Carta a um futuro olavette [2]

Prezado P.,

Dando continuidade à nossa conversa sobre Olavo de Carvalho (OC), procurarei responder às suas indagações e provocações do modo mais objetivo possível.

Quando você diz que a biografia etc. do OC não lhe interessa, pois o que importa é a forma como ele explica as coisas e as dicas que dá, quando diz isso você está contradizendo o próprio OC. Porque, para o OC, não é possível pensar direito tendo uma vida torta.

Não me entenda mal: a vida pessoal dos filósofos também não me interessa em primeira linha (costumo falar disso a meus alunos). A questão é que alguns deles fazem da vida um argumento. É o caso do OC.
O OC usa e abusa do método ad hominem para criticar deus e o mundo. Menos a ele mesmo!

Faça o sadio exercício de voltar contra o filósofo todos os seus argumentos. Alguns passam no teste, outros não sobrevivem dois minutos. O OC comete um suicídio a cada parágrafo…

Além disso, eu só lhe contei coisas da biografia do OC que são relevantes para a compreensão do seu pensamento. A presença nele do pensamento astrológico e do tradicionalismo me parece evidente.

As teses básicas de Marx podem ser constatadas praticamente por qualquer trabalhador. Ou será que você não se sente explorado? Nunca teve a sensação de trabalhar mais do que precisa? Nunca se sentiu usado como uma mercadoria? Que liberdade você tem no trabalho e fora dele? Liberdade de ser empregado de X ou de Y? De escolher entre a marca X ou Y?

O conceito de natureza humana da Escola Austríaca e dos liberais em geral (econômicos e políticos) é de um cinismo atroz. Para eles, o homem é um ser egoísta, competitivo, que precisa de incentivo (negativo ou positivo) para fazer algo que preste, enfim, um individualista que, devidamente motivado, é capaz de sair da miséria e se tornar um Voegelin da vida. Desde, claro, que seus esforços se deem no seio de uma sociedade de mercado. Existiria uma lógica inerente à sociedade, ao conjunto de todos os indivíduos, ou seja, de todos os egoísmos, uma espécie de mão invisível, que o conduziria ao bom caminho, à vida reta, à anulação dos exageros, das anomalias. Uma perfeita sociedade de mercado seria uma sociedade perfeita.

Ora, meu caro, isso tudo é uma grande ilusão, uma grande mentira contada pelos donos do capital, ou seja, dos que comandam o mercado. Trata-se, a meu ver, de um “pensamento” ideológico.

Nos últimos tempos, a quase cada dois anos essa teoria é desmentida pela realidade. A cada dois anos, o sistema capitalista tem entrado em crise e o Estado chamado a tapar os buracos com trilhões de dólares, em parte simplesmente transferidos aos cofres dos grandes bancos. Não há mão invisível alguma! São milhões de mãos dos trabalhadores e pagadores de impostos que alimentam essa máquina infernal, e quando ela quebra em virtude do mau uso por parte de seus operadores, são as mesmas mãos que são chamadas a pagarem a conta.

Marx tem uma concepção de natureza humana menos cínica. Como põe mais peso no social, para ele o homem pode melhorar se antes a sociedade for melhorada.

Essas duas concepções (quase) antagônicas é que definem em parte os conceitos de direita e de esquerda.
Eu não aceito nenhuma das duas.

Mas o fato é que vivemos sob o domínio da primeira, da (neo)liberal, de direita. Vivemos sob o domínio do capital. Capitalismo é o nome da nossa civilização, a primeira planetária.

A sociedade capitalista centra-se no mercado. Tudo na nossa vida tende a tornar-se mercadoria, a começar por nós mesmos, por nossa força de trabalho, nossa criatividade etc.

Quem defende o liberalismo defende o status quo. Deve estar feliz com o estado geral de coisas neste mundo, com seus 6 bilhões de pobres e miseráveis.

O liberalismo é uma teoria anticristã. Não chego a tanto de dizer que o marxismo (de Marx) seja cristão. Mas de dizer que é menos desumano.

O argumento contábil do Olavo é uma obscenidade. O comunismo, que para ele é a realização perfeita do pensamento de Marx, teria matado violentamente centenas de milhões de pessoas etc. Em primeiro lugar, não faltam marxistas que deploram o regime comunista soviético. Em segundo, um livro contábil tem duas colunas: que tal colocar ao lado da “marxista” a “liberal”? Quantos milhões de pessoas foram mortas e são mortas todos os anos pelo capitalismo? Aliás, quantas o foram pela própria Igreja?

O futuro da civilização capitalista planetária é uma distopia, um “admirável mundo novo” como o do 1984, do Orwell.

O sonho dos esquerdistas de hoje é transformar o mundo numa Suécia. Qualquer comunista trocaria uma Cuba por uma Suécia…

Vá com calma com esse papo de “reduzido a nada”, “destruído” etc., quando o assunto é ciência ou filosofia. Isso não existe. Muito menos quando se trata de economia! Faça uma pesquisa e você verificará que os principais conceitos marxianos continuam sendo estudados e discutidos mundo afora. Inclusive pelos “austríacos”! Isso não lhe parece com um reconhecimento? Não de sua veracidade, mas de sua relevância. Aliás, negar a relevância histórico-científica ou política da obra de Marx me parece uma atitude psicótica, já que redunda na negação da realidade.

