clube da verdade

por SIMON BLACKBURN*

O pós-modernismo emergiu da idéia de que enxergamos as coisas através de filtros coloridos pelas forças ocultas e sombrias de classe social, gênero, cultura ou língua. A partir disso, ele viajou até a atitude irônica e desapegada de tratar a verdade como não mais do que uma narrativa, os fatos como infinitamente elásticos e o mundo como um texto aberto a múltiplas interpretações.

Postulou que nossos padrões de razão, que nos são tão caros, não passam de depósito histórico contingente, que algum tipo de relativismo nos é intelectualmente imposto ou que a própria verdade não passa de construção social.

Escrevo no tempo pretérito, já que muitos afirmam que os fatos de 11 de setembro de 2001 jogaram essas idéias por terra. Esses acontecimentos fizeram as pessoas se recordar de que existem crenças que precisamos afirmar. Precisamos da verdade, da razão e da objetividade, e precisamos que elas estejam do nosso lado. A academia se tornou menos aberta aos pluralismos descontraídos.

Enquanto nos anos 1980 e 1990 uma atitude brincalhona de que vale tudo dominava as partes mais fracas das humanidades, hoje é uma retidão rigorosa que dá o tom.

Com freqüência, as idéias refletem a política –e, politicamente falando, o pós-modernismo pode ser visto como reflexo da culpa pós-colonial, o que significa não apenas que erramos ao impor a racionalidade e a ciência ocidental a outros povos mas também que a racionalidade e a ciência deles tinham valor igual ao nosso.

Se isso for correto, então a reação contrária constatada hoje pode constituir a versão filosófica do neoconservadorismo, que forma um paralelo com as celebrações das virtudes do império feitas por historiadores dos tempos atuais.

Acabam de surgir vários livros que giram em torno da verdade e da razão, ambos temas que estão de volta à agenda com força total. É possível que seja uma virtude não dissimular e não mentir –falar o que você vê como o vê, mesmo que não consiga deixar de vê-lo com olhar enviesado.

Mas as profissões pós-modernistas de adesão à verdade costumam soar insinceras. Se a frágil embarcação de nosso intelecto é atirada de um lado a outro pelas tempestades da história e da cultura, por que deveríamos prezar especialmente qualquer lugar em que ela nos faz abicar? Por que deveríamos nos preocupar em passar nossas vidas distinguindo o verdadeiro do falso?

O arguto Nietzsche ficou perplexo pelo fato de que nos preocupamos, sim, prezando a verdade mesmo quando, na selva darwiniana, um contador de verdades freqüentemente está em desvantagem diante do manipulador e do mentiroso.

A observação de outros primatas mendazes confirma sua visão. Isso significa que temos que pregar a honestidade. Ela está inscrita em nossos mandamentos, não em nossos genes.

Nossa pregação nem sempre funciona; e ela se mostra especialmente ineficaz nas selvas do comércio e da política.

Parte daí o divertido e instrutivo livro The Lying Ape: An Honest Guide to a World of Deception [O macaco mendaz: um guia honesto para um mundo de falsidade, Icon Books, 212 págs., 9,99 libras, R$ 41], do jornalista Brian King, que traça uma lista longa e estarrecedora das mentiras deslavadas que falsificadores, vendedores e políticos já tentaram impor a outras pessoas, muitas vezes com sucesso.

Embora King, com razão, se sinta ultrajado com a falsidade, ele observa que uma dieta à base de verdades rigorosas poderia ser um tanto quanto difícil de engolir. Ele cita a observação de Oscar Wilde de que “falar a verdade faz você ser muito impopular no clube”.

E, como observa King, contar mentiras deslavadas é apenas a manifestação mais grosseira disso. Suponho que o melhor conselho a dar aos candidatos a mentirosos é que enganem a si mesmos primeiro; então, não precisarão mentir, mas apenas dizer em que acreditam.

