lançamentos

Os Lusíadas
Reprodução fac-similar de uma edição de 1572, que foi de d. Pedro 2º e está no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do poema épico de Luís de Camões. Contém ainda estudo filológico de Leodegário A. de Azevedo Filho. Ed. Francisco Alves (0/ xx/21/ 2240-7989). 528 págs., R$ 49.

Livro das Mil e Uma Noites
O terceiro volume da nova tradução -feita diretamente do árabe pelo professor Mamede Mustafa Jarouche- reúne o “ramo egípcio” da clássica narrativa de Sahrazad, ou seja, a parte mais tardia dessas histórias orais do Oriente. Ed. Globo (tel. 0/xx /11/ 3767-7400). 376 págs., R$ 49.

Cartas Natalinas à Mãe
Estas cartas dezembrinas que o poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) dirigiu a sua mãe entre 1900 e 1925 -compartilhando experiências e meditações- receberam tradução de Maria Aparecida Barbosa e prefácio de Willi Bolle. Globo (tel. 0/ xx/11/ 3767-7885). 128 págs., R$ 17,90.

Astronomia
Escrito por Ian Ridpath, membro da Sociedade Astronômica Real britânica, este “Guia Ilustrado” contém cartas celestes e conceitos básicos relacionados aos astros e à história da astronomia. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Zahar (tel. 0/xx/21/ 2108-0808). 300 págs., R$ 54.

Os Heróis
Com um conceito amplo de “herói”, que abrange de Sansão a Margaret Thatcher, passando por Wittgenstein, o historiador Paul Johnson discorre sobre ações e influências de personagens selecionadas. Tradução de Marcos Santarrita. Elsevier (0/ xx/21/3970-9300). 282 págs., R$ 59.

Matrizes
O número de lançamento da revista semestral traz dossiê sobre perspectivas autorais nos estudos de comunicação com ensaios assinados por Muniz Sodré e Jesús Martín-Barbero, entre outros. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da USP (r. Lúcio Martins Rodrigues, 443, 1º andar, sala 121, CEP 05508-097, SP, tel. 0/xx/11/ 3091-4507). 248 págs., preço não definido. [FOLHA 23/12/07]

Paulo Rónai no seu centenário

Embora demonstrasse cedo suas qualidades de latinista, sua tábua de salvação foi o português

por NELSON ASCHER

O CENTENÁRIO de nascimento de Paulo Rónai (seu sobrenome se pronuncia “Rô-nó-i”, em três sílabas, com tônica na primeira) foi comemorado semana passada, na USP, com uma mesa-redonda organizada pelo professor John Milton, da qual participaram os professores Marileide Esqueda, Zsuzsanna Spiry, Reinaldo Pagura e este humilde colunista.

Rónai (1907-1992) foi, com Anatol Rosenfeld e Otto Maria Carpeaux, um dos três grandes exilados que, fugindo da crise Européia, da guerra iminente e da perseguição racista, trouxeram a um Brasil ainda meio provinciano, meio dependente das referências culturais francesas, novas informações, idéias, conceitos e práticas que haviam sido aperfeiçoadas na Europa Central. Se bem que muito coincidisse no que pensavam e conheciam, cada qual contribuiu com seu viés específico: Rosenfeld com o filosófico, Carpeaux com o histórico e Rónai com o filológico.

Nascido na Hungria, ele deixou o país no final de 1940 para chegar ao Brasil no início do seguinte. Judeu, filho de um livreiro, professor, tradutor, especialista em latim e línguas neolatinas, ele passara a juventude convivendo com o clima de anti-semitismo crescente que se instalara na Hungria depois da Primeira Guerra. Quando emigrou, já havia sido internado num campo de trabalhos forçados.

Rónai se salvou graças à paixão pelas línguas. Embora tivesse demonstrado cedo, por meio de traduções poéticas que seguem sendo publicadas em antologias, suas qualidades de latinista num país que prezava a erudição clássica, e apesar de sua francofilia explícita (cursara a Sorbonne e apresentara tese sobre Balzac), o idioma que se revelou sua tábua de salvação foi o português. Como não havia ao redor nem falantes da língua e muito menos algum curso, ele o estudara por conta própria, com gramáticas e dicionários na mão. Finalmente entrou em contato com um escritor brasileiro, o santista Ribeiro Couto (1898-1963), então diplomata na Holanda, e, correspondendo-se com ele, informou-se seja de nuances da língua, seja a respeito do que se escrevia por aqui.

