Vida Embrionária

1) O embrião é um ser vivo?
Sim, é.
1.1) Por quê?
Porque a) se deixado no útero da mãe, onde se implanta por volta do sexto dia depois da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, ele se desenvolverá de modo espontâneo e ordenado até nascer.
E porque b) quando o embrião morre, dá-se o aborto espontâneo, pelo qual o corpo da mãe, por meio dos mecanismos de defesa natural, expele o cadáver em decomposição.
2) Embriões são seres vivos somente quando estão no corpo materno?
Não.
2.1) Por quê?
Porque a) os embriões podem sobreviver e desenvolver-se em ambientes artificiais, que reproduzem as condições (bioquímicas, de temperatura etc.) do útero materno, até estarem maduros para ser implantados num útero, onde então se desenvolverão naturalmente até o nascimento.
E porque b) na falta de uma das pré-condições necessárias, o embrião morre, parando por conseguinte de desenvolver-se.
Fato 1: Embriões congelados por muito tempo (há casos de 6 anos ou mais) foram descongelados, implantados num útero, desenvolveram-se e nasceram normalmente.
Fato 2: Embriões congelados são legalmente adotáveis.
3) Embriões são seres humanos?
Sim, são.
3.1) Por quê?
Porque 1) são seres vivos (ver acima) e 2) desenvolvem-se naturalmente, passando pelo estágio fetal (por volta da oitava semana), até o nascimento, ou seja, um embrião humano dá nascimento a um ser humano.
4) O aborto é uma ação ética?
Em geral, não. Em casos excepcionais, sim.
4.1) Por quê?
Porque eliminar uma vida humana inocente é anti-ético. O aborto só é ético no caso de resultar de uma ação praticada com vistas à salvação da mãe.
5) Não é ético eliminar uma vida humana inocente mesmo quando esta ainda não tem capacidade de ter sensações, portanto, nem tem consciência nem sofre?
a) Esta pergunta parece incorrer em petição de princípio, pois a vida humana em questão é inocente justamente porque ainda não é uma pessoa autoconsciente e responsável.
b) Por outro lado, se a inconsciência e a incapacidade de ter sensações justificam a eliminação de uma vida, então mesmo pessoas adultas, que perderam a consciência e a sensibilidade por motivo de doença ou num acidente, também poderiam ser eliminadas.
c) A vida embrionária, como o próprio nome diz, não possui consciência e sensibilidade em ato, mas em potência sim. Caso contrário, essas propriedades teriam de ser-lhe acrescentadas de fora, por outro ser, o que não ocorre: o embrião apenas desenvolve, num ambiente propício e mediante a nutrição necessária, as potencialidades que lhe são inerentes.

Sobre macacos, ratos e homens

http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup113312,0.htm

ESTADO DE SÃO PAULO

Domingo, 20 de janeiro de 2008, 00:00 | Versão Impressa

Sobre macacos, ratos e homens

O que aconteceu com o papa em La Sapienza nada tem a ver com a defesa da ciência contra o obscurantismo da fé

por LUIZ FELIPE PONDÉ

SÃO PAULO – Há alguns meses ONGs de gays e lésbicas protestaram contra certa pesquisa que cientistas na Inglaterra estariam fazendo com o intuito de identificar genes causadores do comportamento homossexual em algum tipo de animal comum no Reino Unido. Segundo os protestos, se bem me lembro, a pesquisa era acusada (com razão) de tornar possível uma futura manipulação gênica que eliminaria o fenótipo homossexual entre os animais em questão. A ciência é perigosa mesmo, tal como a religião, e sua violência potencial não é menor: já experimentamos a violência da sua “técnica da verdade” várias vezes. Assim, essas ONGs se viram no direito de pedir a suspensão do apoio à pesquisa, identificando nela riscos para o futuro de sua tribo: hoje carneiros gays e vacas lésbicas, amanhã, humanos. Não sei o fim da história, pouco importa. Ela descreve um fato comum: nunca há neutralidade em relação ao que se teme na ciência. Por isso, quem normalmente se diz pleno defensor dessa neutralidade está na realidade mentindo.

