Carta a um futuro olavette [4]

Caro P.,

Não, ódio não, meu caro. Graças a Deus não odeio ninguém. Digamos que o fato de alguns alunos* meus terem sido aliciados pela seita ociana [de OC, ou seja, Olavo de Carvalho] me tenha começado a incomodar… Incômodo é bem diferente de ódio, não é? (Eu não perderia o meu tempo com o OC se não fosse por um aluno ou um amigo, creia-me.)

Quanto aos livros dele, na verdade não tenho certeza de que me desfiz de todos. Devo ter uns 4 mil livros, e preciso mesmo selecionar o que vale ou não a pena guardar. Quando ele escrever uma obra de filosofia, talvez a compre e guarde. Vamos ver.

Eu sei o que o OC pensa do Gramsci. Em parte, até concordo com ele; em parte, acho um exagero paranoico. Mas não é isso que me interessa, e sim se os olavettes terão a liberdade e a coragem de fazer o próprio juízo sobre Gramsci. Para isso, teriam de ir ao original, ora.

Achei ótimo que os olavettes tenham se assumido como tais (“Olavettes”), pois assim não preciso me sentir constrangido.

Em filosofia, como em tudo, é muito mais fácil destruir do que construir. O que é a filosofia sem argumentos consistentes? Sem ideias claras e distintas? Não digo teoria no sentido de doutrina, sistema (embora nem todo sistema seja fechado). Que direito tem alguém de criticar os argumentos de seu interlocutor se não oferece nenhuma alternativa consistente?

Tenho a impressão de que OC tem muitas ideias preconcebidas, que em parte herdou de sua passagem pela astrologia, pelo perenialismo, sufismo etc., nas quais ele ainda crê firmemente, mas que não sabe como traduzi-las num discurso racional, comunicável.

O que vai contra essas ideias, ele critica, “destrói”, “reduz a nada”. Mas no lugar, não põe nada, limitando-se a fazer alusões a intuições profundas –que um dia desenvolverá, ou que só transmite oralmente a seus discípulos, ao modo da doutrina não escrita de Platão…

Enfim, como dizia um filósofo de Indiaquera, digo, Itaquera City: cada um com seus probrema!

Abraço,

e.

* Você acredita que um deles defendeu que o cigarro não faz mal, que essa ideia não passa de uma armação contra a indústria tabagista? Sabe por quê ele fez isso? Porque é o que OC ensina… Como ele fuma como uma chaminé e não consegue parar de fumar de jeito nenhum, começou a inventar histórias para se justificar. Primeiro, que o cigarro só fazia mal para magros (assim resolveu outro problema dele, a obesidade), depois, que tudo não passava de uma campanha mentirosa etc. Sem comentários!