Queria saber de quais crimes do Lula você está falando. Mas, vamos lá, digamos que ele seja mesmo um grande criminoso; eu então lhe pergunto: será que ele é menos criminoso que os outros presidentes?; isso diminui alguma coisa nos avanços sociais que se deram sob seu governo?; o faminto que passou a comer mais se importa com isso?; o assunto é política ou moral?

Também acho que a tal da “teoria do domínio do fato” deveria ser estendida ao Lula. Acho mesmo que ele sabia do tal do mensalão. Portanto, deveria ser condenado e preso. Mas também acho que se isso fosse feito com todos os demais governantes, não sobraria quase ninguém. O primeiro mensalão conhecido na história recente do país foi a compra da reeleição do FHC. Eu ouvi o próprio FHC admitir que isso pode mesmo ter ocorrido, mas que ele não sabia. A mesma desculpa que o Lula daria depois. (O FHC e Lula têm uma coisa em comum: não praticaram crimes em proveito próprio, isto é, para o enriquecimento pessoal. Como o fizeram outros, como Collor, Maluf etc.)

O mensalão é, no fundo, uma piada. O nosso sistema político é um grande mensalão, é um verdadeiro toma-lá-dá-cá: fisiologismo, nepotismo, coronelismo e vários outros ismos.

Bom, mas talvez você saiba de outro tipo de crime… depois me conte. O que o seu amigo é obrigado a fazer (o que aconteceria se ele não obedecesse) foi e é também feito por muitos outros em governos municipais, estaduais e federais. Lembra-se do engavetador-mor da república? E ninguém consegue aprovar nenhuma CPI contra os tucanos em São Paulo. Por que será?

Mas procure fazer com o Lula o que você faz com o OC: foque-se não na vida, mas na obra. E não nas merdas, mas nas coisas boas. Ponha-se no lugar do miserável que passou a receber umas dezenas de reais, que, para ele, representa uma fortuna. Procure os índices sociais de instituições confiáveis. Veja, p.ex., a evolução do coeficiente de Gini.

Quanto ao Voegelin, lembro-me ter achado o seu conceito de gnosticismo amplo demais, quase equivalendo a um puro e simples antimodernismo. Ele parece ter assimilado a tese de que a filosofia moderna é eminentemente idealista e que o idealismo é regido pelo princípio da imanência, e disso tirou várias consequências, estendidas a toda a vida social e cultural do ocidente.

Pelo que me lembro, cabe distinguir entre gnose e gnosticismo. Houve uma gnose cristã e houve seitas gnosticistas pseudocristãs, maniqueístas etc. Estas últimas negavam a realidade da natureza em favor do sobrenatural. Voegelin, se não me engano, mistura as duas coisas, e aplica o reducionismo gnosticista à modernidade, afirmando que os modernos reduzem a realidade à natureza, em detrimento do sobrenatural (ele não usa essas palavras, creio). Ou seja, o gnosticismo moderno seria uma inversão do antigo, mas, essencialmente, ambos seriam a mesma coisa: um imanentismo (ora sobrenatural, ora natural) resultante de um dualismo maniqueísta original.

Se for isso mesmo, mantenho a minha posição (até melhor juízo): trata-se de uma generalização apressada, uma forma de tradicionalismo que desconhece as virtudes da modernidade. Como se fosse possível, fazendo tabula rasa de vários séculos, retornar a uma suposta idade de ouro. Enfim, posso estar redondamente enganado…

Para concluir, cada vez mais eu admiro a figura de Sócrates. Quer saber? Para mim, hoje, ele foi maior que Platão (que foi maior que Aristóteles). O maior de todos. Porque o seu saber era um não saber sapiente. Ele não ensinava doutrina alguma. Nunca fechava questão acerca de nada. Ele levava o interlocutor até certo ponto e depois o abandonava à própria reflexão, à própria experiência. Isso pra mim é que é filosofia! Não se trata de uma teoria que se possa aprender de alguém, algum ismo, algum sistema etc. Não, trata-se de uma experiência existencial, interior.

Em geral, a filosofia é confundida com o que vem depois, a tentativa de verter a experiência em palavras, num discurso compreensível para os outros.

Então, meu caro, alunos eu só tenho na escola, e lá eu aprendo mais do que eles!


Abraço,

e.

Velhas e aparentes

Em sua coluna (“Superar divisões“) na Folha de S.Paulo de hoje, 25-2, Vladimir Safatle começa falando das divisões internas à(s) esquerda(s). Mas termina, ao que parece, extrapolando a esquerda, ao comparar a esquerda progressista com a direita liberal.

