edição especial

Laranja Mecânica

por RUBENS EWALD FILHO

SINOPSE
No futuro próximo, na Inglaterra, uma gangue de jovens ataca, estupra e mata. Um deles é capturado pelo governo e passa por uma lavagem cerebral que lhe traz repulsa à violência.

COMENTÁRIOS
Embora nunca tenha sido oficialmente proibido pela censura brasileira (que aconselhava a produtora Warner apenas a não apresentar oficialmente o filme para sua avaliação), “Laranja Mecânica” só estreou no Brasil em setembro de 1978, assim mesmo com uma cópia que havia sido feita para o Japão, com bolinhas negras para cobrir os pelos pubianos e outros lugares estratégicos. Mas representantes de Kubrick checaram a cópia e aprovaram as legendas.

O jovem Malcolm McDowell havia sido revelado pouco antes em “If” e foi idéia dele usar “Cantando na Chuva” numa cena-chave da fita. Quem prestar atenção verá uma citação de outro filme de Kubrick, “2001” (a capa do disco numa loja). Foi indicado ao Oscar de melhor filme, roteiro e direção.

A dificuldade começa pelo título, que nunca é explicado. Parece que o autor do livro original, Anthony Burgess, se inspirou numa velha expressão “cockney” (inglês popular de Londres), que dizia “fulano é doido como uma laranja de corda”. Mais tarde, uma viagem pela Malásia, onde “orang” quer dizer “humano”, lhe deu a idéia de fazer anagramas (“orang” – “organ” – “organizar”), chegando a uma conclusão lingüística: o ser humano, quando organizado pelo poder dominante, vira uma laranja mecânica. Por isso, também o livro e o filme utilizam vocabulário próprio. Segundo Kubrick, o filme poderia ser interpretado de três maneiras:

a) como uma sátira social sobre o emprego de condicionamento psicológico; b) como um conto de fadas sobre a Justiça e o Castigo; c) como um mito psicológico, “uma história construída em torno da verdade fundamental da natureza humana”.

A sátira sobre o condicionamento parece clara no filme, mostrando que a sociedade se baseia no poder e nas mentiras, tanto da direita, quanto da esquerda. Em conseqüência, um homem condicionado a ser bom em todas as circunstâncias seria completamente vulnerável. Diz Kubrick: “Temos uma civilização altamente complexa, que requer uma autoridade política e uma estrutura social igualmente complexas. A idéia de destruir a autoridade para surgir a bondade natural do homem é um critério utópico e ‘falacioso’. Todos os nossos esforços vão parar em mãos de desonestos, já que a culpa reside na natureza imperfeita do homem mesmo.”

Assim, “Laranja” é basicamente uma parábola sobre a manipulação do homem pelo Estado. Conta a história de Alex (Malcolm McDowell), um jovem revoltado, precursor da moda punk, interessado na chamada “ultraviolência”, sexo e Beethoven, que é escolhido para uma experiência de condicionamento, uma verdadeira lavagem cerebral que o torna refratário à violência, fazendo-o vomitar cada vez que se defronta com um ato violento.

O tratamento é um sucesso, embora por engano Alex fique também condicionado contra Beethoven, cuja música servia de fundo para um dos documentários usados em sua cura. E logo o herói se torna vítima da manipulação política dos Partidos. Completamente indefeso, é levado ao suicídio pela Oposição e depois utilizado pela Situação novamente.

O que o filme quer mostrar é que, no fundo, todos nós somos laranjas mecânicas, somos submetidos a lavagens cerebrais contínuas que nos condicionam e governam; às vezes de forma subliminar, a ponto de não tomarmos conhecimento delas, às vezes de maneiras mais óbvias, por meio das solicitações da sociedade de consumo.

O filme é um brado de alerta e conscientização contra isso, mas talvez tenha errado numa questão de dose, ao pedir que nos identifiquemos com um herói como Alex, desordeiro e irresponsável. A tendência do espectador é ficar a favor do governo, achando que eles fazem muito bem em transformá-lo num “bom cidadão”, sem perceber a terrível violação dos direitos humanos, a violência cometida contra a individualidade, que acontece todos os dias sem que nos demos conta.

