Cogito

torquato-neto-por-izanio

por TORQUATO NETO

eu sou como eu sou
 pronome
 pessoal intransferível
 do homem que iniciei
 na medida do impossível

eu sou como eu sou
 agora
 sem grandes segredos dantes
 sem novos secretos dentes
 nesta hora

eu sou como eu sou
 presente
 desferrolhado indecente
 feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
 vidente
 e vivo tranqüilamente
 todas as horas do fim.

8/10/71

(In: Os últimos dias de Paupéria. Rio de Janeiro: Eldorado, 1973. p. 23)

Introdução a Fichte [18]

Fichte: Problema, Método, Tese

por EDSON DOGNALDO GIL

O objeto deste ensaio de interpretação, que ora chega ao fim, é o primeiro princípio, dito da posição, ou melhor, da autoposição do Eu, da Doutrina da Ciência de Fichte, tal como exposto na Grundlage. Mais especificamente, a relação entre ser e pensar implícita nesse princípio. Para concluir, resumir-se-á o caminho de reflexão percorrido até aqui, tomando como referência os conceitos centrais – método, princípio, realidade, prática -, reduzindo ao máximo as considerações históricas. Antes, porém, algumas palavras sucintas a respeito do problema fichteano.

O principal problema[1] de Fichte, ao qual ele procura responder por meio da Doutrina da Ciência, é o da necessidade, possibilidade e modos de fundamentação da consciência finita, empírica. Se Kant pergunta como são possíveis os juízos de experiência (juízos sintéticos a priori), Fichte pergunta como é possível a experiência como tal. Assim, trata-se, para este último, de perguntar pelo princípio capaz de fundamentar o saber empírico, em particular, e de sustentar o conhecimento, em geral. Por meio da auto-observação do Eu, Fichte chega à constatação de uma atividade intelectual anterior (a priori) à consciência objetiva, a qual, quando apreende a si mesma, supera a cisão problemática entre sujeito e objeto, uma vez que essa cisão é antes uma decorrência (a posteriori) dela. Esse estado de coisas condiciona a capacidade de fundamentação dos princípios, pois a cisão em sujeito e objeto constitui o ponto de partida para uma ciência fundamental[2] e os respectivos problemas.

Com relação ao método seguido por Fichte na Grundlage, pode-se dizer o seguinte. A abstração total do saber que tem lugar dentro dos limites da consciência empírica[3] constitui, segundo a WL, o passo decisivo para o conhecimento dos princípios genéticos dessa forma de saber. A fundamentação da consciência empírica com base em um princípio que se desenvolve dialeticamente se dá puramente a priori. Os três momentos constituintes da consciência precedem (logicamente) toda experiência, jamais podendo tornar-se objeto de observação. Eu e não-eu não delimitam o saber factual, uma vez que não são dados na consciência de modo algum. Não obstante, não se deve falar de transcendência em Fichte. Pois a atividade intelectual pré-consciente (Tathandlung) que produz a consciência é, para ele, um “fato necessário” da consciência, ou seja, expressão das próprias leis racionais. O princípio de Fichte é, assim, imanente – transcendental -, à medida que funciona como um necessário postulado[4] para a consciência reflexiva (filosófica).

Quanto ao princípio, tem-se a dizer o que se segue. A fundamentação da consciência empírica proposta por Fichte começa (na Grundlage) com a autoposição do Eu. Esse Ato não deve ser entendido como uma qualidade ou propriedade de uma (suposta) substância egóica (de um eu substancial: res cogitans). Ao contrário, o Eu que se põe a si mesmo só existe na ação (enquanto agente). Seu modo de ser é a pura atividade e, por isso mesmo, sem nenhuma pressuposição[5]. Eis aqui a diferença de fundo entre as teorias cartesiana (ego cogito) e kantiana (ich denke) e a teoria fichteana (Ich bin Ich). Mais tarde, Fichte vai acentuar a coincidência de sujeito e objeto no Eu absoluto (eu como sujeito-objeto[6]). Mas aqui também se trata de um princípio puramente transcendental: a autoposição do Eu é um Ato pré-consciente e a priori. Para Fichte, portanto, o Eu absoluto é a unidade originária de sujeito e objeto: a egoidade ou “subjetividade como manifestação do absoluto”[7]. Mas, vale frisar, o pensar (cogitare) não pode ser princípio, uma vez que – relativamente a suas categorias – ele tem primeiro de ser fundamentado transcendentalmente pelo Ato espiritual livre.

Em suma, pode-se dizer (relacionando método e princípio) que, para Fichte, o Eu, enquanto inteligência pura, é atividade. Sem o Ato não é possível aparecer na consciência conteúdo algum. Os Atos do Eu originam todos os conteúdos; são os atos genéticos por excelência, porque antecedem todo conteúdo de consciência, não são condicionados por nada que não por si mesmos, e consistem na realização das leis intrínsecas da razão. Essa é a intuição básica de Fichte, isto é, a Tathandlung: Ato originário, pré-predicativo e, portanto, anterior ao pensamento discursivo e à consciência objetiva (de um sujeito hipostasiado, cartesiano), ao qual se tem acesso por meio de um método intuitivo[8], mas puramente intelectual, autenticamente meditativo – filosofia meditativa, filosofia como arte (ars)[9].

