A política do amador

FSP, 27-10-14

Entrevista – Jacques Rancière

Um filósofo contra o domínio dos sabichões

Conhecido por seus textos que relacionam estética e política, Jacques Rancière tem livro sobre democracia lançado no país. Nesta entrevista, explica sua visão de que há um saber não especializado, partilhado por todos, que deve se opor à pretensão dos que julgam ter direito a exercer o poder por saberem mais.

por ÚRSULA PASSOS

Jacques Rancière, 74, é um dos discípulos mais conhecidos do filósofo marxista Louis Althusser (1918-90), embora tenha se distanciado do professor, e do próprio marxismo, ao questionar suas interpretações do movimento do Maio de 68 na França.

Desde então, Rancière tem se dedicado ao estudo das classes operárias –“A Noite dos Proletários” (Companhia das Letras, 1988, esgotado)– e das relações entre política e estética, em que ele defende que todos temos uma capacidade de sentir e aprender.

Essa capacidade não especializada, apresentada em “O Mestre Ignorante” (Autêntica, 2002), e presente em diversas de suas obras, aparece, no cinema, em sua defesa de uma política do amador, segundo a qual todo e qualquer espectador detém a capacidade de traçar novas vias de pensamento a partir das histórias de sua própria vida e daquelas dos filmes.

Em “O Ódio à Democracia” [trad. Mariana Echalar, Boitempo, 125
págs., R$29], de 2005, lançado agora no Brasil, o filósofo francês enumera e explica as origens de diversos argumentos segundo os quais a democracia é “uma crise da civilização que afeta a sociedade e o Estado através dela”. No discurso dos que odeiam a democracia, escreve ele, o governo democrático “é mau quando se deixa corromper pela sociedade democrática que quer que todos sejam iguais e que todas as diferenças sejam respeitadas”.

É em defesa da democracia como “poder daqueles que não têm títulos ao poder” e contra o “confisco oligárquico do poder” que o filósofo busca retomar, nesse ensaio, princípios democráticos fundamentais, como a escolha do governo por meio de sorteio.

Ele fala sobre essas e outras questões em entrevista à Folha por telefone de sua casa em Paris.

Folha – O que é democracia?
Jacques Rancière – A democracia, no senso estrito, é o poder do povo. Porém, se voltarmos um pouco à origem, ela é um poder em oposição aos que pretendem ter o poder: os ricos, os nobres, os sábios etc. Ela é, para mim, um princípio, um poder um tanto excepcional porque, em essência, é o poder daqueles que não têm títulos ao poder, daqueles que não têm nenhuma competência particular para governar, oposto a todas as outras formas que tradicionalmente legitimam o poder, seja pelo nascimento, pela riqueza ou pela ciência. Ela excede toda forma de governo particular.

O ensaio é de 2005. Hoje, após a crise de 2008, o debate sobre o véu, a reação contra a lei que viria a permitir o casamento gay na França, o que o sr. acrescentaria às ideias do ensaio?
Eu creio que esse ensaio foi preciso em seu diagnóstico. De uma certa forma, ele anunciava aquilo que vimos depois, por exemplo, no caso do véu: uma tendência a estigmatizar as classes menos ricas, menos bem integradas.
Nós pudemos confirmar essa tendência de legitimação do caráter oligárquico do poder, de todas as novas formas de racismo em nome de uma certa ideia de república, de universalismo, de laicidade. Vimos se confirmar, por um lado, a tendência de confisco oligárquico do poder cada vez mais forte, e vimos também se manter essa espécie de campanha ideológica em nome dos grandes princípios da república, da vida em sociedade, estigmatizando cada vez mais os que estão sem trabalho, os que não têm a mesma cor de pele, os que não têm a mesma religião.
Podemos dizer, infelizmente, que, de alguma forma, a ofensiva antidemocrática se acelerou muito nesse meio tempo. Uma série de argumentos emprestados da esquerda, da psicanálise, se tornaram argumentos de persuasão reacionários para estigmatizar o máximo possível de pessoas.

O ensaio trata da acusação de populismo que recai sobre aqueles que atacam o discurso dos especialistas. Como responder a esse tipo específico de discurso de ódio à democracia?
Na América Latina, especificamente, há uma tradição na qual o populismo foi identificado como uma forma de governo. Na França, e na Europa, é diferente. O populismo é uma noção nova, lançada para estigmatizar toda tentativa de reivindicação de um poder real do povo contra o confisco do poder por aqueles que se consideram a elite. Acho necessário resistir ao uso desse conceito e dizer que ele, hoje, é um meio cômodo de legitimar o poder das elites, de seus experts, das finanças internacionais, em nome da capacidade, da competência. Na França, ser populista quer dizer ser de extrema direita.
É absolutamente necessário resistir a essa argumentação e colocar em evidência uma ideia efetiva de democracia. Por isso que, em “O Ódio à Democracia”, eu relembrei alguns princípios democráticos originários, como o fato, por exemplo, de que o verdadeiro governo democrático passa pelo sorteio e por mandatos extremamente curtos. É preciso recolocar em primeiro plano todas as formas em que há um controle verdadeiro que o povo pode exercer sobre aqueles que falam em seu nome e que governam em seu nome.