Assim, todo comportamento anti-social – de artistas, de gênios, de todos aqueles que fogem da chamada “normalidade” – seria também condicionado da mesma maneira. Esse perigo existe porque Alex é um vilão simpático e não é fácil concordar com um diretor frio como Kubrick, que o apresenta como “o homem natural, no estado que veio ao mundo, sem freios ou repressões. Quando recebe o tratamento de Ludovico, pode-se afirmar que este simboliza a neurose, criada pelos conflitos entre as restrições impostas por nossa sociedade e nossa natureza primitiva. Por essa razão, ficamos felizes quando Alex se cura”.

Será mesmo que todos se alegram? Alguns nem chegam a entender direito a dimensão da cura de Alex. Essa ambigüidade é um dos problemas do filme, que provocou as opiniões mais desencontradas em toda a parte. Certas pessoas se horrorizam com sua violência, mas na verdade ela é estilizada, mostrada quase como um balé, ou pop art, nunca de forma literal. Aliás, a trilha musical é extraordinária, com obras de Elgar, Purcell, Puccini e, naturalmente, Beethoven, que dão ao filme muito de sua atmosfera. Tecnicamente, o filme abusa um pouco de grandes angulares, lentes deformantes. Mas tem um extraordinário poder hipnótico.

Na enigmática cena vitoriana final, há a busca de uma qualidade ideal, procurada por Kubrick. Diz ele: ” ‘Laranja’ se comunica num nível subconsciente, e o público reage diante da configuração básica da história, como se fosse um sonho. E discutem o sentido da cena final. Como os outros sonhos mostravam assassinato, dor e morte, a erótica cena final sugere que ,de alguma maneira, a mente de Alex se transformou e se apaziguou”. Enquanto o livro de Burgess é uma amarga sátira aos paradoxos do livre-arbítrio, o filme continua a provocar discussões. Afinal, temos que defender os que não gostam dele, se não corremos o risco de todos nós acabarmos virando “laranjas mecânicas”.

Título original: A Clockwork Orange (EUA, 1971)
Diretor: Stanley Kubrick
Elenco: Malcom McDowell, Michael Bates, Patrick Magee, Adrienne Corri, Warren Clark, Anthony Sharp
Extras: disco 1 – trailer e comentários sem legenda de Malcolm Mc Dowell e Nick Redman; disco 2 – “O Tempo Não Pára: O Retorno de Laranja Mecânica”; “Grande Boliche Larbos!: O Making of”; “O Malcolm Sortudo”
Idioma: Inglês e Português 5.1
Legendas: Português e Inglês
Gênero: Drama
Duração: 136 min. Cor
Distribuidora: Warner [UOL Cinema 11/12/07]

olhoEspaço

Merce Cunningham cria novo limite entre a dança e a música

Em “eyeSpace”, expectador escolhe ordem de músicos do espetáculo com iPod

por INÊS BOGÉA

Presença marcante na cena mundial há cinco décadas, o norte-americano Merce Cunningham tem interagido caracteristicamente com as invenções tecnológicas e experimentações formais do seu tempo, sempre com coragem e rigor.

Nesta temporada de sua companhia, no Théatre de la Ville, ele apresenta três peças, abrangendo mais de 40 anos de carreira: “CRWDSPCR” (1993), uma das primeiras criações empregando o programa de computador “Dance Forms” para a composição coreográfica; “Crises” (1960), uma antológica pesquisa de movimentos; e “eyeSpace” (2006), que leva a um novo limite a dissociação entre dança e música, típica de sua obra -o expectador recebe um iPod para escolher a ordem de músicas do espetáculo.