Manipular a informação
Ainda outro tipo de vício é a capacidade de supor que as palavras possuem significados que elas não têm –algo que é de grande valia para políticos e administradores.

Aquilo ao qual costuma se dar o nome de “spin” (manipulação de informação, ou interpretação diferente de uma informação, especialmente quando feita por políticos ou seus assessores) é outra coisa ainda. Em sua versão mais inocente, pode ser apenas uma forma enviesada de verdade.

O fascinante livro Saving Persuasion: A Defense of Rhetoric and Judgement [Salvando a persuasão: Uma defesa da retórica e do julgamento, Harvard University Press, 290 págs., 29,95 libras, R$ 122], do teórico político da Universidade Yale Bryan Garsten, trata das longas tradições de atacar ou defender a retórica e o lugar que ela ocupa na vida humana.

De fato, a retórica foi o termo clássico usado para designar o “spin“, embora viesse acompanhada da implicação de persuasão, e não de logro proposital. Ela se tornou parte dos roteiros de estudos medievais, e seu domínio com freqüência foi visto como meta importante da educação completa.

Garsten traça uma distinção entre a persuasão, que espera operar com o julgamento ponderado da platéia e que é perfeitamente legítima, e as práticas de logro, manipulação e bajulação da platéia, cada uma das quais, à sua maneira, espera levar a platéia, de maneira ilegítima, a passar ao largo do uso pleno e livre dessa capacidade de avaliação e julgamento.

A persuasão mostra o orador tirando vantagem justa do perfil emocional, moral ou cognitivo particular de uma platéia; ela é inevitável em qualquer discussão, especialmente em qualquer debate moral ou político. Torna-se negativa apenas quando tira vantagem injusta do mesmo perfil, por exemplo ao distorcer ou negar informações ou ao manipular emoções e preconceitos.

Kant negou a existência de qualquer distinção importante nessa área: para ele, ou você apela para padrões de razão imutáveis e universais ou você manipula e engana.

Padrões escassos
O problema é que, quer sejam ou não encontrados na aritmética, na lógica e até mesmo na ciência, esses padrões universais esperados são escassos quando se trata de qualquer questão interessante de política, religião e moral.

Considera-se com freqüência que o pós-modernismo critica a verdade e a ciência. É essa a visão apresentada no valioso livrinho Why Truth Matters [Por que a verdade é importante, Continuum, 192 págs., 12,99 libras, R$ 53], dos editores do site cético butterfliesandwheels.com, Ophelia Benson e Jeremy Stangroom.

Os dois preparam um contra-ataque instigante, fazendo-nos lembrar que, quando se trata de uma guerra pelos corações e as mentes, as convicções básicas do bom senso e da ciência derrotam as sutilezas filosóficas sem nenhuma dificuldade. Enquanto Brian King nos choca com seus mentirosos, Benson e Stangroom expõem uma “galeria de enganadores” paralela composta de construtivistas sociais que analisam como grupos e indivíduos participam da criação de sua própria realidade percebida.

Esses “enganadores” incluem a feminista Sandra Harding e o neopragmatista Richard Rorty, mas seu expoente principal certamente é o filósofo da ciência francês Bruno Latour. A confusão de palavras e coisas proposta por Latour o levou até a beira do abismo
de negar que tenha existido dinossauros antes de o termo “dinossauro” ter sido cunhado.

Presume-se que um argumento semelhante demonstraria que ninguém antes de Crick e Watson possuiu DNA.

Por que a verdade é importante é um excelente exemplo de filosofia bem feita mas também, o que não é coincidência, feita de maneira acessível e instigante. A verdade tem importância, nos diz o livro, “não de uma maneira maçante, movida pelo dever e perfunctória, mas num sentido real e vivido –’nos pulsos’, como dizia Keats”.

Em Justice in Robes [A justiça de toga, Harvard University Press, 320 págs., 22,95 libras, R$ 93], o professor Ronald Dworkin reapresenta suas idéias sobre moralidade e lei e as defende contra os adversários que acumulou ao longo de sua carreira respeitada.

