Ciência e filosofia

No post Violência e ideologia, de hoje, afirmei, entre parênteses, que o argumento

“evolucionista” é no mínimo problemático, pois, embora não seja científico, deixa de fora o próprio sujeito do conhecimento pretensamente científico …

Gostaria de esclarecer um pouco essa minha afirmação, embora pretenda voltar ao assunto mais tarde.

O que está em questão é a diferença entre a filosofia e a ciência, ou melhor, as ciências ditas positivas. Essa diferença vem sendo cada vez mais esquecida e encoberta pela filosofia acadêmica dominante mundo afora. Isso se deve à influência cada vez mais forte, determinante mesmo, que as ciências duras e as novas disciplinas científicas, como as neurociências, vêm exercendo sobre a filosofia, ou melhor, sobre os professores de filosofia.

Essa situação não deixa de ser curiosa. Veja, raro leitor: o pai da filosofia e do racionalismo modernos, Descartes, aquele pensador que ambicionava criar e estabelecer uma scientia filosófica abrangente, com as raízes fincadas na metafísica, elevando-se através da física e alcançando todas as demais ciências pelos ramos da mecânica, da medicina e da moral, esse mesmo pensador jamais confundiu a reflexão propriamente filosófica com o conhecimento científico da natureza.

Mas, hoje, é comum entre os professores de filosofia (penso em escala internacional) a concepção segundo a qual o desenvolvimento da ciência tende a eliminar a filosofia. Nesse sentido, um problema só seria “filosófico” enquanto não encontrasse uma solução científica. A filosofia não passaria, por conseguinte, de uma espécie de fonte de problemas ou de “programas de pesquisa” para os verdadeiros pensadores, os cientistas.

Bom, vou deixar essa tese a meu ver esdrúxula de lado e voltar à questão da diferença entre filosofia e ciência.

Toda ciência possui um objeto próprio, e, mais importante, é determinada por este. A física não tem o mesmo objeto que a biologia. A física aplicada à biologia não é biologia, mas justamente física aplicada. Ocorre que a determinação objetiva da ciência implica a exclusão do sujeito. No fazer científico, o sujeito, ou seja, o cientista, esquece-se de si mesmo. Noutras palavras, o sujeito da ciência extroverte-se no objeto.

Heidegger, quando trata dessa questão, faz afirmações polêmicas como a de que a ciência não pensa. Ele quer dizer que a ciência não pensa… filosoficamente, ou seja, não re-flete, mas apenas se “flete” para fora, para o objeto. Esse fletir-se adiante se chama tradicionalmente intentio recta. Além disso, o pensador da Floresta Negra quer dizer que a ciência não pensa… o ser, mas apenas o ente, a coisa. (É o que Heidegger chama de esquecimento do ser ou esquecimento da diferença ontológica entre ser e ente.) E, por fim, quer ele dizer também que a ciência não pensa… o nada, uma vez que pressupõe o ente sem se fazer a pergunta decisiva: mas, afinal, por que o ser e não antes o nada?

Uma objeção que comumente se levanta contra esse tipo de concepção é que há ciências que não só não se esquecem do sujeito como o têm por objeto, como a psicologia. E que mesmo uma ciência dura como a física teria há muito identificado, com Heisenberg (Heisenbergsche Unschärferelation ou Unbestimmtheitsrelation: al., Relação imprecisa ou de indeterminação de Heisenberg, mais conhecida como princípio da incerteza) o problema da interferência do sujeito sobre o objeto.

Esses contra-argumentos, infelizmente, não colhem. Quando estuda o homem, o psicólogo toma-o como objeto e não como sujeito. É como se ele se contemplasse num espelho. O sujeito contemplado não contempla, ou seja, não exerce a função de sujeito, reduzindo-se à condição de objeto entre objetos, de coisa entre coisas.

Do mesmo modo, quando identifica a influência do próprio ato de investigação sobre o objeto investigado, o físico quântico não está refletindo sobre o seu papel como sujeito epistemológico, mas apenas como sujeito empírico. Trata-se da interferência física da luz projetada pelo microscópio sobre o movimento e a posição das partículas subatômicas.

Obviamente, não há nada que impeça tanto o psicólogo quanto o físico de pensar… filosoficamente, ou seja, de re-fletir sobre o próprio papel como sujeito no processo de investigação científica do objeto. É o que se chama tradicionalmente intentio obliqua. Mas, quando o fazem, quando pensam filosoficamente, eles não estão mais fazendo ciência e sim justamente –filosofia!

