Como a privacidade virou mercadoria

ZH, 9/8/2014

Há coisas na vida que têm valor, mas não têm preço. A intimidade deveria ser uma delas. Mas a exposição sistemática, ao olhar do outro, de tudo o que fazemos leva o valor a também ter preço

por Renato Janine Ribeiro*

Não é só Obama que ameaça nossa privacidade, nossa vida íntima. Largamos rastros a cada passo. Se você usa o cartão de crédito, sabem onde está. Se tem um celular, mesmo desligado, dá para reconstituir seus trajetos. Na última coluna, falei de uma estratégia para evitar que desconhecidos – ou conhecidos, o que pode até ser pior – devassem sua vida. Fui radical: não entre em redes sociais; quando muito, tenha apenas um e-mail discreto e um celular que não seja smart. Hoje, discuto uma segunda saída, que pode funcionar – mas custa dinheiro. É só para ricos.

Privacidade pode virar mercadoria. Impedir que fucem sua vida requer hackers e advogados caros. Você precisa começar contratando hackers, que conhecem a Internet porque zoavam, porque perturbavam, o mais das vezes não para ganhar dinheiro, mas por um gosto meio anarquista. Um gosto que não chegava a ser um ideal. Invadir sites é uma espécie de game, de supergame, de metagame. Alguns hackers acabam convertidos ao bem, melhor dizendo, aos bens, ao capital: empresas contratam esses ex-libertários, a diversão deles se torna profissão, seu anarquismo se torna ferramenta do poder. Diz-se que eles agora protegem, quando antes perturbavam. Não é bem isso: agora defendem a ordem constituída, que antes contestavam (embora, insisto, a contestassem sem ideais maiores). Então, contrate um time de hackers convertidos e bem pagos, e faça-os checar tudo o que seja dito de você. Se necessário, chame advogados, mas o hacker pode muitas vezes agir antes mesmo, e em lugar, do homem da lei.

Essa solução é cara. O importante não é se a pessoa desejosa de se proteger chama a polícia ou o hacker, se age por mãos legais ou contratadas. A questão é que essa saída só está ao alcance de quem pode pagar por ela. Evidentemente, qualquer um pode ir à delegacia especializada e, esta, à Justiça. Mas a Internet tem a ver com reputação. Reputação é coisa frágil, irreparável. Para protegê-la, você tem que agir rápido ou mesmo preventivamente. A reputação, a imagem, o bom (ou mau) nome, a boa (ou má) fama pode ser destruída por uma narrativa, mesmo que falsa. Para sempre, sua imagem estará associada a ela. Então, velocidade é tudo. Uma equipe que corte o mal pela raiz vale seu peso em ouro – ainda mais se você viver de imagem, ou de impedir imagens.

A vida íntima passa a ser cotada em mercado? Há coisas na vida que têm valor, mas não têm preço. A intimidade deveria ser uma delas. Mas a exposição sistemática, ao olhar do outro, de tudo o que fazemos leva o valor a também ter preço. Isso é péssimo, mas é a realidade. Quando até sua dignidade, sua paz de espírito passam a depender de sua conta bancária, o cheque passa à frente da ética. E esse é um dos problemas da megaexposição nas redes, aos olhos de qualquer um: ela acaba dando valor – e preço – à discrição. O que sempre foi uma virtude vira um produto.

Mas ainda há uma terceira saída, esta radical, para preservar a intimidade. Veremos na próxima coluna.

* Professor Titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo. Escreve quinzenalmente no PrOA

FONTE: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2014/08/como-a-privacidade-virou-mercadoria-4570826.html

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