Rex fallaciae

No post O que há de velho na “nova” direita [1], referi-me ao pseudo-jornalista Reinaldo Azevedo (doravante, RA). De lá para cá, notei que vários amigos do Feicebuque seguem esse senhor. Seguem-no não só no sentido da rede social, mas no sentido ideológico. O que, como professor de filosofia, preocupa-me deveras.

Para inteirar-me do que estava sendo dito, fui ler a coluna em questão (Assim não dá, Vladimir!, na Folha de S.Paulo de 21-2-14). A seguir, comento alguns trechos.

O alvo do senhor Azevedo, pois que ele sempre tem um alvo, é, desta feita, o filósofo Vladimir Safatle (doravante, VS), professor da USP. Mais especificamente, a coluna que este escreveu (Os vivos e os mortos) para o mesmo jornal em 18-2-14.

A primeira coisa que devemos perguntar é por que Safatle foi escolhido como alvo da semana? E o senhor Reinaldo não nos deixa esperando; logo na primeira linha, declara o motivo:

Vladimir Safatle, possível candidato do PSOL ao governo de São Paulo […]

Trata-se, raro leitor, não se engane, de uma autêntica declaração de guerra. RA não tem escrúpulos em dizer que, para ele, o que importa é a política, mais especificamente, o que ele chama de economia política. Chega a recriminar políticos da oposição (anteriormente ao governo do PT, da situação) por reconhecerem os acertos de políticos da situação (antes, da oposição) e de fazer alianças com estes. No seu blogue só são aceitos comentários concordantes, jamais críticas; atualmente, só oposicionistas podem postar seus comentários lá. Como ele diz: o nome dessa atitude é política.

Ocorre que de um jornalista não se espera política, mas a verdade dos fatos. Quem está disposto a esconder ou a distorcer a verdade com vistas a um fim supostamente maior, no caso, a luta político-partidária, não merece a confiança do leitor nem a do eleitor. Para não falar (desculpe o vício de linguagem) do maquiavelismo consistente em santificar os meios pelos fins.

Conheço RA desde os tempos da revista República, depois Primeira Leitura, da qual, aliás, fui assinante. Revistas bem editadas, com uma linha editorial –neoliberal– bem definida, ou seja, uma publicação acima da média. Financiada pelo banqueiro “Mendonção”, teve a publicação suspensa em 2006. Vejamos o que nos conta a Wikipedia sobre essas revistas:

Primeira Leitura era uma revista mensal brasileira de política, economia e cultura que sucedeu a antiga Revista República. Sua última edição circulou em junho de 2006.O períodico era caracterizado pelo viés assumidamente liberal de seu editor-chefe Reinaldo Azevedo e por trazer informações importantes sobre assuntos politicamente relevantes tanto no plano nacional como internacional. O períodico, além disso, pautou sua atuação jornalística por críticas contundentes ao Partido dos Trabalhadores e a Lula entre os anos de 2003 e 2006.
Em razão de ser chefiado e editado, até setembro de 2004, pelo ex-ministro das Comunicações da gestão FHC (Luiz Carlos Mendonça de Barros), o periódico era tido como sendo ligado aoPSDB e por ele controlado. Seus editores se defendiam veementemente de tal acusação, alegando terem independência editorial e alegando a transferência do controle da revista para novos proprietários, sem qualquer ligação jurídica ou econômica com a sigla.
Em março de 2006, irrompeu o chamado escândalo da Nossa Caixa, que consistiria num suposto esquema de manipulação de verbas publicitárias do Banco Nossa Caixa em favor de deputados da base aliada do governador Geraldo Alckmin.[carece de fontes] Alegou-se que a revista Primeira Leitura era uma das beneficiadas, embora isso seja negado pelo editor da publicação, Reinaldo Azevedo.[carece de fontes]O encerramento da publicação, em junho de 2006 (em razão da alegada ausência de anunciantes) foi tido como problemático por seus leitores e por segmentos conservadores e liberais do Brasil(que alegam estar o ambiente jornalístico brasileiro dominado por veículos que, implícita ou explicitamente, apóiam o Partido dos Trabalhadores e a gestão Lula).

