o nomenclator de deus 1

WEISCHEDEL, Wilhelm. A escada dos fundos da filosofia. São Paulo: Angra, 1999. p. 121-5

Nicolau de Cusa: Vida e Obra

Só raramente um gigante do espírito também é um gigante no palco do mundo. Mas esse é o caso de Nicolau de Cusa que, porém, não teve um berço de ouro. Nasceu em 1401, em Cusa [Kues], Alemanha, tendo como pai um pescador do Mosela e comerciante que, embora não fosse um homem sem posses, não pertencia aos círculos nobres aos quais, na Europa de então, eram reservadas as mais altas dignidades espirituais e seculares. Durante toda a vida, Nicolau será mesmo orgulhoso de que ele, o simples filho de um peixeiro, tenha chegado tão longe; se nisso se lembrava de Pedro, seu mais alto ascendente espiritual, fica em suspenso. Fato é que herda da casa paterna o interesse pelo dinheiro e pela assegurada situação financeira, apesar de — para a admiração de seus contemporâneos — ser modesto para si mesmo. Sua mesa é parcamente servida. Em vez de velas, utiliza as lâmpadas a óleo, mais baratas. Se necessário, mas também porque causasse maior impressão — tais coisas não se sabem nunca com certeza com um homem impenetrável desses —, é capaz de entrar em uma cidade sobre um burro em vez de sobre um cavalo, provavelmente em memória da entrada triunfal de seu mestre em Jerusalém.

Da juventude de Nicolau pouco é conhecido; propriamente apenas que uma vez, quando seu pai numa briga o joga da canoa na água, foge de casa sem de fato perder-se na vagabundagem por um longo tempo. Ao contrário, se se pode fiar na tradição, vai admiravelmente bem na escola de Deventer, uma instituição de ensino muito prestigiada na época, na qual se destaca rapidamente de modo especial. Então, com quinze anos, se decide a estudar direito; assim, estudando direito e humanidades, passa alguns anos em Heidelberg e na Universidade de Pádua, muito famosa exatamente na disciplina da jurisprudência. Lá, com vinte e dois anos, obtém o doutorado e, enfim, estabelece-se em sua terra natal como advogado. Mas não por muito tempo. O azar quis que perdesse logo seu primeiro processo. Disso tira as mais extremas conseqüências e abandona, desde então, o ofício especificamente jurídico. Recusa até a convocação, ocorrida pouco tempo depois, para uma cátedra de direito canônico na Universidade de Lovaina. Em vez disso, volta-se para a classe eclesiástica e, sem mesmo ter recebido a ordenação, lhe é confiada uma paróquia na diocese de Trier. A essa se segue, conforme os costumes da época, a concessão de uma série de outras prebendas, muito mais do que ele podia cuidar pastoralmente com suas próprias forças.

Quando participa do Concílio de Basiléia, convidado por um cardeal amigo, é que Nicolau sai pela primeira vez do estreito círculo natal. Lá se associa desde logo ao partido que defende os direitos do concílio diante do papa. Para alicerçar as pretensões conciliares escreve após estudo intensivo das fontes uma ampla obra, Da concordância católica, que causou grande sensação. Mas pouco tempo depois se vê Nicolau, para grande espanto de seus contemporâneos, como fervoroso partidário do papa. Não sabemos o que causou essa súbita mudança. A ambição, que nunca faltou a Nicolau, provavelmente tenha desempenhado algum papel. Mas com certeza também a convicção de que, em um tempo de confusão geral, as coisas da Igreja estivessem mais bem cuidadas sob um comando unitário.

Na Basiléia, abre-se para Nicolau um amplo campo de ação político-eclesiástica. Não se ocupa apenas da contenda entre papa e concílio, mas também, por exemplo, dos conflitos em torno da ocupação do arcebispado de Trier ou da conciliação da Igreja hussita na Boêmia com Roma. Sua atividade, porém, estende-se ainda amplamente ao domínio secular. Assim, é encarregado de mediar entre os duques bávaros ou, mesmo, entre Espanha e Inglaterra. A habilidade de negociação de Nicolau é apreciada também fora da Igreja, atuando até como mediador matrimonial entre membros da nobreza. Além de tudo isso, ocupa-se do problema de uma reforma do calendário, pela qual chega à conclusão, após exaustivos cálculos, de que a ressurreição dos mortos se realizaria entre 1700 e 1734.

