Sobre macacos, ratos e homens

http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup113312,0.htm

ESTADO DE SÃO PAULO

Domingo, 20 de janeiro de 2008, 00:00 | Versão Impressa

Sobre macacos, ratos e homens

O que aconteceu com o papa em La Sapienza nada tem a ver com a defesa da ciência contra o obscurantismo da fé

por LUIZ FELIPE PONDÉ

SÃO PAULO – Há alguns meses ONGs de gays e lésbicas protestaram contra certa pesquisa que cientistas na Inglaterra estariam fazendo com o intuito de identificar genes causadores do comportamento homossexual em algum tipo de animal comum no Reino Unido. Segundo os protestos, se bem me lembro, a pesquisa era acusada (com razão) de tornar possível uma futura manipulação gênica que eliminaria o fenótipo homossexual entre os animais em questão. A ciência é perigosa mesmo, tal como a religião, e sua violência potencial não é menor: já experimentamos a violência da sua “técnica da verdade” várias vezes. Assim, essas ONGs se viram no direito de pedir a suspensão do apoio à pesquisa, identificando nela riscos para o futuro de sua tribo: hoje carneiros gays e vacas lésbicas, amanhã, humanos. Não sei o fim da história, pouco importa. Ela descreve um fato comum: nunca há neutralidade em relação ao que se teme na ciência. Por isso, quem normalmente se diz pleno defensor dessa neutralidade está na realidade mentindo.

Neste caso, não houve manifestações em defesa da liberdade da ciência. Por que não? É certo proibir a pesquisa das causas genéticas dos comportamentos sexuais? Talvez não, mas a sociedade intelectual e científica do século 21 não é menos refém da “falsa santidade” do que era o século 17. A ciência, afora ser um método que existe em sua pureza talvez somente no mundo platônico das idéias (onde habitam boas e raras almas sinceras) e em alguns lugares onde a pressão de interesses financeiros está a favor dessa pureza (onde habitam almas objetivas endurecidas pela sobrevivência), é uma das entidades mais submetidas a falsas virtudes, principalmente depois que a universidade se transformou num celeiro de “políticas do bem”. O homem moderno peca porque se acha melhor que seu antepassado, quando na realidade combate traços de caráter que o une ao seu ancestral pré-histórico: ser interesseiro, mentiroso, aproveitador, violento e covarde. Ninguém precisa da espada da lei nem de educação para aprender a agir assim, a natureza se encarrega do curso monótono e repetitivo dessas qualidades tristes. Além desse vício, a superficialidade parece ser sua segunda natureza. Aqueles que fazem protestos não são necessariamente os “santos da objetividade”. Como Kafka descreveria esse mundo: quem seriam os macacos que fariam os relatórios acadêmicos? Quem seriam os ratos que carregariam os cartazes de indignação?

Sabemos que as ciências sociais e a filosofia lançaram sobre a ciência uma sombra de dúvida científica: entre outros, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Theodor Adorno, Paul Feyerabend nos ensinaram, respectivamente, que não há racionalidade empírica acumulativa entre os paradigmas sob os quais trabalham os cientistas e que muitos desses paradigmas são vinculados a dados não científicos, que os instrumentos da ciência são sempre discursos de poder e opressão, que a ciência é a mercadoria chique da burguesia, enfim, que devemos ser contra a ilusão do método objetivo na ciência. Tudo isso faz parte das controvérsias em epistemologia contemporânea (teoria da ciência) e qualquer pessoa treinada na área sabe que dizer que pessoas em diferentes épocas podem operar em racionalidades distintas é uma afirmação razoável e não puro obscurantismo: no século 17 não havia diferença clara entre ciência, filosofia e teologia. Galileu pensava assim, seus amigos padres-cientistas pensavam assim, a Inquisição pensava assim. O debate ao redor do risco da autonomia e supremacia da ciência experimental como filosofia que redefiniria a teologia, passando a ser a “rainha de todos os saberes”, inclusive da moral, (objeto implícito da tese filosófico-teológica de Galileu) por acaso acabou?

Por que o “papa obscurantista” une defensores da versão simplificada do processo de Galileu, ONGs em favor do casamento gay e do aborto? Qual é a objetividade científica que os une? Nenhuma. O que aconteceu na Universidade La Sapienza em Roma nada tem a ver com a defesa da ciência e da luz da razão contra o obscurantismo da fé. Esse fato é o sinal de como, mesmo a universidade (infelizmente) capitulou ao fascismo sutil da politização de tudo, risco típico da democracia, apontado desde finais do século 18 (perceber isso não significa ser obscurantista, significa defender o mundo real). A intenção é inviabilizar idéias que possam ir contra os lobbies que tendem a dominar o espaço da cultura contemporânea, idéias essas que têm na figura de Bento XVI um representante institucional e intelectual de peso. Não há nada de evidentemente científico na pura afirmação da santidade metodológica dos realizadores da ciência (a “ciência real” da qual faço parte), nem na defesa da criação de crianças por gays, nem na defesa do aborto. Há, sim, conflitos de interesses. A verdade omitida é que a exclusão do intelecto religioso não garante a pureza metodológica de nada. Política não é ciência. Científica é a percepção de como esmagamos a diferença no mundo acadêmico sob a afirmação de que defendemos a democracia. Científico é o medo que devemos ter de nós mesmos.