Vida Embrionária

1) O embrião é um ser vivo?
Sim, é.
1.1) Por quê?
Porque a) se deixado no útero da mãe, onde se implanta por volta do sexto dia depois da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, ele se desenvolverá de modo espontâneo e ordenado até nascer.
E porque b) quando o embrião morre, dá-se o aborto espontâneo, pelo qual o corpo da mãe, por meio dos mecanismos de defesa natural, expele o cadáver em decomposição.
2) Embriões são seres vivos somente quando estão no corpo materno?
Não.
2.1) Por quê?
Porque a) os embriões podem sobreviver e desenvolver-se em ambientes artificiais, que reproduzem as condições (bioquímicas, de temperatura etc.) do útero materno, até estarem maduros para ser implantados num útero, onde então se desenvolverão naturalmente até o nascimento.
E porque b) na falta de uma das pré-condições necessárias, o embrião morre, parando por conseguinte de desenvolver-se.
Fato 1: Embriões congelados por muito tempo (há casos de 6 anos ou mais) foram descongelados, implantados num útero, desenvolveram-se e nasceram normalmente.
Fato 2: Embriões congelados são legalmente adotáveis.
3) Embriões são seres humanos?
Sim, são.
3.1) Por quê?
Porque 1) são seres vivos (ver acima) e 2) desenvolvem-se naturalmente, passando pelo estágio fetal (por volta da oitava semana), até o nascimento, ou seja, um embrião humano dá nascimento a um ser humano.
4) O aborto é uma ação ética?
Em geral, não. Em casos excepcionais, sim.
4.1) Por quê?
Porque eliminar uma vida humana inocente é anti-ético. O aborto só é ético no caso de resultar de uma ação praticada com vistas à salvação da mãe.
5) Não é ético eliminar uma vida humana inocente mesmo quando esta ainda não tem capacidade de ter sensações, portanto, nem tem consciência nem sofre?
a) Esta pergunta parece incorrer em petição de princípio, pois a vida humana em questão é inocente justamente porque ainda não é uma pessoa autoconsciente e responsável.
b) Por outro lado, se a inconsciência e a incapacidade de ter sensações justificam a eliminação de uma vida, então mesmo pessoas adultas, que perderam a consciência e a sensibilidade por motivo de doença ou num acidente, também poderiam ser eliminadas.
c) A vida embrionária, como o próprio nome diz, não possui consciência e sensibilidade em ato, mas em potência sim. Caso contrário, essas propriedades teriam de ser-lhe acrescentadas de fora, por outro ser, o que não ocorre: o embrião apenas desenvolve, num ambiente propício e mediante a nutrição necessária, as potencialidades que lhe são inerentes.

o Natal não é um delírio

“Deus está morto. Deus continua morto”? [A Gaia Ciência, Friedrich W. Nietzsche]

NÃO

por JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR

PARECE QUE nada está mais na moda do que falar mal de Deus.

O mundo assiste a um novo e estranho fenômeno: o ateísmo militante, evangelista. O que se vê não é apenas o discreto ceticismo inaugurado por David Hume ou o racionalismo que se levantou a partir do iluminismo na Europa. O ateísmo tornou-se militante, irado, e quer que Deus desapareça. Não se trata mais de uma filosófica declaração de que Deus está morto, mas de um imperativo de que Ele deve ser enterrado.

Talvez nunca se tenham dedicado, simultaneamente, tantas linhas para atacar e destruir a fé em geral e o cristianismo em particular. Em edições sucessivas, Richard Dawkins, Sam Harris, Christopher Hitchens e Daniel Dennett pregam agressivamente o evangelho ateísta, cuja luz consiste em esclarecer ao mundo que Deus não passa de uma invenção humana.

E nociva. Segundo o novo evangelho, a religião é incompatível com a ciência, obscurantista em sua essência, imoral e causadora das guerras e dos conflitos mais penosos vividos na experiência humana. Deus é um delírio, afirma Dawkins, e a religião envenena tudo, sustenta Hitchens. Intriga nisso tudo o silêncio, quase monástico, nas hostes cristãs. Essas acusações são irrespondíveis?

Tome-se a suposta incompatibilidade da fé em Deus com a ciência. Newton, Kepler, Lavoisier, Mendel, Galileu e tantos outros não eram cristãos? Todos conceberam a ciência a partir da idéia de que o universo foi criado por um ser racional e, por isso, é regido por leis e princípios que podem ser apreendidos racionalmente.

