemplo, em recente artigo do psicólogo Bruno Laeng e seus colaboradores da Universidade de Tromso (Noruega) no periódico Behavioral Ecology and Sociobiology , os autores afirmam que homens de olhos azuis acham as mulheres de olhos azuis mais atraentes do que mulheres de olhos castanhos. A explicação oferecida foi que, como olhos azuis seriam putativamente recessivos com relação a olhos castanhos, essa preferência refletiria uma adaptação inconsciente para detecção de paternidade (a idéia sendo que, se sua esposa o traísse com um homem de olhos castanhos e engravidasse, a criança teria olhos castanhos, revelando a infidelidade). Não sei o que vocês leitores acham disso, mas pessoalmente considero um disparate!!!

Adicionalmente, vejam as estórias da carochinha que a revista Veja publicou na reportagem de capa sobre Darwin em 9 de maio último. Uma delas, sobre um personagem de Shakespeare, afirma: “Em Otelo , enlouquecido pelo ciúme, o mouro mata a sua amada, Desdêmona. Como o personagem, o macho é, na maioria das espécies, sexualmente competitivo. Isto porque a traição da parceira pode levá-lo a criar o filho de outro.” Que tolice!

Examinemos também afirmativas contidas em outro artigo de capa sobre Darwin, desta vez na revista Superinteressante de junho de 2007: “O desejo de variedade sexual nos homens é insaciável. Quanto maior for o número de mulheres com quem um homem tiver relações, mais filhos ele terá [pelo menos é o que ‘pensam’ seus genes] ” ou, de maneira ainda mais radical: “Sendo assim, o que o neodarwinismo diz é: você não ’ama‘ seus filhos e irmãos. São seus genes que vêem neles maneiras de se perpetuar”. Pobre Darwin!

Escravos do genoma
Tal narrativismo evolucionário está intimamente relacionado com a idéia ingênua de que todos os traços comportamentais da humanidade possam ser explicados por nossos genomas. E, pior ainda, que as características fundamentais da vida psicológica e social humana sejam meros instrumentos a serviço do cego e maquiavélico instinto competitivo dos genes. Trocando em miúdos, o que o darwinismo fundamentalista propõe é que somos escravos do nosso genoma e marionetes dos nossos genes!

O chimpanzé (A), o gorila (B) e o gibão (C) são diferentes espécies de primatas do Velho Mundo com comportamento sexual e estrutura reprodutiva completamente diferentes.

Uma das manias irritantes dos psicólogos evolutivos e sociobiólogos contadores de estorinhas evolucionárias é tentar explicar nossa conduta com base na observação do comportamento de primatas não-humanos. Um dos argumentos usados para justificar esta estratégia é que eles são os nossos “parentes” evolucionários mais próximos, especialmente os primatas do Velho Mundo. O público aceita isso e a imprensa reforça essa visão.

Um bom exemplo é uma recente edição do programa de televisão Globo Repórter (4 de maio de 2007) que teve como tema as diferenças sociais entre homens e mulheres. Uma parte considerável do programa foi dedicada a mostrar o comportamento afetivo de casais de primatas em uma reserva brasileira (nesse caso eram primatas do Novo Mundo, evolucionariamente bem mais distantes de nós). Qual seria o intuito dos produtores do programa? Mostrar que sexualmente nos comportamos como os primatas?

E como realmente se comportam sexualmente os primatas não-humanos? Uma análise cuidadosa constatará que cada espécie se conduz de maneira completamente diferente das demais. Por exemplo, chimpanzés machos e fêmeas são poligâmicos; gorilas machos são poligâmicos enquanto as fêmeas são monogâmicas e gibões machos e fêmeas são todos estritamente monogâmicos. Assim, pela escolha criteriosa da espécie de primata com a qual vamos comparar a humanidade, podemos “provar” que qualquer comportamento sexual que estiver no cardápio é “evolucionariamente determinado”.

Metafísica genômica
O bioeticista suíço Alex Mauron define a “metafísica genômica” como sendo a crença no genoma como núcleo essencial do organismo, determinante de sua individualidade e de suas particularidades e também estabelecendo o seu pertencimento a uma determinada espécie. Nessa visão genomocêntrica, nosso conjunto de genes constitui a parte mais essencial do ser humano e determina algo que tem sido chamado de “natureza humana”, à qual estaríamos inexoravelmente atrelados. Assim, o genoma se torna o equivalente secular da alma.

Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), filósofo renascentista italiano que escreveu o “Discurso sobre a dignidade do homem”.

Contrastem a pobreza desse paradigma determinista com a beleza do manifesto humanista do filósofo italiano Pico della Mirandola (1463-1494) que ainda no Renascimento atribuiu a Deus, em seu “Discurso sobre a dignidade do homem”, as seguintes palavras:

“Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons, os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a obtê-los. Existem na natureza outras espécies que obedecem a leis por mim estabelecidas. Mas tu, que
não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio … Ó suma liberdade de Deus pai, ó suma e admirável felicidade do homem, ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer … Quem não admirará este camaleão?”

Resumo da ópera: não há “natureza humana” fixa e pré-estabelecida. Nós criamos nossa própria natureza e história no processo de viver. Temos livre-arbítrio e infinitas possibilidades de construir nossos próprios destinos. Como escreveu o peruano Mario Vargas-Llosa em recente resenha :” A identidade (humana) não é uma condição metafísica, e sim uma realidade viva e portanto em permanente processo de recriação”.

A aposta de Pascal e a aposta de Pena
O grande pensador francês Blaise Pascal (1623-1662) propôs, na famosa “aposta de Pascal”, que mesmo quem tem dúvidas quanto à existência de Deus deve agir como se ela fosse um fato. Afinal, se Deus não existir, tanto faz acreditarmos ou não. Mas, se Deus existir, é melhor que acreditemos nele(a) para conquistar o reino dos céus.

Pois bem, eu gostaria de parafrasear Pascal e propor agora a “aposta de Pena”. Mesmo que alguns possam ainda ter dúvidas quanto ao fato de o ser humano ter infinita liberdade para se “criar”, se inventar, se definir e ser aquilo que quiser, devemos agir como se isso fosse um fato. Meu conselho é: aposte no camaleão!

*Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais [Ciência Hoje 8/6/07]

trabalhos e cartas de charles darwin na internet

Um site montado pela Universidade de Cambridge traz um belo acervo sobre Charles Darwin. O cientista é famoso pelas bases da teoria da evolução das espécies. No http://darwin-online.org.uk, estão cerca de 50 mil páginas de texto e 40 mil imagens.

Também há correspondências do cientista, que trocou cartas com cerca de 2.000 pessoas. Entre os nomes dos correspondentes de Darwin estão o filósofo Karl Marx e o zoólogo Thomas Huxley.

O projeto de sistematização dos escritos do cientista se chama “Darwin Correspondence Project” e foi criado em 1974. Além das imagens dos documentos, eles foram digitados. Ambos os arquivos estão disponíveis no site.

Além de todo o conteúdo histórico e científico, as cartas trazem particularidades do cientista, que conta hábitos pessoais a alguns de seus correspondentes.

O site já publicou os diários de Emma Darwin (1808-1896), que abrangem os anos que ela passou junto ao cientista.

Com 22 anos e seguindo a recomendação de um professor, Darwin embarcou no HMS Beagle. A expedição durou quase cinco anos, e, durante o período, o cientista conheceu o litoral atlântico e pacífico. Na regiões, ele colheu dados sobre a fauna e flora locais. [Folha Online 17/05/2007 – 18h56]