“CRWDSPCR” -o nome vem de “crowd spacer” (espacializador de multidão)- resiste aos afetos espontâneos, na busca de um gestual abstrato, significativo em si. A ocupação do espaço do palco é milimetricamente estudada, em contraponto muito livre com a música eletroacústica de John King (“Blues 99”), espécie de homenagem “up to date” da tradição brutalista da música concreta.

Já “Crises” é uma dança de câmara. A complexidade da movimentação poderia ser limitada a duas grandes vertentes: nas pernas, muito da dança clássica, com passos reconhecíveis desse vocabulário como arabesques e piques; no torso, muito da dança moderna, com dobraduras e braços em movimento geométrico.

Aqui, sentimentos e relações entre as pessoas na cena criam uma quase narrativa, estimulada pelos supercânones da música para piano mecânico de Conlon Nancarrow. E assim como sua música é o resultado visceral de operações mecânicas, também a dança, aqui, produz efeitos comoventemente líricos, a partir de um assumido antilirismo de origem.

Bossa em português
O título da peça mais nova, “eyeSpace”, faz um trocadilho com o seu acessório obrigatório: “iPod” via “iSpace”, literalmente “olhoEspaço”.

A peça recombina incessantemente grupos e movimentos, contra um fundo desenhado de buracos, bolas e espetos, que ganham profundidade com a luz. O acervo do iPod foi composto por Mikel Rouse: dez faixas, combinando “new bossa” cantada em português com versões e elaborações davidbyrnianas e sobreposições eletrônicas, sobrepostas por sua vez ao cambiante bordão grave nos alto-falantes da sala.

Que uma das canções aborde uma questão política (em tradução: “Veja só quem foi às compras/ na faixa de Gaza”), cria outro tipo de sobreposição, aparentemente inesperada para a dança Cunningham. Mas a aparência, nessa arte e em todos os sentidos, engana. Tudo aqui fala do modo mais direto e pertinente ao nosso tempo; tudo exige uma resposta, que não é só questão de gosto.

Também não era só por gosto ou educação, que a platéia ovacionava o coreógrafo, numa cadeira de rodas, à frente do seu glorioso elenco de bailarinos, na estréia, sexta passada. Era um aplauso contundente, pela obra feita e “in progress”; ou melhor, por tudo o que essa obra fez e faz por nós e em nós. [FOLHA 12/12/07]

futebol e política

por REINALDO AZEVEDO


Tá, tá… Eu sei. O Corinthians perdeu. Havia muitos sãopaulinos na festa em que eu estava. Já conheço todas as piadas — embora o Tricolor tenha feito a sua parte para nos afastar da segundona. Fazer o quê? É literalmente do jogo. É claro que o primeiro responsável é o time mesmo, que é, convenham, sofrível. E há a barafunda que colheu a diretoria. Dizer o quê? Tenho alguma tentação de me sentir oprimido para saber como é esse prazer. Mas a vontade logo passa. Só penso em vitória e vingança… Os oprimidos querem compensações morais. Eu quero é ganhar.

Moro quase ao lado do Pacaembu. Passei por ali rumo à festa nos 15 primeiros minutos de jogo. O “nosso” povo — ou “meu povo” — ainda lotava as cercanias do estádio. Por que se torce e se resiste mesmo quando a vaca insiste em ir para o brejo? Por que eu me mantive corintiano se vi o time vencer um campeonato, pela primeira vez, só aos 16 anos, em 13 de outubro de 1977, depois de longos 22 anos, mesmo suportando a troça dos colegas, especialmente os palmeirenses? E, vá lá, até hoje, aquela expulsão de Rui Rei, da Ponte Preta, na final…

A primeira tentação é associar tal paixão à religião. Mas não é. Não se trata de nenhuma compensação mística ou entendimento superior da natureza humana. Nada. Reitero: ainda que perdendo, o que se quer é ganhar. Não há um compromisso com o insucesso. Talvez seja o mais perto que consigamos, os brasileiros, chegar de uma forma de convicção: “Eu sou isto; escolhi este caminho”. Sem acomodações, zonas cinzentas, áreas de acostamento. E, não obstante, o futebol brasileiro está dominado por uma estrutura ainda coronelista — que pode ser, como vimos, assassina. Nem isso leva um “crente” à apostasia.