Se há algo curioso nessa trajetória, é que o húngaro, sem fazer escala relevante na literatura portuguesa, se embrenhasse de imediato na brasileira e que, nesta, mais do que a consagrada, fosse a recente que o atraísse. O fato é que, malgrado passar na velhice a imagem (falsa) de um tradicionalista, avesso à vanguarda e às novidades, Rónai cresceu sob a influência de duas gerações que renovaram radicalmente a poesia e a prosa de seu país -o grupo que se formou em torno da revista “Nyugat” (Ocidente)- e foi amigo próximo de diversos expoentes da segunda.

A tradução literária era uma arte cultivada com afinco na Hungria como, aliás, em diversos outros países pequenos que não julgavam sua cultura auto-suficiente e desejavam demonstrar, por meio da incorporação dos clássicos, que sua língua nada ficava a dever a qualquer outra. Essas duas gerações modernistas, no entanto, praticaram e, discutindo-a incessantemente, teorizaram de tal maneira a tradução que, aos poucos, ela se converteu num dos pontos altos da patrimônio nacional. Rónai trouxe de lá tanto essa experiência como a constatação de que ela ajudava decisivamente a “cosmopolitizar” uma cultura.

Não é à toa, portanto, que, ao desembarcar no Rio, ele já conhecia a cena literária melhor do que muitos críticos locais. Drummond, Bandeira, Mário de Andrade e Cecília Meirelles, entre outros, haviam sido incorporados à antologia de poesia brasileira (a primeira do gênero) que ele publicara, em 1939, em Budapeste. (Rónai traduzira também uma coletânea dos poemas de Ribeiro Couto e é quase certo que foi com o auxílio deste que conseguiu o visto brasileiro.) Muitos se tornariam seus amigos pessoais e, entre os novos que fez, estava um diplomata que o ajudara nas tentativas, junto ao Itamaraty, de obter um visto para sua noiva e demais familiares que haviam ficado para trás. Certo dia, o amigo enviou-lhe seu livro de estréia. Tratava-se de “Sagarana”.

Seu trabalho de tradutor e teórico do ofício é conhecido e celebrado. A importância de sua atividade crítica, nem tanto. Rónai, no entanto, esteve entre os primeiros a reconheceram a grandeza dos autores acima e, no caso de Guimarães Rosa (com quem compartilhava o interesse pelas minúcias lingüísticas), foi dos que mais se empenharam em elucidar as dificuldades de sua obra. A melhor homenagem que lhe poderia ser feita seria a republicação de seus ensaios, em particular aqueles sobre literatura brasileira, a começar por “Encontros com o Brasil” (1958). [FOLHA 17/12/07]

poética eletrônica

por LIVIO TRAGTENBERG

O homem foi a música e a música foi o homem. Karlheinz Stockhausen (1928-2007) era um missionário. Missionário de Sirius, entenda-se. Desde meados dos anos de 1950, injetou poética na música eletrônica que ajudou a criar, abrindo novos horizontes para uma técnica ainda embrionária que utilizava osciladores, geradores de freqüências, fitas magnéticas etc. Um arsenal que hoje soa jurássico.

Muito do playground da moçada de música eletrônica de pista deriva de pesquisas de compositores como Stockhausen, pioneiro na exploração sonora da eletrônica.

Abrigava uma personalidade complexa que combinava uma austeridade protestante, germânica, obstinada -na qual não cabia a possibilidade de reconhecer John Cage como músico em seu sistema de valores-, com um pan-misticismo astrológico. Nesse pêndulo, construiu uma das obras mais importantes da música.

Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, em 1988, para uma série de concertos, Stockhausen confessou a mim e a Haroldo de Campos (que estava tomado por uma alegria juvenil com a oportunidade de encontro e audição de suas músicas), que era um enviado da estrela Sirius, o sol central de nosso universo. Isso, pronunciado com tamanha seriedade e serenidade, pareceu-nos, naquele momento, uma coisa bastante plausível e natural.

Estava no Rio para assistir os concertos, que reportei para a Folha, e também para pesquisar o canto de Sinagoga, que iria utilizar na música do espetáculo “A Cena da Origem” com as traduções de Haroldo.

Comentei sobre essa tradição com Stockhausen, que animado me disse: “Mas essa é uma das músicas que escuto na minha cabeça!”