O foco do livro em vários momentos é a legislação americana, gerando disputas intrincadas que agradarão mais ao especialista do que ao leitor geral.

Dworkin recomenda que confiemos em nossas convicções comuns, mais do que nos aventuremos nas águas revoltas da alta teoria filosófica. Não estou certo de quão útil é esse conselho, já que pós-modernistas como Rorty ou teóricos literários como Stanley Fish dificilmente irão discordar dele.

O que procuram demonstrar é que a condição humana implica que se trabalhe desde o interior de qualquer “forma de vida” que tenhamos recebido da cultura e da história; para eles, Dworkin não faz mais que aconselhar os peixes a nadar.

Um trabalho final e um tanto quanto diferente é Human Nature: Fact and Fiction [Natureza humana: fatos e ficções, Continuum, 224 págs., 9,99 libras, R$ 41], editado pelo professor de literatura inglesa Robin Wells e o professor de genética molecular John Joe McFadden. Contribuíram para o livro uma galáxia de biólogos, teóricos da evolução e figuras literárias.

Os ensaios tiveram sua origem em palestras dadas numa conferência, de modo que o foco é um pouco indistinto. Em alguns momentos, a impressão que se tem é que se trata do velho problema da natureza versus criação.

Todos concordam em que a imaginação é “uma coisa boa” e que isso exige alguma explicação, já que não é evidente qual seria a utilidade de contar histórias numa selva, onde a consciência do aqui e do agora parece superar em valor a capacidade de imaginar o “era uma vez”.

A questão provavelmente não é tão difícil assim de entender, já que refletir sobre situações imaginadas pode nos preparar para a eventualidade de ocorrerem na vida real. A exposição a histórias também treina a moral e as emoções. Mas o livro contém vários pequenos ensaios sensíveis e sensatos.

Qual verdade?
Então, será que o mundo está novamente em condições de ouvir a verdade com segurança? Devemos nos precaver com as abstrações. Talvez a resposta correta à pergunta de Pilatos –”o que é a verdade?”– seja indagar por qual verdade ele se interessa. Se a pergunta disser respeito a fatos históricos, então deverá ser respondida de uma maneira; se for uma pergunta científica, existem outros métodos a ser empregados e assim por diante.

É verdade que esses métodos são nossos, aqui e agora. Mas, se um crítico tiver métodos melhores para usar, que nos fale deles. Se não, enquanto pudermos refletir sobre nossa história e sobre a deles, a reflexão não precisa ser desmerecedora. Pelo contrário -o resultado pode ser inteiramente válido.

Podemos nos orgulhar dos padrões científicos, pois vejam o que eles nos capacitaram a descobrir e a fazer! Podemos nos orgulhar de nossos padrões éticos, pois vejam como conseguimos nos sensibilizar em relação a males e injustiças que antes passavam despercebidos!

Nossas opiniões são falíveis e nossos julgamentos estão longe de ser perfeitos, mas o remédio para qualquer uso imperfeito deles consiste em usá-los ainda mais. Se nossa política for suficientemente boa para que se possa conservar a manipulação, a ignorância, o medo e o ódio fora dela, então somos animais que se corrigem a si mesmos. Ou, pelo menos, assim esperamos. [*Professor de filosofia na Universidade de Cambridge e autor de, entre outros, “Verdade – Um Guia para os Perplexos” (Civilização Brasileira). Este texto saiu no “Financial Times”. Tradução de Clara Allain. (FOLHA 3/9/06)]