Entre os pontos mais importantes em que papa e concílio estão de acordo — ainda que discordem sobre sua realização — encontra-se a reconciliação de Roma com a Igreja oriental. Nicolau torna-se um membro dirigente de uma delegação que parte para as negociações em Constantinopla. Na viagem de retorno ocorre-lhe, em vista da amplidão do oceano, enquanto “presente de cima, do pai da luz”, a decisiva descoberta filosófica de sua vida: a unidade teria precedência sobre toda fragmentação, em todos os âmbitos da realidade, e essa unidade se encontraria finalmente no infinito, em Deus. De volta, Nicolau recolhe-se à solidão e escreve sua obra Da douta ignorância.

Tempos depois, Nicolau — então nomeado núncio apostólico — representa as causas do papa nas assembléias nacionais do Reich que se sucedem rapidamente e em que se discute continuamente a reforma da Igreja. Em discursos de grande efeito expõe sua concepção e pode vangloriar-se de um sucesso considerável. Não admira que o papa lhe conceda a mais alta honraria por ele conferida: nomeia-o cardeal. Simultaneamente, envia-lhe mil ducados para o custeamento do novo encargo. O prestígio de que Nicolau goza é também testemunhado por ser provisoriamente aventado no conclave para a eleição papal como candidato. O papa lhe consigna como tarefa especial a reforma da vida eclesiástica na Alemanha, sobretudo dos mosteiros. Sem dúvida, trata-se de uma questão penosa, pois em muitos mosteiros introduziram-se graves desvios: orgia com damas fáceis, concubinato, más confraternizações entre mosteiros masculinos e femininos. Acresce que um excesso de superstições invade a adoração religiosa nas paróquias, milagres do sangue sendo festejados por toda parte. Nicolau impõe-se com rigor sem se poupar. Conta-se que ele teria reduzido seu sono noturno a quatro horas. Mas, às vezes, a ira o vencia. Podia agir com brusquidez com seu anfitrião, revirando a mesa servida com queijo e vinho em sua recepção. Ou, o que dá ainda mais a pensar, manda afogar no Reno um pobre clérigo que pretende para si o ofício de bispo.

A fase seguinte da vida de Nicolau é obscurecida por horríveis contendas. O papa nomeia-o — contra o eleito pelo concílio — para bispo de Brixen. Como grandes propriedades de terras estão ligadas ao bispado, Nicolau torna-se príncipe desse domínio. Nessa situação, porém, se choca com o duque do Tirol que, encontrando-se em uma relação ambígua de subalternidade ao bispado, exige a supremacia sobre este. O conflito alastra-se, chegando-se às vias de fato, nas quais o próprio bispo está envolvido. As ameaças e até os ataques se intensificam. Enfim, Nicolau é sitiado em um burgo onde se refugiava. A fortificação é bombardeada e conquistada. Nicolau acredita-se próximo da morte. O assunto encerra-se, porém, com um compromisso, ainda que custoso e insatisfatório. Devido a seus planos de reforma, Nicolau entra em violento atrito também com uma nobre instituição religiosa de caridade para mulheres e sua aguerrida abadessa. Esse conflito também assume forma belicosa, quando a dama da classe eclesiástica recruta mercenários contra Nicolau. Este, por seu lado, deixa-se levar pela situação de tal modo que manda massacrar um grupo de camponeses que acorriam em socorro da abadessa.

Finalmente Nicol
au fica cansado de todas essas dificuldades e vai “da neve e de escuros vales” para Roma. Lá se torna vigário do papado enquanto o próprio papa estiver ausente da cidade. Desse modo envolve-se em múltiplos conflitos entre os pequenos estados italianos. Além disso, toma parte, por meio de viagens às assembléias nacionais do Reich, dos preparativos para uma cruzada contra os turcos, que tinham então conquistado Constantinopla. Também tem de regularizar a situação na Prússia, em vista da renitência da Ordem Teutônica que se meteu levianamente em uma guerra com o rei da Polônia. Procura mediar, como encarregado do papa, até mesmo entre a França e a Inglaterra em sua Guerra dos Cem Anos, naturalmente sem sucesso duradouro. E novamente se ocupa, ao lado de tudo isso, de uma reforma fundamental da Igreja, que elabora em um memorial até seus últimos detalhes. Mas então, quando justamente estava a caminho para acelerar a partida da frota dos cruzados, a morte o surpreende, em 1464, aos 63 anos. Seu corpo é sepultado em Roma, na Igreja de S. Pedro em Vincoli e seu coração, em sua cidade natal, Cusa.

