Pesquisa anual mostra indústria com alta bem superior à do PIB

Valor Econômico, 7-8-14

por Denise Neumann

Os dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 2012, divulgados sem alarde pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 24 de julho, mostram que a trajetória da indústria brasileira desde 2009 pode ter sido mais benigna do que aquela até agora contabilizada pelo Produto Interno Bruto (PIB). Pela pesquisa, o valor da produção industrial do setor de transformação cresceu entre 36% e 40% no acumulado desde 2009, enquanto no PIB o valor do mesmo setor cresceu 4%, ambas comparações em valores nominais, sem descontar a inflação.

Os dados do PIB de 2010, 2011 e 2012 são considerados preliminares pelo IBGE. Os valores e as variações conhecidas, no caso da indústria, foram obtidos principalmente de dados extrapolados a partir da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física (PIM-PF) antiga (a nova pesquisa entrou apenas no PIB de 2013), cuja variável pesquisada é o volume de produção física (quantidade) de uma série de produtos, considerando o critério de valor agregado, onde a produção de um bem “desconta” o que foi produzido na etapa anterior. A partir do dado físico, o instituto atribui um valor a essa produção. O IBGE considera o dado definitivo justamente após incorporar aos dados trimestrais as informações das pesquisas estruturais, entre outras fontes. Como o instituto está reformulando o sistema de contas nacionais, optou por “atrasar” a divulgação dos dados definitivos, agora prevista para o primeiro trimestre de 2015.

O IBGE também faz pesquisas anuais para o setor extrativo, construção, comércio e serviços, mas a diferença mais “gritante” de dados aparece no setor de transformação. E se a comparação for feita com 2008, os números mudam bastante. Na PIA, o crescimento acumulado até 2012 desacelera para 30% (porque na pesquisa o setor encolheu na recessão de 2009), e no PIB, ele sobe para 12% porque foi positivo naquele ano. Como 2009 é considerado definitivo na conta do PIB, a disparidade posterior chama mais atenção.

O PIB olha o critério de valor adicionado, que é obtido pelo valor bruto da produção de um setor menos seu consumo intermediário, como na PIM-PF. A informação principal já é um valor monetário. No caso de uma camisa, por exemplo, o cálculo do valor da confecção precisa descontar o tecido (produzido em outro lugar) e a energia elétrica (gerada em outro setor), entre outros custos. Na PIA existem dois conceitos considerados uma “proxy” do cálculo usado no PIB industrial do setor de transformação. Alguns economistas olham o valor da transformação industrial, que mostra aumento de 40% entre 2010 e 2012. Outros consideram mais correto o valor adicionado, no qual o crescimento foi de 36% – ambos muito acima dos 4% do PIB do mesmo setor em igual período.

A diferença dos dois critérios da PIA é quanto cada um desconta dos “outros custos”. O valor da transformação industrial (conhecido como VTI) tira os custos diretamente envolvidos na produção, como insumos, energia e manutenção. O critério por valor adicionado também desconta aluguéis, publicidade, frete, entre outros.

No final de julho, o IBGE liberou os dados das pesquisas anuais da indústria, construção e comércio de 2012. Com base nessas três pesquisas – falta divulgar a de serviços -, a LCA recalculou o PIB dos últimos anos e concluiu que o crescimento desde 2009 (último dado definitivo) pode estar subestimado. A maior diferença aparece em 2012 e no setor de transformação.

O estudo elaborado pela LCA Consultores utilizou o critério de VTI e mostra que, em 2012, de acordo com a Pesquisa Industrial Anual (PIA), o segmento de transformação produziu R$ 900 bilhões, crescimento de 6,8% sobre 2011, em valores correntes. De acordo com o PIB, o valor adicionado do setor foi de R$ 480 bilhões, queda de 6,4% sobre o resultado de 2011. “Desde 2007, se olharmos para o PIB, a indústria andou de lado. Se olharmos para a PIA, ela continuou crescendo”, pondera Borges. “Os dados, olhados ao longo do tempo, mostram uma diferença muito grande de tamanho de setor e de dinâmica”, diz o economista. Procurado, o IBGE apenas respondeu, por meio da assessoria de imprensa, que as diferenças são “metodológicas”. Pelo critério de valor adicionado da PIA, a produção de 2012 somou R$ 611 bilhões e subiu 4,2% sobre 2011.