É claro que nos ocorre a todos o óbvio: e se os brasileiros tivessem, em relação à política e à vida pública, essa mesma paixão convicta? Ocorre que, por mais canalha e politiqueira que seja a estrutura do futebol; por mais que a bandidagem também aí se mobilize para interferir no resultado, no mais das vezes, o jogo é pra valer. O que desmoraliza a política é a permanente marmelada. A torcida aceita até um time meio mequetrefe, mixuruca — desde que seja esforçado.

Lula, vocês fazem o desfavor de me lembrar o tempo todo, é corintiano. E, como sabemos, não é alheio ao futebol. É um traço de esperteza. E ele aprende com isso. Dando ou não show, um time tem de, em primeiro lugar, jogar para a sua torcida. E, vamos admitir, isso o Apedeuta faz muito bem. Não decepciona as suas bases. Qual é a base dos partidos de oposição? Quem não pode ser decepcionado? Qual é a torcida? Presumo que eles ainda não tenham essa resposta. E, sem ela, a chance de perder o jogo, mesmo para um time fraco, é bastante grande.

privatização da revolta

Já não é preciso que o cidadão suje as mãos de sangue ao linchar o bandido. A polícia é paga para que o faça

por FREI BETTO

A VIOLÊNCIA urbana privatiza a revolta, individualizada na ação deletéria do bandido que, movido pela ambição desmedida, extrapola os limites da lei e da ordem para saciar seus desejos.

Numa sociedade marcada pela desigualdade e pela “cultura da morte”, denunciada por João Paulo 2º, a lei de talião tende a prevalecer sobre a ação política capaz de assegurar à maioria condições dignas e pacíficas de vida. O mais grave, porém, como o comprova o filme “Tropa de elite”, é a polícia e o cidadão, céticos ante os recursos legais, como o Judiciário, adotarem o mesmo procedimento dos bandidos. Prende-se ao arrepio da lei, tortura-se, esfola-se, mata-se, reduzindo caso de política a caso de polícia.

Restaura-se a lei de Lynch, agora turbinada pelo sofisticado apelo à terceirização: já não é preciso que o cidadão suje as mãos de sangue ao linchar o bandido. A polícia é paga para que o faça, respaldada pela impunidade e pelo apoio desse segmento da população convencido de que “bandido bom é bandido morto”.

O paradoxal é que os mesmos que defendem o método “olho por olho, dente por dente” são contrários aos direitos humanos… Exceto os deles! Eles, sim, querem para si todos os direitos da Carta da ONU, que, em 2008, comemorará 60 anos.

O paradoxo se explica por serem portadores da mesma antiética do preconceito e da discriminação que motivou colonizadores ibéricos ao massacre dos indígenas da América Latina, Hitler ao holocausto dos judeus e Bush ao genocídio no Iraque.

É dom de Deus a biodiversidade. E deveria nos servir de parâmetro para a vida social, sem transformarmos a diferença em divergência, como ocorre com freqüência entre patrão e empregado, branco e negro, ocidental e oriental etc.

É o que sublinha o episódio bíblico da torre de Babel. Seus construtores a erigiam movidos pelo orgulho de “falar uma só língua” (unanimidade) e de inverter, “prometeicamente”, a relação entre Criador e criaturas: a torre simbolizava o poder humano de penetrar os céus e destronar Javé. Este, porém, preferiu a pluralidade à unanimidade, diversificando a linguagem. O que aos humanos pareceu confusão e maldição era bênção aos olhos divinos.