Com relação à concepção de realidade de Fichte, há que se dizer que ele refuta o que chama de concepção dogmática (da qual Kant ainda permaneceria tributário), segundo a qual a representação resultaria da afecção. A realidade é para ele um produto da ação transcendental[10] do Eu, ou, por outra, resultado de atos espirituais constitutivos. E aqui deparamos novamente com a diferença entre Fichte e Descartes (e Kant), uma vez que, para o primeiro, nem o pensar nem a percepção[11] são fatores primeiros-últimos constitutivos. Tal como as categorias do pensar, os conteúdos da percepção (sensações) também emergem do desenvolvimento dialético do princípio originário. O sentimento é produzido por um ato da autolimitação do Eu absoluto. O mundo perceptivo vem a ser assim um limite de resistência, o qual o Eu, em sua infinita tendência de crescimento, ampliação e liberação, procura continuamente determinar e subordinar à própria lei. A realidade objetiva, assim, é para Fichte a síntese, realizada pela imaginação transcendental produtiva[12], da necessidade da razão (pensar) e da do sentimento ou sensação (percepção).

Com outras palavras, o mundo e todo o seu conteúdo são, para Fichte, resultado da atividade criativa do eu. Por meio da ilimitada força de suas “posições” (Setzungen), o Eu originário, criativo, põe fora de si todo o conteúdo universal, que depois experienciará como objetos limitadores de sua vontade. O mundo, para Fichte, é uma metamorfose do Eu.

Enfim, o que caracteriza a teoria da realidade de Fichte é, com outras palavras, o primado da razão prática, o último conceito a ser considerado neste resumo conclusivo. Como vimos, os três grandes idealistas pós-kantianos destacaram e elaboraram, cada um a sua maneira, um dos três princípios básicos de cada uma das grandes críticas de Kant. Fichte desenvolveu uma filosofia da faculdade apetitiva (razão prática). Com efeito, o mundo conhecido, sabido, obtém sua certeza da sua referência ao empenho ou aspiração do Eu em abarcar e confundir-se com a realidade como um todo. O fato de o Eu, na superação da resistência, tornar-se fenômeno não é um fato demonstrável, isto é, objeto de dedução e fundamentação lógica, mas antes uma firme convicção na liberdade do espírito à qual deve aferrar-se voluntária e deliberadamente[13]. Assim, para Fichte, a realidade funda-se na liberdade.

Há nisso tudo, como se pode ver, um quê de estoicismo, de certa “moira” – destino inexorável. O fim ou o telos de tudo é a liberdade como conciliação do saber com a moral, da razão teórica com a prática.[14]

A tensão interna[15] de um sistema filosófico fundado em princípios [Grund-sätze], que toma seu ponto de partida necessariamente do pura e simplesmente incondicionado [schlechthin Unbedingten] e que, entretanto, tem de permanecer necessariamente condicionado, é mesmo… abissal [ab-grundig].


[1] Cf. HEIMSOETH (p. 70 ss.) e, em especial, GREUEL (p. 72 ss.).

[2] Doutrina da Ciência como epistemologia fundamental: ciência da ciência ou metaciência.

[3] Seria interessante que se comparasse o método fichteano de filosofar com o método do “abandono do limite mental”, desenvolvido pelo filósofo realista espanhol, Leonardo Polo. Cf. POLO, L. O acesso ao ser. Pamplona: Navarra, 1961.

[4] Esse seria outro ponto interessante de comparação entre a WL de Fichte e a filosofia poliana, com a sua axiomatização da metafísica e, por extensão, da teoria do conhecimento.

[5] Leonardo Polo, invertendo Aristóteles, defende uma tese semelhante a esta de Fichte, a saber, que o movimento (distinto da mudança) precede a causa e esta, o ente. Cf. GARCÍA GONZÁLES, J. A. Princípio sin continuación: escritos sobre la metafísica de Leonardo Polo. Málaga: UM, 1998. (Estudios y ensaios, 25) p. 66 ss.

[6] Versão mais apreciada por Schelling, pelo menos pelo Schelling da filosofia da identidade ou da indiferença.

[7] Cf. CRUZ CRUZ (2003).

[8] Minha tese é, como se pode perceber, que, para Fichte, a intuição intelectual não consiste meramente numa espontaneidade intencional de nossa mente, ou, para falar como os escolásticos, um mero hábito intelectual, mas sim uma tendência ou hábito que pode e deve ser desenvolvido voluntariamente.

[9] Naturalmente, esses aspectos – meditativo e artístico – da filosofia fichteana não eliminam o seu aspecto heurístico, científico, mencionado na nota anterior. Ao contrário, a proposta de Fichte é justamente de conciliação entre ciência (filosofia), arte e religião.

[10] Ao lado da causalidade natural, Kant admite também a causalidade transcendental ou livre, mas, diferentemente de Fichte, não resolve definitivamente o conflito entre ambas, deslocando-o, por assim dizer, para o reino das antinomias da razão (a terceira).

[11] Ou seja, aquelas faculdades que Descartes subsumia no conceito de pensar (cogitare).

[12] Sobre o tema da imaginação transcendental em Fichte, cf. INCIARTE [1970] e TORRES Filho [1975].

[13] Cf. IBRI (p. 101): “resgate reflexivo da perdida liberdade originária”.

[14] O móvel dessa conciliação da “criatura com o criador” é o amor cristão. Repetindo S. João (…, …), Fichte afirma literalmente que “Deus é amor” (Cf. Destinação…), tema, aliás, da última encíclica papal (janeiro de 2006).

[15] E aqui retomo a imagem do “campo de força” lá do começo; cf. “A constituição de um princípio”.