desvendar a consciência que nos habita

O legado filosófico de Henri Bergson

Bergson se “esforçou em marcar os limites de uma inteligência implicada pela lógica num momento em que a filosofia era compartilhada entre positivismo e irracionalismo”. E mais: “Bergson explica que ele próprio hesitou por muito tempo antes de utilizar o termo intuição. Em seu primeiro livro, o Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, publicado em francês em 1889, a intuição como conceito só aparece nos usos correntes da filosofia clássica. Ele faz mesmo referência, nesta obra, a uma “intuição matemática” que não corresponde em nada à intuição bergsoniana. Portanto, o que Bergson chamará mais tarde de intuição está no centro deste ensaio, mas sob a forma de um sentido particular totalmente voltado para a percepção pura e a compreensão da duração. Em Matéria e memória, seu segundo livro publicado sete anos mais tarde, a intuição só aparece verdadeiramente no terceiro capítulo e ela é deduzida da experiência de re-apreensão colocada na introdução do livro (eu nada sei da matéria, nem do corpo e do espírito… o que é que me aparece: imagens). Só é realmente em A introdução à metafísica, artigo publicado em 1903, que Bergson conjuga uma relação especifica entre intuição e método, cujos fundamentos ontológicos ele retomará cerca de dez anos mais tarde, numa conferência intitulada A intuição filosófica. Seu objetivo não é o de condenar a inteligência, nem mesmo rebaixá-la, mas simplesmente o de notar que a inteligência, estando interessada pela ação e levada por uma necessidade de espacializar sua duração, não pode de forma alguma tocar na essência da vida que é móvel. A inteligência constrói mundos, instrui artífices, produz sistemas, ela é uma potência ativa. Mas, captar a vida implica, para Bergson, renunciar a esta potência e retomar aquele sentido íntimo ao qual, por não dispor de um termo novo, ele dará o nome de intuição”.

As afirmações são do filósofo francês Eric Lecerf na entrevista exclusiva que concedeu à IHU On-Line por e-mail, analisando o legado filosófico de Henri Bergson. A IHU On-Line está preparando uma edição especial sobre esse pensador, que em breve será publicada.

Sobre a obra mais famosa de Bergson, A evolução criadora, que neste ano completa 100 anos de lançamento, Lecerf afirma que não há apenas o desejo a defender uma tese, “mas também a ilustrar e adaptar um estilo de escritura suscetível de trazer nele essas linhas de virtualidades, pelas quais a vida se desenvolve sem cessar”. Ele explica: “Eu retomaria, pois, uma tese que me parece decisiva, isto é, sem a qual a obra de Bergson seria ilegível. Bergson nos engaja em A evolução criadora num trabalho de recompreensão da vida em nós. De que se trata? De um conhecimento psicológico de nossa personalidade? Absolutamente. Para Bergson, trata-se de bem outra coisa do que do inconsciente. Pelo contrário, o que ele nos engaja mesmo a redescobrir em nós é precisamente aquilo que ele chama de consciência. Mas, de que consciência se trata? De uma consciência que perpassa todo ser vivo, que está em cada um de nós em ato e que, no mundo vegetal, permanece em posição de torpor. De uma consciência que é a vida. Desvendar a consciência que nos habita, isso nos conduz, desta forma, a atingir um conhecimento verdadeiro do ser vivo, pois nossa consciência procede de uma intenção da vida, por ser da mesma um desdobramento, da qual a intelectualidade nada saberia dizer pela simples razão de que ela é uma expressão da mesma entre outras, ou antes, para retomar Bergson, uma orientação de uma tendência”. Para Lecerf, essa é uma virada radical no seio da filosofia, uma vez que conhecer o vivente implica um conhecimento interior, uma experiência de si que encontra na intimidade da percepção o que é o absoluto de um movimento incessante, no qual a vida encontra toda a sua substância.

Professor de Filosofia na Universidade Paris VIII, Saint-Denis, Lecerf é autor de inúmeros livros, entre os quais Le sujet du chômage (Paris, Budapest, Torino: Harmattan, 2002) e La famine des temps modernes: essai sur le chômeur (Paris: Harmattan, 1992). Obteve diploma em História Contemporânea pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e foi diretor de programa no Collège International de Philosophie (Colégio Intenacional de Filosofia). Publicou vários artigos sobre o trabalho dos filósofos como Henri Beson, Simone Weil ou Georges Sorel.