Como o ateísmo explica a magnífica racionalidade do universo, que se expressa em linguagem matemática?

A fé judaico-cristã, aliás, foi a primeira a excluir a natureza da esfera do sagrado e possibilitar sua observação, manipulação e estudo. Além disso, as grandes universidades nasceram em igrejas: Paris, Bologna, Oxford, Harvard e Princeton eram seminários cristãos.

A religião envenenou Michelangelo, Dante, Bach, a arquitetura gótica e tantas outras realizações inconcebíveis sem a fé cristã?

A sociedade ocidental jamais poderá ser compreendida sem os valores herdados do cristianismo. A compaixão, por exemplo, brilhantemente ilustrada na parábola do bom samaritano. Seu berço não poderia ser a Grécia. Os espartanos deixavam os bebês que nasciam mais débeis para morrer ao relento e Platão flerta abertamente com a eugenia em “A República”. É o cristianismo que afirma a misericórdia como um valor inegociável, que constitui o gérmen para o serviço social, a expansão dos hospitais etc.

Mas a escravidão não foi tolerada por séculos pela cristandade? Na verdade, a escravidão foi um fenômeno histórico universal: na China e em toda a Ásia, na África e, inclusive, entre os índios da América pré-colombiana.

Não encontrou oposição na Grécia, nem mesmo em seu momento mais luminoso. Nunca foi questionada.

Quando se torna controversa pela primeira vez? A reação vem inicialmente dos quackers, no século 18, e, em seguida, a concepção de que todos os homens foram criados iguais inspirou o pietista William Wilberforce a lutar tenazmente contra o mal no Parlamento inglês até vencê-lo completamente.

Na verdade, o assalto ateísta não se justifica nem no destaque dado aos crimes cometidos em nome da fé. A história já mostrou que o fanatismo mata em todo canto -e muito mais nos sistemas que procuraram erradicar toda religião. A loucura não exige credo de tipo algum.

Enfim, dezembro é um bom mês para os cristãos saírem do armário.

Não há superioridade intelectual no ateísmo ou, de outro modo, não há inferioridade intelectual na fé cristã. E muito menos inferioridade moral.

Não há por que se esconder dos pregadores da nova fé secular, agressiva e militante. O Natal, mesmo nesta era pós-moderna e pós-cristã, é tempo de afirmar que nada melhor aconteceu à sociedade ocidental do que aquele estranho evento na Palestina, quando uma jovem judia deu à luz Jesus de Nazaré.

Que toquem os sinos em Belém. [FOLHA 22/12/07]

raciossímio

Macacos resos, como os humanos, são capazes de fazer soma mental

Estudo comparou animais com estudantes dos EUA; taxa de acerto foi igual

Depois de um grupo de chimpanzés ter dado um banho em universitários num teste de memória numérica, como mostraram cientistas japoneses no começo do mês, pesquisadores americanos anunciaram na segunda-feira que macacos resos, mais distantes dos humanos na linha evolutiva, não deixam a desejar. Na comparação com estudantes de faculdade, os animais se mostraram capazes de fazer adições mentais tão bem quanto os humanos.

Estudos anteriores já haviam mostrado que vários animais são capazes de reconhecer quantidades, mas até então não havia evidência de que eles tivessem habilidades matemáticas, como a de somar, explica Jessica Cantlon, neurocientista da Universidade Duke e co-autora da nova pesquisa.

No trabalho, dois macacos, Boxer e Feinstein, foram comparados com 14 universitários da Duke. A tarefa consistia em mentalizar dois conjuntos de pontos que eram rapidamente apresentados em uma tela de computador. A imagem então mudava e apareciam duas caixas contendo uma quantidade X de pontos. Os macacos tinham de escolher a que apresentava a soma correta.

Os humanos não podiam contar verbalmente enquanto viam os pontos e deviam dizer quantos havia na tela o mais rápido possível. Tanto macacos quanto humanos responderam em média dentro de um segundo. E ambos tiveram a mesma taxa de acerto. O estudo está na revista aberta “PLoS Biology” (www.plosbiology.org). [FOLHA 19/12/07]

o fetiche da modernidade

O que resta à modernidade é seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática

por LUIZ FELIPE PONDÉ

A CIÊNCIA é o supremo fetiche da modernidade. Quando se olha no espelho, em seus melhores momentos, vê o brilho redentor da tecnologia e seu sublime ídolo, o progresso (a face contemporânea da “natureza atada” de Francis Bacon).