Com efeito, Safatle acha irônico que, no Brasil, os liberais sejam contra as liberdades individuais. Diz ele:

[…] o Brasil, com suas idiossincrasias, é um país no qual os liberais são, no fundo, contra as liberdades individuais.
Por aqui, ser liberal é, via de regra, ser contra o aborto, criticar o casamento homossexual, desconfiar das discussões sobre o Estado radicalmente laico, ridicularizar o embate contra a destruição da vida privada na esteira do “combate ao terrorismo” e ser contra a legalização das drogas. Por essas ironias do destino, quem defende liberdade individual no cenário político-partidário brasileiro é a esquerda.

E eu, modestamente, acho irônico que o Safatle ache irônico essa conduta. Sim, porque, para o liberalismo, trata-se única e exclusivamente da “liberdade” econômica. O liberalismo, em geral, só defende a liberdade individual enquanto esta for compatível com a liberdade econômica, ou seja, com o livre funcionamento do mercado.

A “nova” direita brasileira mostra bem isso: seus membros são hiperliberais em termos econômicos e ultraconservadores em termos culturais, éticos e políticos. Quando se refere à liberdade individual, o liberal tem em mente a “liberdade” de escolher entre uma calça Lee e uma Levi’s, entre Coca e Pepsi, Globo e Record, Corinthians e Palmeiras, FHC ou Lula… já entendeu, não é, raro leitor?

Mas a ironia é maior ainda quando se considera que esse estado de coisas não é, de maneira alguma, uma “idiossincrasia” do Brasil, como alega Safatle. O conservadorismo dos liberais brasileiros é tão superficial e hipócrita quanto o progressismo da esquerda europeia, p.ex. Todos as liberdades mencionadas pelo professor da USP são compatíveis com a sociedade centrada no mercado, ou seja, com o capitalismo.

Não é por acaso, pois, que liberais conservadores se digam cristãos ao mesmo tempo que defendem a usura (os juros bancários brasileiros só podem ser justificados pelo risco… de morte!), e que esquerdistas progressistas defendam o aborto ao mesmo tempo que se dizem cristãos (como a dona Marta Suplicy, p.ex.).

O buraco é bem mais embaixo. Precisamos ir além dessas diferenças aparentes para encontrar a verdadeira raiz do problema. Safatle parece intuir essa necessidade quando conclui que tais

elementos do cenário nacional demonstram como há um rearranjo possível do espectro político, à condição de superar velhas dicotomias.

Superar as velhas e, embora violentas, aparentes dicotomias entre esquerda política (focada na luta de classes) e esquerda libertária (centrada na ecologia), bem como entre a esquerda e a direita.

Voltarei ao assunto, mas, na minha opinião, a superação dessas divisões não pode ser encontrada num meio termo, ou seja, no caso do conflito entre esquerda e direita, a solução não está no centro.

É isso que se chama Quarta Via: nem um nem outro nem a mistura dos dois –nem esquerda nem direita nem centro. Utopia?

Civilização capitalista

Em seu artigo de hoje, 8-2, na Folha de S.Paulo (Tediosa reiteração), Luiz Gonzaga Belluzzo defende a tese de que a economia frágil no Brasil resulta do cenário externo. Embora, logo na primeira linha, ele afirme que a dicotomia ‘fatores externos vs. fatores internos’ “não parece adequada para avaliar o ambiente econômico em que tentamos sobreviver”.
Bom, não é preciso ser economista para saber que o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo José Sarney) –e ex-presidente do Palmeiras– tem razão. Há muito que toda economia minimamente desenvolvida não pode mais ser compreendida separadamente da economia global. Não é isso que se entende por ‘globalização’? (Na verdade, não se trata de um processo meramente econômico; todo processo sistêmico, como a economia ou a própria vida, é holístico. Mas essa é outra história.)
O diretor da Fecamp –e ex-presidente do Palmeiras– desenvolve a sua argumentação a partir da seguinte visão econômico-civilizatória:
O mundo de hoje foi construído pela relação entre quatro processos complementares: 1) a liberalização financeira que, desde os anos 80, submeteu os países às peripécias da movimentação desimpedida do capital-dinheiro; 2) o movimento da grande empresa manufatureira transnacional para ocupar espaços “competitivos”; 3) a centralização do controle do capital financeiro e produtivo à escala global; 4) as políticas dos Estados soberanos que buscavam empreender estratégias de desenvolvimento.
Esse parágrafo tão elucidativo quanto ambicioso é o que me interessa aqui. O professor titular da Unicamp –e ex-presidente do Palmeiras– caracteriza precisamente o processo civilizatório mais recente –a chamada globalização– como um processo eminentemente econômico. Acho que podemos concluir sem medo que a a civilização contemporânea é centrada na economia, mais precisamente, no acúmulo do capital.
A nossa civilização é o –capitalismo.
Talvez o nosso renomado economista não concorde com essa conclusão, que, de resto, é muito bem desenvolvida por Fábio Konder Comparato em A civilização capitalista (S.Paulo: Saraiva, 2013); mas, nesse caso, Luiz Gonzaga Belluzzo estaria apenas sendo inconsequente. Tal como o foi à frente do Palmeiras, o clube de futebol que ele levou à beira da falência e à segunda divisão.