Cultura alemã
Tinha uma alma ampla, na qual também habitavam alguns fantasmas da cultura alemã: Bach, o Patrono, de família grande, com filhos músicos, assim como ele, cujos filhos Simon e Markus têm carreiras musicais sólidas atuando em áreas como o jazz moderno e o pop (no caso de Simon).

Outro aspecto o aproximava do velho mestre de Leipzig: administrava sua música e carreira como uma empresa. Propôs-me que recebesse um Centro de Documentação de sua obra que estava doando para universidades mundo afora.

Outro fantasma era Richard Wagner, de quem comungava uma certa aspiração a Deus, criando a própria cosmogonia através de um extenso ciclo operístico.

Naquela passagem pelo Rio, Simon, em uma escapada da rotina espartana de ensaios, mostrou-me algumas gravações de sua banda pop em que cantava e tocava sintetizadores.

O som era bem distante do universo paterno, mais para Michael Jackson. Queria alçar vôo próprio, mas parece que a coisa não vingou, e seguiu trabalhando com o pai nesses anos.

Numa ensolarada manhã de domingo, finda a série de concertos, num encontro informal na casa da compositora Jocy de Oliveira (que também promovia a sua vinda), ofereci-lhe uma caipirinha com a melhor cachaça. Sereno, me respondeu: “Necessito de meu cérebro 100% funcionando todo o tempo”.

Esse era o homem. Só nos cabe desejar-lhe uma sonora viagem de volta à estrela Sirius. [FOLHA 10/12/2007]

GRUPO DE PESQUISA

“Discurso à Nação Alemã”, proferido por Fichte em Berlim no inverno de 1807/8


Filosofia Transcendental e Religião

Prof. EDSON GIL

1.Introdução
A filosofia nasceu no Ocidente como um novo modo de questionamento da realidade. Não perguntava mais por alguma realidade determinada (ente), mas pela realidade como tal (ser). A filosofia nasceu, portanto, como metafísica.

Mas perguntar pela realidade como tal implica perguntar pela realidade em sua totalidade. E perguntar pela totalidade implica, por sua vez, perguntar pela possibilidade de tal totalidade, ou seja, por sua unidade, princípio ou fundamento. Numa palavra, pelo Absoluto ou por Deus. Em sua origem, portanto, a filosofia ocidental era metafísica e teológica: “ontoteologia”.

A filosofia grega, dos pré-socráticos aos estóicos, concebia a totalidade do real como cosmos. Assim, a pergunta pelo Absoluto ou pelo fundamento divino do mundo recebeu, entre os gregos, respostas cosmológicas, tais como: apeiron (Anaximandro), ser imutável (Parmênides), logos (Heráclito), nous (Anaxágoras), primeiro motor imóvel (Aristóteles) etc. Na filosofia grega, portanto, o questionamento metafísico (ser) era indissociável de concepções cosmológicas (cosmos) e recebia respostas de ordem teológica (teologia filosófica).

Na filosofia medieval, cristã, o Absoluto revela-se como Deus transcendente, pessoal e criador: verdade que ilumina a mente humana (Agostinho), causa sui (Anselmo), ato de ser em que coincidem essência e existência (Tomás) etc. Enfim, como ente absolutamente necessário (ipsum esse subsistens, actus purus) e, por conseguinte, apenas cognoscível de modo analógico.

Em suma, tanto a filosofia antiga quanto a medieval eram determinadas pelo mesmo paradigma metafísico. Ocupavam-se sobretudo do problema do ser ou da realidade como tais. A diferença é que, enquanto a metafísica grega era cosmocêntrica, a cristã era teocêntrica.

Assim, durante a vigência do paradigma metafísico, ou seja, do nascimento da filosofia até o fim da escolástica (nominalismo), a totalidade do real era concebida com base em alguma instância objetiva, cósmica e/ou divina. A posição epistemológica segundo a qual a realidade exterior está pronta, dada, bastando ao sujeito recebê-la passivamente no seu interior se chama realismo.

A passagem da Idade Média para a Moderna representou também uma mudança de paradigma filosófico: do metafísico para o epistemológico. E, por conseguinte, uma mudança de problema: do ser ou da realidade para o conhecer ou a verdade. A atenção dos filósofos volta-se, agora, para o sujeito do conhecimento – o próprio homem. A filosofia moderna é antropocêntrica.

O paradigma moderno, epistemológico e antropocêntrico, culmina na filosofia transcendental, principalmente com Descartes (cogito), Kant (Ich denke) e Fichte (Tathandlung). Em certo sentido, portanto, a filosofia moderna – e européia – é filosofia transcendental.