O preconceito, raiz da discriminação, nos é incutido pela cultura advinda da família, da escola, da mídia. Faz-me temer o semelhante porque ele não se veste tão bem quanto eu, não tem uma aparência que me agrada, adota atitudes que suspeito ameaçadoras, manifesta idéias que não coincidem com as minhas…

Em nenhum momento o preconceituoso se dá conta de que ele é mero acaso da loteria biológica. Não escolheu a família e a classe social em que nasceu. E, num mundo em que, de cada 3 nascidos vivos, 2 nascem condenados à pobreza e à miséria, o privilégio de estar acima da linha da pobreza deveria ser encarado como uma dívida social.

Pior é quando aquele que procede da pobreza é investido de uma função de poder, como integrar o aparato policial militar, e passa a tratar como dessemelhante o semelhante de origem. Basta observar uma batida policial em favelas e periferias. Outrora, a violência urbana ocorria no Brasil como fenômeno no varejo, a ponto de um bandido famoso como Meneghetti se gabar de jamais ter causado dano físico às suas vítimas.

Hoje, ocorre no atacado, com gangues organizadas, do narcotráfico (abastecido pelo mesmo consumidor que aplaude o policial que mata bandidos) aos comandos carcerários. O Estado, também cego às causas, trata de fazer PAC da Segurança, construir prisões, equipar a polícia, prometer rigor, fazer vista grossa à repressão que, primeiro atira, depois pergunta…

Os apologistas de Lynch não percebem que, enquanto as causas da violência não forem atacadas, eles também se tornam vítimas da mais sutil violência: o medo interiorizado. Temem sair à noite, gastam fortunas com esquemas de segurança, do alarme em carros às trancas de portas, vivem confinados na síndrome do pânico. É o arrastão psicológico, que induziu a maioria a aprovar, em plebiscito, o comércio privado de armas.

É tudo que o sistema espera de todos nós: mudemos os métodos, não o próprio sistema. Assim, aprimoram-se os recursos repressivos -escutas telefônicas, vigilância eletrônica, gases paralisantes- sem abrir os olhos à cultura do óbvio, apontada pelo profeta Isaías há 2.700 anos: só haverá paz como fruto da justiça. O que, em termos atuais, significa que, sem democracia econômica, a democracia política será sempre um arremedo virtual. [FOLHA 27/11/07]

a casa caiu

Criador da série “House”, que chega ao quarto ano, David Shore adianta os próximos passos do médico ranzinza, abandonado pelos assistentes no fim da temporada passada

Hugh Laurie já recebeu dois Globos de Ouro pelo ersonagem-título; “ele trouxe uma
carga grande de sarcasmo e grosseria, sem torná-lo hostil’, diz David Shore

por LUCAS NEVES

Ás do diagnóstico, o infectologista Gregory House, protagonista da série que leva seu nome, desta vez falhou: não soube ler os sintomas de insatisfação de sua equipe. Agora, no início da quarta temporada (que estréia nesta quinta, às 23h, no Universal Channel), sente os efeitos colaterais: deixado a sós com sua ranhetice por Foreman, Cameron e cia., não tem a quem esculachar ou exibir seu intelecto.

Mas não há de ser por muito tempo, segundo contou David Shore, criador do programa, na entrevista telefônica a jornalistas latinos da qual a Folha participou, na semana passada.

“Estamos fazendo uma espécie de “Survivor” [reality show americano que inspirou a gincana eliminatória global “No Limite”] neste ano. House não é do tipo que abre um concurso, faz 40 entrevistas e contrata três pessoas. Sua linha é mais contratar 40 e demitir 37. Suas decisões a respeito de quem fica e quem sai darão dicas interessantes sobre quem ele é.”

O “processo seletivo” deve se estender por oito ou nove episódios. Mas o entourage antigo do médico no hospital Princeton-Plainsboro ainda não aposentou os jalecos. “Eles voltarão. A surpresa para o público será a forma como se dará esse retorno”, adianta Shore.

O “enxugamento” súbito de elenco não fez mal à audiência da série. Os sete primeiros episódios da nova safra registraram média de 19,1 milhões de espectadores, garantindo a “House” o sexto lugar no ranking da televisão americana.