Note, raro leitor, que mantive as ressalvas [carece de fontes]. Se fosse um pseudo-jornalista, eu daria como fonte a Veja, a Globo ou coisa parecida. Mas se trata aqui apenas de situar o leitor; tendo interesse, é fácil aprofundar a pesquisa.

Voltando à coluna, RA chama VS de mentiroso, afirmando que os políciais não mataram ninguém nos protestos citados pelo último. Começa esclarecendo o caso de Cleonice, uma gari, que teria morrido em Belém de infarto:

Varria rua quando houve um confronto entre manifestantes e a PM. Inalou alguma quantidade de gás lacrimogêneo e teve infarto depois disso, mas não por causa disso. O filósofo deve conhecer a falácia lógica já apontada pelos escolásticos: “post hoc ergo propter hoc” -“depois disso, logo por causa disso”. Nem tudo o que vem antes é causa do que vem depois. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Tudo se dá depois da chegada da loura, mas a loura é inocente, Vladimir! A notícia sobre a morte está aqui (is.gd/6QWqQM).

De vez em quando, RA arrisca-se nas águas da filosofia, tendo como recurso apenas a boia dos manuais do ensino médio. Acusa pois VS de ter incorrido em falácia, mais especificamente, na falácia da correlação coincidente. Segundo o pseudo-filósofo, a gari não teria morrido por causa do gás lacrimogênio, mas sim… por que mesmo? Ele não o diz. Limita-se a dizer que tudo não passou de uma infeliz correlação coincidente –aquilo que na linguagem coloquial chamamos simplesmente de coincidência.

Ora, quem, em tese, está mais perto da verdade, VS –que estabelece uma relação causal entre o gás lacrimogênio e o infarto da senhora Cleonica– ou RA –que simplesmente nega a causalidade, apelando, sem justificação, para a simples coincidência? O raro leitor provavelmente concordará comigo que, se tivéssemos de apostar em um dos dois, sem mais informações, o primeiro receberia a maioria das fichas. O mais lógico –e ético– seria porém concluir pela maior probabilidade da causação e não da coincidência.

Como disse, “sem mais informações”. E aí voltamos ao que disse mais acima. RA cita como fonte de informação o portal G1, ou seja, as Organizações Globo.

Wait a moment! Um jornalista não deveria recorrer a uma fonte primária em vez de a um jornal, aliás, a um grande jornal, reconhecidamente comprometido com a oposição? Mas, ainda assim, parece que RA não leu a sua “fonte”… Uma vez que nela se declara explicitamente que o secretário de saneamento do município, Luiz Otávio Mota Pereira, informou ainda que:

a morte [da senhora Cleonice] pode ter sido provocada pelo susto com o tumulto na manifestação.

O secretário, segundo o jornal, baseou-se em relatórios médicos. Ué, então, quem estabeleceu a relação causal entre a ação policial e a morte da gari não foi VS mas… os médicos! Não é incrível? E isso segundo o portal da Globo…

RA prossegue tratando dos demais casos de morte, um a um, com a mesma estratégia manipuladora –citando jornais como fonte etc.

Depois, RA volta o seu arsenal para outro ponto do artigo de VS. Cito a passagem (da coluna de VS) em questão:

não consta que suas mortes tiveram força para gerar indignação naqueles que, hoje, gritam por uma bisonha ‘lei de antiterrorismo’ no Brasil. Para tais arautos da indignação seletiva, tais mortes foram ‘acidentais’ […]. Mas a morte do cinegrafista, ao menos na narrativa que assola o país há uma semana, não foi um acidente infeliz e estúpido […]

Fuzila, então, RA:

“Não consta que tiveram” é um coquetel molotov na língua pátria. Isso é com ele. A morte de Andrade não foi um acidente. O destino do artefato eram os policiais. Vladimir parece achar que a farda cassa dos PMs a sua condição de humanos. Indignação seletiva é a dele. Segundo acusa, estão usando a “morte infeliz de alguém” para “criminalizar a revolta da sociedade brasileira”. O PSOL e os “black blocs” não são “a sociedade brasileira”. De resto, na ordem democrática, é uma tolice afirmar que a “revolta” está sendo criminalizada. Se ela incidir em práticas puníveis pelo Código Penal, os crimes se definem pelos atos, não pelas vontades.