teoria da evolução: verbetes

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Darwin, Charles Robert (1809-82). Naturalista inglês. Darwin nasceu em Shrewsbury e estudou medicina, primeiro em Edimburgo, depois em Cambridge. Suas observações como naturalista atingiram a maturidade na famosa viagem do Beagle (1831-36). Durante os vinte anos que se seguiram, Darwin consolidou sua reputação científica, enquanto usufruía de uma vida rural com interesses científicos, criando e observando animais domésticos, especialmente pombos, e trabalhando nos pormenores da teoria da evolução. Foi só em 1858, estimulado pela leitura do ensaio On the Tendency of Varities to Depart lndefinitely from the Original Type, que lhe fora enviado por Alfred Russell Wallace (1823-1913), que Darwin preparou um artigo em colaboração com Wallace para ser lido na Sociedade Lineana. Seguiu-se, em 1859, The Origin of Species by Means of Natural Selection. A obra de Darwin é a base da biologia moderna. Proporciona, por si só, uma área fecunda para os filósofos da ciência interessados, por exemplo, na relação entre a teoria e a observação ou no lugar que a *falsificação ocupa na ciência, e o mesmo pode-se dizer em relação àqueles que se interessam pela sociologia dos *paradigmas, ou pelos vários fatores que afetam o clima em que as idéias se desenvolvem. Outro foco de atenção filosófica suscitado por Darwin surge em The Expression of the Emotions in Men and Animais (1872).

darwinismo Crença na teoria da *evolução por seleção natural. Em sua forma original, essa teoria partiu de uma observação de *Malthus: embora os organismos vivos produzam uma descendência muito numerosa, o número das populações adultas permanece relativamente estável. Darwin percebeu que as diferentes possibilidades de sobrevivência de descendentes diferentemente dotados podiam explicar a evolução natural das espécies. Entre os membros de uma espécie, a natureza “seleciona” aqueles que estão mais bem adaptados ao ambiente em que se encontram, tal como os criadores de animais podem selecionar as características de seu gado, controlando desse modo a evolução para o tipo de animal que desejam. Segundo a expressão de *Spencer, a natureza garante a “sobrevivência do mais apto”. A origem das espécies foi bem-sucedida sobretudo pela organização dos dados empíricos favoráveis à teoria da evolução, e não tanto por propor um mecanismo convincente para explicar a mudança genética. O próprio Darwin continuou a procurar mecanismos adicionais, embora ainda estivesse convencido de que a seleção natural era essencial à mudança genética. Foi apenas com a descoberta posterior de que o *gene é a unidade da hereditariedade que a síntese conhecida por “neodarwinismo” se transformou na teoria ortodoxa da evolução nas ciências biológicas. Ver também criacionismo; ética evolucionista; sociobiologia.

essência (do lat., esse: ser) O elemento básico ou primário do ser de uma coisa; a natureza da coisa, ou aquilo sem o qual ela não poderia ser o que é. Uma coisa não pode perder sua essência sem deixar de existir, e a natureza essencial de uma categoria natural, tal como a água ou o ouro, é aquela propriedade sem a qual não há qualquer espécime da categoria. *Locke contrastava as essências reais, que tinham aproximadamente esse sentido, com as *definições nominais fornecidas por uma descrição das propriedades comuns de uma coisa. Ao longo de toda a filosofia grega e escolástica, e de parte da filosofia moderna, houve muitas propostas para encontrar as essências das coisas, e também idéias sobre como seria a ciência se realmente conhecêssemos tais essências. A distinção entre propriedades essenciais e acidentais é rejeitada pelas perspectivas *holistas da ciência, como a defendida por *Quine. Ver também ecceidade; essencialismo; qüididade.