No Brasil, em sua terceira temporada, foi o terceiro seriado mais visto nos canais pagos. A Record, que exibe o segundo ano da atração na TV aberta, tem obtido sete pontos (cada ponto equivale a 54,5 mil domicílios na Grande São Paulo), bom índice para uma produção estrangeira.

Perfil contra-indicado
Arrogância, egolatria e rispidez são traços contra-indicados a qualquer protagonista que aspire à admiração do público. Dr. House não dá a mínima para isso -e, ao que parece, nem os fãs da série. “Ele faz sucesso, em primeiro lugar, porque está salvando vidas. Se fosse manobrista e continuasse tão grosseiro, não sairia incólume. Além de ser brilhante no que faz, é capaz de dizer coisas que todos nós gostaríamos de dizer”, diz Shore.

Por sua atuação como o médico genioso, o inglês Hugh Laurie já recebeu dois Globos de Ouro e duas indicações ao Emmy (o prêmio máximo da TV dos EUA). “Ele trouxe ao personagem uma carga grande de sarcasmo e grosseria, sem torná-lo hostil”, elogia o criador da série, advogado de formação que foi buscar na medicina o pano de fundo para seu primeiro hit televisivo.

“Sei que não faz o menor sentido. É que não vejo “House” como um programa médico. O coração da série é a relação do médico com as pessoas e o posicionamento dele diante de dilemas éticos. Não se trata tanto de diagnóstico ou procedimento médico quanto das decisões morais que ele tem de tomar.”

Diga à TV que fico
Com o nome em alta em Hollywood, Shore diz que não pensa em fazer a transição para o cinema. “A televisão é o meio em que você quer estar hoje, nos EUA, se você é um roteirista. Se estivesse fazendo um filme, o diretor reescreveria o meu script. Na TV, sou eu que digo ao diretor o que estamos buscando. O que importa hoje nos filmes é o espetáculo, o que você pode explodir. Por isso é que a televisão começou a atrair roteiristas. Além disso, esse veículo permite explorar um personagem por muitos anos, o que não acontece no cinema, onde você divide duas horas com efeitos especiais.”

A greve dos roteiristas, que há 15 dias paralisa boa parte da produção de conteúdo televisivo nos EUA (a classe pede participação nos lucros com down-load na internet e vendas de DVDs), já tem consulta marcada com House. “Estamos rodando o 12º episódio. É o último para o qual há script. Não irei reescrevê-lo para que sirva como encerramento da temporada, caso a greve se estenda. Por isso, espero que os produtores ofereçam logo um contrato justo”, afirma Shore.

House é o canalha que todos amamos

por LEONARDO CRUZ

Lá pelas tantas na quarta temporada de “House”, uma futura paciente explica por que decidiu procurar o médico que protagoniza a série: “Você é o melhor. Quebra regras. E não se importa com ninguém, exceto consigo mesmo”. A fala da personagem sintetiza não só as razões que levam doentes ao hospital de Gregory House mas também os motivos que nos fazem acompanhar este programa médico.

Esquartejemos a fala em três. “Você é o melhor” resume a excelência que esperamos do protagonista -uma série totalmente centrada em um personagem, caso de “House”, precisa gravitar em torno de alguém único, extremamente capaz em sua área de especialização.

“Quebra regras.” O flerte com o crime, com a ilegalidade, sempre foi um bom elemento para atrair platéias na história do cinema e das séries de TV. House invade casas de pacientes e desrespeita o regulamento hospitalar e os códigos da medicina para provar que está certo, confirmar suas teorias e, se possível, salvar vidas.

“Não se importa com ninguém, exceto consigo mesmo.” A House só interessa descobrir a causa da doença de seus pacientes. A obsessão leva o médico a tratar enfermos como cobaias e assistentes como mero estímulo para solucionar problemas. Tal egoísmo latente seria repulsivo se não fosse temperado com muito sarcasmo.
House humilha colegas de trabalho, ironiza pacientes, ignora o sofrimento típico do cotidiano hospitalar -e nos faz rir com tudo isso. Um humor corrosivo, quase sádico e cheio de referências da cultura pop. Hugh Laurie entendeu desde o início que seu médico manco era o oposto dos doutores bonitões e assépticos de novelinhas como “Grey’s Anatomy”. Em resposta, o ator britânico construiu um protagonista que se tornou maior que a série, o canalha que todos amamos.