O sr. fala de um governo que busca ter o controle sobre a esfera pública. Como o povo pode garantir que o espaço público continue sendo um espaço de conflito e de encontro?
Podemos imaginar formas de constituição que infelizmente não existem em lugar nenhum e que sejam fundadas sobre mandatos curtos, a revogabilidade dos eleitos, assembleias populares, controle dos eleitos na forma de sorteio. Há uma série de medidas constitucionais que permitem o exercício do poder efetivo do povo.
Como isso não existe hoje, devemos ir por outras vias, que passam pela existência de formas de discussão e de informação que estejam separadas da esfera midiática oficial. Foi o que vimos nas diferentes manifestações pelo mundo, desde a Primavera Árabe até o movimento do 15 de Maio na Espanha, ou os movimentos que aconteceram na Grécia, na Turquia, no Brasil, nos quais, às vezes, partindo de demandas específicas, ou mais ou menos menores, como o caso do jardim em Istambul ou a questão do preço do transporte no Brasil, vimos acordar uma atividade popular autônoma.
Hoje há uma esperança para a democracia contanto que possam existir formas de organização que sejam a continuação desses movimentos, organizações que sejam autônomas em relação à vida política tal como o Estado a organiza.

Uma melhora na distribuição de renda pode influenciar os argumentos de ódio?
O poder de todos não é simplesmente o alargamento, o desenvolvimento de uma classe média. Isso pode, por um tempo, favorecer as formas democráticas, mas não necessariamente, como costumam dizer: se há desenvolvimento econômico, há desenvolvimento de uma classe média e então há o desenvolvimento da democracia. Não há evidências disso.
A democracia é o desenvolvimento de toda uma série de intervenções políticas autônomas e isso não é produzido automaticamente por determinadas formas do desenvolvimento econômico nem de transformações de classes sociais. É muito bom que haja um alargamento da esfera daqueles que possuem a riqueza, mas esses alargamentos são, muito comumente, provisórios. O movimento é um pouco ao inverso, é à medida que há instâncias populares de controle que se pode esperar ter uma melhor distribuição de renda.

Em “O Mestre Ignorante”, o sr. já falava da igualdade que não deve ser um objetivo da democracia, mas um ponto de partida. Como as noções que estavam ali influenciaram as ideias de “O Ódio à Democracia”?
O que está no centro de “O Mestre Ignorante”, e que tomei de Joseph Jacotot (1770-1840), é a ideia fundamental de que a igualdade não é um objetivo, mas um ponto de partida a verificar, o que quer dizer que se deve agir na pressuposição de que falamos a iguais, de que agimos com iguais. Tentei desenvolver isso à esfera política pública, dizendo que existe democracia contanto que haja o reconhecimento de uma capacidade de pensar que pertence a todos, e que se opõe a toda capacidade de pensamento que seja especializada.
O que vemos hoje é o poder dos experts. A ideia da democracia atualiza essa capacidade de todos. Isso não quer dizer que todos participem do governo, isso jamais aconteceu, mas sim que se busca organizar formas de vida coletiva fundadas sobre essa ideia de uma capacidade partilhada, diferente das lógicas tradicionais de partidos revolucionários, de vanguarda, ou fundados na ciência. A política foi pensada como uma forma de governar os ignorantes, e na democracia os que governam não são nem mais ignorantes nem mais sábios que os outros.

Existe uma relação entre a democracia como regime político e a literatura como regime da palavra, tal como aparece em alguns de seus ensaios sobre literatura em “La Parole Muette” (a palavra muda, Hachette, 1998)?
Não há uma relação completamente direta. O que eu tentei mostrar é que, na literatura, como na democracia, há o poder de uma palavra que não é controlada, que não é a que vem de cima.
A democracia se funda num tipo de circulação da palavra, na possibilidade de que qualquer um possa se apropriar das palavras que circulam, que possa fazer palavras de ordem para sua própria vida. A literatura no sentido moderno, e principalmente por meio do romance do século 19, se constitui pela supressão de toda hierarquia, do sistema tradicional de “belles lettres” que era fundado na ideia de uma hierarquia de temas, de estilos. Há literatura moderna a partir do momento em que não há mais temas que sejam interessantes e temas que não sejam interessantes, personagens que valem a pena e personagens que não valem a pena; a revolução literária é isso.
Quando se tenta elaborar um verdadeiro poder do povo na política há a ideia de uma capacidade de qualquer um de sentir, de viver, que é o centro da literatura moderna e que está na origem dessa renovação das formas de literatura.

Quando trata de cinema, como em “O Destino das Imagens” e “As Distâncias do Cinema” (Contraponto, 2012), o sr. fala de uma política do amador. Essa política pode ser empregada em outras artes?
Acho que há uma especificidade do cinema porque é uma arte que nasceu tardiamente e que não conheceu as formas de organização hierárquicas. Não havia academia de “belo cinema” como as academias de “belles lettres” e a academia de belas artes. Além disso, é uma arte que nasceu como uma curiosidade, uma atração de feiras, então foi desde o começo um objeto não identificado. O que aconteceu é que o cinema foi tragado para a esfera da legitimidade artística, e existe agora uma integração do cinema à cultura elitista e também à cultura universitária.
Quando falo de uma política de amador, falo de uma política que busca preservar essa espécie de indecisão do cinema, uma abertura a todo público possível. É claro que isso pode existir em todo tipo de arte, se pensarmos no que se passa na música, por exemplo, há cada vez mais indecisão, não se sabe bem o que é vanguarda, o que é popular. Nas artes da performance, do corpo, existe também um tipo de grande partilha entre arte legítima, arte de elite e arte popular.
Sim, é possível ter uma política de amador, porém ela não dá conta de artes ditas legítimas, as belas artes tradicionais. Mas sempre existiram tipos de apropriação selvagem, de políticas de amador. Há muitas exigências que pesam, mas creio que se pode manter em todos os domínios da arte uma política de amador no sentido de uma política de pessoas que não têm o conhecimento sobre as boas formas artísticas, que não têm o bom critério para julgar e assim por diante.
Apesar de tudo, a política do amador está em regressão, há uma espécie de tendência à legitimação em todas as artes, de apropriação universitária. Mas é preciso também lutar contra isso.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/192449-a-politica-do-amador.shtml

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