Neste caso, não houve manifestações em defesa da liberdade da ciência. Por que não? É certo proibir a pesquisa das causas genéticas dos comportamentos sexuais? Talvez não, mas a sociedade intelectual e científica do século 21 não é menos refém da “falsa santidade” do que era o século 17. A ciência, afora ser um método que existe em sua pureza talvez somente no mundo platônico das idéias (onde habitam boas e raras almas sinceras) e em alguns lugares onde a pressão de interesses financeiros está a favor dessa pureza (onde habitam almas objetivas endurecidas pela sobrevivência), é uma das entidades mais submetidas a falsas virtudes, principalmente depois que a universidade se transformou num celeiro de “políticas do bem”. O homem moderno peca porque se acha melhor que seu antepassado, quando na realidade combate traços de caráter que o une ao seu ancestral pré-histórico: ser interesseiro, mentiroso, aproveitador, violento e covarde. Ninguém precisa da espada da lei nem de educação para aprender a agir assim, a natureza se encarrega do curso monótono e repetitivo dessas qualidades tristes. Além desse vício, a superficialidade parece ser sua segunda natureza. Aqueles que fazem protestos não são necessariamente os “santos da objetividade”. Como Kafka descreveria esse mundo: quem seriam os macacos que fariam os relatórios acadêmicos? Quem seriam os ratos que carregariam os cartazes de indignação?

Sabemos que as ciências sociais e a filosofia lançaram sobre a ciência uma sombra de dúvida científica: entre outros, Thomas Kuhn, Michel Foucault, Theodor Adorno, Paul Feyerabend nos ensinaram, respectivamente, que não há racionalidade empírica acumulativa entre os paradigmas sob os quais trabalham os cientistas e que muitos desses paradigmas são vinculados a dados não científicos, que os instrumentos da ciência são sempre discursos de poder e opressão, que a ciência é a mercadoria chique da burguesia, enfim, que devemos ser contra a ilusão do método objetivo na ciência. Tudo isso faz parte das controvérsias em epistemologia contemporânea (teoria da ciência) e qualquer pessoa treinada na área sabe que dizer que pessoas em diferentes épocas podem operar em racionalidades distintas é uma afirmação razoável e não puro obscurantismo: no século 17 não havia diferença clara entre ciência, filosofia e teologia. Galileu pensava assim, seus amigos padres-cientistas pensavam assim, a Inquisição pensava assim. O debate ao redor do risco da autonomia e supremacia da ciência experimental como filosofia que redefiniria a teologia, passando a ser a “rainha de todos os saberes”, inclusive da moral, (objeto implícito da tese filosófico-teológica de Galileu) por acaso acabou?

Por que o “papa obscurantista” une defensores da versão simplificada do processo de Galileu, ONGs em favor do casamento gay e do aborto? Qual é a objetividade científica que os une? Nenhuma. O que aconteceu na Universidade La Sapienza em Roma nada tem a ver com a defesa da ciência e da luz da razão contra o obscurantismo da fé. Esse fato é o sinal de como, mesmo a universidade (infelizmente) capitulou ao fascismo sutil da politização de tudo, risco típico da democracia, apontado desde finais do século 18 (perceber isso não significa ser obscurantista, significa defender o mundo real). A intenção é inviabilizar idéias que possam ir contra os lobbies que tendem a dominar o espaço da cultura contemporânea, idéias essas que têm na figura de Bento XVI um representante institucional e intelectual de peso. Não há nada de evidentemente científico na pura afirmação da santidade metodológica dos realizadores da ciência (a “ciência real” da qual faço parte), nem na defesa da criação de crianças por gays, nem na defesa do aborto. Há, sim, conflitos de interesses. A verdade omitida é que a exclusão do intelecto religioso não garante a pureza metodológica de nada. Política não é ciência. Científica é a percepção de como esmagamos a diferença no mundo acadêmico sob a afirmação de que defendemos a democracia. Científico é o medo que devemos ter de nós mesmos.

A inquisição em La Sapienza evidencia que a universidade esta ameaçada constantemente pelo fascismo daqueles que usam do mundo cientifico e intelectual para, mentindo, se dizerem oráculos da verdade e da liberdade, quando na realidade defendem suas idéias fixas, seus interesses institucionais e suas verbas. Ainda bem que não somos todos assim. A esperança acaba sendo da ordem da timidez contra a hipocrisia: quem se achar puro, que atire a primeira pedra.

