Momento histórico

Ontem, 17-5-2017, vai entrar para a história como o dia da queda do governo ilegítimo e/ou ilícito de Michel Temer et caterva.

Por volta das 20h30, o jornalista George Marques (The Intercept Brasil) postava no Facebook: «Correria no Congresso Nacional. Michel Temer foi pego em grampo negociando silêncio de Eduardo Cunha. Aécio Neves teria pedido propina de R$ 2 milhões. A Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal estariam em posse dos vídeos. Neste momento deputados e senadores pedem que o presidente da Câmara Rodrigo Maia instale a comissão do impeachment contra Temer. A República caiu!»

Sim, a República das Bananas caiu. Vamos aguardar para saber por qual ou pelo que ela será substituída.

Eu mesmo, no calor da hora, do “momento psicológico”, postei vários comentários e palavras de ordem:

«TEMER TEM QUE RENUNCIAR!»

«TEMER COMETEU CRIME DE OBSTRUÇÃO DA JUSTIÇA DURANTE O MANDATO: FIM!»

«COMERAM O MINEIRINHO
“Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer a delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho.” (Aécio Neves)»

«AÉCIO É MAFIOSO»

«A Globo deve ter avaliado que a chapa Dilma-Temer seria cassada e se apressou para evitar as diretas.»

«É ISTO MESMO QUE VOCÊ ESTÁ VENDO
O MBL pedindo a cabeça do seu presidente»

«AVISO DE Ernesto Giusti: “Agora a esquerda vai pras ruas comemorar e pedir diretas já. Ai, ai. Se quiser voltar a ganhar uma eleição nos próximos vinte anos, tem que ler mais Maquiavel e menos Gregorio Duvivier. Ingenuidade mata.”»

«Não tem de comemorar nada; tem de exigir eleições diretas já.»

«DIZ A CONSTITUIÇÃO
Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.»

«SÓ O POVO SOBERANO PODE EVITAR AS INDIRETAS»

«TEMER, AÉCIO ET CATERVA DEVIAM SER PRESOS IMEDIATAMENTE»

«DIALÉTICA DA IMBECILIDADE
Esquerda: Corruptos derrubaram presidenta honesta.
Direita: Oposição, que derrubara presidente corrupta, deixou-se corromper.»

«PERDOEM A PARANOIA, MAS TEM ALGUÉM COBRINDO OS QUARTÉIS?»

«SÓ PRA LEMBRAR, AMIGO MORISTA, QUE O SEU JUIZ CENSUROU AS PERGUNTAS DO CUNHA AO TEMER»

«”ARGUMENTO” DUPLAMENTE GOLPISTA: TEMOS DE ELEGER INDIRETAMENTE UM PRESIDENTE QUE PRESERVE A EQUIPECONÔMICA E… AS REFORMAS!»

Enfim, manifestações ao mesmo tempo de euforia e preocupação.

O fato é que aconteceu e é irreversível. É apenas questão de tempo a saída –por renúncia ou por afastamento– do Temer.

Agora há pouco se noticiou:

«BUSCA E APREENSÃO NA CASA E NO GABINETE DO SENADOR AFASTADO AECIO NEVES»

«IRMÃ DE AÉCIO É PRESA»

Hoje será mais um dia daqueles…

Tenhamos esperança e não deixemos a oportunidade nos escapar!

#DiretasJá!

Jornalista pira na batatinha

O jornalista Juca Kfouri publicou ontem, dia 5, no seu blog um comentário (O Rei pirou) sobre algumas frases que o Rei Pelé teria acabado de pronunciar. O texto do jornalista segue em negrito, e logo depois os meus comentários.