essencialismo Doutrina segundo a qual se pode distinguir entre aquelas propriedades de uma coisa, ou tipo de coisa, que lhe são essenciais, e as que lhe são meramente *acidentais. As propriedades essenciais são as que uma coisa não pode perder sem deixar de existir. Assim, uma pessoa que usa um chapéu pode tirá-lo, ou poderia não ter usado chapéu, mas essa mesma pessoa não pode deixar de ocupar espaço, e não podemos postular uma situação possível na qual essa pessoa não esteja ocupando espaço. Se concordarmos com isso (note-se que não é imune à controvérsia, o que ilustra a dificuldade do essencialismo), ocupar espaço é uma propriedade essencial das pessoas, mas usar chapéu é uma propriedade acidental. O problema principal é localizar os fundamentos dessa distinção intuitiva. Uma sugestão é que essa intuição nasce unicamente da maneira como descrevemos as coisas, tendo portanto uma origem lingüística ou até mesmo *convencional. Em oposição a isso (a essência nominal), está a idéia de *Locke segundo a qual as próprias coisas têm uma natureza subjacente (uma essência real) que fundamenta e explica suas demais propriedades. “Essencialismo” é um termo usado nas obras feministas para denotar a idéia de que o sexo feminino (ou masculino) tem uma natureza essencial (e.g., criar e cuidar dos filhos versus ser agressivo e egoísta), que se opõe à noção de que as diferenças entre os sexos se devem a uma variedade de características acidentais ou contingentes que emergem de forças sociais. Ver também determinismo (biológico).

evolução Em biologia, a transformação genética de populações ao longo do tempo, resultante da variação genética e do subseqüente impacto ambienta! sobre as taxas de sucesso reprodutivo. Ver também darwinismo.

evolucionismo Doutrina desacreditada do final do século XIX, e início do século XX que associa as mudanças evolutivas a uma concepção progressiva da mudança social, a atitudes positivas perante a competição e a guerra e à justificação das desigualdades de poder. Ver também ética evolucionista; evolução.

naturalismo ético A tentativa de colocar as propriedades éticas e o pensamento ético no mundo natural. Na forma discutida e supostamente refinada por *Moore, é a concepção segundo a qual o significado de um predicado ético (“ … é bom”) é idêntico ao de um predicado que mostre os aspectos em virtude dos quais um objeto é bom (e.g., “ … é aquilo que cria felicidade”, caso nos situemos num modelo *utilitarista). Moore ataca essa concepção através do *argumento da questão em aberto. Em outras posições que se declaram naturalistas pode-se abandonar essa exigência sobre a identidade de significado, mas de qualquer modo sustenta-se que as propriedades éticas são idênticas a propriedades naturais, da mesma maneira que afirmamos que a água é H20, mesmo que os dois termos tenham um significado diferente. Num se
ntido mais amplo, o naturalismo inclui qualquer crença que sustente que a natureza do pensamento ético é exaustivamente compreendida em termos das propensões naturais dos seres humanos, excluindo assim as intuições misteriosas, as operações da consciência ou a ajuda divina.

natureza Um conceito indefinidamente mutável, que se altera à medida que muda nossa concepção científica do mundo. Compreendemos melhor o que o termo quer dizer se percebemos que assinala um contraste com algo que não é considerado como parte da natureza. O conceito se aplica a espécies individuais (faz parte da natureza do ouro ser denso, e faz parte da natureza dos cães serem amigáveis) e também ao mundo natural como um todo. O sentido em que esse conceito se aplica a categorias remete-nos imediatamente para o domínio dos ideais éticos e estéticos: uma coisa deve realizar sua natureza, o natural é o que é bom que uma coisa se torne, é natural para os homens serem saudáveis e bípedes; e um afastamento dessas características é uma infelicidade ou urna deformidade. A associação do que é natural com o que é bom que uma coisa se torne é visível em *Platão e é uma idéia central na filosofia da natureza de * Aristóteles. Infelizmente, nesse sentido, o ponto mais elevado da natureza é o cidadão adulto masculino e todo o resto a que chamaríamos mundo natural (onde se incluem as mulheres, os escravos, as crianças e as outras espécies) não fazem propriamente parte dele.