Borges lembra que a recente alteração na pesquisa mensal da indústria –
que mudou para acrescentar produtos e fábricas e reponderar os pesos de cada setor na produção- só foi incorporada ao PIB provisório de 2013. De 2012 para trás, nada foi alterado. Em 2013, a mudança na PIM-PF fez a produção do setor ser revista de alta de 1,2% para 2,3%. O economista-chefe da LCA acredita que a indústria pode estar subestimada no PIB. “Se tomássemos o valor da indústria pela PIA e o resto do PIB ficasse constante, o peso do setor de transformação na economia brasileira seria de 25% e não de 13%, e talvez o país não estivesse discutindo se há ou não desindustrialização”, pondera Borges.

“A PIA é o principal instrumento de pesquisa sobre o setor. É nela que os pesquisadores se debruçam quando querem entender a indústria de transformação”, observa o economista. Borges considera mais correto usar o dado do valor da transformação industrial para comparar com a evolução da indústria no PIB porque é ele que foi adotado pelo próprio IBGE para definir o peso de cada segmento dentro da pesquisa industrial mensal. “E o IBGE, em diferentes documentos, usa VTI como sinônimo de valor adicionado”, argumenta.

Outro economista consultado pelo Valor considera o dado de valor adicionado mais próximo do cálculo adotado pelo IBGE no PIB industrial. Como o PIB é dado pela variação de um ano para o outro – e o crescimento nos dois conceitos da PIA é muito próximo e igualmente distante do PIB -, qualquer um dos dois critérios sustenta a tese de variação subestimada. O peso dentro do PIB, contudo, seria de 16%.

Em nenhum dos outros setores, a diferença entre as pesquisas estruturais e o PIB é tão significativa como na indústria de transformação. Além da diferença ser menor, nos outros três segmentos, o valor adicionado medido pelo PIB é maior do que o revelado pela pesquisa, o que é mais “compreensível”, dado que o PIB é mais amplo que as pesquisas setoriais. No setor extrativo, a PIA indica um valor adicionado 40% inferior ao do PIB. Na construção, a diferença é de 25% e no comércio, de 10%, sempre a favor do PIB, segundo o estudo da LCA. A trajetória desses setores, contudo, também mostra, desde 2010, crescimento superior ao registrado pelos dados preliminares do PIB.

O trabalho da LCA Consultores recalculou o PIB incorporando essas pesquisas aos dados conhecidos. Pela série até agora divulgada, o PIB cresceu 35% na soma de 2010, 2011 e 2012, em termos nominais. No PIB recalculado pela LCA, esse crescimento chega a 41,5% no mesmo período –
uma diferença de 6% nominais. Embora o PIB de 2009 seja definitivo, a LCA também recalculou aquele dado usando as pesquisas. E no caso de 2009, as pesquisas mostraram que a queda poderia ter sido maior do que o 0,2% apontado pelo PIB.

“Nosso exercício sugere que a revisão do cálculo do PIB e a incorporação de novos dados aos preliminares pode revelar que o PIB brasileiro é maior e cresceu mais do que se imagina nos últimos anos”, pondera Borges. O economista-chefe da LCA lembra que quando saírem os dados definitivos eles já virão dentro do novo sistema, o que torna mais difícil o exercício de estimar o novo tamanho do PIB. O estudo da LCA considerou o modelo antigo das contas nacionais porque o “novo” ainda não é conhecido.

FONTE: http://www.valor.com.br/brasil/3643258/pesquisa-anual-mostra-industria-com-alta-bem-superior-do-pib

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