Como falar com nossos filhos

FSP, 21-8-14

Contardo Calligaris

Como mostra Diogo Bercito (na Folha de 17/8), aumenta significativamente o número de judeus europeus que emigram para Israel. Comento a notícia com um amigo, que “entende” imediatamente: crescem, na Europa, as expressões (inclusive violentas) de antissemitismo, é lógico que um jovem judeu tenha vontade de ir embora.

Eu acho curioso que a gente entenda automaticamente o fenômeno como uma fuga dos perigos do antissemitismo europeu –como se Israel não fosse um país ameaçado. Ou seja, um jovem judeu francês pode decidir emigrar, não para fugir da França, mas para ir defender Israel.

Cuidado, não me interessa aqui decidir quem tem razão no Oriente Médio. O que me surpreende e me interessa é o viés cínico, que nos faz pensar que alguém só possa agir para fugir do perigo –como se a covardia fosse uma sabedoria implícita.

Não sei você, mas eu gostaria que meus filhos desejassem forte e corajosamente –não que vivessem uma vida acanhada e regida por interesses materiais imediatos. Como ensinar isso sem ser ridículo e pernóstico como um moralista?

Pois bem, fui assistir a “Chef”, de e com Jon Favreau, porque procurava uma comédia da qual uma menina de 13 anos gostasse. Acertei: o filme é divertido e tocante, com uma ressalva: não entre no cinema de estômago vazio. Eu saí de lá com uma fome desgraçada, tanto de audácias gastronômicas de alta cozinha como da comida de caminhão de beira de estrada.

Seja como for, além de garantir o sorriso e o apetite, o filme é uma ocasião (imperdível) para pensar sobre o que transmitir para nossos filhos e como fazer isso. Sem spoilers, menciono alguns pontos.

1) Muitos homens acima de 50 anos acham que não deveriam se tornar pais: “Serei velho demais para jogar bola com meu filho”. Amigo, seu filho (ou filha, se ele/ela gostar de futebol) terá muitos amigos para jogar bola, todos mais divertidos e melhores jogadores do que você. Na verdade, seu filho só vai achar importante que você jogue bola com ele se você tiver sido jogador de futebol de verdade. E, se você repetir mais uma vez que essa era sua real vocação, e que você tinha tudo para ser Garrincha, ele vai achar você patético. Nossos filhos não querem saber quais são nossos sonhos de uma infância ideal; eles querem saber quem somos nós, hoje, adultos.

2) É falsa a ideia de que os filhos nos pediriam sempre para “distraí-los” (levá-los à Disney, por exemplo). Quase sempre, as “distrações” que propomos às crianças revelam sobretudo nosso infantilismo.

3) Não tem como conhecer um filho sem se deixar conhecer por ele. Isso não significa contar ao filho detalhes espinhosos de nossa vida amorosa –como se a revelação comprovasse nossa cumplicidade. Deixar-se conhecer significa falar do que é importante para nós (sim, os filhos se interessam pelo que é realmente importante para nós –e os pais que não se importam com nada, em regra, criam filhos perdidos, sem rumo).

4) No filme, um dia, o pai explica ao menino que talvez ele não tenha sido um pai muito bom nem um marido muito bom, mas uma coisa ele sabe fazer: cozinhar para as pessoas –e nisso ele não quer e não vai falhar. O menino responde “Sim, chef”, sem ironia alguma. Ou seja, você quer respeito de seu filho? Leve sua própria vida a sério.

Lembranças. Meu pai não fez nunca um esforço para me propor uma diversão que ele supusesse apropriada à infância. No máximo, ele me incluía nas diversões dele: cinema, teatro, leituras, visitas a igrejas, museus e monumentos. Eu só entendia que a vida devia ser uma coisa muito séria.

Ele nunca sentou para me dizer o que ele queria da vida, mas, lá pelos meus oito anos, num sábado, eu o acompanhei nas visitas que ele fazia a seus pacientes hospitalizados. No caso, o paciente estava num hospital psiquiátrico. Fiquei no carro esperando que meu pai voltasse. Alguém, ao lado do carro, aparava uma cerca viva com enormes tesouras de jardineiro. Pensei que fosse o fim: o jardineiro do hospício me olhava enviesado e ia se aproximando. Eu ouvia o clack-clack das tesouras.

Fui salvo pela chegada do meu pai, que conversou com o jardineiro e subiu no carro. Timidamente, perguntei se o jardineiro era um louco. Meu pai comentou: “Não é maravilhoso? Você achou que ele te olhava torto, e ele achou que você era encarregado de vigiá-lo”. Aquele “maravilhoso” nunca me saiu da cabeça.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/181591-como-falar-com-nossos-filhos.shtml

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