Sobre Edson D. Gil

Edson D. Gil, SP, Brasil, mestre em filosofia e ignorante convicto.

Aprendimentos

kierkegaardMANOEL DE BARROS

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens. Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite! Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles — esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala. Sócrates falava que as expressões mais eróticas são donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

[In: BARROS, M. de. Memória inventadas: a segunda infância. São Paulo: Planeta, 2016. 14. poema. (Col. Narrativa Planeta)]

Grupo de Estudos Filosóficos (GEF)

Lonergan e a Questão do Método

images (1)Além dos cursos modulares de História da Filosofia, Filosofia da Linguagem etc., que continuarão a ser oferecidos normalmente, o Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull) passa a oferecer também a possibilidade de se estudar filosofia em grupo: Grupo de Estudos Filosóficos (GEF).

Não se trata, portanto, de um curso, com aulas expositivas etc., mas de reuniões de “Filosofia Prática”, ou seja, de pesquisa – leitura, reflexão e discussão -, conduzidas pelo professor Edson Gil*.

A linha de pesquisa do grupo é dupla: o pensamento de um filósofo e uma problemática filosófica acerca da qual o referido filósofo tenha dado uma contribuição relevante. O filósofo e a problemática são relevantes não apenas para os participantes, mas para todos nós, mulheres e homens contemporâneos, especialmente os brasileiros.

O filósofo escolhido é o canadense Bernard Lonergan (1904 – 1984) e a problemática, a chamada “questão do método” (investigação, interpretação, dialética, comunicação) e as respectivas implicações éticas (pedagógicas, políticas) e religiosas.

Outro motivo pelo qual se escolheu esse pensador está associado à sua ideia de Cosmópolis – uma perspectiva universal que pode nos auxiliar a enfrentar os desafios de uma época em que a autêntica universalidade foi substituída pela uniformidade e pelo comum (uniformização, globalização).

Embora seja desejável que o estudante tenha o próprio exemplar de Insight, a obra-prima de Lonergan, isso não é urgente nem mesmo necessário.

O grupo é permanente, com poucas interrupções no ano (férias, festas, feriados etc.).

A periodicidade é semanal, com duração de duas horas-aula (100 min).

O horário é o seguinte: aos sábados, das 14h às 15h40.

Como se trata de grupo de estudos, a contribuição mensal é menor do que a referente aos cursos.

O grupo se reunirá na sala de aula do IBFCRL, na Praça da Sé (esquina com a rua XV de Novembro; veja o endereço completo abaixo).

Uma boa apresentação da obra de Lonergan pode ser encontrada AQUI. (Lonergan não é, porém, o maior nem o mais importante filósofo contemporâneo. Mas, sem dúvida, é um dos maiores e está ganhando em importância a olhos vistos.)

E AQUI se pode ler um trecho de Insight (Compreensão, Intelecção), a principal obra de Lonergan, mencionada acima.

Para quem lê em inglês (ou sabe usar o Google Tradutor), o verbete da Wikipédia sobre Lonergan é bastante útil, trazendo vários links que apontam para sites de instituições de pesquisa e divulgação do seu pensamento.

Na postagem anterior, abaixo, pode-se assistir a uma breve apresentação em vídeo da vida e pensamento de Lonergan.

INVESTIMENTO POR SEMESTRE
R$ 540,00 em 6 vezes de R$ 90,00
R$ 500,00 em 5 vezes de R$ 100,00
R$ 480,00 em 4 vezes R$ 120,00
R$ 465,00 em 3 vezes de R$ 155,00
R$ 450,00 em 2 vezes R$ 225,00
R$ 440,00 à vista.

PROFESSOR
Edson D. Gil leciona filosofia no nível superior há dez anos. Membro fundador do IBFCRL, estudou história na UFRJ, pedagogia Waldorf na Alemanha e fez mestrado em filosofia na PUC-SP. Traduziu, entre outros livros, A escada dos fundos da filosofia, de Wilhelm Weischedel.

LOCAL
Praça da Sé, 21 Edifício São Marcos – 10 andar cj. 1006 – São Paulo – S.P.

INSCRIÇÕES
Informe seu nome completo e telefone ao Sr. Marco Antonio pelo telefone 11 3101 6785 / 95134-6626
Whatsapp 11-96831-2930 ou pelo email: lulio1232@gmail.com

Vagas limitadas

Condicionado à formação de turma

Bernard Lonergan

O jesuíta canadense Bernard Joseph Francis Lonergan, CC, S.J. (1904-1984) foi sem dúvida um dos maiores pensadores do século XX. Sua obra abrange um amplo espectro do conhecimento, da teologia, passando pela filosofia, à economia. Veja, abaixo, uma breve exposição do seu pensamento em vídeo* (com legenda em castelhano).

* Não está claro se o vídeo foi produzido pela Universidad Iberoamericana ou se a entrevista apresentada foi realizada nessa instituição.

[FONTE: O vídeo está disponível no Youtube; foi acessado em 5-6-2017.]

No Caminho com Maiakóvski

edu-alves-maiakovskipor Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada
.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

(In: No caminho com Maiakóvski: poesia reunida. São Paulo: Geração Editorial, 2003.)