Luiz Felipe Pondé é professor da pós-graduação em ciências da religião e do departamento de teologia da PUC-SP. Leciona também na FAAP e na Escola Paulista de Medicina. É autor de , entre outros, Do Pensamento no Deserto (Edusp)

técnica gera célula-tronco sem embrião

Grupos no Japão e nos EUA reprogramaram células adultas da pele humana para agirem como se fossem embrionárias

Estratégia desenvolvida por japonês pode eliminar o dilema ético em torno da clonagem terapêutica, que demanda destruir embriões

Neurônios produzidos por intermédio da nova técnica


por GIOVANA GIRARDI

Duas equipes independentes de cientistas deram um salto nas pesquisas com célula-tronco ao conseguirem fazer com que células humanas adultas da pele “voltassem no tempo” e passassem a agir como se fossem as versáteis células-tronco embrionárias, conseguindo posteriormente se diferenciar em outros tecidos do corpo.

A técnica surge com a promessa de que talvez, no futuro, possa substituir o uso das polêmicas células-tronco embrionárias. As CTEs são hoje as queridinhas dos pesquisadores por conta de seu potencial terapêutico. Como elas têm a capacidade de se transformar em qualquer outro tecido do organismo, podem, em tese, ser usadas para o tratamento de doenças degenerativas, como diabetes e mal de Parkinson.

O problema é que, para obtê-las, é necessário destruir embriões, fato que enfrenta a resistência de grupos religiosos. Com o novo trabalho, a Casa Branca parabenizou os cientistas por resolverem problemas médicos “sem comprometer os elevados objetivos da ciência e o sagrada da vida humana”.

Cientistas do Japão e dos EUA pegaram células da pele humana (fibroblastos) e induziram nelas a tão desejada pluripotência (versatilidade) da CTEs. Após essa reprogramação, elas não só assumiram uma aparência de CTEs como também um funcionamento semelhante ao delas, chegando a se diferenciar em neurônios e células cardíacas.

“Estamos agora em posição de gerar células-tronco específicas para pacientes e doenças sem usar embriões”, declarou Shinya Yamanaka, autor de um dos estudos, em comunicado. “Com essas células, poderemos compreender mecanismos de doenças, procurar por drogas eficientes e seguras e tratar pacientes com terapia celular.”

O feito tinha sido obtido pela primeira vez em meados de 2006, com células de camundongo, pela equipe de Yamanaka, da Universidade de Kyoto. Desde então, cientistas de todo o mundo vinham tentando replicá-lo em humanos. Agora, os grupos do japonês e do americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin em Madison, conseguiram. Os trabalhos foram publicados on-line nos periódicos “Cell” (www.cell.com) e “Science” (www.sciencexpress.org).

Regulação
As duas equipes trabalharam com a introdução nos fibroblastos de quatro genes ligados à manutenção da capacidade das células-tronco embrionárias. Quando um organismo está se formando, esses genes estão ativos nas CTEs e fazem com que elas se diferenciem nas demais células do corpo. No momento em que a célula atinge sua especialização, no entanto, eles são desativados.

O pesquisadores usaram retrovírus, parentes do vírus da Aids, para introduzir esses genes nos fibroblastos de modo que eles se reativassem e as células retomassem a versatilidade (veja quadro à direita). A diferença entre os dois estudos foram os genes usados. O grupo de Yamanaka trabalhou com Oct3/4, Sox2, Klf4 e c-Myc. O de Thomson trocou os últimos dois por Nanog e Lin28.

Fim da clonagem?
O achado pode jogar uma pá de cal nas busca da chamada clonagem terapêutica. Ainda na semana passada, um dos pioneiros dos estudos com clones, o escocês Ian Wilmut, “pai” da ovelha Dolly, se antecipou ao lançamento dos trabalhos ao dizer que desistia de tentar clonar um ser humano para obter células-tronco.
Ele disse na ocasião que sua decisão era baseada no sucesso que Yamanaka tivera anteriormente com camundongos. Ontem ele só complementou sua decisão: “Nós podemos agora visualizar um tempo em que uma simples técnica poderá ser usada para produzir células-tronco que serão capazes de formar qualquer tecido a partir de uma pequena amostra de qualquer um de nós.”

Robert Lanza, da companhia Advanced Cell Technology, que vinha tentando clonar embriões, comparou: “Este trabalho representa um tremendo marco científico, o equivalente biológico do primeiro avião dos irmãos Wright”, disse. “É um pouco como aprender como transformar chumbo em ouro.”