É espantoso que, ao lado da variada e dispersiva atividade eclesiástica e diplomática descrita, Nicolau consiga produzir suas obras, tanto mais que essas se lêem como se tivessem sido escritas em um estado de absorção imperturbável. Também seu número é considerável. Além dos já citados — para só mencionar mais alguns —, há ainda escritos com os títulos: Da Caça à Verdade, O Leigo sobre a Sabedoria, O Leigo sobre o Espírito, Da Procura por Deus, Do Ápice da Contemplação, Da Origem, Do Deus Abscôndito, Da Paz da Fé.

o nomenclator de deus 2

WEISCHEDEL, Wilhelm. A escada dos fundos da filosofia. São Paulo: Angra, 1999. p. 125-9

Nicolau de Cusa: Pensamento

O conteúdo do pensamento de Nicolau é determinado por aquela descoberta que ele faz na viagem de regresso de Constantinopla. Tendo apreendido, nessa ocasião, a idéia de Deus como o infinito, o problema da infinitude tem de se tornar significativo para ele. Nicolau ocupa-se dele já no campo da Matemática. Tenta aproximar-se do cálculo infinitesimal, que somente bem depois dele, com Newton e Leibniz, alcançará o pleno desenvolvimento. Como um homem da transição da Idade Média para a Moderna, Nicolau aponta em suas pesquisas para o futuro. Diante da tendência para as determinações qualitativas, dominante na Antigüidade e no medievo, já proclama o método moderno do medir e pesar. Com toda a força persuasiva, defende também a doutrina revolucionária do movimento da Terra. Mas não chega de fato a descobertas históricas no âmbito da Matemática e da Ciência Natural. Ambas as ciências estão apenas à margem de seus interesses.

Em compensação, Nicolau aprofunda, como ninguém antes dele, a problemática da teologia filosófica — então a disciplina central da filosofia. Incessantemente propõe a mesma e única questão: que seria Deus, o infinito, e como poderia ser concebido? Continuamente, porém, experimenta o fracasso de seu empenho. Por instantes, algo da essência de Deus pode se tornar concebível, mas recai de novo no inconcebível. Assim mesmo, Nicolau tenta repetidamente conceber a Deus e é justamente nisso que reside a grandeza desse pensador.

A impossibilidade de apreender Deus conceitualmente de modo unívoco evidencia-se, por exemplo, quando Nicolau tenta conceber a Deus enquanto “a infinitude absoluta”. Se a infinitude é designada como absoluta, isso significa que seu conceito deve ser entendido em seu sentido pleno e ilimitado. Ao lado dela, não pode subsistir nenhum domínio autônomo da finitude, pois, por meio deste, a própria infinitude seria limitada e, com isso, finitizada. Agora fica claro que, em sua pura ausência de oposição, a infinitude é “inacessível, inconcebível, inominável e invisível” para um pensamento finito.

O mesmo sucede quando Nicolau designa Deus como “a unidade absoluta”. Também aqui vale que a unidade não possa ser entendida em oposição a uma multiplicidade finita em si subsistente. Caso contrário, ela não seria mais a unidade absoluta. Assim, liberto de toda comparabilidade, Deus é novamente “inominável, indizível e inefável”. Por conseguinte, também o conceito de Deus enquanto unidade absoluta se demonstra inadequado.

A dificuldade de encontrar um conceito adequado de Deus consiste em que Deus, compreendido enquanto absoluta infinitude e enquanto absoluta unidade, não tolera a seu lado nada de finito e em que, enquanto mundo das oposições sob qualquer forma, esse finito existe. Assim, em um novo ensaio de pensamento, Nicolau tenta conceber a Deus enquanto “coincidência de todas as oposições”. Mas com essa idéia de Deus, o finito não é realmente superado no infinito. Por isso, Nicolau acentua “que Deus se encontra ainda acima do contraditório”.