Diante do quase fracasso de grande parte de suas utopias (o racionalismo político, a administração da vida, a resolução científica da existência, a reformulação do humano, enfim, a organização eficaz da agonia), resta à modernidade seu senso comum científico, normalmente dotado de grande carga emocional e dogmática.

A prova evidente desse senso comum é supor que qualquer crítica à ciência significa alguma forma de heresia epistemológica ou mera falta de conhecimento científico por parte de quem levanta a questão.

A estrutura do átomo, suas partículas e cordas, para além de um panteísmo de iniciantes, nada muda em nossa condição cósmica. Tampouco as modas científicas, os “novos paradigmas” e seu superficial frenesi pseudo-religioso.

Aristóteles não conhecia nada sobre como o genoma desvendaria (?) todos os segredos do humano. Entretanto, a única forma de ateísmo filosoficamente séria (o darwinismo) busca exatamente responder a Aristóteles e sua herança (o primeiro motor inteligente): Como do acaso cego chegamos à ordem e ao design visíveis no universo? Pela repetição (e reprodução) mecânica daquilo que não pereceu, vítima da agressão do meio ambiente, em sua inércia ancestral, surge a aparência de ordem. A dança macabra entre o agredido e a agressão mimetizaria essa ordem.

A crítica ao dogmatismo do senso comum científico nada tem a ver com um “desconforto” diante da possível insignificância da vida, sendo mais provável que o pânico diante da possibilidade de “descrença” na ciência seja um indício desse mesmo suposto “desconforto”.

Evidentemente, a ciência (ou aquilo que dela de fato parece fazer a diferença, ou seja, a medicina, a biotecnologia, os aviões, a informática e os processos de controle da vida cotidiana pelo Estado e por seu aliado, o mercado) mudou a face do planeta.

Só um mentiroso não reconhece, humildemente, o alívio diante do adiamento da morte. Imaginar-se mais livre do que os medievais é outro sintoma clássico: quem nunca foi capturado pela fina malha de violência científica do sócio invisível, o Estado arrecadador?

Não se trata de demonizar a ciência. Isso é para a filosofia amadora. Ela é uma das grandes coisas que realizamos nos últimos 500 anos. Trata-se de vê-la como é: uma adolescente furiosa, às vezes generosa, normalmente arrogante quando bem-sucedida. A ciência não é um método puro (somente quando vista das alturas de sua ascendência filosófica). Constitui-se numa teia de interesses e laços institucionais que tendem à fantasia do absoluto, quando, na realidade cotidiana, seus agentes sociais vivem no pântano do relativismo ético e do totalitarismo econômico. Kafka poderia escrever um excelente conto sobre sua burocracia da produtividade.

Exemplo claro é a forma alucinada com a qual a sociedade crê na economia (“Ah, esses sofistas, calculadores e economistas”, diria Burke).

Entre a vírgula e o ponto, no espaço estreito de uma fórmula abstrata, a realidade que se esvai em sangue. Só o ato epistemológico da crença justifica a matematização abstrata que reproduz a vida fora de si mesma.

Se a teologia da baixa escolástica foi marca dos delírios de uma época na qual a grande civilização medieval agonizava, as poderosas profecias econômicas marcam um mundo em que a estatística esmaga o pobre humano de carne e osso.

A estratégia do senso comum científico é desconstruir a incerteza ou dissolvê-la numa incerteza meramente estética. A suspeita, sem fundamento, de que a crítica à “cientificidade” da modernidade seja filha da Inquisição é outro marco do senso comum científico: entenderemos melhor a relação entre a vida e a ciência se lermos os utilitaristas, muito mais do que se nos deslumbrarmos diante do amontoado de “descobertas revolucionárias”.

A “precisão” científica pode andar lado a lado com a ignorância acerca da realidade. E mais: pode ser um método poderoso de falseá-la.

Qual a resposta científica ao Eclesiastes? [FOLHA 5/2/07]

libelo político

“Deus, um Delírio”

por LUIZ FELIPE PONDÉ

Falta nessas pessoas que teimam em ser profetas um pouco daquela sabedoria discreta que encontramos em gente como Fernando Pessoa: o improvável Deus nos protege da fé grosseira em ídolos com cabeça de bicho, como o culto da Humanidade, “mera idéia biológica”.