No entanto, a natureza em geral tanto pode funcionar como urna fonte de ideais como opor-se a eles: nesse sentido, contrasta-se a natureza decaída com urna suposta realização celeste das *formas. Poder-se-ia esperar que a *concepção galileana do mundo tivesse esvaziado a natureza do seu conteúdo ético, mas o termo raramente perde sua força normativa, e a crença em leis naturais universais produziu seu próprio conjunto de ideais. No século XVIII, por exemplo, um pintor ou um escritor podia ser elogiado por ser natural, e entre as qualidades a exibir contava-se a abordagem de assuntos normais (“universais”) com simplicidade, parcimônia, regularidade e harmonia. Mais tarde, a natureza transformou-se num símbolo igualmente forte de irregularidade, imprevisibilidade e fértil diversidade, mas também esteve associada ao progresso e à transformação (ver idealismo absoluto; romantismo). Entre aquilo que se contrasta com a natureza contam-se: (I) o que é deformado ou grotesco, o que não consegue atingir sua forma ou função própria, ou apenas o que estatisticamente não é comum ou familiar; (II) o sobrenatural, ou seja, o mundo dos deuses e das forças invisíveis; (III) o mundo da racionalidade e da inteligência, concebido corno algo que se distingue da ordem física e biológica; (IV) o manufaturado e artificial, ou seja, o produto da intervenção humana; (V) relacionado com isso, o mundo da *convenção e do artifício.

As diferentes concepções de natureza continuam a ter associações éticas: a idéia de “natureza cruel”, por exemplo, serve muitas vezes de desculpa para relações pessoais e políticas agressivas, e a idéia de que certas características fazem parte da natureza da mulher é tornada como justificativa para a existência de expectativas sociais diferenciadas. Aqui o termo abrange um conjunto particular de estereótipos, sendo alvo adequado de muitos textos *feministas. Ver também darwinismo; ética do meio ambiente; lei natural; Naturphilosophie; sociobiologia.

natureza humana Tópico fundamental da ética, objeto de diferentes tratamentos, sendo sua disparidade responsável pela existência de concepções da vida humana tão diferentes como a dos gregos clássicos e a do cristianismo. Uma das preocupações da filosofia do *Iluminismo era descobrir uma mesma natureza humana sob as diferenças superficiais, devidas à cultura e à sociedade. O núcleo comum haveria de conter, em grau suficiente, urna simpatia natural pelos outros, a benevolência, a percepção do egoísmo e a capacidade de aprovar instituições justas, de modo a constituir um fundamento para uma ética puramente secular. Essa esperança foi desfeita pela concepção *hegeliana dos seres humanos como algo que possui uma natureza moldada apenas pelas suas circunstâncias históricas e sociais. Contudo, essa esperança reaparece depois em um nível superior com a consideração de que temos naturezas que nos permitem fazer certos acordos políticos e sociais sob os quais evoluímos, e que nos impedem de fazer outros. Ver essencialismo; sociobiologia.

Naturphüosophie Estudo da história natural com uma orientação filosófica que se desenvolveu na Alemanha no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX. Seus expoentes foram figuras como *Herder, *Goethe, *Schelling, *Hegel e anatomistas como Lorenz Oken (1779-1851). Esse gênero de estudos buscou em *Kant (e, como precursor, em *Aristóteles) a idéia de progresso e de *teleologia no desenvolvimento das espécies e dos animais, mas deu menos importância às tentativas de Kant para limitar as pretensões da razão humana. O resultado era uma mistura de observações botânicas e biológicas com teorias metafísicas não-convencionais, encarando a natureza como uma hierarquia de ordens que culminava na espécie humana. Ver também idealismo absoluto; romantismo.