Avaliação: ótimo [FOLHA 20/11/07]

chávez, o napoleão de circo

Entre 1998 e 2006, a taxa de homicídios em Caracas subiu 68%. No estado de Táchira, no mesmo período, o aumento foi de 418%.

por DIOGO MAINARDI

Mata-se tanto na Venezuela que Hugo Chávez já está matando até os fantasmas de 200 anos atrás. Simon Bolívar morreu de tuberculose. Hugo Chávez afirmou que isso é mentira. Para ele, Simon Bolívar foi assassinado. Como um Marty McFly bolivariano, Hugo Chávez fez uma viagem no tempo, no carro cafajeste de um cientista aloprado, e passou a modificar o passado. Ele disse:

– Se for preciso mover céus e terras para provar a verdade, eu o farei.

A verdade é outra. Ninguém assassinou Simon Bolívar. Quem morre assassinado na Venezuela é a sua gente. Aquela mesma gente que, em grande parte, apóia Hugo Chávez. Nos últimos anos, durante o regime chavista, Caracas tornou-se a cidade mais violenta da América Latina. Tem 107 assassinatos para cada 100.000 habitantes. Ganha do Recife. Ganha de Maceió. Olha que é duro ganhar do Recife e de Maceió. O ano de 2006 foi o mais sangrento da história da Venezuela. E 2007 está sendo ainda pior. Nos nove primeiros meses do ano, houve 9 568 assassinatos no país, 852 a mais do que no mesmo período de 2006. Pegue a calculadora. Regra de três. Resultado: ocorreu um aumento de 9,7% no número de assassinatos de um ano para o outro. Entre 1998 e 2006, a taxa de homicídios em Caracas subiu 68%. No estado de Táchira, o aumento foi de 418%. Esse é o maior legado chavista, essa é a verdade. Sem que seja preciso mover céus e terras para prová-la. Sem que seja preciso viajar no tempo. Basta consultar os números do governo venezuelano.

Eu sei que é aborrecido basear argumentos em estatísticas. Mas é o único jeito de fugir da asnice cucaracha que está fazendo a América Latina retroagir ainda mais na história. Quando o rei Juan Carlos mandou Hugo Chávez calar a boca, Fidel Castro classificou o embate como um “Waterloo ideológico”. Nesse Waterloo ideológico, eu me sinto como um Fabrizio del Dongo bananeiro, perdido no campo de batalha, contando os milhares de mortos de cada lado. Comigo é assim: de De Volta para o Futuro a um romance de Stendhal em menos de dois parágrafos. No caso da Venezuela, segundo os dados oficiais, houve 12.257 assassinatos em 2006. No caso do Brasil, houve 44.663 assassinatos. Praticamente o mesmo número de mortos que na batalha de Waterloo. O Brasil tem um Waterloo por ano. No rastro do napoleonismo circense de Hugo Chávez e Lula, só há cadáveres. Na Venezuela chavista, assim como no Brasil lulista, as idéias mais regressivas insuflam a mortandade. Onde está Wellington?

Álvaro Vargas Llosa buscou a origem antropológica do atraso da América Latina. Ele a identificou no fanatismo absolutista das culturas pré-colombianas. Para ele, a gente nunca conseguiu se libertar daquele germe asteca que nos empurra para o coletivismo, para a pilhagem, para o cativeiro, para o sacrifício humano, para a degola, para a barbárie. A gente nunca conseguiu fazer nosso indiozinho internalizado calar a boca. [VEJA 2035 21/11/07]

[Em São Paulo, houve 18,9 mortos por 100 mil em 2006. Em 2007, esse número deve cair: é quase um sexto do que se mata em Caracas.]