Desse modo, Nicolau tenta conceber a Deus enquanto “o que não pode ser ultrapassado por nada maior”, ou seja, enquanto “o máximo absoluto”. Assim, Deus é subtraído a toda relação com as grandezas finitas, pois a possibilidade de ser “aumentado” é uma característica pertencente ao limitado. Para o máximo absoluto, contrariamente, não há nenhum “mais”. Porém, Deus ainda se encontra em uma relação de oposição com o mínimo absoluto. Também essa contradição tem de ser superada no verdadeiro conceito de Deus. Por isso, ainda que por meio de uma expressão paradoxal, Nicolau acentua de modo conseqüente que Deus é tanto o máximo quanto o mínimo.

Esse conceito de Deus, enquanto máximo e mínimo simultâneos, é ainda demasiadamente estático. Esse é, provavelmente, o motivo pelo qual Nicolau o ultrapassa, procurando uma nova designação para a essência de Deus. Ela tem de incluir também o momento da infinita força criadora: o elemento do poder. Mas esse poder não deve ser mera possibilidade, pois o que Deus poder ser, Ele também o é. Nicolau procura satisfazer a essa relação designando a Deus — por uma ousada junção de palavras — como o “poder-ser” (posse-est). Enquanto tal, Deus compreende em si toda a realidade; pois o real “na realidade não é, a não ser que imite a realidade do poder-ser”.

Para Nicolau, todavia, a referência do poder-ser ao devir finito parece encerrar o perigo de que o poder divino fosse posto no mesmo nível com o poder mundano. Por esse motivo, então, tenta apreender Deus enquanto o “não-outro”. Todo ente finito tem sempre outro diante de si e, em vista deste, é ele mesmo outro. Isso, contudo, não pode ser atribuído a Deus. Por isso, enquanto o não-outro, Ele é separado de todo o finito. Nicolau diz que esse conceito “apresenta o inominável nome de Deus em maior proximidade, de modo que o resplandecesse para aquele que o procura, como em um precioso enigma”.

Novamente, porém, parece a Nicolau como se, com essa designação de Deus enquanto o não-outro, fosse acentuado unilateralmente o elemento estático na essência de Deus. Daí adquirir maior peso o momento dinâmico, o poder em Deus. Mas não apenas, como no poder-ser, no sentido de que Deus seja simultaneamente poder e ser. Para Nicolau, agora, torna-se decisivo o conceito do poder puro; Deus é “o próprio poder”. Nicolau acrescenta: “Não creio que se possa dar a Ele um nome mais claro, verdadeiro ou mais facilmente acessível.” Com isso, Nicolau pensa ter alcançado a mais alta possibilidade daquilo que se pode afirmar sobre Deus. E, contudo, também esse conceito de Deus, como todos os outros, permanece inacessível.

Em todas suas tentativas de apreender Deus conceitualmente, Nicolau perde o mundo quase totalmente de vista. Mas sempre acentua que a realidade tem de ser considerada sob o aspecto de Deus. “Todo o originado finito provém da origem infinita.” Mas isso não ocorre como se Deus liberasse algo de si e, desse modo, criasse um mundo autônomo. Muito mais, Deus carrega consigo, “envolvido”, todo o real; o mundo consiste meramente em seu “desenvolvimento” que, enquanto tal, permanece divino. Assim, pode-se dizer que “o mundo é em Deus”.

