Carta aberta a Gustavo Ioschpe

Olhar Global, 3 de agosto de 2014

Prezado Gustavo:

Seu artigo no site da revista Veja, intitulado Reflexões de um Pai Judeu sobre Gaza, é um marco na história do debate público sobre o conflito israelense-palestino no Brasil. Não porque seu diagnóstico seja novo. Outros já disseram, como você, que Israel não pode conquistar uma vitória militar estratégica sobre os palestinos “sem que se torne um pária entre as nações”. Ou que “não haverá paz enquanto todos os territórios (ocupados por Israel depois de 1967) não forem devolvidos”. Ou ainda que, se Israel persistir no caminho atual, haverá “mais conflito, mais mortes, mais isolamento externo e rupturas internas” (deixo de lado seu prognóstico mais sombrio, o de risco de um “segundo Holocausto”, porque o considero impensável do ponto de vista da espécie humana).

Como solução, você cogita dois tipos de acordos de paz: um, imposto “pelos inimigos de Israel” (entre os quais você situa os palestinos e os demais países árabes), e outro, pelos “amigos de Israel, notadamente os Estados Unidos e a comunidade judaica internacional”. Muitos de nós já lemos ou ouvimos isso antes, e você fornece uma lista abundante de fontes que tratam do assunto.

Dois aspectos, em minha opinião, tornam o seu texto singular. O primeiro é o fato de ter sido escrito ao mesmo tempo que uma parcela significativa dos intelectuais por assim dizer estabelecidos prefere evitar o assunto. Alguns dos que assim procedem merecem louvores pelo conjunto da obra. Mas o silêncio sobre essa questão específica não lhes cai bem.

O segundo é algo que talvez esteja implícito em seu artigo: que atitude adotar diante da atual guerra, que completará um mês na quinta-feira? Faz algum sentido prolongar a invasão de Gaza se, ao fim e ao cabo, essa decisão apenas cobrará mais vidas de civis palestinos e de soldados israelenses e terá impacto ainda mais desastroso nas decisões de curto, médio e longo prazo que precisam ser tomadas? Se o “caminho do entendimento e da justiça”, na sua apropriada expressão, deve prevalecer, nada mais necessário do que interromper já a escalada da morte na terra extinta de Gaza.

Luiz Antônio Araujo

FONTE: http://wp.clicrbs.com.br/olharglobal/2014/08/03/carta-aberta-a-gustavo-ioschpe/?topo=13%2C1%2C1%2C%2C%2C13

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