Em entrevista coletiva, ontem, a equipe de Thomson também se manifestou nesse sentido. Quando questionada sobre se ainda fazia sentido falar em clonagem terapêutica, Jennifer Frane, também de Wisconsin, respondeu: “Bem, eu diria que não”. Ao que foi amparada por Thomson: “A transferência de núcleo celular é um bom experimento, mas nós ainda somos ineficientes, ele é caro, é difícil de fazer e é provável que nunca aproveitemos as aplicações. Então não imagino que ele dure por muito tempo”.

Mas, apesar de a nova técnica ser “eticamente descomplicada”, como definiu Douglas Melton, co-diretor do Instituto de Células-Tronco da Universidade Harvard, ela ainda não deve substituir os estudos com as células-tronco embrionárias.

“Ainda temos muito a aprender com as células-tronco embrionárias. E só pesquisando seu funcionamento podemos fazer com que uma célula adulta imite seu comportamento”, ressaltou a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, da USP. “Veja que os próprios autores só chegaram a esses resultados graças às CTEs e precisarão delas para várias outras análises, inclusive para eliminar o vírus como tecnologia para a reprogramação, o que impede que isso seja usado para a terapia com seres humanos”, complementou Stevens Rehen, da UFRJ. [FOLHA 21/11/07]

rejeitada a descriminalização do aborto

por Adriana Fernandes

Com uma grande mobilização da Igreja Católica e da Pastoral da Criança, os delegados da 13ª Conferência Nacional de Saúde rejeitaram hoje a proposta de apoio à legalização do aborto no país. A proposta foi a primeira a ser votada no plenário final do encontro, que reuniu 5 mil pessoas em Brasília. A expectativa do Ministério da Saúde era de que a proposta fosse aprovada, já que sete das dez plenárias preliminares aprovaram o apoio à descriminalização do aborto.

“A descriminalização não é uma solução boa para a mulher. O aborto não resolve o problema de saúde no Brasil”, disse Clóvis Boufleur, da Pastoral da Criança, e um dos principais articuladores na Conferência para a rejeição da proposta.

Segundo ele, a vitória só foi possível depois que a palavra “aborto” foi incluída no texto da proposta a ser votada. Quando a proposta foi discutida nas plenárias, segundo ele, a palavra aborto não constava do texto. “Muitas pessoas não sabiam direito o que estavam votando”, disse o representante da Pastoral. Para Boufleur, a decisão reflete a posição da sociedade e reforça a pressão política no Congresso Nacional contra a aprovação de projetos a favor do aborto.

O diretor de Ações e Programas Estratégicos do Ministério da Saúde, Adson França, favorável à proposta rejeitada, criticou a decisão, classificando-a como “hipócrita”. Segundo ele, o aborto é um problema de saúde pública, que precisa ser enfrentado pela sociedade. França reclamou do fato de a proposta ter sido a primeira a ser votada, quando o plenário da Conferência Nacional de Saúde ainda não estava cheio e era ocupado, na maioria, por representantes mobilizados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). [Agência Estado 18/11/2007 – 19h48]

estado, igreja e bioética

Discurso religioso, aborto e Estado laico

Talvez seja, de fato, mais conveniente discutir sobre o aborto sem os padres na sala. Mas seria essa uma opção pluralista?

por JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR

O MINISTRO da Saúde, José Gomes Temporão, ao declarar tempos atrás que o aborto não é uma questão religiosa, e sim de saúde pública, reavivou o debate sobre a questão. A declaração é importante porque, a rigor, estabelece um limite para a invocação de razões religiosas no debate público, tema recorrente nesta Folha. Talvez seja, de fato, mais conveniente discutir sobre o aborto sem os padres na sala. Mas seria essa uma opção pluralista?

Há dois pontos de vista básicos sobre a origem da vida. Ou ela é fruto do acaso e consiste numa força cega, sem significado e propósito, que saiu do nada e vai para lugar nenhum, resultado de infinitas mutações que se desenvolvem a partir de uma forma absolutamente primária etc. etc., ou resulta de um ato de criação de um ser inteligente e, por causa disso, tem significado, propósito etc. etc.