Pouco céticas e muito dogmáticas, elas confundem coisas como a salutar disciplina cética com o ateísmo. Como diria Chesterton, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. A humanidade é mais infeliz do que imagina nossa vã filosofia da emancipação.

O novo livro de Richard Dawkins (que parece ser aquele tipo de cara que ainda acha que o ateísmo mete medo em gente grande), “Deus, um Delírio”, não é ciência, mas mero libelo político (ateísmo científico é um contra-senso, Deus é uma variável sem controle epistemológico), uma recaída na velha fúria jacobina, requentada com máximas evolucionistas.

Lembremos que não existem cosmologias de laboratório.

Afirmações como “tenha orgulho de ser ateu e olhe o futuro com confiança” soam bem num workshop para auto-estima.

Seu foco são as utopias modernas de salvação: não é por acaso que flerta com alguns dos totalitarismos mais sofisticados de nossa época, entre eles, aqueles, aliás, que “melhoraram muito” as relações entre homens e mulheres, esmagado-as sob a bota do ressentimento típico da desconstrução social genérica.

O livro vende o darwinismo como teoria “progressista” (grande intuição marqueteira), por isso suas alusões a “sair do armário”, tentando convencer a sensibilidade de esquerda que o darwinismo não é mais perigoso. A alma desassossegada indaga: além da parada dos ateus, serei processado se disser em público que acredito em Deus? Quem é o bobo que acredita que, sem Deus, o ser humano mataria menos? Sem o fundamentalismo islâmico (supõe-se), as torres gêmeas estariam lá, mas e os milhões de mortos em nome da ciência, da humanidade e da história nos séculos 18, 19 e 20?

De Stálin a Fidel, de Robespierre a Mao Tse-tung, todos seduziram a “inteligência atéia”. O ateísmo político domina a sensibilidade “pop-inteligente” há décadas, questões como a alegre legalização do aborto, a “revolta poético-científica do desejo”, a metafísica materialista e a ignorância filosófico-religiosa provam isso.

Ateísmo mais elegante
Quase todos crêem no “produto emancipação”. Deus não garante o “Bem” (nenhuma teologia séria pensa isso), nem o ateísmo a inteligência ou a ética.

Gostamos de matar e pronto.

Dawkins procura seduzir exatamente o tipo de pessoa covarde que não gosta de saber disso sobre si mesma e, com isso, minimiza uma grande qualidade do darwinismo filosófico: sua percepção trágica da vida na qual somos areia que um dia abriu os olhos e que balbucia sozinha diante da indiferença furiosa de um universo mudo e sonambúlico imerso no acúmulo de design cego (supremo conceito que descreve a emergência da “ordem” em meio à cegueira da matéria).

Todavia, reconheçamos que ele acerta ao dizer que a “religião inteligente” pouco tem feito diante da violência fundamentalista e do Mac-Jesus. Mas seria Deus que nos faz gostar de matar e sermos banais como qualquer animal que se arrasta no pó?

A inteligência se faz vítima do ruidoso mundo da democracia militante de massa. Este livro é a prova, ao tentar fazer do darwinismo uma teoria palatável à massa medrosa: se deixarmos de acreditar em Deus, seremos mais felizes… Quem disse que a beleza vencerá? O darwinismo é, filosoficamente, o ateísmo mais elegante que existe, nada prova sobre Deus, mas pelo menos não incorre no elementar erro do marxismo, que confunde representações sociais com o problema da ordem cósmica. Diante desse ruído, ainda que me considerem cético demais, confesso: prefiro Fernando Pessoa e Deus. [FOLHA 1/9/07]

DEUS, UM DELÍRIO
Autor: Richard Dawkins
Tradução: Fernanda Ravagnani
Editora: Cia. das Letras
Quanto: R$ 45, em média (528 págs.)
Avaliação: regular

vagueza

Não tenho certeza de se, afinal, trata-se apenas de uma questão terminológica, nem de se a realidade da ciência, com seus “conceitos vagos”, pode servir de critério de avaliação de conceitos etc. Continuo com a impressão de que a querela da vagueza está relacionada com aquela outra questão, da natureza do princípio de não-contradição (PNC)… Para Aristóteles, o PNC tem três aspectos: psicológico, lógico e metafísico. Parece-me que muitos filósofos contemporâneos reduzem o conceito a seu aspecto psicológico, enquanto os idealistas alemães, por exemplo, destacavam o metafísico. Kant, se não estou errado, tentou evitar os dois extremos, estabelecendo a pertinência exclusiva do conceito à lógica.