Pelé disse agora há pouco que “nós jogadores temos direito à segurança”.
Verdade: todo jogador tem direito à segurança, como todo cidadão; as “trucidas” organizadas acham que não, que jogadores não são trabalhadores nem cidadãos, mas alguma espécie de cruzado ou gladiador ou talvez mercenário. E os clubes milionários também não estão muito preocupados com a segurança de seus funcionários.
Mas ele deixou de ser jogador desde 1977, lá se vão 37 anos!
E daí? O Juca só está tratando do Pelé porque ele continua falando como (um eterno) jogador.
Tudo bem, digamos que é uma licença poética aceitável, para quem, calado, segundo Romário, é isso mesmo, poeta.
Licença poética é outra coisa. A hipérbole é perfeitamente compreensível.
Ele disse, também, que, no entanto, “não é hora de greve, é hora de faturar com a Copa” e que trabalhou “durante quatro anos pedindo votos para o Brasil” recebê-la.
Futebol é show business, e, como bom empresário, que, aliás, aprendeu apanhando, o Pelé sabe que o show não pode parar.
Pelé não trabalhou nem quatro segundos para tanto: o Brasil foi candidato único.
Como se fosse tão simples assim receber uma copa do mundo! O Juca devia explicar então por que o Brasil foi o único candidato. E por que um e outro país se prontificou a substituir o Brasil, caso este falhasse.
O pior ainda nem foi nada disso.
O pior foi ele dizer que não cabe protestar durante a Copa “porque o futebol não tem nada a ver com a corrupção no país”.
Ora, bolas! O Rei pirou de vez!
Onde andam João Havelange e Ricardo Teixeira, os dois maiores símbolos do poder de nosso futebol fora dos gramados? Por que estão escondidos?
Pois não foram as acusações do próprio Pelé, nos anos 90, que acabaram por ajudar a instalação das CPIs da CBF e do Futebol, na Câmara dos Deputados e no Senado?
O Pelé não disse que o futebol não é corrupto. Claro que é, e claro que ele sabe muito bem disso. Ele disse a verdade: o futebol não tem nada que ver com a corrupção endêmica deste país, contra a qual o povo tem protestado. A corrupção não de cartolas, mas de governantes, que não devolvem ao povo aquilo que lhe tiram a título de impostos e taxas destinados justamente a financiar as políticas públicas, que incluem sim o futebol entre outros esportes e lazeres.
Verdade que depois, no começo deste século, ele participou do infame “Pacto da Bola”, com alguns que acusou, Havelange e Teixeira entre eles.
Hum… por que te preocupas com o cisco no olho do outro, cara-pálida, e não com se tens uma trave no teu? Qual é o empresário que já não trabalhou com corrupto? O Juca não trabalhou na Abril, aquele bastião da moralidade nacional? E na Playboy e na Veja… pfui!

Eita, Edson, ainda bem que aquilo que Pelé fez em campo é impossível de ser manchado.
Eita Juca, por que você não vai aprender a escrever parágrafos de mais de duas linhas, antes de se meter em assunto de gente grande? Sim, a reputação de Rei do Futebol não pode ser manchada, mas a reputação de um jornalista qualquer é facilmente manchada. Para ser manchada, porém, é preciso antes que exista.
Por estas e por outras é que me afastei do futebol!

Lei reformista

Na sua coluna de hoje, 1-2, na Folha de S.Paulo (Jogando com a corrupção), Hélio Schwartsman trata da chamada Lei Anticorrupção (nº 12.846/13), que passou a vigorar esta semana. O autor observa que a nova lei muda a lógica das coisas. Antes, era vantajoso para a empresa que seus funcionários se arriscassem em esquemas ilícitos para aumentar seus lucros; agora, ao contrário, a empresa terá de empenhar-se para controlar o apetite de seus colaboradores.
Com efeito, a lei 12.846 acaba com a impunidade das empresas, que passam a responder por aqueles atos de seus funcionários (mesmo que terceirizados) que a beneficiem. Se “pegar”, essa lei provocará de fato uma revolução no mundo corporativo.
Será mesmo? O que ocorria quando um empresário se envolvia em falcatruas? Na verdade, pouca coisa. A responsabilidade do empresário sempre foi limitada; apenas em casos específicos, como o não recolhimento do INSS dos funcionários (considerado como apropriação indébita), respondia ele criminalmente como pessoa física.
A situação era então a seguinte. Funcionários e empresários podiam fazer o que quisessem, dentro de certos limites, que dificilmente responderiam criminalmente com os próprios bens. Por outro lado, as próprias sociedades, ou seja, as empresas, eram autuadas somente segundo as normal do direito empresarial.
Parece-me que, agora, a nova lei pretende dar às pessoas jurídicas (empresas) o estatuto de pessoa física, a fim de que elas possam responder também criminalmente por atos administrativos ilegais.
Mas não está claro, para mim, até que ponto o direito administrativo pode fazer as vezes do direito penal.*
Como quer que seja, enquanto um banqueiro, p.ex., puder assistir tranquilamente –de seu iate– a seu banco ir à bancarrota, leis como a 12.846 estarão mais próximas de uma simples reforma do que de uma verdadeira revolução.
*NOTA: Schwartsman, a quem agradeço, chamou minha atenção para essa distinção e também para o fato de que a lei em questão cria uma série de incentivos para as empresas criarem códigos de ética e sistemas de auditoria interna.