Os dois pontos de vista são indemonstráveis. A vantagem do primeiro -a visão secular- consiste no fato de que sua argumentação, ainda que indemonstrada, é puramente naturalista e se ajusta ao método científico. Uso a expressão naturalista, que me parece melhor do que materialista, para nomear a visão de que a natureza é tudo o que existe, em contraposição àquela que concebe a existência de uma realidade sobrenatural.

Armand M. Nicholi Jr., professor de psiquiatria na Universidade Harvard (EUA), destaca em sua última obra que Freud dividia a humanidade em duas classes: os que crêem em Deus e os que não crêem. As visões de mundo de uns e de outros são radicalmente diferentes.

Entender, por um lado, que a vida é sagrada, por ser dom de Deus, ou, por outro, que é um acidente natural a que o homem empresta valor conforme suas condições culturais, evidentemente, estabelecerá radical distinção nos valores de quem crê numa ou noutra hipótese. E como o Estado laico se posiciona em relação a isso?

Não se posiciona. Deixa ambos com seus pontos de vista e não toma partido. Estado laico não significa uma opção oficial pelo ponto de vista exclusivamente naturalista do mundo, mas uma opção por não se meter na discussão, concedendo liberdade a quem crê e a quem não crê.

Vale lembrar o texto da primeira emenda da Constituição norte-americana, a primeira a regular a questão: “O Congresso não aprovará nenhuma lei relativa ao estabelecimento de religião ou que proíba seu livre exercício”. Estado laico é aquele que está proibido de tomar partido em matéria de religião. Isso, obviamente, não impede ninguém de expor sua posição na arena pública fundado em suas convicções (ainda que religiosas). Nenhuma regra impede o religioso de invocar suas razões numa discussão oficial, especialmente se o objeto da controvérsia girar em torno de valores, campo em que a ciência é muda e o naturalismo nada tem a dizer.

Dizer que as razões que se apóiam numa convicção religiosa se contrapõem ao Estado laico é torcer a regra e, a rigor, subordinar a visão de mundo do religioso à secular, arbitrariamente. Se a argumentação de um religioso objetiva proteger um valor tutelado pelo direito, não importa que invoque uma razão espiritual para se definir nessa posição.

Não importa por quê? Porque o tema é levado ao debate e pode ser contestado por quem pensa de modo diferente. Não há obscurantismo quando se tem a honestidade de defender um valor protegido pelo direito com base numa visão de mundo não secular e se está aberto ao dissenso. O que gera o obscurantismo não é a fé, mas a proibição do dissenso, falha na qual incorrem muitos ao invocar o Estado laico para, em discussões oficiais, fechar a boca de quem crê em Deus. A imposição de silêncio ao religioso significa que o Estado o estaria obrigando a se posicionar sempre -e exclusivamente- a partir de postulados materialistas -tão metafísicos quanto os não materialistas- que violam sua convicção. O materialismo filosófico não é a única linguagem autorizada pelo Estado.

No fundo, o problema é outro: há no pensamento secular, ainda que não assumida, a convicção de que a fé é um perigo obscurantista que devemos banir do nosso meio o quanto antes, sob pena de restaurarmos a idade das trevas. Bobagem.

A história mostra que, para ser fanático, não é preciso ser religioso e que o obscurantismo não é fruto do fato de o sujeito crer em Deus e na existência de uma realidade sobrenatural. Hitler, Mao, Stálin etc. não criam em nada disso. Obscurantismo é a proibição do dissenso. [JOÃO HELIOFAR DE JESUS VILLAR, 44, é procurador da República da 4ª Região. (FOLHA 6/11/07)]

sp distribui 21 mi de anticoncepcionais

A Secretaria da Saúde de São Paulo conclui na próxima terça-feira (31) o envio de 960 mil cartelas de anticoncepcionais –um total de 21 milhões de comprimidos– e cerca de 8.700 DIUs (dispositivo intra-uterino) para os municípios paulistas do interior, litoral e região metropolitana, por meio do programa Dose Certa. A entrega dos produtos à população será realizada em Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

É o primeiro lote de métodos contraceptivos distribuído pelo governo do Estado para estas regiões, dentro do programa estadual lançado em março deste ano pelo governo. A próxima remessa está prevista para agosto.