teleologia (gr. telos, fim) O estudo dos fins ou desígnios das coisas. A idéia de que existe algo que é o fim ou finalidade da vida é proeminente na concepção aristotélica da *natureza (e da ética) e, mais tarde, na tradição cristã. A teoria da evolução pela seleção natural permite que se especule sobre a função a que as coisas particulares estão adaptadas e, assim, permite asserções sobre o desígnio que a *adaptação serve, sem que haja qualquer compromisso com a idéia de um arquiteto que tenha originado as funções para servir um desígnio e sem que se tenha a crença anticientífica de que a utilidade futura de uma característica produz de algum modo a sua existência por meio de uma espécie de *causalidade invertida. Chama-se por vezes teleonomia à teleologia que está livre dessas implicações. A teleologia de uma característica pode ter implicações metafísicas: podemos sugerir (o que é controverso) que nossa visão espacial existe para enfrentar com sucesso um mundo espacial, ao passo que a visão cromática pode não existir para enfrentar com sucesso um mundo cromático, mas antes por ser adequada à hábil localização de superfícies pelas mudanças de luz. Esta seria uma maneira de defender uma distinção entre *qualidades primárias e secundárias.

argumento ontológico 1

BLACKBURN, S. Dicionário de filosofia

O CÉLEBRE argumento favorável à existência de Deus, proposto pela primeira vez por Anselmo em seu Proslogion, cap.2. O argumento é notável por ser puramente a priori, e em geral é interpretado como uma tentativa de demonstrar a existência de Deus sem usar premissas contingentes. Anselmo segue Boécio, definindo Deus como “algo maior que qualquer coisa que possa ser concebida” (id quo maius cogitare nequit). Assim, Deus existe no nosso entendimento, uma vez que compreendemos esse conceito. Mas se Ele existisse unicamente no entendimento, poderíamos conceber uma coisa maior, uma vez que um ser que existe na realidade é maior que um que existe somente no entendimento. Mas então podemos conceber algo maior do que aquilo maior que qualquer coisa que possa ser concebida, o que é contraditório. Logo, Deus não pode existir unicamente no entendimento, existindo assim também na realidade. O argumento foi criticado na época do próprio Anselmo por um monge chamado Gaunilo, que contrapôs que o mesmo padrão de raciocínio provaria a existência de uma ilha perfeita (pois uma ilha perfeita que existe somente na imaginação não é obviamente tão boa como uma que exista de fato). O argumento não foi aceito por Tomás de Aquino, mas foi retomado por Descartes, que tornou claro o requisito de conceber a existência como parte da definição ou essência de um ser sumamente perfeito. Isso, por sua vez, abriu caminho às críticas de Hume e em especial de Kant, segundo as quais a existência não é uma propriedade idêntica às outras, não podendo ser adicionada ou subtraída ad libitum. Essa crítica tem sido, de uma maneira geral, sustentada pela lógica moderna (ver quantificador; variável).

Aceitando a sugestão de Hegel, o argumento tem sido tratado por teólogos modernos, tais como Barth, não tanto como uma demonstração com a qual podemos confrontar os descrentes, mas como uma exploração do significado profundo da crença religiosa. Collingwood encara o argumento não como uma prova da existência de Deus a partir do id quo maius cogitare nequit, mas como uma demonstração de que estamos comprometidos com a crença na existência de Deus porque o concebemos dessa maneira: sua existência é um postulado metafísico, ou um pressuposto absoluto de certas formas de pensamento.

No século XX, os filósofos americanos Charles Hartshorne, Norman Malcolm e Alvin Plantinga propuseram versões modais do argumento ontológico. Uma das versões é a seguinte: definamos algo como insuperavelmente grande se existe e perfeito em todos os mundos possíveis. Admitamos agora que é pelo menos possível que exista um ser insuperavelmente grande. Isso significa que existe um mundo possível no qual esse ser existe. Mas se existe num mundo, existe em todos (pois do fato de tal ser existir num mundo deriva-se que ele existe e é perfeito em todos os mundos). Logo, existe necessariamente. A resposta correta a esse argumento é não permitir a concessão aparentemente razoável de que a existência de tal ser seja possível. Essa concessão é muito mais perigosa do que parece, uma vez que na lógica modal envolvida podemos derivar necessariamente p a partir de possivelmente necessariamente p.