Do ponto de vista do novo paradigma, pode-se dizer que os filósofos realistas são ingênuos, uma vez que, perdendo-se nos objetos, esquecem-se de si mesmos como sujeitos. O programa da filosofia transcendental consistirá, então, justamente na tematização do sujeito como condição de possibilidade do saber objetivo, tanto teórico quanto prático. A realidade, para os modernos, não está mais pronta, dada, precisando antes ser constituída – em alguma medida – pelo sujeito. Essa posição epistemológica se chama idealismo.

A mudança de paradigma ocorrida na passagem da Idade Média para a Moderna – da metafísica para a epistemologia, do teocentrismo para o antropocentrismo – teria de implicar necessariamente também uma mudança radical no que se refere ao problema propriamente filosófico-teológico do Absoluto ou de Deus. Afinal agora o próprio sujeito humano, e não mais o cosmos, passou a ser o lugar do aparecimento da transcendência. – Transcendental é, por assim dizer, a transcendência imanente.

2. Objetivo
O objetivo do Grupo de Pesquisa de Filosofia Transcendental é investigar o sentido filosófico da revolução antropocêntrica moderna no que se refere ao problema da fundamentação última, ou seja, do Absoluto ou de Deus, e, por extensão, da religiosidade.

3. Justificativa
Escolheu-se Johann Gottlieb Fichte como objeto central de pesquisa porque esse filósofo alemão, partindo de Kant, desenvolveu um método de reflexão transcendental, portanto autenticamente moderno – a Doutrina da Ciência –, por meio do qual pretende aceder ao Absoluto – ou, como ele mesmo diz, “conceber o inconcebível” –, de modo racional sem recair no paradigma metafísico, tal como ocorreria com as filosofias do absoluto dos idealistas alemães Hegel e Schelling.

4. Método
Estudar a filosofia transcendental dos pontos de vista histórico – idealismo alemão – e sistemático – fundamentação última, religião –, por meio da leitura aprofundada de textos originais dessa tradição moderna, com destaque para a obra de Fichte.

5. Resultados Esperados
Ao fim do primeiro ano de estudos, o participante do grupo deverá ter um conhecimento básico dos princípios da filosofia transcendental, em geral, bem como da filosofia transcendental da religião – tal como esta foi desenvolvida por Fichte – , em particular.

6. Interação com outros projetos
O pensamento transcendental não se restringe à filosofia teórica (epistemologia e ontologia), nem, na filosofia prática, restringe-se à ética e à estética, mas tem dado importantes contribuições à Filosofia da Religião (p.ex, com Rahner e Muck) e da Educação (p.ex., com Heitger e Dickopp).


BIBLIOGRAFIA BÁSICA


Primária

FICHTE, J. G. La exhortación a la vida bienaventurada o la Doctrina de la Religião. Madri: Tecnos, 1995.

________. A doutrina-da-ciência e o saber absoluto. In: ________. A doutrina-da-ciência e outros escritos. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 253-94. (Os pensadores)


Secundária

ALLISON, H. E. El idealismo transcendental de Kant. México: UAM, 1992.

AQUINO, Marcelo F. de. O conceito de religião em Hegel. São Paulo: Loyola, 1989.

GREUEL, Marcelo da V. Experiência, pensar e intuição. São Paulo: UNIUBE, 1998.

GUSDORF, Georges. Tratado de metafísica. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1960.

HICK, John. Filosofia da religião. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.

LAUTH, R. Concepto, fundamentos y justificación de la filosofia. Madri: Rialp, 1975.

OLIVEIRA, Manfredo A. de. Filosofia transcendental e religião. São Paulo: Loyola, 1984.

RABUSKE, Edvino. Filosofia da linguagem e religião. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1994.

REALE, M. Experiência e cultura. São Paulo: EDUSP, 1977.

TORRETTI. Manuel Kant: estudio sobre los fundamentos de la filosofía crítica. Santiago: UDP, 2005.

ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. São Paulo: Paulus, 1991.

dia internacional da filosofia

Instituído pela Unesco em 2002, comemora-se hoje, 15/11*, o Dia Internacional da Filosofia

” The objective of this Day is to encourage the peoples of the world to share between them their philosophical heritage and to open their daily reflections to new ideas, as well as to inspire a public debate between intellectuals and civil society on the challenges to which our societies are confronted today”

*Toda terceira quinta-feira de novembro