S.Tomás de Aquino

Comemora-se hoje, 21-1, entre os católicos, o dia de São (ou Santo) Tomás de Aquino. Os luteranos o comemoram no dia 8-3. Tommaso D’Aquino nasceu em Roccasecca ou Belcastro, na Itália, no ano de 1224 ou 1225 e morreu na Abadía de Fossanuova, também na Itália, no dia 7-3-1274.  Padre dominicano, teólogo, filósofo, expoente máximo da escolástica, proclamado santo e cognominado Doctor Communis ou Doctor Angelicus pela Igreja Católica. Talvez seu maior mérito tenha sido a síntese que realizou entre o catolicismo e o aristotelismo, este último reintroduzido no Ocidente pelos pensadores árabes (Averroes, Avicena et al.). Sistematizou o conhecimento teológico e filosófico de sua época em suas duas Summae: a Summa Theologiae e a Summa Contra Gentiles.

Tanto o dialético Hegel quanto o analítico Russell não consideravam Tomás como um filósofo, mas sim como teólogo.

De fato, a diferença entre a teologia e a filosofia reside no fato de que a primeira não questiona seus pressupostos (a verdade revelada nas escrituras sagradas e, no caso do catolicismo, também na tradição apostólica). Mas é preciso acrescentar que, embora não aceite nenhum pressuposto sem crítica, ou seja, sem justificação, a filosofia não é possível sem pressuposto algum, ao passo que é possível uma filosofia fundada no absoluto.

Como quer que seja, é inegável o valor espiritual da obra do pensador aquinatense.

No século passado, estudiosos como o francês Étienne Gilson e o italiano Cornelio Fabro, por assim dizer, redescobriram a metafísica do Doutor Angélico: a filosofia do ser como ato ou a filosofia do ato de ser.

Grosso modo, trata-se do ser como tal em sua realidade operante, criativa, que não pode ser confundida com a categoria ou o conceito do ser. Do ser mesmo só podemos saber (conceitual ou categorialmente) que ele é, mas não o que ele é. O que as coisas são nos é dado por sua essência, essa sim concebível por conceitos. Natureza, essência, conceito, definição são conceitos afins. O ser transcende esse nível.

Para os escolásticos, os transcendentais consistem justamente numa espécie de supracategorias, de atributos ontológicos comutáveis entre si ou intercambiáveis. Segundo Tomás, são ele: res (a coisa), unum (o uno, a unidade), aliquid (alteridade), verum (o verdadeiro), bonum (o bem), e, last but not least, ens (o ente).

Esse assunto é muito delicado, principalmente para não especialistas como eu. Por exemplo, quando, logo acima, usei a expressão “espécie de supracategorias”, fui infeliz e corri o risco de levar o leitor a mal-entender o tomismo como se fora algum tipo de essencialismo. Pois a definição de um conceito (ou categoria) se obtém justamente pela especificação do gênero (p. ex., homem é animal [gênero] racional [espécie]). Parece que mesmo grandes tomistas, como Jacques Maritain, teriam sucumbido ao essencialismo, ao não atentarem para a diferença –destacada por Gilson e Fabro– entre ser (ato) e essência (potência).

Para finalizar esta nota, gostaria de lembrar outra sacada genial do Doutor Comum. Trata-se de sua contribuição para a chamada Querela do Universais.

Havia então duas posições antagônicas e mais uma terceira, intermediária; respectivamente, o nominalismo, o realismo e o conceptualismo. Para o nominalismo, os universais não passam de nomes, flatus voices, convenções fonéticas que usamos para classificar as coisas singulares; para o realismo, ao contrário, os universais são transcendente (Platão) ou imanentemente (Aristóteles) reais, e, finalmente, para o conceptualismo, os universais são representações mentais abstraídas das coisas.

Tomás de Aquino, fazendo valer a potência lógica de seu intelecto, sintetizou, então, as três posições conflitantes numa única: os universais existem antes das coisas (ante rem), na mente de Deus, como “ideias platônicas”; nas coisas (in re), como “essências aristotélicas”, e depois das coisas (post rem), na mente do homem, como “ideias humeanas”.