Uma vez que Nicolau apresenta tantas determinações do ser de Deus que sempre se tornam problemáticas, coloca-se para ele a questão de como, afinal, é possível conhecer a Deus. Desde o início está claro que isso não pode acontecer pela via do entendimento, pois este se movimenta no plano dos opostos, sempre separando um de outro. Deus, contudo, está acima de todos os opostos e separações. Mais que o entendimento, é a razão que parece ser capaz de um conhecimento de Deus. Pois assim como Nicolau a entende, a razão compreende a oposição exatamente em sua respectiva unidade. Mas também a razão contempla Deus apenas sob o aspecto humano, não como Ele é em si mesmo. Sendo entendimento e razão as faculdades de conhecimento caracteristicamente humanas, sua recusa significa que Deus não é de modo algum apreensível no conhecimento finito: “Sei que tudo que sei não é Deus, e que tudo que concebo não Lhe é semelhante.”
E, a
gora, o ousado pensamento de Nicolau expressa-se: se não podemos apreender Deus no saber, então, talvez o possamos no não-saber. “A razão tem de tornar-se ignorante, se Te quiser ver.” Para Nicolau, porém, o não-saber não significa renunciar resignadamente ao saber. Muito mais, exige que, na pergunta por Deus, se apreenda o não-saber expressamente como tal. Mas isso significa que o não-saber tem de se tornar um “não-saber sapiente” ou a “douta ignorância”. Esse é o modo legítimo de se aproximar de Deus: “alcança-se o Deus inconcebível por meio do saber do não-saber”.

A teologia filosófica de Nicolau torna-se, assim, “teologia negativa”, uma disciplina da filosofia que tinha já uma longa história antes dele. Seu traço essencial é que só permite falar de Deus mediante afirmações negativas. Com referência a Deus, é negado tudo o que conhecemos como determinações do ser da realidade finita. Mas justamente por meio disso, o ser de Deus adquire ele mesmo predicados negativos. Deus torna-se, enfim, tanto quanto o nada, porque “quem ascende para o Deus infinito parece antes se aproximar do nada do que de algo”. Por isso pode falar-se de Deus “que Ele nem é nem não é e, ainda, que Ele é e não é”. Esse paradoxo é a culminação extrema de uma teologia filosófica que tenta pensar até o fim a infinita distância entre Deus e todo o finito.
Mas se Deus é totalmente incognoscível, então com que direito se fala sobre Ele, afinal? Diante dessa pergunta, torna-se importante que Nicolau tenha deslocado o conhecimento de Deus para outro campo que não o do saber, mesmo que na forma do não-saber sapiente. O homem pode aproximar-se de Deus na “nostalgia”. Pois há “um constante e ardente desejar de todos pelo Um”. Nesse desejo, de certo modo, o desejado, Deus está dado. Tal nostalgia, porém, não é nenhuma apreensão real de Deus, mas meramente uma orientação para Deus. Também aqui, portanto, Deus resta inapreensível.

Enfim, Nicolau vê-se remetido à experiência mística, ao puro contemplar. Para ali chegar, tem-se de “subir acima de todo limite, de todo fim e finito”. Ocorrendo isso, evidencia-se que “temos um olho espiritual que vê o que é anterior a todo conhecimento”. Deus é “visto na escuridão”, “em uma visão inconcebível, por assim dizer, a caminho de um arrebatamento instantâneo”. Mas também esse caminho não conduz ao fim, porquanto Deus é também “invisível para toda espécie de visão”.

Enfim, fracassa todo empenho de Nicolau de apreender Deus sob quaisquer modos, seja no pensamento filosófico, seja na teologia negativa, seja na nostalgia, seja na visão mística. Sua última palavra é a seguinte: se toda iniciativa humana falha, importa única e exclusivamente a iniciativa de Deus. Toda possibilidade de entrar em contato com Deus suscita de Sua revelação mais própria. “Se o Deus abscôndito não expulsa a escuridão com sua luz e, assim, se revela, permanece totalmente desconhecido.” Mas isso significa que a fé é superior a todo o conhecer e, mesmo, ao contemplar. Por último, a teologia filosófica renuncia em favor da revelação. A última consideração de Nicolau sobre a possibilidade de um conhecimento de Deus soa: “Deus está velado e oculto aos olhos de todos os sábios, mas revela-se aos pequenos e humildes, aos quais dá Sua Graça.” Mesmo que a pergunta filosófica por Deus não conduza a seu fim, deve-se considerar que ela foi colocada com tal intensidade por Nicolau, como poucos são capazes. Por isso, Nicolau de Cusa conta entre os grandes no campo da filosofia enquanto teologia filosófica.

coincidentia oppositorum

De CUSA, Nicolau [1401-64]. Da douta ignorância [1440]

[1] Uma vez que é evidente que entre infinito e finito não existe relação, é também evidente que onde se encontra sempre um excesso não se pode chegar nunca a um máximo absoluto, porque o excedente e o excesso são finitos, ao passo que o máximo, enquanto tal, é necessariamente infinito.