A inquisição em La Sapienza evidencia que a universidade esta ameaçada constantemente pelo fascismo daqueles que usam do mundo cientifico e intelectual para, mentindo, se dizerem oráculos da verdade e da liberdade, quando na realidade defendem suas idéias fixas, seus interesses institucionais e suas verbas. Ainda bem que não somos todos assim. A esperança acaba sendo da ordem da timidez contra a hipocrisia: quem se achar puro, que atire a primeira pedra.

Luiz Felipe Pondé é professor da pós-graduação em ciências da religião e do departamento de teologia da PUC-SP. Leciona também na FAAP e na Escola Paulista de Medicina. É autor de , entre outros, Do Pensamento no Deserto (Edusp)

nova encíclica critica ateísmo

por VALQUÍRIA REY
da BBC Brasil, em Roma

O papa Bento 16 fez uma dura crítica ao ateísmo em um documento divulgado nesta sexta-feira, dizendo que a doutrina, que nega a existência de Deus, foi responsável por algumas das piores formas de crueldade e injustiça na história moderna.

A crítica foi feita na segunda encíclica criada pelo papa Bento 16, intitulada Spe Salvi (Salvos Graças à Esperança), publicada em oito idiomas, incluído o português e dirigida a bispos, padres e diáconos de todo o mundo e, por meio deles, a todos os fiéis.

Dividido em oito capítulos, o documento de 75 páginas condena o mal e o pessimismo do mundo e diz que o homem deve ter esperança e fé em Deus.

De acordo com o papa, o ateísmo dos séculos 19 e 20 é um protesto “compreensível” contra Deus “diante do sofrimento deste mundo”.

Mas, “a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz e nem é capaz de fazer é presunçosa e intrisecamente não verdadeira”, afirma o papa no documento.

“Não é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade instrínseca desta pretensão. Um mundo que deve criar a justiça por sua conta, é um mundo sem esperança.”

No capítulo em que fala sobre a transformação da fé-esperança cristã no tempo moderno, o papa cita outro notório ateu, o pai do comunismo, o pensador alemão Karl Marx, que “não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo”.

“O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanence sempre liberdade, inclusive para o mal”, assinalou o pontífice.

“Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.”

No documento, o papa também faz um apelo em defesa do meio ambiente, pedindo empenho por um mundo livre dos venenos e contaminações que poderiam destruir o presente e o futuro.

A segunda encíclica foi lançada quase dois anos depois da primeira, Deus Caritas Est – Deus é Amor, publicada em janeiro de 2006, que focava no amor erótico e espiritual nas relações pessoais, assim como no papel da Igreja em organizações de caridade.

O pontífice trabalhou no documento durante suas últimas férias na localidade de Lorenzago di Cadore, na cordilheira alpina dos Dolomitas.

As encíclicas são documentos pontifícios que tratam de temas doutrinários como fé, costumes, culto e doutrina social.

Na Igreja Católica é o segundo documento mais importante, depois das constituições apostólicas.

A terceira encíclica, sem data confirmada de publicação deverá ser de “caráter social”, como confirmou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

Trechos
20. O século XIX não perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperança humana e continuou a considerar razão e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperança. Todavia a evolução sempre mais rápida do progresso técnico e a industrialização com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situação social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado «proletariado industrial», cujas terríveis condições de vida foram ilustradas de modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar claro que isto não pode continuar; é necessária uma mudança. Mas a mudança haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da revolução burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a proletária. O progresso não podia limitar-se a avançar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo àquilo que Kant tinha qualificado como o « reino de Deus ». Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política – de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.


21. Com a sua vitória, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactidão o modo como realizar o derrubamento. Mas, não nos disse, como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta « fase intermédia » conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.

22. Encontramo-nos assim novamente diante da questão: o que é que podemos esperar? É necessária uma autocrítica da idade moderna feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concepção da esperança. Neste diálogo, também os cristãos devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experiências, em que consiste verdadeiramente a sua esperança, o que é que temos para oferecer ao mundo e, ao contrário, o que é que não podemos oferecer. É preciso que, na autocrítica da idade moderna, conflua também uma autocrítica do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si mesmo a partir das próprias raízes. A este respeito, pode-se aqui mencionar somente alguns indícios. Antes de mais, devemos perguntar-nos: o que é que signific
a verdadeiramente « progresso »; o que é que ele promete e o que é que não promete? No século XIX, já existia uma crítica à fé no progresso. No século XX, Teodoro W. Adorno formulou, de modo drástico, a problematicidade da fé no progresso: este, visto de perto, seria o progresso da funda à megabomba. Certamente, este é um lado do progresso que não se deve encobrir. Dito de outro modo: torna-se evidente a ambiguidade do progresso. Não há dúvida que este oferece novas potencialidades para o bem, mas abre também possibilidades abissais de mal – possibilidades que antes não existiam. Todos fomos testemunhas de como o progresso em mãos erradas possa tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terrível no mal. Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do homem, no crescimento do homem interior (cf. Ef 3,16; 2 Cor 4,16), então aquele não é um progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo. [Folha Online 30/11/2007 – 12h37]