Um caminhão de falácias e impropriedades de várias ordens em um único parágrafo! Em primeiro lugar, a morte do cinegrafista foi sim um acidente, infeliz e trágico, mas um acidente (ou um incidente, se quiserem). O próprio RA, sem se dar conta, admite-o ao dizer que o alvo eram os policiais. Ora, se o cinegrafista não era o alvo, então, logicamente, ele foi atingido acidentalmente.

Em segundo, em parte alguma de sua coluna, VS subtraiu aos policiais a dignidade humana. Apenas postulou que a farda dos policiais estaria sendo usada pela mídia para tratar os manifestantes com menos dignidade, ou seja, como se fossem todos criminosos e –como se mesmo os criminosos não fossem seres humanos!

Em terceiro, para desgosto de RA, o PSOL e os black blocs são sim a sociedade brasileira, assim como ele, VS, eu e você, raro leitor: nós todos somos a sociedade brasileira! Mas na cabeça de RA, do astrólogo Olavo de Carvalho, dos olavetes e da “nova” direita, não, a sociedade não somos todos, mas apenas alguns. (Não é preciso dizer, creio, que a esquerda não “pensa” muito diferente disso.) Não é necessário ser filósofo nem lógico para perceber a contradição entre o discurso pretensamente democrático e essa tese elitista.

Em quarto e último lugar, os crimes se definem sim pelas vontades, a saber, pelas vontades dos juízes. As leis precisam ser aplicadas, e, para isso, elas são interpretadas –em cada caso. Basta ver o que se passa no julgamento do chamado mensalão.

Nos últimos dois parágrafos de sua catastrófica coluna, RA perde-se totalmente:

Sim, eu sei: malho em ferro frio ao cobrar que esquerdistas façam um debate ao menos factualmente honesto. Eu nunca me esqueço de um emblema desse modo que eles têm de argumentar. Até havia pouco, em defesa da legalização do aborto no Brasil, sustentavam que 200 mil mulheres morriam a cada ano vítimas de tal procedimento. Em fevereiro de 2012, a ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, levou tais números mentirosos à ONU (is.gd/qHYt5S). Um dia me enchi e peguei os dados do Ministério da Saúde sobre mortes de mulheres e suas causas e fiz as contas. Os abortistas haviam multiplicado por 200 o numero de óbitos em decorrência do aborto (is.gd/6Iu4EJ).

Começa com outra falácia, desta vez, ad hominem, afirmando que, por serem de esquerda, certas pessoas são intelectualmente incapazes e desonestas. Incrível.

Em seguida, recorre não à lógica mas à matemática (dos manuais do ensino fundamental), para refutar a tese segundo a qual 200 mil mulheres morreriam anualmente, no Brasil, em consequência da prática ilegal do aborto. E sabe qual é a fonte do nosso Oswald de Souza? O Ministério da Saúde! Mas como é que esse ministério, ou qualquer outro, poderia saber quantas mulheres morrem de tal procedimento? Se é ilegal, quem é que se sujeitaria a confessar o real motivo da morte? Mutatis mutandis, dá-se como nos casos de estrupo, que com certeza devem ocorrer em número bem maior do que o oficial.

Mas o pior nem é isso. O pior é que RA canta vitória concluindo que as mortes em decorrência de aborto não passariam de mil. Acho que o raro leitor concordará comigo que uma morte por aborto ilegal já seria demais, não? Mas mil?!

Não estou aqui discutindo o mérito dessa –espinhosa– questão bioética, mas apenas mostrando o absurdo da argumentação reinaldiana.

Por fim, RA conclui com uma piada:

A mentira é mais útil às causas das esquerdas do que a verdade. Não fosse assim, homicidas como Lênin, Stálin, Trótski ou Mao Tse-tung não seriam cultuados ainda hoje. Isso tudo é um pouco constrangedor, mas, como escreve Janio de Freitas, continuarei tentando.

Depois da Guerra do Iraque, aquela que foi perpetrada sob a mentirosa alegação de que Saddam Hussein possuía um enorme arsenal de armas de destruição em massa, e depois das revelações do Snowden, isso só pode ser mesmo uma piada.

Vou recomendá-la ao Zé Simão!