[2] As oposições convergem para as coisas que admitem um excedente e um excesso e o fazem diversamente. Ao contrário, não convergem jamais para o máximo absoluto, que está acima de toda oposição. E como o máximo absoluto é, em ato, absolutamente todas as coisas que podem ser – e assim é sem nenhuma oposição, de tal forma que o mínimo coincide com o máximo –, também está acima de toda afirmação e negação.

[3] Tudo o que se concebe que é não é mais do que não é. E tudo o que se concebe que não é não é menos do que não é. Mas o que é tudo o é de modo a não ser nada, e é maximamente o que é também minimamente. Dizer “Deus, que é o próprio máximo absoluto, é luz”, é a mesma coisa que dizer “Deus é maximamente luz e minimamente luz”. Caso contrário, de fato, o máximo absoluto não seria em ato em todas as possibilidades; ou seja, não seria infinito e não seria o limite de todas as coisas e por nenhuma delas limitado.

elogio da ignorância

De CUSA, Nicolau [1401-64]. Docta Ignorantia [1440]

[1] Quanto melhor alguém entende que não se pode saber, tanto mais será douto. De fato, a propósito da grandeza do esplendor do Sol, ele é mais douto quando nega que ela é compreensível por meio da vista do que quando o afirma; e a propósito da grandeza do mar quando nega, mais do que quando afirma, que possa ser mensurada com a medida válida para os líquidos, e o será ainda mais quando nega, do que quando afirma, que a grandeza absoluta não limitada, totalmente sem termo e infinita (comparada ao esplendor do Sol, ou à extensão do mar ou de outra coisa), seja mensurável com a medida da mente, que é limitada à mente.

[2] Observa isto: o intelecto deseja saber. Todavia, o desejo natural não o leva a conhecer a qüididade [essência] de um Deus que lhe é afim, mas a conhecer um Deus tão grande que não existe nenhum limite para a sua grandeza. Por isso, Deus é maior do que qualquer conceito e do que tudo o que a mente humana pode conhecer. O intelecto não ficaria satisfeito consigo mesmo se tivesse uma imagem do seu criador tão pequena e imperfeita que pudesse tornar-se cada vez maior e mais perfeita. O criador certamente é sempre maior do que toda coisa compreensível e cognoscível, mesmo se esta tiver uma perfeição infinita e incompreensível…

[3] Agora observa como Deus, transcendendo o poder ser feito, e o que pode ser feito antes de tudo. E não existe nada que possa ser feito de mais perfeito que ele não preceda.

[4] Ele é, portanto, tudo aquilo que todo perfectível e todo perfeito pode ser. Logo, é aquele perfeito que é também a perfeição de todos os perfeitos e de todos os perfectíveis. O intelecto alegra-se em possuir esse alimento inesgotável de perfeição, com o qual sabe poder nutrir-se de modo imortal e perpétuo, viver de modo deleitável, progredir sempre em sabedoria e poder crescer e melhorar a si mesmo.

[5] Assim, quem considera que o seu tesouro é infinito, inumerável, incompreensível e inesgotável, frui mais do que quem o considera finito, numerável, compreensível. Papa Leão Magno, tendo-o compreendido, disse em um sermão em que louva a inefabilidade de Deus: “Sentimos que o bem está em nós porque somos vencidos por ele. Ninguém se aproxima mais do conhecimento da verdade do que aquele que compreende nas coisas divinas, que o que ele busca o ultrapassa sempre, mesmo se faz muitos progressos.”

[6] Já podes ver então que os filósofos caçadores, esforçando-se em caçar a qüididade das coisas, ignorando aquela de Deus, e em tornar conhecida a qüididade de Deus que permanece sempre desconhecida, se esforçam inutilmente, porque não entram no campo da douta ignorância.

a possibilidade pura, além de toda relação

“Agora observa como Deus, transcendendo o poder ser feito, é o que pode ser feito antes de tudo. E não existe nada que possa ser feito de mais perfeito que ele não preceda.” [Nicolau de Cusa, Docta Ignorantia]