Na capital, 20 unidades da farmácia Dose Certa, localizada em estações do Metrô, trens e centros de saúde, já distribuem, gratuitamente, anticoncepcionais às mulheres com receita médica da rede pública contendo o nome do princípio ativo do medicamento.

A entrega dos métodos contraceptivos aos municípios está sendo realizada pela Fundação para o Remédio Popular (Furp), laboratório oficial do governo do Estado. Das 645 cidades do Estado, 632 receberão regularmente anticoncepcionais em comprimidos –as demais optaram por receber os recursos do Dose Certa para compra de medicamentos. O DIU será distribuído inicialmente a 442 municípios, que já foram capacitados para dispensar o produto e prestar orientação às pacientes.

Entre as ações previstas pelo programa de Saúde da Mulher da Secretaria, além das pílulas, está a prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis para permitir o diagnóstico precoce do câncer do colo de útero. O primeiro mutirão de mamografias já foi realizado, em maio deste ano. [Folha Online 29/7/07 – 19h48]

opositora do uso de embrião erra currículo

Documento descrevia ativista anticélulas-tronco como bolsista da Fapesp; cientista nega erro por má fé

por EDUARDO GERAQUE

A biomédica que inspirou a Procuradoria Geral da República a questionar a lei que libera o uso de células-tronco embrionárias informou de modo errado que era bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Lilian Eça admitiu ontem à Folha que errou ao preencher seu próprio currículo no banco de dados do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), mas nega tê-lo feito com intenção de enriquecer sua formação artificialmente. Mesmo sem bolsa, por enquanto, a pesquisadora pertence ao grupo da cientista Alice Ferreira, do Departamento de Biofísica da Unifesp. “Sou sim do grupo da doutora Alice, uma das maiores pesquisadoras que nós temos em estudos de sinais de células de medula óssea. Eu errei, mas não houve má fé”, disse Eça.

Em reportagem publicada ontem, o jornal “O Estado de São Paulo” afirmou que Eça havia fraudado seu currículo tanto em relação a sua filiação acadêmica, quanto ao fato de ela ter declarado que era bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Os erros já foram corrigidos no currículo da pesquisadora na internet.

“Estou sim fazendo pós-doutorado na Unifesp. Escrevi um projeto e ele está sendo analisado pela Fapesp”, afirmou a pesquisadora, que também preside o Instituto de Pesquisas de Células-Tronco, uma instituição sem fins lucrativos. “A nossa sede está sendo reformada”, explicou Eça.

De acordo com a biomédica, o fato de ela ser contra às pesquisas com células-tronco embrionárias, pode estar por trás de uma eventual perseguição contra ela. Nos últimos anos, Ferreira vem sendo uma das maiores porta-vozes do grupo que se opõe ao uso de embriões em pesquisas genéticas.

“Sou a favor de pesquisa com células-tronco adultas. Mesmo as embrionárias podem ser pesquisadas, mas desde que derivadas das adultas. Já é possível fazer isso”, diz Eça.
Questionada sobre se a posição dela é mais religiosa do que científica, a pesquisadora se defende novamente. “Não. Estudamos sinas celulares. Quando o espermatozóide encontra o óvulo, os sinais medulares e todos os outros já estão lá. Na época do Pasteur, ninguém via as bactérias que provocavam as infecções, mas ele já via”.

Razão antecipada
Para Eça, é fundamental que se possa ter a liberdade para se pensar de maneira diferente do ponto de vista científico. “As células embrionárias não estão levando a nada e não vão levar a nada. Vamos ter que esperar entre dez a quinze anos para vermos que temos razão.”

Para a geneticista Mayana Zatz, pró-reitora de Pesquisa da USP, o discurso contra as células-tronco embrionárias deveria ser só científico e não religioso. “Religião nós temos que respeitar. E a própria lei considera que nenhum embrião será usado para a pesquisa se os seus progenitores não quiserem. Isso já está previsto”, disse a pesquisadora, uma das maiores defensoras no Brasil hoje, de que se possa pesquisar as células embrionárias.

“Não sou contra às adultas, também. Na verdade, hoje, trabalho com essas células”. Para ela, não se pode distorcer fatos científicos. “Fala-se que as células adultas estão tratando 75 doenças. Mas isso não é verdade. O que ocorre é a injeção de células adultas nos pacientes, o que é bem diferente de tratar”, diz. [FOLHA 5/7/07]